domingo, 28 de dezembro de 2008

Promessas no fim do ano


Walter, Márcia, Irineu, Cassiano e Marinalva já têm a promessa de final de ano na ponta da língua. O ano novo tem esse poder, de liberar desejos que nem sempre serão satisfeitos.

Walter tem 38 anos é casado e pai de três filhos. Casou-se com 26 anos de idade. A mulher dele reclama do cigarro há mais de uma década. Para ser exato desde quando namoravam. Ele sempre prometeu parar de fumar. Quando nasceu a primeira filha. Quando nasceu o segundo. Quando nasceu o terceiro. Como não conseguiu, mudou de estratégia. Todo final de ano, afirma mais para mulher e menos para si mesmo que, com o novo ano, vai parar de fumar. Muitos renovam as esperanças, Walter renova a promessa. Afinal a primeira vez que ele prometeu parar de fumar com o ano novo foi sete anos atrás. Ele vai repetir o ritual acendendo uma vela branca, todo vestido de branco.

Márcia é dona de casa. Tem um filho e uma filha. Ela também é do tipo que renova as promessas na virada do ano. E tem sempre uma simpatia, que garante, é infalível. Ai se fosse mesmo... Enfim, ela renovou para 2009 a promessa de fazer uma dieta e perder cinco quilos. Ela é um mulheirão, apenas não se encaixa no PPO - perfil puro osso – das passarelas. E quem se encaixa? Mas a indústria da moda insiste em fazer GG para magricelas. E o pior são as cobranças do marido. Este um exemplo fashion. Barba sempre por fazer, cabelo grisalho e barriga saliente. E o pior, as mulheres – aquelas escravas da imagem – acham isso um charme. Bem feito! Márcia, antes de comer as sete sementes de romã e guardar os caroços na carteira, vai prometer emagrecer cinco quilos.

Irineu é agricultor de porte médio. As últimas chuvas não foram suficientes para ajudar a soja plantada nos 40 alqueires do sítio. Chegaram tarde. Ele já deu entrada no seguro que vai cobrir os prejuízos, mas não vai ajudar a quitar as dívidas com máquinas e empréstimos que vêm sendo (en)rolados há quase uma década. É incentivado pelos filhos a vender uma parte para saldar as broncas e arrendar o resto para a usina de cana. Afinal o etanol está em alta. Mas isso é uma afronta ao agricultor. Ele acredita que a providência divina vai ocorrer no próximo ano e a colheita será farta o suficiente para pagar as dívidas e, ainda, construir a tão sonhada casa nova; empreendimento que foi sonhado pelo pai dele, pelo pai do pai dele... Para isso a ceia de ano terá pernil de porco, porque este fuça para a frente. Na casa dele é proibido ter ave nesta época porque elas ciscam para trás.

Cassiano é estudante do ensino médio de uma escola particular. Os pais gastam muito com a formação do menino que não anda muito preocupado em aprender para crescer na vida. Todo ano ele pega recuperação, faz exame e passa raspando. De série em série. É o desgosto da família que busca entender tanto desinteresse. Já se envolveu com o grupo do fumo na escola, pega suspensão freqüentemente por matar aula, subverter as regras do rígido código disciplinar e até envolver-se em bate-boca com professores. Digamos que este último não é nada difícil. Por que professor não encara com naturalidade o diálogo combativo dos estudantes? Enfim... Cassiano, antes de pular as três primeiras ondas de 2009, vai prometer ser um estudante melhor.

Marinalva é funcionária pública. Trabalha com muita dedicação. O salário não é ruim e se considerar os valores recebidos pelo marido, a renda familiar fica acima da média. Mas os dois vivem com as contas atrasadas e grande parte da renda é consumida por dívidas, com empréstimo daquela modalidade-armadilha “crédito direto” e cartões de créditos. Marinalva é do tipo consumista por impulso. Ela compra por emoção e não agüenta ver uma promoção. Até parece slogan publicitário. Quando vai ao shopping não se pergunta se precisa do produto, mas afirma pra si mesma que merece aquele artigo. Não dá outra e, no mês seguinte, vive pagando apenas o mínimo do cartão. Junto com o arroz com lentinha que preparar para o jantar, ela vai prometer que só vai comprar o que realmente precisa.

Ano novo, vida nova. Nem sempre, passado o dia 1º e voltando ao batente, Walter, Márcia, Irineu, Cassiano e Marinalva vão perceber que a vida toca seu ritmo normalmente sem glamour. O glamour, presente nas festas de fim de ano, faz as pessoas comerem mais do que precisam; prometerem o que não conseguem cumprir; acreditarem em coisas que não vão fazer; planejarem o que não têm capacidade de executar. Isso é ruim? De modo algum. Isso faz parte do cenário de final de ano que todo mundo monta. Afinal não seria ano novo e o clima não seria o mesmo. E você qual promessa vai fazer para 2009? Aproveite que os anjos ainda estão de plantão.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sobre médico, jornalista e advogado


O episódio dos médicos baderneiros do HU vai regar o churrasco de três amigos que, corporativismo à parte, vão continuar amigos depois da última brasa.

Eles são amigos desde o prezinho. Mesmo quando mudaram de escola mantiveram a amizade que uniu, inclusive, os pais das três famílias. Cada um seguiu o seu caminho e ainda sim permaneceu o contato. Eles são do tipo que vão ser padrinho de casamento um do outro, que vão batizar os filhos um do outro. E o que mais gostam de fazer? Churrasco para debater as últimas idéias e, se isso envolver as virtudes e os defeitos de cada profissão, melhor ainda.

Celso é médico. Alberto é jornalista. Mário é advogado. Os três estão eufóricos para se encontrar. O churrasco desta semana será na casa do médico. O cardápio será regado pela polêmica causada pelos formandos de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os baderneiros – formados com dinheiro público – que depois de encher o jaleco invadiram, em novembro, o Pronto Socorro do Hospital Universitário (HU) fazendo arruaça.

Enquanto o médico acende a fogo, o jornalista começa a provocação. __Celso, você viu a decisão da Justiça em determinar a colação de grau do grupo dos 14 baderneiros do HU? Um desrespeito à decisão da universidade. Sobriamente, o médico responde. __Justiça seja feita. É um absurdo o grupo perder o diploma. O jornalista argumenta que absurdo é a baderna promovida pelo grupo; que faltou respeito com a coisa pública e a escola onde estudam; que o grupo deveria ter reverência aos usuários do SUS usados para aprendizado; que a farra na realidade era resultado da (má) educação recebida em casa e na própria academia, que etc... etc... etc...

__Imagine, a decisão da reitoria da UEL foi desproporcional ao erro cometido!, critica o médico veementemente. __ Será que perder o curso inteiro ensinaria alguma coisa ao grupo? Essa medida não se sustenta e qualquer juiz restabeleceria o direito deles cedo ou tarde, completa o médico. __Com certeza, ainda mais com um Judiciário louco para governar, mesmo sem mandato. Vocês já repararam quantas liminares obrigam o poder público a fazer isso ou aquilo? O médico e o advogado olharam para ele com ar de “esse é assunto para outra crônica”.

Entra em cena outro doutor, o advogado. __Na realidade, Alberto, a imprensa fez um cavalo de batalha, mobilizou a opinião pública contra os formandos, faltou imparcialidade neste episódio, o grupo foi tratado como bandido. Com a língua coçando, o jornalista espera o advogado terminar e responde. __Imparcialidade? O que você queria. A imprensa em vários momentos foi impedida de fazer o seu trabalho. Os formandos juraram silêncio e ninguém deu declarações. Nem os nomes dos baderneiros foram publicados!

__Aí seria demais, né Alberto, repreende o médico. __E o direito à proteção da imagem onde fica?, pergunta o advogado que continua. __Está certíssima a advogada do grupo que não permitiu que fossem feitas imagens dos formandos na colação de grau. Isso poderia prejudicar ainda mais a imagem deles. O jornalista, inconformado, rebate dizendo que o motivo de tal prejuízo era a atitude irresponsável no dia fatídico quando encheram o jaleco e até rojão soltaram no Pronto Socorro.

O médico pensativo propõe uma reflexão. __Vejamos... Por que o médico não pode errar? A sociedade espera dele uma conduta exemplar. Se o jornalista erra, nem conselho de categoria tem para analisar o caso. Se o advogado erra, a OAB é tão corporativa que nem investiga. Então por que o médico não pode errar? Provocado em seu sentimento mais profundo de unidade profissional, o advogado não mede a resposta. __Por dois motivos simples, meu caro Celso. Primeiro pelo status que a categoria gosta de manter. É o preço que se paga pela imagem. Segundo, porque lida com a vida.

__Lá vem vocês de novo. Só falta contar a piada da diferença entre o médico e o advogado. No fundo, eu acho que tanto um quanto outro se sente como Deus, critica o jornalista que ouve em tom uníssono. __Cale a boca, jornalista!, parafrasearam entre risos o médico e o advogado sobre o título do livro de Fernando Jorge. __Direito à liberdade de expressão, né Mário! Só serve para ilustrar discurso, ironiza o jornalista resignado.

__Não sei porquê. A imprensa fez o trabalho dela, mas tem que ter cuidado. Os nomes dos formandos não podiam ser publicados, mesmo, ensina o advogado. __Também, a imprensa foi ameaçada. As famílias, os que já tinham se formado fizeram até paredão humano para proteger o grupo, defende-se o jornalista. __Ah não me venha com essa. Se a imprensa quisesse teria publicado os nomes. Vocês fazem isso todos os dias em matérias que envolvem pobre. Vocês tiveram medo de processo, isso sim, diz o médico calando as pretensões heróicas do jornalista.

Quem via de fora, jurava que os três tinham razão em tudo e ainda poderia enumerar várias conclusões. Educação se tem em casa, escola é lugar para aprender algo do conhecimento formal. A sociedade cobra uma conduta perfeita dos profissionais da saúde e não se preocupa com a formação, por exemplo, de profissionais de outras áreas. A sociedade exige liberdade de imprensa para os outros. Liberdade de expressão é um direito fundamental desde que não afete os próprios interesses. Advogado é um artigo para quem pode pagar. O SUS é um grande gerador de conhecimento, desprezado inclusive por quem aprende com ele.

E a conversa continua noite adentro. Cada fato é motivo para nova discussão. Cada um tem seus argumentos. Entre uma cervejinha e uma carninha queimada os ânimos ora esfriam ora esquentam. Às vezes os três falavam ao mesmo tempo. Muita elucubração percorre os pensamentos e as falas dos três amigos. Pelo menos até a última brasa da churrasqueira se apagar.

domingo, 14 de dezembro de 2008

É quase Dia de Natal


A magia do Natal foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja.

Essa época do ano me deixa muito triste. As recordações parecem que voltam com mais força e as emoções ficam mais claras. Isso é bom, às vezes. Isso é ruim, às vezes. É que eu tenho muita saudade de casa e da família. Sei que não conseguirei voltar. Aquele lar ficará apenas na minha memória e nunca mais os verei. Tudo bem, na rua as coisas são mais difíceis, mas tem suas compensações. A liberdade. A falta de regra. A falta de padrão. Os da sociedade. Porque a rua tem suas regras e padrões próprios. Mas não é da minha vida que quero falar.

Lembro-me da primeira vez que fui parar num cruzamento. Os carros em alta velocidade. Gente apressada. Barulho. Você se torna invisível e se esbarram em você nem olham do lado. Não há pedido de desculpas. Se bobear ainda é perigoso levar uns chutes. Tem gente pra tudo mesmo. A humanidade perdeu a humanidade. A indiferença tomou conta há muito tempo das relações que se tornaram desumanas. Fazer o que? Assim caminha, mesmo, a humanidade. Acho que essa frase é de um filme... um livro... sei lá...

Vejo perfeitamente o que viraram as pessoas. Máquinas. De trabalhar. De estudar. De subir na vida. Tudo é feito para conquistar as aparências. E depois de conquistada, as pessoas lutam para mantê-la. Não existe espaço para a sinceridade, a simplicidade. Outro dia, um médico caminhava para manter a própria saúde para cuidar da saúde alheia. Sobrecarregado sempre, quando parou esqueceu-se de um paciente no final da tarde. A secretária ligou e ele pediu para dizer que estava operando. Mentiu para manter o paciente cativo. Se fosse sincero, perderia clientela. A simplicidade vale nada.

A dona da loja em frente ao qual costumo passar as manhãs, oferece qualquer coisa para vender qualquer coisa. Não foi uma ou duas ou três vezes que vi cliente satisfeito – na compra – voltar para trocar mercadoria e sair jurando que ia ao Procon. A palavra humana vale pouca coisa nos dias atuais. O jeitinho para levar alguma vantagem continua valendo, mais forte do que nunca.

Levar vantagem tem dominado as relações. O cidadão prefere muitas vezes não procurar trabalho para ganhar uns troquinhos como flanelinha. Já reparou como proliferaram? Tudo bem, não tem trabalho pra tudo mundo mesmo, mas esse mercado progrediu. Em dia de show, o teatro lota do lado de dentro e do lado de fora. Os guardadores de carro loteiam a rua e estabelecem os valores cobrados – antecipadamente. Com medo de ter o patrimônio depredado, o bacana e a bacana pagam o preço da chantagem. A rua era pública, virou privada. Em todos os sentidos que a interpretação permite.

E por falar em chantagem, uma criança parece inofensiva. Só parece. Muitos são pequenos tiranos. Vejo com freqüência grandes ditadores em corpinho infantil. No supermercado se jogam no chão, choram compulsivamente, gritam e esperneiam. Querem porque querem. E os pais, reféns da armadilha que criaram, cedem para não participar do escândalo público. E o pior. Os pequenos tiranos depois de conseguir o que querem porque querem, esquecem e partem para outro alvo de desejo. Simplesmente porque querem. Os pais perderam mesmo a autoridade.

Outra característica que a humanidade perdeu, hoje eu vejo porque vivo nas ruas, é a gentileza despretensiosa. Um bom dia, uma boa tarde e uma boa noite – que eram sentimentos puros – se transformaram em mera formalidade, obrigação forçada ou bajulação obrigatória. Já presenciei muito bom dia com cara de pouca coisa boa. Neste caso é melhor se benzer porque o desejo de bom fica na superfície, nas palavras apenas. O que vem do fundo pode não desejar nada de bom.

E essa época do ano me deixa triste porque o espírito do Natal se esvaziou. Aquele sentimento de unidade, de paz, de harmonia foi substituído. A troca de presente e o valor da mercadoria chamam mais a atenção. Aquele ritual de colocar capim numa meia e deixar embaixo da árvore de Natal para receber Papai Noel não existe mais.

A magia foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja. A ansiedade infantil pelo presente que os pais podem comprar sumiu. No lugar, a criança faz suas escolhas e os pais que se virem pra pagar. E os que não podem pagar – nem escolher – se contentam com o carrinho de plástico de R$ 1,99 doado por uma alma que se julga boa, distribuído por alguma organização às vésperas do Natal, e que virou manchete na primeira edição do telejornal.

Isso me faz lembrar que nessa época, no asilo que costumo passar em frente sempre tem festa. Todo dia, um grupo resolve fazer um almoço para alegrar o dia triste dos velhinhos. Já reparou que quem promove essas festas em asilo sempre acha que os velhinhos são necessariamente tristes e abandonados? Pensar assim não os deixa mais tristes e mais abandonados? E o pior, os promotores de festa de fim de ano em asilo não se preocupam se os velhinhos comem nos outros dias do ano.

É a humanidade está diferente mesmo. Às vezes, não a reconheço. Sei que perdi muito morando na rua, uma caminha quente, um pote de ração de manhã e de tarde, água limpa e o melhor de tudo carinho na barriga, na cabeça e o aconchego da família. Até o pai que é atarefado dedicava uns segundos brincando comigo. Por que adulto brinca com a gente, afinando a voz e fazendo cara de bobo? Mas é muito bom. Pelo menos foi. Me arrependo muito de ter cruzado aquele portão aberto, mas o pior de tudo mesmo, é que muito vira-lata humano passa por você nas ruas e ainda o chama de cachorro.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dona Maria e aquela doença


A filha mais velha de cinco enfrentou todos os problemas da vida, sempre com um sorriso. Muitos não entendiam como ela podia agir assim.

Dona Maria é uma mulher simples e muito devota da Santinha, como ela chama a Virgem Maria. Ela sempre está bem humorada e não nega um sorriso a ninguém. Mesmo a desconhecidos, que a fitam com desconfiança, ela dirige um simpático bom dia e deseja sempre tudo de bom. Pena que muitos a acham uma doida e não retribuam com o mesmo carinho.

Dona Maria é a filha mais velha de cinco. Quando ela nasceu, o pai não escondeu a frustração. Queria um menino. Ele repetiu esse ritual por outras três vezes quando sua mulher deu a luz a outras meninas. Até que o quinto, um menino, o pai dedicou o que não dedicara às outras. __Ele foi criado deste jeito, repetia dona Maria. As próprias palavras tentavam convencê-la internamente. Como cada papel estava estabelecido dona Maria cresceu sob os padrões da época. O preferido do pai era mesmo o quinto filho.

Dona Maria casou-se com o homem que o pai permitiu. A festa foi no terreirão de secar café do sítio da família dele. Tudo muito simples. O teto da festa foi levantado com lona apoiada em bambus que brotavam pela região. A churrasqueira improvisada com tijolos assava a carne de boi, de cabrito e de porco, mortos na véspera para alimentar os convidados. A lua de mel no único hotelzinho da cidade, distante 11 km do sítio. A festança foi boa e não faltou cerveja gelada no início e quente no final.

Dona Maria sempre foi muito religiosa. Ela, como todas as mulheres, era muito respeitada pelo marido, desde que não ousasse discordar ou questionar. Teve quatro filhos, todos nascidos na roça. E uma geada mudou os rumos da família. Com os pés de café cortados no nível da terra, mudou-se para a cidade grande. O marido de dona Maria conseguiu emprego de porteiro numa fábrica. Ela costurava para ajudar nas despesas.

Dona Maria sofreu muito, mas nunca deixou o entusiasmo. O marido se perdeu na bebida, foi afastado do trabalho e terminou os dias num sanatório (nome pouco nobre da época para casa de recuperação). Ela enfrentou os problemas de cabeça erguida. E não eram poucos. Mas o tempo passou, os filhos cresceram, estudaram e hoje estão formados. Já estudam os netos de dona Maria. A vida seguiu seu ritmo.

Dona Maria não conta pra ninguém, mas sente uma dor grande na garganta. Até que ela não pôde mais disfarçar e contou para João, o segundo filho, que assustado a levou a um médico. O doutor não fala nada e, pelo ar de apreensão, dona Maria sente que pode ser algo sério. Ela afirma para si mesma que não vai amolecer e vai continuar a vida normalmente. Sorrindo para todos. Na semana seguinte, o diagnóstico. O médico pede que João entre primeiro. É avisado que a mãe tem aquela doença.

Dona Maria não gosta de pronunciar o nome da doença. Ela avisa o médico que vai vencer o problema, que é apenas mais um que aparece em sua vida. __É provação e com Deus, eu vou vencer. Não vou morrer dessa doença doutor, diz ela ao médico descrente do poder da fé. À João, o doutor avisa que dona Maria não tem muito tempo. E que o tratamento ajudaria a aliviar a dor. Dona Maria muda a rotina, mas não o sorriso que carrega. Parece mais determinada e sorri para todos que encontra. Muitos não entendem, outros gostam mesmo assim.

Dona Maria cumpriu rigorosamente o tratamento quimioterápico, cirurgia não era a técnica mais indicada naquele caso. E em todas as sessões, ela surpreendia a equipe com a sua disposição. __A fé remove muita coisa. Se remove até montanha por que não pode remover um tumor? Os questionamentos, entre sorrisos, feitos por aquela mulher instigam a equipe e também os doentes com quem convive na sala de espera. __Eu sorrio sempre porque estou viva. Se tivesse morta quem sorriria seria a minha alma, respondia dona Maria aos outros doentes que teimavam não entender sua felicidade na sala de espera de um hospital oncológico. __Eu não vou morrer dessa doença, repetia em todos os cantos.

Depois do período de tratamento, um doutor espantado não acredita nos exames. O tumor regredira totalmente. Ele tenta explicar, mas não tem palavra. Ele acaba por admitir que não sabe o que aconteceu. __Se o senhor pedisse aos seus pacientes a acreditar na cura quem sabe elas não se curassem mais rápido! As palavras de dona Maria calaram as pretensões científicas do doutor. Sem saída, ele sorri para ela, que retribui com um beijo em sua testa e três palavras. __Muito obrigado, doutor.

Dona Maria sabia que vencera uma doença temida por uns, odiada por outros. Muitos queriam saber a fórmula e ela dizia que não existia, apenas insistia. __Eu sabia que não morreria dessa doença. Uma semana depois de receber alta, dona Maria costurava, sorridente, como de costume. Fazia um enxovalzinho para a neta mais nova. Ao final da última peça, ela sente uma dor de cabeça aguda e sem tempo para nada cai sobre a velha máquina. Dona Maria partiu dessa e sua alma deve continuar a sorrir. O diagnóstico? Acidente vascular cerebral, o conhecido derrame. Dona Maria realmente não morreu por causa daquela doença.

domingo, 30 de novembro de 2008

Querido Papai Noel


Ao ler aquela cartinha, algo tocou o coração endurecido de Oswaldo. Aquelas poucas linhas mexeram de tal forma com ele, que ele nunca mais foi o mesmo.

Oswaldo, com w porque ele faz questão de grafarem corretamente o seu nome, tem 52 anos e trabalha nos Correios há quase 30. Ele é como muitos da sua geração. Trabalhador e rústico. Não é dado a rompantes emocionais e muito menos a demonstrações de carinho. Ele justifica que não tem tempo para o afeto e que sua história pessoal o tornou no homem que é.

O pai morreu quando ele tinha 12 anos. A mãe trabalhou como empregada doméstica para sustentar Oswaldo e seus mais três irmãos e duas irmãs. Ela, uma mulher determinada e obcecada por transformar os filhos e as filhas em homens e mulheres do bem. Desde cedo, Oswaldo aprendeu a encarar a vida e não fugir das responsabilidades. Trabalha desde os 16 anos. Seus sonhos de ser engenheiro foram atropelados. Arranjou emprego nos Correios e leva uma vida confortável, mas muito simples.

Clara, a mulher de Oswaldo, morreu no parto do terceiro filho. Comprometido, ele não terceirizou a maternidade. Cumpriu o seu papel como pai. Assumiu o controle da casa e os cuidados com os filhos. Justo e correto, deu o melhor que pôde, mas não houve espaço para a afetividade. __Isso é coisa de boiola. Oswaldo sempre se justificava na mais alta defensiva. Nunca deu colo aos filhos. Nunca beijou a própria mãe que se disponibilizava sempre. Nunca abraçou os amigos.

Mais um dia de trabalho. Oswaldo chega pontualmente como faz há quase 30 anos. Neste fim de ano ele foi destacado para selecionar as cartinhas das crianças que pedem ao Papai Noel. Raras são as vezes em que ele se emociona com a letra infantil de centenas de crianças. E quando se percebe choroso, muda o tom e volta a ser o seco e rústico Oswaldo. Mas uma cartinha vai acabar com a dureza sentimental dele.

Já nas primeiras linhas não consegue se conter. As lágrimas rolam sem pedir permissão. Quem está a sua volta se estarrece. Nunca os amigos viram aquele homem chorar. Ao acabar de ler, Oswaldo guarda a cartinha no bolso, se levanta e – para espanto dos amigos – sai abraçando e beijando todo mundo. Trabalhou aquele dia sorrindo e cantando. O ambiente ficou leve e, apesar de ninguém entender, todos gostaram. O ofício foi executado prazerosamente.

Ao final do expediente, Oswaldo pega o ônibus para casa como faz há quase 30 anos. No trajeto cumprimenta os motoristas e cobradores com um sorriso que ninguém naquela linha conhecia. Tem impulso agora de abraçar aquelas pessoas que conhece há muito tempo, mas recua. __ Afeto não é coisa de boiola. É coisa de gente humana. Ele revê seus conceitos, mas prefere não arriscar abraços públicos.

Chegando em casa, Oswaldo abraça Marcos, o filho mais velho. Dá um abraço demorado e um beijo no rapaz que entende nada. __O senhor tá passando bem, pai? __Nunca me senti melhor. Ele vai para o quarto de Gabriela e também abraça a filha e enxuga uma lágrima teimosa. A menina também entende nada. O caçula, Felipe, chega a hora que a mesa está posta. Oswaldo, com o avental sujo, pega o moleque no colo e o roda no ar. Felipe está assustado, mas gosta do que sente.

Todos se sentam para jantar. Fazem suas orações. O ar mistura surpresa, felicidade e expectativa. Nenhum dos filhos se atreve a perguntar sobre a mudança drástica do pai. Mesmo assim gostam do que está acontecendo. Ao terminar a refeição, Oswaldo tira do bolso, uma cartinha junto com uma foto. Era a carta que lera pela manhã no trabalho. Ele comunica a todos que vai atender a um pedido especial de um menino de 7 anos cujos pais morreram e que a avó o colocara numa casa abrigo.

O menino pedia algo simples que muitos têm, mas muitos não dão o valor exatamente porque têm. Em tom cerimonioso, Oswaldo limpa a garganta com um rãrã e começa a ler as poucas linhas. Quando acaba, ninguém emite uma palavra. Os olhos vermelhos concordam com a decisão do pai. O ar de consentimento é geral. Palavras nesta hora sobrariam e o excesso não é necessário.

Mas qual o pedido do menino naquela cartinha? Quem precisa saber – o Oswaldo – já sabe. A cartinha mudou para sempre a vida desse carteiro. A cartinha mudou para sempre a vida desse menino. O que importa é que o pedido foi atendido. E você qual o pedido especial vai atender neste Natal?

domingo, 23 de novembro de 2008

Gentinha sonsa essa!


Deixa que eu pego todos vocês hoje. Vou falar tudo o que eu tenho vontade. Não vou poupar ninguém. Preparem-se!

Interessantíssimo! Todos vão chegando e vão ouvir o que precisam. Sempre fui o bom moço, comportado, comedido, escolhia as palavras para não magoar, para não criar conflitos. __Seja educado! meu filho. Ninguém suporta gente que fala demais. Cuidado com as palavras. A verdade incomoda. Minha mãe repetia isso todos os dias e me adestrou. Desta vez vou sair do cativeiro. Ninguém vai perder por esperar.

Olha quem acaba de chegar. A Lurdinha. Ela foi a minha primeira namorada. Sempre regulou, não queria dar antes do casamento. Malditas regras, convenções inconvenientes. Sei! Isso só serve para empatar mesmo. __Lurdinha, quero dizer uma coisa. Você nunca foi bonita mesmo. Mas eu gostava de você, sua esnobe. No final você casou com o meu melhor amigo porque ele era rico. Era! Hahahaha. Perdeu tudo por causa da bebida. Bem feito.

E o Carlão, messe eu melhor amigo. Amigo! Quem precisa de inimigo? Agora você está aí do lado da Lurdinha como se fosse um casal perfeito. Perfeitamente desestruturado. Ele desempregado. Ela tem um caso com o chefe. __E você Carlão finge não saber. Afinal de contas, é o chefe dela que paga as contas da casa. Com essa cara curtida em conhaque nacional não vai mesmo conseguir uma colocação no mercado.

E por falar em chefe, olhaí o Roberto. O meu chefe. Por que a gente tem mania de usar pronome possessivo? Ele não é meu não! __Quem convidou você Roberto? Que cara deslavada é essa? Chefe é uma praga mesmo. Quando você faz, bota defeito; quando não faz, o defeito é maior. Isso me lembra o que um amigo me disse outro dia. __Se você faz muito, erra muito. Se você faz pouco, erra pouco. Se você faz nada, não erra. E quem não erra, é promovido. Ô mundinho injusto esse. Humilhação, assédio moral... O mercado é mesmo uma selva. Mas não tem problema não Roberto, sei muito bem que você faz parte de um esquema na empresa. Uma hora a casa cai. __Fingido!

E por falar em casa cair, quem acabou de entrar na sala? O tio Valdemir. É um cara de pau mesmo. Só faltou lustra móveis. Esse daí – né tio – enganou o pai que era fiador no empréstimo da oficina mecânica. Nem de carro, o Valdemir – né tio! – entendia. Já confundiu até ventuinha com ar condicionado. __Uma vergonha automobilística, né tio!? E o pior, meu pai paga a conta do empréstimo até hoje. Quase se matou de vergonha. Também se cunhado fosse bom não começava com essas duas letrinhas.

E o Jorge? Até esse traste apareceu. Isso parece desfile de mau caráter. O que está acontecendo? Será que vou ter de agüentar todas essas malas! Quem é Jorge? Um colega de repartição que faz nada e cobra dos outros o que ele deveria fazer. Um típico costa-quente. __Mas uma hora você paga, Jorge. Aquele mesmo amigo meu de outro dia, disse outra coisa interessante, que você consegue enganar um por muito tempo, consegue enganar poucos por pouco tempo, mas não consegue enganar todos por muito tempo. __Viu Jorge?

Era quem faltava. Narciso. Meu ex-sócio. Uma figura excêntrica. __E aí Narciso, já largou o vício dos jogos? O desgraçado quebrou a empresa depois de desviar o caixa para a jogatina. A mulher dele sempre justificava. __Ele é doente! E quem pagava a conta do doente era eu. A empresa faliu. Os credores cobraram. Funcionários na (in) justiça trabalhista. Quase perdi a casa. Depois da falência, tive que aceitar o emprego na repartição, o RH de uma empresa familiar. Sempre falaram recursos humanos, mas está mais para recursos histéricos.

Nossa! Carminha que cara é essa? (Carminha é a minha mulher) Agora que você entrou na sala deste jeito parece mesmo que algo está errado. Por que você está de preto? Nossos filhos, noras e genros estão cabisbaixos. Engraçado, falei tudo que eu queria para esse monte de gente e ninguém devolveu. Isso é mesmo estranho. Carminha o que está acontecendo? Por que você não responde ao que pergunto?

Neste instante, percebo tudo e tudo se clareia. Marquinho, o meu neto de quatro aninhos caminha em minha direção. O menino tá lindo naquele terninho preto. Olha o cabelinho repartido de lado. A mãe dele insiste em lambuzar a franja do moleque. De repente, Marquinho pára do meu lado, sobe numa cadeira e fala bem mansinho com uma flor nas mãos. __Vovô, que Deus receba o senhor de braços abertos no céu. Eu amo muito você vovô.

domingo, 16 de novembro de 2008

Tudo será diferente


Eles vão caindo um a um. Elas, uma a uma. Todos pagam o preço pela perversidade. Esse caminho pode não ter volta.

De repente tudo fica escuro e, bem longe, eu vejo uma luzinha. Parece que estou num túnel muito, mas muito comprido. Vou me aproximando da luz e quanto mais caminho mais ela fica intensa. E percebo que um ódio toma conta de mim. Ao meu lado eles vão caindo um a um. Uma a uma. E sangram muito. Não tenho piedade.

Tudo será diferente. Estudo neste colégio desde o pré. Sempre fui vítima dos mais bonitos, dos mais ricos, dos mais inteligentes, dos mais isso, dos mais aquilo. Mas chegou a hora da minha vingança. E eles pagarão o preço pela arrogância, pelo desprezo, pelo descaso. Pelo tratamento ruim que me dispensaram.

O primeiro a tombar é Thomas, logo depois da porta principal. Ele sempre tirou sarro de mim nas aulas de educação física. O gordo da turma. O bolo fofo. O rolha de poço. O dono da borracharia. Quanta humilhação passei nesse período! E os professores? Muitos eram coniventes e quando eu reclamava da humilhação, me mandavam fazer regime.

Por isso, Eduardo, o professor saradão é o próximo. Ele nunca me defendeu nas atividades físicas. Eu não precisava de proteção, precisava de estímulo. E ele nunca me escolhia para os times. Sempre ficava na reserva. Nunca entendi direito essa coisa de ensino e aprendizagem. Parece que professor só gosta de ensinar para quem já sabe. Encontrei-o descendo a escada, naquela regata exibicionista. Não teve tempo de gritar.

Carla, a menina mais desejada, é a próxima. Encontrei-a no final da escada, no andar de cima. Um tiro apenas e a beleza daquele rostinho é tingido de vermelho. Que pena! Ela nunca mais vai esnobar de mim. Quando eu fui convidá-la para dançar no baile da festa junina, ela virou e disse. “__Se enxerga, ô gordo.” Gostaria que ela pudesse se enxergar agora.

Logo depois encontro o Paulo. Ele está com uma cara assustadíssima. Esse eu vou poupar. Ele sempre me aceitou no grupo para os trabalhos da turma. Ele é atencioso e não me despreza. Me trata como gente normal. Permito que ele saia do corredor e vou em busca de outros algozes da vida escolar. Tudo será diferente.

Na primeira sala à esquerda, vejo a professora Carmen. De matemática. Odeio matemática. Até hoje não sei pra que serve esse monte de conta. Toda vez que não sabia fazer uma fórmula, ela explicava com agressividade, não tinha paciência. A cara dela sempre expressava algo do tipo “mas como é lerdo esse menino!”. Um disparo apenas. Ninguém mais precisa estudar matemática.

Na sala, estão Patrícia e Manuela. Duas filhinhas de papai. Nojentinhas. Insuportáveis. Puxam o saco do professor, da professora, do diretor. Inventam muita coisa e espalham intriga. Já vieram me dizer que elas falam pelos corredores que sou esquisito porque sou filho de mãe solteira, que quando nasci faltou oxigênio no cérebro, que meu pai era drogado. Pena que agora é elas que não podem respirar.

Saio da sala e na volta do corredor a gritaria é grande. É gente – não sei se do tipo humano – correndo pra tudo que é lado. Vejo ao fundo, o Márcio, o garanhão. Uma vez, quis abusar de mim. Consegui escapar. Minha mãe foi ao colégio, exigiu providência. E o colégio? Abafou o caso. Márcio é filho de um dos mais respeitados advogados da cidade. Tem cobertura, não desta vez. Não teve tempo nem de dar um passo.

Ao me virar para a escada onde Carla mancha o chão, vejo uma dupla de policiais. Arma na minha direção. Mandam parar; largar meu revólver; jogar o pente reserva. Continuo caminhando. Lentamente, vou levantando o braço. Sinto uma bala. Depois outra. Mais uma. Mais outra.

Antes de cair, me agito e abro os olhos. Ofegante. Sento na cama. Meu quarto está escuro. Foi o sonho mais macabro que tive nos últimos tempos. Levanto. Tomo um copo d´água. Refaço todos os passos daquele pesadelo. Cada imagem me assombra. Vou para o computador e pesquiso. Pesquiso muito. Bulling é uma coisa realmente triste.

No dia seguinte, procuro a direção do colégio e conto todas as humilhações pelas quais passo. Dou nomes de muitos, incluindo professores, perversos com quem foge dos padrões, sejam sociais sejam físicos. A direção promete mudanças. Tomara, tomara mesmo que tudo seja diferente daqui para frente.

domingo, 9 de novembro de 2008

Ser mãe é uma arte


Sueli e Marta se conhecem desde os tempos da escola. Ambas casaram. Ambas tiveram filhos. Ambas têm problemas. Cada uma age de uma maneira diferente.

Marta sempre foi a mais bonita da turma e a que tem mais dinheiro também. Ela gosta de competir com as meninas para ver quem é a mais paquerada, a mais desejada pelos meninos. E quase sempre ganha e esnoba das que perdem. Ela gosta de contar vantagens de suas conquistas, de seus flertes e de suas paqueras.

Sueli é uma menina meiga, mas não se destaca propriamente por sua beleza exterior. Ela é a companheirona de todas do grupo. Sempre ajuda, sempre tem uma palavra amiga, sempre tem um ombro amigo. Por isso, ela se sente usada às vezes, mas gosta de ser sentir útil, de ajudar. O desprendimento é o que a torna especial.

Marta casou-se com o menino mais bonito e mais rico do grupo. Ela fez questão de dar a festa. Aquela que ficasse na lembrança de todos na cidade. O clube, o mais tradicional, ficou cheio de convidados. O vestido era o mais bonito, o mais brilhante, o buffet – o melhor. Ela não se contenta com pouco.

Sueli também se casou. O noivo não é o que se pode considerar um príncipe encantando. Gente normal. Gente boa. A recepção aos convidados foi muito bonita, mas discreta e restrita. O dinheiro sempre contado e, na festa, somente os parentes mais próximos e os amigos mais íntimos.

Marta ainda gosta de ostentar suas conquistas. Ela não tem vida profissional. Os filhos têm do bom e do melhor. O marido trabalha muito para garantir o conforto da família. Por causa da profissão, viaja quase todas as semanas e vê pouco os filhos. A escola particular. O carro do ano. A roupa de grife. As férias internacionais.

Sueli leva uma vida confortável, mas sem exageros. Ela e o marido trabalham muito para dar uma condição de vida digna aos filhos. Sua jornada de trabalho, como bancária, é bem pesada e a cobrança no dia-a-dia, por resultados de mercado, é desumana. Mesmo assim, ela concilia o trabalho e a vida doméstica com dedicação.

Marta tem dois filhos. Bruno e Cássio são dois jovens que não precisam se preocupar com as durezas da vida. Quando se metem em alguma confusão sempre há alguém para ajudá-los. O avô, advogado bem sucedido já garantiu a pele do mais velho algumas vezes. Nada sério. Confusão de bar e bebida. Cássio não aprova o irmão.

Sueli é mãe de Emanuel e João. O mais velho tem um problema de audição. Emanuel perdeu parte da capacidade auditiva por seqüelas de uma meningite que teve nos primeiros meses de vida. Emanuel e João são muito unidos. Eles se cuidam mutuamente e a família não se cansa de elogiá-los.

Marta sabe que as coisas não vão muito bem em casa. Bruno não tem horas para chegar. Sai de carro. Bebe. Volta. Dia desses quase atropelou um casal num ponto de ônibus. Ele perde aulas com freqüência; não respeita os pais. Limite para ele é o céu. A mãe cobra o menino e a situação piora. E o pai? Viajando a trabalho.

Sueli sai para trabalhar e os filhos ajudam a cuidar da casa. Cada um arruma seu quarto e tem tarefas diárias planejadas. A família tem diarista três vezes por semana para o grosso do serviço. Faxina geral. Lavar e passar roupa. Cozinhar. Nos dias que não vai, a família mesmo prepara a comida e os meninos dão conta da louça.

Marta está preocupada demais com Bruno, mas ele não respeita ninguém. Até agrediu, dia desses, a empregada da casa que ousou chamá-lo, por ordem da mãe, às 11h30, de uma quarta-feira. Ela ligou do cabeleireiro e pediu para a empregada chamar o filho, que não havia ido à escola. Aliás, ele faltou os dois últimos dias e a mãe não sabia.

Sueli está muito ansiosa. Emanuel vai prestar seu primeiro vestibular. A rotina deste domingo mudou a vida da família. Até o almoço foi especial e servido mais cedo. E todos foram juntos de carro levá-lo ao campus, ajudando a congestionar o trânsito próximo à universidade. Ninguém quis abrir mão de ir junto. E ficaram esperando do lado de fora.

Marta e Sueli se conhecem desde adolescentes. Estudaram juntas o antigo 1º e 2º grau. Sueli fazia parte do grupo de amigas com quem Marta competia para ver quem seria a mais paquerada, a mais desejada. Elas se vêem pouco. A rotina de ambas, hoje muito diferente, não permite muitos encontros.

Sueli e Marta se encontraram no shopping. Marta estava produzida, mas acabada. O ar de tristeza, indisfarçável. Entre uma lembrança e outra, ela contou tudo o que estava passando; até o envolvimento do Bruno com as drogas. Sueli ouviu tudo com a maior atenção, como sempre faz. Enquanto Marta falava de si, sem perguntar pela família da amiga, Sueli lembrou-se de um episódio antigo.

Marta tinha Bruno com um aninho e estava na casa da amiga, quando Sueli recebeu uma ligação do fórum. Havia um bebê de quase 10 meses para Sueli e o marido conhecerem. Marta não sabia das intenções da amiga e teve uma reação estranha. “__Você é louca de adotar essa criança. Você não sabe nada deste bebê. Ele vai ser um problema na sua vida.” Sueli volta do flashback, olha para amiga que continua falando, falando... dá um suspiro e um sorriso e continua ouvindo atentamente.

domingo, 2 de novembro de 2008

O amor é eterno


Joana é uma mulher incrível. Equilibrada. Firme. Sensível. Justa. Ela é incapaz de negar ajuda a quem precisa. De seres humanos a animais, os ditos irracionais.


Joana é excepcional. Mulher. Mãe. Companheira. Amiga. Avó. Profissional. Ela é decidida. Sabe muito bem o que quer. E conquista. Sempre amável, envolve todos num ritmo crescente e ninguém diz não aos seus pedidos. Aliás, ela sempre tem razão. Outras características? Equilibrada. Firme. Sensível. Justa. Há momentos em que mostra certa rudeza, mas o pulso firme mantém todos unidos.


O coração de Joana é enorme. Ela é incapaz de negar ajuda a quem precisa. Lembro-me de uma situação que até hoje deixa meus olhos marejados. Era uma noite fria e chovia muito. Num cruzamento, à calçada sob um ipê quase pelado, uma mãe – com seus menos de 20 anos – amamentava seu bebê embaixo de um guarda-chuva esfarrapado. A cena era realmente forte, podia até cortar o coração dos mais insensíveis.


Joana não teve dúvidas. Sem hesitar, mandou-me parar o carro ao lado daquela mãe; desceu vagarosamente, dirigiu-se a ela; trocaram meia dúzia de palavras, levantaram e vieram para o carro. Joana decidiu que a levaríamos para a nossa casa. Confuso e surpreso, virei a primeira esquina. Já em casa, Joana cuidou daquela mulher e do bebê, que não estava nada bem. Banho. Roupa quente. Comida. Cama.


No dia seguinte, o menino de pouco mais de seis meses ardia de tão quente. Precisava de um hospital urgentemente. Chamamos um médico amigo, que medicou e transferiu o para um hospital. Ele não resistiu. Aquela mãe não conseguiu derramar uma lágrima. Joana ficou perto dela o tempo todo. A mãe morava numa cidadezinha pequena e queria voltar. Joana pagou. Enterro. Viagem. Dinheiro para o recomeço. Um dia, Joana recebeu uma carta. Aquela mãe agradecia por tudo. Ela havia casado, voltara a estudar e estava empregada. A vida ofereceu-lhe boas coisas. Casa. Filhos. Nova vida.


Joana é assim mesmo. Sempre preocupada, abre até mão de si mesma para deixar alguém feliz. Nunca a vi cobrando pelas coisas que fez. Diferentemente de mim. Muitos que ela ajudou já viraram-lhe as costas. Traição. Desprezo. Ingratidão. Joana não se deixa abalar. Profeticamente, diz que o bem que fez continua sendo o bem. E a traição e o desprezo e a ingratidão? __Uma ação gera uma reação e quem pagará por isso não serei eu.


É verdade, uma amiga deve estar passando por essa reação a que Joana se refere. Ela ajudou muito a amiga, deu dicas profissionais preciosas e até estágio para a filha conseguiu por intermédio de uma empresa de um conhecido. A amiga, que descobrimos não ser tão amiga assim, hoje trata Joana com agressividade. Joana tenta entender o que aconteceu e não encontra respostas plausíveis. Ela fica triste, mas não desanima. __Fiz a minha parte. Se ela não reconhece isso e prefere a ingratidão, não posso fazer nada. Ela pagará os preços por suas próprias atitudes. E quem vai cobrar? A vida.


De seres humanos a animais, os ditos irracionais. Joana ajuda uma entidade que abriga cachorros abandonados. Ela manda os remédios e a comida que a bicharada precisa. Volta e meia, para o carro na rua para recolher os bichos. Muitos, molambentos. Confesso que não gosto nada disso. A população cria seus animais e depois os soltam para o mundo. E ainda cobram do poder público uma medida para o cachorro de rua. É demais! Enfim, Joana se padece da situação e não deixa de ajudar a entidade, inclusive, já levou seis bem velhinhos para a chácara que a gente tem. Até túmulo para os bichos ela mandou fazer.


Joana é assim mesmo. Foi uma vida de 50 anos juntos. Esse é o primeiro ano sem ela. Todos os dias, repasso mentalmente os dias que vivemos juntos. O noivado. O casamento. A lua de mel, na Terra do Fogo. Inesquecíveis os momentos daquela viagem. Gelada e quente, ao mesmo tempo. Os filhos. Os netos. As doenças. Os prazeres. A nossa música preferida, na voz de Sinatra. Quanto encanto!
Uma vida não pode acabar assim. Ainda não me conformei. Vou levar flores para Joana, neste chuvoso Dia de Finados. Um único botão de rosa. Único como o nosso amor. Essa história não vai simplesmente acabar. Assim. Amor de verdade transcende, inclusive, a morte. Afinal, a vida não é eterna?

domingo, 26 de outubro de 2008

Histórias com meu pai


Meu pai é o máximo e faz tudo por mim. Ele me incentiva a estudar, brinca sempre comigo, me leva pra pescar. Ele é louco por mim.

Meu pai é um homem muito correto. Honesto e trabalhador, ele não deixa faltar nada em casa. A gente não tem muita coisa material, mas o que conseguimos foi com muito esforço do meu pai. Ele trata muito bem a minha mãe. Ambos se mostram muito apaixonados. Paparicos para todos os lados da casa. Insinuações não faltam. É muito estranho imaginar que seus pais transam. Pai e mãe são sagrados; não são dados a essas coisas de gente normal. Que esquisito! Enfim...

Meu pai é muito bacana. Aos finais de semana, ele coloca a gente no corcel 2 e leva para passear na barragem do lago Igapó. Um programão. Todos os filhos ficam encantados. Durante o trajeto de casa até o lago ele vai cantando as suas músicas preferidas. São as de sempre. E, mesmo desafinado, a gente gosta. Minha mãe arrisca umas notas, mas não sai do lá lá lá lá lá lá, uma espécie de fundo musical para o meu pai. É muito engraçado.

Meu pai incentiva os estudos. Ele diz que quer que os filhos sejam “doutor”. É incrível a força de vontade dele. Todo final de tarde, mesmo exausto, ele encontra forças para ajudar a gente na tarefa. Nunca vamos para a escola sem fazer a lição no dia anterior. Matemática, ele sabe. Português, ele sabe. História, ele sabe. É impressionante. Mesmo sem ter tido muito estudo, ele nos ensina e muito. A professora sempre elogia.

Meu pai é muito sensível. Ele nunca deixou de participar da minha vida escolar. É um pai realmente presente. Nas comemorações do Dia dos Pais, ele sempre participa. Teve uma vez... a escola montou uma gincana para incentivar os pais a fazer ginástica. O meu quis mostrar pra mim que estava em forma. Entrou na gincana para competir com outros pais nos abdominais. E venceu todos que o desafiaram. E teve, por isso, uma dor de uma semana. Eu sabia que ele estava todo dolorido, mas fingiu que estava super bem.

Meu pai tem muitas histórias pra contar comigo. Certa vez fui pescar com ele no Tibagi. Um sonho realizado. Todos os meninos da minha idade sonhavam em ir pescar naquele rio, com o pai, num bote no meio das águas. Eu fui o primeiro que conseguiu essa proeza. Até um dourado eu peguei naquele dia. Bem! pelo menos na minha imaginação. A pescaria não estava nem pra bagre. E o pior aconteceu. Saindo do rio, eu caí em cima de uma urtiga. Resultado: descobri que era alérgico, mas meu pai correu muito com o corcel 2 e eu cheguei ao HU, rapidinho. Ele passou a noite toda comigo.

Meu pai gosta de brincar. Minha mãe fala até que ele parece um moleque, mas não é não. Ele é muito envolvente. Toda sexta-feira à tarde, a gente vai jogar no campinho da praça. A bola de capotão velha é do meu pai. Aparece moleque da região inteira. É camisa contra sem camisa. E claro que o time do meu pai sempre ganha. Ele é o máximo. Mais de uma vez eu ouvi meus amigos dizerem que queriam ser filho do meu pai. Ele até solta pião. O danado fica rodando um tempão. E a molecada fica de queixo caído.

Meu pai gosta de reunir a família de vez em quando. Aí aparecem muitos tios, tias, primos e primas. Ainda bem que ele não deixa pra reunir a família apenas em velório e casamento. Sabe aqueles parentes que a gente só conhece dos pêsames? Então, minha família não é assim. É uma verdadeira festa. A casa cheia. A música alta. A carninha na churrasqueira improvisada no fundo do quintal. Vovó sentada na varanda do fundo parece aquelas matriarcas, felizes da vida, por ter cumprido a sua missão.

Meu pai seria tudo isso e muito mais, se não tivesse me abandonado quando minha mãe disse que estava grávida. Ele sumiu no mundo. Ela tinha 16 anos e não agüentou a barra. Minha avó me criou com muito amor, mas não conseguiu suprir a ausência que eu sentia. Esse vazio me levou a fazer muita coisa errada. Maus caminhos? Más companhias? Apanhei muito na rua e bati pra valer. A lei de quem pode mais é a que rege quem está na rua. Acabei neste centro de recuperação para adolescentes. Nome bonito para dizer detenção. Estou prestes a completar 18 e isso me assusta ainda mais.

Meu pai, talvez, não tivesse sido tudo isso que, hoje, eu fico imaginando que seria. Talvez, não tivesse feito esforço para dar a mínima condição de vida. Talvez, não me levasse para o lago Igapó, aos finais de semana. Talvez, não me incentivasse a estudar nem fosse à escola no Dia dos Pais. Talvez, não me levasse pra pescar no Tibagi. Talvez, não jogasse bola comigo no campinho nem soltasse pião. Talvez, não reunisse em festa meus tios, tias, primos e primas. Mesmo assim, eu teria um pai e, talvez, eu tivesse outras histórias com meu pai.

sábado, 18 de outubro de 2008

O destino e a vida



Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino. E esse a gente não escolhe. A gente cumpre.

Naquela manhã eu acordei e sabia que a minha vida não seria mais a mesma. Um vazio enorme tomava conta do peito. Um aperto que misturava apreensão e angústia. Vivia uma ansiedade grande nos últimos dois meses. No fundo eu sabia, mas torcia para que não fosse verdade. Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino.

À tarde, fui ao posto de saúde buscar meus exames. Eles disseram que eu estava grávida. De dois meses. Minha terceira gravidez. Meus pais lutavam com muita dificuldade para criar meus dois primeiros filhos. Aquilo seria demais para eles. Já sabia o que me esperava. Papai, com olhos molhados; mamãe, mais calada que de costume. Ambos me olharam, não falaram uma palavra. E disseram tudo. Vi minha bolsa em cima do velho sofá azul, desgastado pelo sol sem cortina. Foi o dia mais triste da minha vida. Meus filhos pequenos na escola. Sem despedida. Não olhei para trás. Eu não conseguiria.

Andei sem rumo por algumas horas até chegar num posto de gasolina, à beira da rodovia. Aquela que liga ao sudeste e ao sul do país. No posto, uma placa de caminhão do interior paulista me chamou a atenção. Esperei e o dono apareceu. Perguntei se ia para as bandas daquela cidade. Tinha uns conhecidos, donos de uma lanchonete, lá podiam me arranjar serviço. Seria melhor do que viver na rua. Ele não hesitou em me dar carona. A viagem foi cansativa. Trocamos poucas palavras. Ele tinha idade para ser meu avô.

Quando chegamos em frente à lanchonete, a desolação tomou conta e o desespero voltou a me rondar. Um cartaz amarelado anunciava que meus amigos haviam se mudado para Campo Grande, para tocar outra lanchonete no posto tal. E agora? O caminhoneiro disse que iria para Cuiabá e passaria pela capital sulmatogrossense para deixar uma encomenda. Era seu caminho. Ele conhecia tal posto. Minhas esperanças se acenderam. Pegamos a estrada. Paramos para dormir. Não preguei o olho.

Pra quem chegou ao fim do poço, nada pior pode acontecer, mas aconteceu.
Chegamos ao posto tal e encontramos nada. O tal posto havia fechado semanas antes. Um contorno havia tirado o fluxo daquela rodovia. O desespero voltou a rondar. E algo surpreendente aconteceu. O caminhoneiro disse voltaria para o interior de São Paulo, na cidade dele, depois de Cuiabá e que tinha um sítio. Ofereceu-me um emprego. Cuidaria da casa, moraria no local e ainda teria um salário. Deus existe.

Viajamos mais alguns dias e, finalmente, chegamos àquele sítio que seria minha nova morada. No local, os caseiros cuidavam de tudo, inclusive da casa grande. Não fui bem recebida. Contei a minha história e no final ouvi um “sei”, numa mistura de desconfiança e reprovação. A mulher do caseiro disse que não gostou de mim e que achava a história muito estranha. Eu dormiria num quarto da casa grande. Era o fato que faltava para a crise do caseiro com o caminhoneiro. Eles pediram demissão.

O caminhoneiro era separado e os filhos todos adultos. Com filhos. De vez em quando, apareciam para visitar o pai e o avô. Era bem tratada, mas o ar misturava curiosidade e discrição. No fundo, acho que todos pensavam que eu era uma amante, catada no meio da estrada. Se bem que essa última parte não era mentira. Mas não era a amante.

Minha barriga crescia a cada dia. Todos os cuidados da casa sob a minha responsabilidade. Enjôo e vômito eram a minha rotina, mas um cantinho da casa era o meu preferido. Na varanda, sentava ao final das tardes, para ver a noite cair. Os últimos raios do dia afagavam uma planta que havia num vaso, acho que era um mini-hibisco. Laranja. O vaso se iluminava e quando havia flor, a beleza da cor enchia meu coração de esperança. Esperança de um futuro melhor.

Passados os meses, meu filho nasceu. O caminhoneiro tinha contratado uma mulher para cuidar de tudo. O peso do trabalho agora era dividido e eu continuava na casa grande. Meu filho foi crescendo e se identificando com o caminhoneiro, a única figura masculina da casa. O menino o chamava de pai. E não era? Afinal era ele quem provia as minhas e as necessidades do meu pequeno.

Eu havia terminado, com sacrifício, o segundo grau e tinha muita vontade de voltar a estudar. Meus planos era ser médica, mas o destino e a vida me reservaram outras circunstâncias. Mesmo assim, poderia voltar a estudar. Negociei com o caminhoneiro uma moto. Cuidava do sítio durante o dia e, à noite, iria para um cursinho. A vida não havia acabado. Ainda.

Numa dessas noites chatas com aula de física, com professor que fica pulando na frente de 300 alunos, não ouvia uma palavra do que o dito cujo dizia. Um panfleto no chão me chamou a atenção. Emprego fácil na Espanha. Dinheiro para guardar. Sonhos para realizar no Brasil. Vi que seria uma boa opção. Negociei mais uma vez com o caminhoneiro. Venderia a moto e compraria as passagens.

E meu filho? Não hesitamos. Fomos ao cartório da cidade e passei a responsabilidade ao caminhoneiro. Se acontecesse alguma coisa, ele poderia pedir legalmente a guarda. Estava muito feliz. Os horizontes pareciam se abrir novamente. Os preparativos para a viagem estavam me fazendo bem. Voltei a sorrir. Era gente mais uma vez.

Naquela noite fui pela última vez ao cursinho. Me despedi das duas pessoas com quem parecia que viraria uma amizade. Falei tchau para a professora de História, a única que puxou conversa comigo por duas vezes. Afinal, aluno de cursinho não tem nome, tem número. Voltava ansiosa para casa. Nos dias seguintes, embarcaria para a Espanha, mas no km nove o destino me reservava mais uma das suas. Um cavalo atravessava a pista. Não deu tempo. Atropelei o bicho e capotei no asfalto. Aquele foi o único dia que não usava capacete. Fiquei em coma por uns dias e a vida se foi.

Sei que minha existência foi breve, mas intensa. Marquei muitos por onde passei. Meus pais. Meus filhos. O caminhoneiro. A família dele. Os caseiros. Não me arrependo de nada do que fiz. Mas se tivesse outra oportunidade, talvez, faria diferente. E seria tudo diferente mesmo? Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino. E eu o segui.

sábado, 11 de outubro de 2008

Meras contradições?

Eles dizem algo, mas fazem tudo diferente. Isso faz lembrar um antigo ditado. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Que coisa sem graça!

Fazendus Propertárius é dono de várias fazendas que, juntas, somam mais de 23 mil hectares. Ele é contra a reforma agrária; ataca o movimento que organiza e defende o direito à terra e alega que o governo não deveria dar terras para quem não quer produzir. "__ Um bando de vagabundos." Fazendus Propertárius é investigado por grilagem em terras indígenas e reservas ambientais; desmatamento e comércio ilegal de madeira.

Honórius Acadêmicus é doutor, com livre docência. Ele investigou, em sua tese, a importância da íris dilatada nos flertes humanos antes da puberdade. Como produtor do conhecimento científico critica veementemente os programas de transferência de renda, como as várias bolsas, mochilas, pochetes e sacolas previstas pelas políticas públicas. Honórius Acadêmicus gaba-se de ter feito tese de doutorado e dissertação de mestrado como bolsista do CNPQ, uma Bolsa Família para pesquisadores?

Médicus Interruptus é um profissional da medicina altamente conceituado. Defensor árduo da vida. Grande aliado da igreja, ele organiza até abaixo-assinado. Não indica – para suas pacientes – a interrupção da gravidez nem em caso de risco de morte para a gestante ou estupro. A filha caçula, de 14, engravidou. Médicus Interruptus está desesperado e pensa em apelar para a clínica particular de um amigo.

Rotativas Impressus é uma conceituada jornalista investigativa. Já tornou públicas falcatruas em vários níveis de governo. Suas reportagens renderam processos até no Congresso e na Justiça. Ela não suporta que governantes enganem o cidadão e a cidadã. Para provar que existem malfeitores do dinheiro público, no processo de investigação jornalística, Rotativas Impressus usa câmeras ocultas, gravações clandestinas, identidade falsa, suborna suas fontes e compra documentos sigilosos.

Ministérius Cumprimentus é um promotor público rígido. Propõe ações contra vários segmentos de servidores públicos para que cumpram integralmente o horário de expediente. Cartão ponto para ele é sagrado e o dinheiro público tem que ser respeitado. Para acompanhar as ações propostas e propor outras, Ministérius Cumprimentus um dia trabalha de manhã, noutro à tarde. Ninguém sabe ao certo seu expediente, nem a carga horária diária. Ele não bate cartão.

Médias Ensinus é uma professora dedicada. É conhecida pelo rigor na correção dos trabalhos dos seus alunos, repele publicamente a falta de referência bibliográfica; condena o Ctrl C + Ctrl V e abomina a falta de respeito aos direitos autorais. A principal ferramenta de pesquisa para a monografia de Médias Ensinus, na faculdade que freqüenta à distância, são as fontes wiki, sites diversos e fotocópia dos livros da biblioteca que empresta semanalmente.

Padrus Bendictus é um padre que trabalha com afinco pela sua comunidade. É reconhecidamente o melhor entre várias paróquias. Prega com sabedoria e paciência. Ensina com amor e devoção. É conhecido e reconhecido pela humildade. De tanta que lhe aflora a alma foi homenageado. Recebeu a maior condecoração oferecida pelo alto clero: a Medalha da Ordem do Nosso Senhor dos Corações Puros e Humildes. Hoje, em toda pregação pela paróquia, Padrus Bendictus exibe a medalha pendurada ao pescoço.

Tontus Eleitórius vai cumprir, obrigatoriamente, seu direito de cidadão mais uma vez. No final de outubro volta às urnas para escolher o prefeito da cidade para os próximos quatro anos. Ele defende que o homem público deve ser honrado, honesto, decente e trabalhar em prol da população sofrida, trabalhadora. Ele já escolheu o seu candidato. Um homem muito conhecido. Amado por uns. Odiado por outros. Seu candidato é o Cassadus Presus. O nome dispensa maiores apresentações.

Como dizem, a voz do povo é a voz de Deus. Meras contradições? Ou o Todo Poderoso está, nos tempos atuais, afônico?

sábado, 27 de setembro de 2008

A primavera, enfim, chegou


Nas tardes ensolaradas da estação, as flores tornam-se mais coloridas e exuberantes. Basta ter um mínimo de sensibilidade para notá-las.

Estava ansioso por sua chegada. E ela não me decepcionou. É a estação mais alegre do ano. Nem quente. Nem fria. Suas tardes ensolaradas enchem de vida a paisagem e as pessoas. As flores recepcionam mesmo sem muitos notar sua presença. Elas são delicadas e rústicas. Têm cheiro suave e forte. As formas parecem desenhadas. Tudo depende da sua variedade.

Ah! as flores são realmente magníficas. Elas têm o poder de levantar o astral de quem quer que seja. Basta ter um mínimo de sensibilidade para notá-las. Pena que são muitos e muitas os insensíveis. Na primavera, elas parecem mais bonitas, têm as cores realçadas e um brilho próprio para saudar a estação. Reparem como as flores são belas.

As gérberas ostentam muitas variedades. Cor de rosa, alaranjada, vermelha, amarela. Muitas variam as tonalidades de uma mesma cor. Elas até parecem competir entre si. Marta, minha mulher, gosta muito de gérberas. Toda semana compra um vaso e depois que as flores se vão, ela planta no chão. O canteiro em frente a nossa casa tem muitas delas. Quando abrem todas de uma vez, é um show. Da natureza.

Aliás, a natureza dá muitos shows. Lembro que eu e Marta costumávamos namorar sob um caramanchão de alamanda roxa. Na casa dela, esse era um espaço privilegiado. O banco de madeira embaixo da trepadeira assumia uma condição de realeza; tornava-se imponente, principalmente, no final da tarde quando o sol rasgava a escuridão da folhagem densa. Sinto até hoje o aconchego daquele lugar, infelizmente, derrubado depois que a casa foi vendida e deu espaço a um monte de lojinhas. O terreno é bem grande.

Bem, a vida anda. Se para trás ou para frente depende da posição em que se está. O fato é que recordar não faz mal algum. Por isso, lembro-me das flores que a dona Altiva, minha finada sogra, cultivava na época do meu namoro com Marta. Cultivava sim, porque ela ficou doente e viveu muito tempo sem se dedicar às flores.

A vida tem das suas. Uma doença crônica-degenerativa tirou a sua capacidade física. Os movimentos são sincronizavam com a vontade de dona Altiva. Antes da doença, ela mantinha canteiros celestiais. Ao lado da casa, num longo corredor, ela dava vida a tulipas, rosas, lírios da paz, orquídeas e muitas outras. Era prazeroso andar – e namorar – naquele corredor.

Na frente da casa, dona Altiva plantou dois hibiscos, um vermelho e um rosa; e um manacá-da-serra branco. Depois de formadas, as árvores deram flores em apenas uma primavera. Na seguinte já não existiam mais. Aquele empreiteiro as arrancou para o estacionamento do monte de lojinhas. E a primeira florada de cada uma daquelas árvores ficou gravada numa fotografia e na minha memória.

E por falar em memória. Lembro-me de uma situação engraçada. Fazia um ano de casamento com Marta e passei numa floricultura. Comprei um ramalhete de flores com rosas, flores do campo, margaridas, folhagens e dei, na hora do almoço, para Marta. Ela abraçou o ramalhete com doçura, mas algo aconteceu. No meio das flores uma abelha europa. Marta foi picada e descobrimos que ela é alérgica. Passou dois dias no hospital. E as flores que recebia? Ficavam na recepção. Por um bom tempo, Marta não quis receber flores.

Realmente, a primavera dispara o gatilho de muitas lembranças minhas. Gosto de lembrar e reviver cada momento desse, principalmente, agora nesta etapa da vida. Perder a visão num acidente de carro é uma conseqüência grave e, às vezes, revoltante. Não estava errado. Respeitava todas as regras do trânsito. E aquele cara embriagado tinha de invadir a pista contrária.

Aquele motorista morreu. Me contaram que no enterro, meia dúzia de amigos apareceu. Nem uma flor, ele recebeu. Bem, pelo menos eu sobrevivi e, hoje, me adapto a muitas novas situações. Relembrar as flores da primavera é um exercício muito interessante. Parece que recordo de detalhes que não dava valor à época. Posso não ver mais o branco daquele ipê florido na praça, mas consigo sentir o sol entre os galhos e o cheiro da estação. Ah! o cheiro da primavera. Mas esse é tema para outras histórias.

sábado, 20 de setembro de 2008

Que fatalidade!


Francisco defende a estratégia da polícia para conter os marginais. Tática atacada por César que afirma que a polícia não sabe fazer abordagem sem colocar inocentes em risco.

No bar de sempre, naquela esquina, César e Francisco se encontram. Sentam-se à mesa de sempre e começam a jogar conversar fora. Como sempre. Eles são amigos há muito tempo e apreciam um bom debate. Argumentos não faltam. Exaltação também não. Os freqüentadores do estabelecimento já os conhecem. Vez e outra, alguém entra na querela, que nunca tem um vencedor. O prazer é (de)bater.

César conta ao amigo um episódio. Segundo ele, era um sábado por volta das 22h30 e junto com a família cruzava, de carro, a avenida Juscelino Kubitschek com a rua Professor João Cândido, na área central da cidade. César disse que percebeu uma abordagem policial. Conforme ele, havia uma viatura do Choque atravessada na pista e policiais – com arma em punho e ar de autoridade máxima – encurralavam um adolescente próximo à calçada.

César disse que parou o carro no meio da pista após ter ouvido um tiro. Segundos depois, César disse ter visto um motorista na pista contrária atropelar uma motocicleta com dois adolescentes, que tentaram fugir a pé e que também viu dois policiais correndo atrás deles. Um arrastava a barriga. César deduziu que a polícia atirou na tentativa de conter os elementos.

“__Um tiro em pleno centro da cidade. Isso é um absurdo!”, afirmou César a Francisco.
“__Não é um absurdo. É um procedimento da polícia para fazer os criminosos pararem e se entregarem”, ensinou candidamente Francisco a César.
“__Tiro pra fazer criminoso parar? Isso não existe!”
“__Claro que existe. É um procedimento normal dos policiais.”
“__E se os bandidos tivessem armados e revidassem? Ia virar um tiroteio no centro da cidade.”


A essa altura, os freqüentadores do bar já haviam se posicionado para melhor acompanhar o (de)bate.

“__É isso mesmo. A polícia atira pra cima e os criminosos param pra efetivação do flagrante!”
“__Francisco, isso não é abordagem que polícia decente faça. Faltam estratégias, faltam táticas.”
“__O que você queria, César? Que a polícia parasse, pedisse licença aos criminosos e dissesse ‘por obséquio, vocês podem me acompanhar ao distrito policial mais próximo’?”
“__Não! Eu queria mais inteligência. Já pensou se começasse um tiroteio e uma bala acertasse minha mulher, meu filho? Ainda iam dizer que era bala perdida.”
“__Quando a polícia atira pra cima, o criminoso tem que parar”
, repetiu entredentes Francisco ao amigo.
“__Mas eu poderia ter levado um tiro. Isso seria fatalidade?”, perguntou César.
“__Ah tá! Então o que você faria?”
“__Precisa ter tática. A polícia tem que ter uma estratégia pra fazer a abordagem. Se no local e no momento tinha muita gente, a polícia tinha que vigiar os suspeitos e só abordar com segurança às demais pessoas. Numa perseguição, a polícia tem que avaliar a rota dos suspeitos, ter outras viaturas de suporte pra interceptá-los e não colocar a segurança dos outros em risco.”
“__Mas isso é demais. Não é assim que funciona...”


Francisco é interrompido. Neste momento, uma grande confusão se forma em frente ao bar. Ouve-se cantadas de pneus, freadas bruscas e estampidos. Muitos estampidos. Passam em frente ao bar, um carro turbinado e várias viaturas do Choque atrás. Elementos e fardas para fora da janela. Balas violentas. No bar, todo mundo apavorado. César se joga ao chão ao lado de Francisco e vê o amigo com a cabeça envolta em uma poça de sangue. César atordoado pensa.

“__Que fatalidade!”

Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina em 21 de novembro de 2007.

sábado, 13 de setembro de 2008

Rosas vermelhas


Ele jurou ser eterno, dedicar-se, respeitar-me. Rosas vermelhas eram a sua marca para o nosso amor. As coisas sempre mudam e não foi diferente comigo. Infelizmente.

Ele sempre foi muito romântico. Desde o início do namoro, me mandava flores. Rosas vermelhas eram as minhas preferidas. Romantismo. Dedicação. Respeito. Cumplicidade. Nossa relação era marcada por sentimentos mútuos. Mas algo começava a incomodar. Os ciúmes. Até era gostoso, mas – às vezes – tornava-se sufocante. Quando se está apaixonada a gente releva muita coisa.

Depois de um tempo de namoro, tivemos uma crise. Um dia, depois do trabalho – ele não gostava que eu trabalhasse e aceitava com visível resistência – eu saí com umas amigas e fomos a um barzinho. Ele acabou me achando e deu uma baixaria sem tamanho. Ofendeu-me e agrediu verbalmente minhas amigas. Para mim era o fim do romance.

No outro dia, recebi no trabalho várias dúzias de rosas vermelhas. O entregador fez muitas viagens até depositar todas as flores. Sedutoramente ele escreveu. “Peço perdão por ter perdido a cabeça ontem. A sua imagem naquele bar mexeu com o meu mais profundo sentimento. O amor. Perdoe-me porque isso não vai se repetir.” Aquelas palavras me reconquistaram.

Durante alguns meses nosso namoro correu normalmente, mas minhas amigas – hoje percebo – se afastaram silenciosamente. Ele estava a cada dia mais romântico. Juras eternas. As rosas vermelhas. Fazia apaixonar-me a cada dia. Os presentes. Me conquistava a cada jantar. Marcamos o casamento. Minhas amigas, hoje percebo, ostentavam um ar de apreensão.

O casamento e a lua-de-mel foram magníficos. Viagem. Praia. Hotel cinco estrelas. Algum tempo depois do casamento, ele proibiu-me de trabalhar. Argumentei que não pararia, que era a minha vida profissional. Algo surpreendente aconteceu. Ele me bateu e disse que eu devia respeito a ele. Não o reconheci. Chorei compulsivamente. Horas depois, ele apareceu em casa com um buquê de rosas vermelhas e uma caixa de bombom. Os meus preferidos.

Pediu-me perdão e jurou que jamais faria aquilo de novo. Ele disse que atravessava problemas com o sócio da empresa e que perdera o controle da situação, descontando em mim. “Isso nunca mais vai se repetir, meu amor. Enquanto eu viver, me dedicarei a amá-la e respeitá-la. Me perdoe.” Aquilo soou tranqüilo. Ele me prometeu que não implicaria mais com o meu trabalho.

Marquei no dia seguinte com minhas amigas, que não via há algum tempo, de ir a um bar. Ele concordou e disse que iria junto. Fiquei surpresa. Fiz uma maquiagem para esconder os hematomas. Elas estranharam porque nunca uso maquiagem pesada. Será que perceberam alguma coisa? Foi um encontro muito estranho. A conversa não fluía. Parecia que queriam dizer algo, mas as palavras não saíam.

Chegamos em casa e o telefone tocou. Era uma das amigas. Ela disse que achava que estava acontecendo alguma coisa. Perguntou como estava o meu casamento. Disse que estava muito preocupada comigo. Falei que estava tudo bem que era uma cisma boba. Desliguei o telefone e me arrumei para dormir. Quando estava deitada, ele queria. Disse que não estava bem, mas não adiantou. Foi horrível. Durante o ato vi, em flashback, o que tinha se tornado a minha vida. Um inferno.

Ele demonstrava a cada dia mais ciúmes. Não saía mais com minhas amigas e eu vivia apreensiva com o que podia acontecer. É horrível viver assim. Até que um dia, fomos a um médico e a notícia. Estava grávida. Fiquei feliz, ele disfarçou felicidade. Era de risco. Tive de abandonar o trabalho e fiquei mais sozinha que nunca. Minha família via que não ia bem, mas disfarçava o tempo todo. Pensei que com um filho a situação melhoraria. Piorou.

Os dias foram passando, meu filho crescendo e eu agredida física e verbalmente. A cada acontecimento, juras de que nunca mais se repetiria. Depois da agressão, ele se tornava carinhoso, romântico, dedicado. Era o melhor homem do mundo. Vivíamos no paraíso. Era passageiro. Uma nova agressão. Tudo se repetia. Eu rezava toda noite para ele mudar.

Percebi de vez a violência que sofria quando meu filho, de apenas 5 anos, me surpreendeu. “Não desliga a TV, sua vagabunda.” Fui violentada mais uma vez e da pior forma. Aí me dei conta que tudo aquilo precisava acabar. Não seria mais cúmplice. Eu era a vítima. Ser chamada de vagabunda pelo próprio filho dói mais que mil tapas do marido. A dor é na alma.

Peguei o menino, fui para a casa dos meus pais. Contei tudo. Espantosamente, eles disseram que sabiam o que acontecia. Morri de vergonha. Pensei nas minhas amigas e nos meus vizinhos. O olhar de todos era um olhar de quem sabia da situação. Meu pai levou-me à Delegacia da Mulher e registrei queixa.

Estou melhor. Voltei a trabalhar. O inferno acabou. Pelo menos parecia ter acabado. Ele foi ao meu trabalho. Disparou três vezes. Não me lembro de muita coisa. Foi preso em flagrante e aguarda julgamento. Será condenado. Me recupero das balas. Meu filho tornou-se meu mais forte aliado.

Vivo um dia de cada vez e luto para que seja melhor e mais feliz que o de ontem. As balas não deixaram seqüelas, mas as marcas da violência estão gravadas na minha alma. É uma dor que você aprende a conviver. É uma luta para recuperar a auto-estima, a auto-confiança. Não me envolvi novamente. Rosas vermelhas me assustam até hoje.

sábado, 6 de setembro de 2008

Aparência e preconceito


Boaventura é um juiz bem sucedido e respeitado. Ele acredita que para vencer basta determinação e força de vontade. “Se não há oportunidade, quem quer cava uma.”

BoaVentura é um respeitado juiz. Ele exerce a função há muitos anos e é admirado pela forma com que conduz o seu trabalho. É sempre elogiado por colegas de magistratura, promotores públicos, imprensa e – até mesmo – por aqueles a quem já julgou e foi alvo de suas sentenças.

O juiz tem opinião formada sobre tudo. E um dos temas que mais gosta de debater é o racismo. O magistrado alega que não existe preconceito racial, que todos convivem harmonicamente e que a miscigenação é a prova maior da convivência social pacífica.

BoaVentura orgulha-se em dizer que tudo é uma questão de determinação e de força de vontade. Ele usa seu próprio exemplo para argumentar sobre os propósitos pessoais como fator determinante de conquista, de realização pessoal e profissional.

“__Eu mesmo. Vim de uma família humilde. Meus pais eram agricultores semi-alfabetizados. Estudei muito, consegui me formar em Direito, passei no concurso para juiz. Quem tem força de vontade vence. Independente da cor da pele”, costuma repetir o magistrado. No contraponto, ele cita uma de suas funcionárias domésticas, a afro-descendente Cleide. “Ela poderia ter tido um futuro melhor, mas faltou esforço”, sentencia.

Em sua convicção, o magistrado diz que, portanto, a discriminação racial – ou seja, o exercício prático do preconceito – não existe. Que tudo não passa de uma questão de capacidade pessoal. “__Ora! Se fulano [que é branco] conseguiu a vaga é porque está melhor capacitado; porque se preparou mais e porque tem mais condições para exercer satisfatoriamente a função para qual foi escolhido.”

Isto é, tudo volta ao início: a determinação pessoal. Nem passa pela cabeça do magistrado que determinação e força de vontade também dependem de outro fator: oportunidade. “__Se não há oportunidade, quem quer cava uma.” Outra situação que BoaVentura rechaça é a relação violência e raça. Para ele, o aumento da violência está relacionado apenas à pobreza, independentemente, da cor da pele.

Taí uma questão, BoaVentura não questiona o aumento da violência. Ele
reconhece que esta ultrapassou todos os limites, incluindo geográficos. Afinal, anda morrendo gente até no centro da cidade; problema antes restrito à periferia e aos pobres. Por isso, o juiz defende o armamento da população. E como juiz, tem garantida a sua arma, devidamente registrada. “__Para proteção pessoal. Afinal a cidade vive um clima de pânico, de insegurança. As pessoas precisam se defender.”

Mais um dia de trabalho se vai. BoaVentura se dirige ao estacionamento do fórum. São 19h30, já está escuro e a iluminação é precária. O vigilante da noite – na troca de turno – ainda não se apresentou. Ele está sozinho no local, quando percebe três jovens alguns metros atrás. O juiz entra rapidamente em seu carro, tranca a porta e leva – automaticamente – a mão ao porta-luvas.

Neste instante um dos jovens bate à janela do carro. Numa reação instintiva, BoaVentura abre a porta e dispara três vezes. Assustados, os outros dois jovens permanecem paralisados. BoaVentura sai com o carro em alta velocidade e liga para a polícia, contando o acontecimento.

No dia seguinte, BoaVentura está na mesa do café da manhã. Ele foi acalmado pela mulher, Mathylda, que durante a noite o justificou pelo acontecido. Na mesa farta, o casal recebe um telefonema. Do outro lado, a funcionária da casa, Cleide. “__Dona Mathylda, não posso ir ao serviço hoje. Estou no hospital. Meu filho levou um tiro ontem lá perto do fórum. E a gente nem sabe quem foi.”

Crônica publicada originalmente no Jornal Folha de Londrina de 23 de abril de 2008.

sábado, 30 de agosto de 2008

Quando setembro chegar


Este é um dos meus meses preferidos por ser movimentado e colorido. Movimentado porque tem conscientização pra tudo. Colorido porque marca o início da primavera.

Pego emprestado do compositor uns versos e canto diferente para um mês que promete muitas coisas. “Quando setembro chegar / eu quero estar junto a ti.” Setembro é realmente um mês muito especial. Ele marca o início da primavera, no dia 23, em todo o hemisfério sul. É um mês especial porque traz o colorido das flores. Ah! as flores são muito especiais. O vermelho da rosa fica mais intenso. O laranja da gérbera reflete mais luz. O violeta de algumas orquídeas é, ao mesmo tempo, sóbrio e fashion. O branco dos lírios traduz a singularidade da estação.

E setembro é mesmo um mês bastante movimentado. De muita conscientização. É nele que se comemora o Dia da Árvore. Precisamos de um dia, às vezes, uma semana, para nos darmos conta que devemos proteger nossas árvores. Por que? Porque nossos antepassados passaram a serra em centenárias perobas, jacarandás, jequitibás, cedros, carvalhos e muitas outras. Isso era sinônimo de progresso, de evolução, de desenvolvimento. Talvez, por isso, precisamos ter um dia para lembrarmos que a árvore é necessária à sobrevivência de seres (ditos) racionais e irracionais.

E por falar de semana, setembro é pródigo em semanas nacionais e municipais. Vou citar apenas três exemplos. Primeiro, a Semana Nacional de Doação de Órgãos, organizada pelo Ministério da Saúde. Você acredita que se investe dinheiro público para incentivar cristãos – a maioria dos brasileiros – a serem realmente cristãos? Incentivar o ser humano a ser humano? Pais, por exemplo, que perdem um filho num acidente podem doar os órgãos e salvar uma, duas, várias vidas. Dor é dor e dói mesmo. E o filho já se foi. Não está mais aqui. Aí fazem a doação não para salvar uma vida – aquela que espera até anos numa fila – mas para que quem morreu continue de alguma forma vivendo. É realmente difícil lidar com a morte.

Mas o mais curioso mesmo é gastar recurso público para educar adulto mal educado. Este é o segundo exemplo. A Semana Nacional de Trânsito, uma iniciativa do Ministério dos Transpoortes. Você já viu quantas campanhas educativas para o trânsito? Se realmente campanha educasse ninguém morreria de acidente de carro, ônibus, moto, bicicleta... Dizem que educar adulto mal educado só pelo bolso mesmo. Então não é uma medida educativa. É uma medida coercitiva. E necessária.

O motorista sabe que não pode avançar sinal. E se multado, reclama porque não foi avisado antes. O motorista sabe que não pode fazer conversão proibida, andar na contramão, parar na faixa de pedestre, andar acima da velocidade permitida, estacionar em local proibido. Se é multado, diz que tem indústria da multa. E se tem indústria da multa é porque existe a fábrica da infração. Ação e reação. E beber e dirigir? O motorista enche o caneco, arrebenta-se num poste e lá vai o Siate gastar o nosso dinheiro público. Tudo bem! a Constituição manda. Então que gastemos o nosso dinheiro do jeito que a sociedade quer.

Ah! o terceiro exemplo de setembro é local. A Semana Municipal da Paz, que neste ano está na oitava edição. Muito interessante isso, mas confesso que não entendi direito. Paz? Qual o conceito de paz? O da não violência? Então se não sou violento, sou adepto da paz? E aquela passeata em que todo mundo de branco pede paz! Pedir para quem? Para os bandidos? Para o poder público? Para o vizinho, que nem sabemos o nome? Para nós mesmos?

Paz. Paz. Paz. Isso é o que mais quero atualmente. Confesso que estou um pouco amarga – ácida até – mas é que não me deixam em paz. Me chamam de praga, querem até me exterminar. Vida de abelha arapuá não é fácil, não. Sou um inseto nativo que nem ferrão tem. Sou inofensiva porque não produzo veneno. Posso incomodar? Sim. Afinal devastaram – sabe aqueles antepassados? – minhas áreas nativas e, para sobreviver, preciso atacar com as armas que tenho. Flores, em especial algumas frutíferas, estão entre as minhas preferidas. Posso até fazer algum estrago, mas não é proposital. E, decididamente, cumpro um papel importante na polinização. Causar estrago também faz parte da minha natureza, assim como a natureza humana nem sempre é tão humana.

sábado, 23 de agosto de 2008

Um sorrisinho amarelo


Quem nunca viveu situações que vão do engraçado ao constrangedor? Pois é, a vida reserva muitas situações dessas. O melhor é rir e fazer disso uma boa piada.

Bola fora. Cara no chão. Sorriso amarelo. Cara de paisagem. Às vezes, a gente fica procurando um buraco para entrar e sair de lá só a hora que todos forem embora. E eu tinha que abrir a minha boca, né. Ô situação! Já que a vida reserva algumas dessas, vamos aproveitar e transformar tudo numa piada. Muitos vão até achar você criativo e duvidar se realmente a situação aconteceu.

Maria era colega de turma na faculdade. Dessas que adota a turma depois de reprovar numa disciplina pré-requisito. Acho que as faculdades, hoje, aboliram isso. Você só podia fazer a disciplina 2, se tivesse aprovado na 1 e assim por diante. Bem, enfim... Maria acabou se formando conosco, mesmo não sendo do grupo original. Na formatura ostentava um barrigão. Terceira gravidez. Discursos e serpentina marcaram aquele dia emocionante. Fui até o primeiro da turma. Bem, enfim... passados alguns meses, vi Maria na rua e fui sorridente cumprimentá-la. Depois de um tempo, trocando informações, todo solícito coloquei a mão sobre a sua barriga. “__E o bebê quando vai nascer?” “__Nasceu já faz quatro meses.” Podia ter dormido sem essa, mas a barriga era tão grande...

Constrangimento eu passei mesmo foi em outra situação. Lurdinha, a minha mulher, queria muito reproduzir, gerar. Fazia um ano que tentávamos e nada. Aí só restavam os exames. Os meus. Os delas. Tem situação mais constrangedora que coletar esperma num vidrinho? É, existem outras sim. Coletar fezes também não é uma situação, digamos glamurosa. Bem, enfim... Marquei com o doutor Américo, que nunca atende na hora marcada, mas estava eu lá. Aflito na recepção. Parecia que todos riam da situação e eu suava frio. “__Reginaldo Aparecido!” Aquilo soou como uma bigorna trilitando na minha cabeça. Quis fazer de conta que não era comigo, mas a atendente parecia um xerife. “__Sou eu”, admiti desconsertado.

Peguei o recipiente e fui orientado a me dirigir à sala de coleta do material. Pasmem! Na porta da sala uma placa escandalosa escrita em letras gigantes. “Sala de Coleta de Esperma”. E pior, a sala é do lado do banheiro e de frente para a recepção, que naquele dia tinha umas 17 pessoas. É que o doutor Américo aluga o prédio para uma equipe de cardiologistas. Isso ajuda a diminuir os custos. Bem, enfim... Entrei na sala de coleta e, num dos cantos, umas playboys. Não tinha cristo que dava jeito. Tentei pensar até na Catherine Zeta-Jones. Eu fantasiado de Zorro. Mas nada. E o pior, era sair dali com o recipiente vazio. Fazia meia hora que estava na sala e não tinha coragem de sair. E a atendente bateu na porta. “__Seu Reginaldo Aparecido, tudo bem?” E a sacana ainda grita meu nome pra todo mundo ouvir.

E por falar em médico, êta racinha essa! Eu só queria uma consultinha para um problema de coluna que carrego faz tempo. Fui à lista do convênio e peguei todos os nomes. Primeira ligação. “__O doutor é especialista em pés.” Segunda ligação. “__O doutor é cirurgião e só opera calcanhar.” Terceira ligação. “__O doutor é especialista em mãos.” Eu só queria um ortopedista. Essa medicina é tão boa que não vê mais o ser humano como um ser integral. Me viam ora como um pé, ora como uma mão, ora como um calcanhar.

Bem, enfim... já não agüentava de dor quando um amigo no escritório deu o telefone do ortopedista dele. E a gente ainda insiste em chamar assim. O meu médico disso. O meu médico daquilo. Se fossem, atenderiam. Bem, enfim... liguei pela quarta vez. “__O senhor já é paciente?” Àquela altura já tinha perdido a paciência. “__Não.” “__Pois é, o doutor só atende joelhos.” “__Moça, meu problema é coluna, mas não tem problema, eu levo os joelhos na consulta.” Não teve jeito. Acabei numa crise de coluna e fui atendido num pronto-socorro.

Felizmente, essas coisas não acontecem só comigo. Tenho um colega no escritório que se meteu numa. O cara é solteiro e diz que gosta de pegar todas. Não perdoa mesmo. Um dia desses, conheceu uma mina. Papo vai. Papo vem. Tudo quase acertado para o motel, quando chega o namorado dela. Ele tenta sair de mansinho, mas a gata pede para ele ficar, que o namorado não é ciumento, que os dois estão buscando um terceiro para uma noite quente. Armando nem considerou a idéia, mas a gata era realmente gata e pedia com tamanha docilidade que Armando ficou desarmado.

Bem, enfim... Armando acabou convencido, desde que o namorado da gata não chegasse perto dele. Armando é macho e a mina uma gata gostosa. Ele contou que foram para o motel, que foi uma loucura, mas – a certa altura – bebeu tanto que apagou. Acordou sozinho e um recado na cabeceira. “__Valeu gatinho. Achamos você lindo e fizemos muitas fotos suas. Espere que elas serão postadas num blog nosso. Pesquise 'garanhão duplo' no Google.” Rapaz, o Armando surtou...

E por falar em surtar, a Lurdinha tem uma tia que vou contar, hein. Todo mundo tem uma tia, daquelas que falam de tudo e de todos. Mas vocês não conhecem a tia da Lurdinha. Essa ganha. Outro dia ela se meteu numa confusão! Estava fazendo a limpeza do altar da igreja, quando um homem entrou. Ela falou um monte de impropérios e botou o coitado pra correr. Disse que fazia isso porque a igreja deveria estar arrumadinha para a missa de logo mais. A de apresentação do novo padre. O coitado tentou argumentar, mas não adiantou. Teve de deixar a igreja. E durante a missa da noite, a tia da Lurdinha quase teve ataque cardíaco. É que ela reconheceu no novo padre, o homem que tinha botado para fora da igreja. Bem, enfim...

sábado, 16 de agosto de 2008

Esse meu mau humor!



Situações irritantes existem aos montes. Uma que me deixa bravo são perguntas idiotas. Tolerância zero. Dou respostas à altura.


Meu nome é Mário e não me venham com aquela piada infame do armário. Desde criança eu ouço essa e é irritante. Talvez isso tenha contribuído para formar um mau humor crônico na minha pessoa. Como tolero muito pouco algumas situações ainda têm aqueles que, depois de respostas à altura para perguntas idiotas, me mandam procurar um médico. “__A agressividade ainda vai matar você, Mário.”

Tudo bem!... eu vi num telejornal dia desses uma matéria sobre pessoas estressadas e que o mau humorado teria mais chances de sofrer um ataque cardíaco. Duvido! Na minha humilde opinião, só tem ataque cardíaco o mau humorado que não exerce seu mau humor. É por isso que não tolero determinadas situações.

E elas pioram quando a conversa é pelo telefone. Não tem coisa mais irritante que gente desavisada do outro lado da linha. Exemplos? Não faltam. Outro dia, me ligou uma atendente de uma operadora de celular no meu celular e perguntou se eu tinha celular. Disse que não, que estava falando de um orelhão e que não tinha interesse no serviço. Desliguei. Minha mulher – a Rita – me repreendeu. “__Ela só está fazendo o serviço dela!” “__Então que faça bem feito”, devolvi. “__Nossa! como você é mau humorado, Mário.”

Outro exemplo de pergunta idiota ao telefone? Cheguei ao trabalho, sentei-me à mesa e o telefone. “__Trrrrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiin!” “__Gerência de Mercados; Mário. Bom dia!” “__Quem fala?”, perguntou do outro lado. Se eu já tinha dito Mário, por que o infeliz perguntou meu nome? Quase respondi “__Dunha, aquele que raspou seu (bip) coa unha.” Desta vez, engoli seco e falei meu nome. “M...á...r...i...o!” E a conversa deslanchou.

Nem sempre ela deslancha. Os procedimentos de serviço de telemarketing são de enlouquecer qualquer ser bem humorado, imagine então um mau humorado por natureza. Minha TV a cabo deu um probleminha simples e liguei para o 0800. “__A empresa FulaNEP agradece a sua ligação.” Começou bem! você já viu empresa agradecer? Quem agradece é a pessoa, o tal do componente humano.

Isso me lembra aquelas placas horrorosas em obras. “Desculpe o transtorno. Estamos trabalhando para melhor atendê-lo.” Num shopping eu vi essa placa e fui à gerência. “__Por favor, o Seo Transtorno está?” “__Como?”, perguntou a secretária com cara de mesa de escritório. “__É que eu vi na placa da ampliação do shopping que é para desculpar o transtorno. Quando você encontrá-lo diga que o Mário esteve aqui para desculpá-lo". “__Mário? Que Mário...” Virei as costas e saí. Infelizmente não tinha na sala nenhum armário.

Voltando ao 0800 da FulaNEP, a gravação continuava. “__Para contratar serviços, clique um. Para reparos, clique 2. Para faturas fechadas, clique 3. Para novos lançamentos, clique 4. Para cancelamento de serviços, clique 5. Para reclamações, clique 6. Para sugestões, clique 7. Para elogios, clique 8. Para conversar com um de nossos atendentes, clique 9.” Só faltou – para repetir tudo de novo, clique 10. Ninguém agüenta! Desliguei o telefone e fui procurar o Procon. E não é que o 151 não atende! E depois eu que sou mau humorado.

E aquele amigo deprimido que volta e meia liga para a sua casa, geralmente, às duas da manhã. Aí você levanta no escuro, sai tropeçando no chinelo, acende a luz e lembra que se esqueceu de trocar a lâmpada, quase bate a cara na porta e o telefone insistindo... Lá no sétimo toque, você consegue atender com aquela voz pastosa e o amigo deprimido dispara. “__Oi Mário, você estava dormindo?” “__Não, fiquei acordado sentado na beirada da cama porque sabia que você ia me ligar pra fazer terapia.” E depois eu que sou mau humorado.

A Rita também é campeã em fazer esses tipos de perguntas. Depois de um dia de trabalho em que nada dá certo, você pega um trânsito de mais de uma hora, passa na padaria do lerdo e leva 21 minutos e 10 segundos para comprar três pães, 200 gramas de mortadela, 200 gramas de queijo e dois litros de leite, finalmente chega em casa. O telefone toca e nem abri a porta ainda. Ao tentar fazer isso com a compra da padaria e a pasta cheia de trabalho, quase tudo vai ao chão. Você corre e atende ao telefone lá pelo oitavo toque. “__Nossa amor, você já chegou?” “__Não Rita, é meu corpo astral. O corpo físico ainda está a cinco quadras de casa.” E depois eu que sou mau humorado.