sábado, 26 de abril de 2008

Lembranças silenciosas


Um zumbido rasga o silêncio da casa. De repente, estou no meu aniversário de 5 anos ganhando o Falcon Piloto, o boneco que eu mais gostava do Comandos em Ação.


Sentado no sofá, já algum tempo, não me concentro em nenhum pensamento. Aliás esse sofá me acompanha a vida toda. Meus pais compraram no ano em que nasci, 20 anos atrás. O clima está agradável. Lembra aquelas tardes de outono. Nem quentes nem frias. Você sai de jaqueta no sol e esquenta muito; vai pra sombra e esfria demais. A família está dispersa pela casa. Meu pai, na garagem, mexe no Chevette 77. Minha mãe, na cozinha, faz bolinho de chuva. Meu irmão, Guto, um moleque de 11, brinca no quintal de mocinho com nosso primo, Jean, também de 11, que faz o bandido. Na TV, nada de atrativo. Brinco com o controle remoto que, nervoso, responde aos meus comandos.




Um zumbido rasga o silêncio por uns instantes. Depois a casa mergulha num silêncio ainda maior. Começo a ouvir vozes e, de repente, me vejo no meu aniversário de 5 anos. Inesquecível. É assim que sempre vou me referir àquela data. Meu pai, com muito esforço, me deu de presente um boneco do Comandos em Ação. Ai que alegria! De todos eles, o Falcon Piloto era o meu preferido. E continua sendo. Não contem pra ninguém, mas eu tenho até hoje. Quero dar para meu filho. É! mas vai demorar ainda. Sou muito jovem.


E por falar em dar para o filho, eu guardo até hoje a coleção de figurinhas da Copa de 1994, realizada nos Estados Unidos. É até engraçado. Os Estados Unidos sem tradição alguma de futebol sediaram uma Copa do Mundo. Pelo menos o Brasil ganhou, um país de tradição no esporte. Não consegui completar o albinho inteiro, mas os jogadores campeões - claro os brasileiros - e os vice-campeões - claro os italianos - estão completos. O Taffarel estava um monstro, mas melhor mesmo foi ver o Roberto Baggio chutar - para fora - e ficar com aquela carinha de italiano que caiu da mudança.


Mudança. Essa situação já me pegou algumas vezes. A casa que a gente mora hoje é a quarta da minha vida. E a de maior tempo. Não me lembro muito das outras, mas uma não sai das minhas lembranças. Era uma casa de madeira pintada de amarelo com uma varanda na frente, que a molecada da rua usava para jogar bafo. Perdi e ganhei muitas figurinhas. Tinha uma cadeira que era do meu vô. Nessa época ele morava com a gente, numa casa dos fundos. Ninguém sentava na cadeira dele que era de cordão de plástico verde. Quando ele sentava na cadeira sem camisa, saía com as costas marcadas na horizontal. E a molecada zoava meu vô. Claro que depois que ele já tinha ido.


Costas marcadas. Isso lembra que eu vivia ralado. Era tombo de bicicleta. Era tombo de árvore. Era tombo de cima do muro pra pegar pipa pendurada no telhado. Teve uma vez que escapei por pouco de uma pipa envenenada. Os moleques de cima viviam implicando com a gente e passavam cerol na linha. Essa mistura de cola e vidro moído já fez muita vítima. A dona Terezinha, que tinha um carrinho na frente do colégio, quase morreu. Ela não percebeu uma linha caída perto do portão e enroscou no pescoço. Foi por pouco. Hoje ela não está mais viva. Foi câncer.


Êta doença triste. Tem gente que nem gosta de falar o nome; fala "aquela doença". Lembro o dia que meu vô descobriu que minha vó tinha câncer de mama. Eu entendo essas coisas somente hoje. Meu vô nunca soube que eu vi, pela janela, ele chorando no quarto com um vestido da minha vó na mão. Ela estava internada e quando descobriram não tinha muito que fazer. Nunca tinha visto meu vô chorando. Ele era um homem grande, forte. Me deu uma pena dele! Foi naquele dia que descobri que as pessoas morrem.


Não que eu nunca tivesse perdido ninguém. Eu tinha um cachorro, o Lulu. Era um vira-lata. Muito charmoso. Dava em cima de todas as cachorras - as de quatro patas - da rua inteirinha. A linhagem dele deve se perpetuar por muitas gerações. Mas o fim do Lulu foi trágico. Ele estava voltando de uma dessas escapadas quando foi atropelado por um caminhão de um depósito de material de construção. Quase pulei no pescoço do motorista. Mas não adiantou. Restou a mim e à molecada da rua - de baixo - fazer o enterro no fundo do quintal, perto de um pé de jabuticaba, que a gente apelidou de Pé do Lulu. Mas isso nem se compara com o enterro da minha vó. Meu vô nunca mais foi o mesmo. Até parou de sentar na cadeira de cordão de plástico verde.


Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmmm! Aquele zumbido voltou. "__Filho, acorda! Acorda! Filho, não morre!" Ouço bem longe a voz da minha mãe desesperada tentando me acordar. Abro os olhos revirando pupilas, íris e córneas. Sinto um aperto enorme no peito. Embaçado vejo uns homens de branco dando choque em mim. Falam que é com um tal de desfibrilador cardíaco.


"__Voltou! Voltou!" , diz um dos homens de branco me colocando numa maca. Consigo ouvir baixinho, antes de sair com a ambulância, a voz lamentosa do meu pai. "__Que que eu tinha que manter em casa aquele revólver! Isso não estava certo."




Nosso primo Jean, que brincava de bandido com meu irmão Guto, pegou uma arma que meu pai tinha na despensa. Ninguém imaginava isso. Sem saber que estava carregada, Jean mirou na minha direção e apertou o gatinho. O zumbido rasgou o silêncio da casa por uns instantes.

sábado, 19 de abril de 2008

Nada além de sonhos


Eles e elas têm muitos sonhos. De crescer. De ter filhos. De ter uma profissão. Será que vão conseguir realizá-los? Esse destino anda mesmo pregando peças.

Camila quer ser veterinária quando crescer. Seu sonho é estudar muito. Muito mesmo. Até fazer Doutorado em Medicina Veterinária. Suas pesquisas pretende direcionar para o estudo das doenças transmitidas dos animais para os seres humanos. Ela acredita que se encontrar respostas para as doenças provocadas pelos animais, pode também encontrar - nos animais - as repostas para muitos outros problemas de saúde do ser humano. É uma hipótese.

Henrique é muito afoito. A adrenalina parece sua substância predileta. Ele quer desafiar a gravidade, testar seus limites, quebrar recordes. Também decidiu o que quer fazer depois de grande. Vai ser um atleta. Seu maior sonho? Representar seu país nas Olimpíadas e, quem sabe, faturar medalhas de ouro e, assim, tornar-se ídolo de toda uma geração, influenciando seu comportamento. Para uma vida saudável, longe das drogas.

Maria sabe que é predestinada. Vai se dedicar ao cultivo da fé. Ela acredita que falta semear amor, solidariedade, união, abnegação, gentileza e outros atributos - que outrora foram mais humanos. Por isso, já se decidiu! Depois de grande, vai ser freira e trabalhar numa ordem de irmãs que se dedicam à proteção e ao cuidado de pessoas. Assim, ela espera com o poder da oração, do amor incondicional e do trabalho voluntário, contribuir para deixar o mundo um pouco melhor.

Gabriel também está decidido. Quer trabalhar com a área da ciência e da tecnologia voltadas para a medicina. Para ele, ambas podem ser usadas para amenizar as dores do mundo. Ele também quer ser médico. Médico de gente. Gabriel diz que não vai medir esforços até descobrir a cura para o câncer. Depois de adulto, vai se dedicar incansavelmente a seus objetivos. Que por ora, são apenas sonhos.

Mariana também alimenta sonhos. Muitos. Ela quer ser empresária. Dessas bem sucedidas que podem interferir no desenvolvimento sócio-econômico de toda uma região. A partir da geração de empregos, ela pretende distribuir riquezas. Pelo menos para o quadro de funcionários do empreendimento que pretende comandar. Para ela, a divisão de lucros para quem ajuda a construir uma fortuna, é mais que uma obrigação moral. É um prazer que deve ser saboreado de forma coletiva.

Juliano não gosta de injustiça e quer lutar contra todas as formas de opressão aos já debilitados. Aqueles que não têm vez, não têm voz numa sociedade consumista e de aparência. Ele deseja brigar pelos marginalizados que nem direito à Justiça têm. Por isso, vai ser advogado e promete atuar em causas populares, em associações que defendem direitos humanos, especialmente, de ribeirinhos, de quilombolas, de atingidos por barragem, de indígenas...

Carolina é sensível, amável e muito gentil. Quer ser enfermeira. Para ela, a medicina cuida muito bem das doenças e, por isso, quer se dedicar aos doentes, principalmente, os que vivem em casa de repouso. Ela pensa em fazer o que muitos filhos não fazem pelos seus velhos, seja lá por qual motivo. Quando fala da enfermagem, ela lembra um guia de profissões, afirmando que observar, cuidar, evoluir o paciente, orientar sobre saúde e medicação, coordenar o trabalho de técnicos estão entre as funções deste profissional.

Bruno também está decidido e sabe que não vai encontrar um cenário fácil, depois de grande. Quer ser professor. Aprender e ensinar são mais que dois verbos. São duas atitudes. Postura de vida que pode levar à transformação. Aliás, ele pretende ser professor para ajudar a transformar. A escola anda desvalorizada; o aprender, desnecessário; o ensinar, desestimulado. Mas ele não teme os desafios e se diz pronto para eles.

Camila. Henrique. Maria. Gabriel. Mariana. Juliano. Carolina. Bruno. Em comum, todos têm sonhos e muita expectativa de vida. Em comum, fazem planos, projetam metas, traçam diretrizes. Em comum, querem viver. E muito. Se vão conseguir realizar seus sonhos? Depende do destino. Este que anda pregando peças. Em comum, Camila, Henrique, Maria, Gabriel, Mariana, Juliano, Carolina, Bruno têm mais uma coisa. Todos são embriões e estão armazenados em um botijão de nitrogênio a quase 200º C negativos, alimentando sonhos. Apenas isso.

sábado, 12 de abril de 2008

Sensações e sensações


Ao mesmo tempo é um sentimento esquisito e bom; de união e de distância; de familiaridade com o desconhecido. E isso não é ruim.

Sensibilidade. Esta é a palavra cujo significado faz diferença hoje. Acordei diferente. Vejo as coisas de um modo que não via antes. Tudo mais sensível, tem um sabor diferente, mas sem perder o bom humor. Em toda a minha vida - e ela não é longa, começou há pouco mais de 19 anos - nunca havia me sentido desse jeito. A respiração é tranqüila e os pensamentos serenos.

E por falar em tranqüilidade, hoje vejo coisas que não costumava reparar. Como as formigas são organizadas! [tudo bem que vida de cigarra é mais atraente] Uma a uma, as formigas levam pra casa muita comida que vai ser estocada. Isso se nenhum moleque resolver inundar o formigueiro. Voltando à serenidade, as flores estão com uma intensidade que parecem refletir a luz do dia. Até parecem uma aquarela. As árvores estão mais verdes e as copas desenham formas geométricas que dançam desengonçadas ao vento. É meio brega falar isso, mas é engraçado - e até emocionante - ver as coisas deste jeito. Nunca tinha visto assim.

Meu coração bate de um jeito intenso. Nunca tinha observado os movimentos dos músculos cardíacos. É assim que muitos médicos gostam de falar. Pra que? Sempre falo "meu coração!" e não "meu músculo cardíaco!". Sabe que a tal diástole realmente dilata, puxando o sangue pra dentro das cavidades. Já a irmã dela, a sístole, se contrai expulsando o sangue das cavidades. Taí Diástole e Sístole. Se não fossem nomes de movimentos do coração, poderiam até ser uma dupla sertaneja. O engraçado é que dá pra perceber esses movimentos - o da dupla sertaneja - pelo barulho que fazem. Como é bom ouvir o barulho do próprio coração! Assim fica melhor. Já pensou falar! "como é bom ouvir o barulho do próprio músculo cardíaco". Argh!

O dia está realmente diferente hoje. Tem alguma coisa acontecendo. Até a sensação da água que bebo ser filtrada no meu corpo tô tendo. Água filtrada? Diretamente do purificator. O mais completo sistema de filtragem de água. É um apelido carinhoso que dei para os rins. Sentir a água sendo filtrada não é muito normal, mas é vital! Ops, não era intenção rimar. Mas enfim... ter os rins [ou melhor o purificator] funcionando - com ou sem rima - é algo realmente importante.

E por falar em importante, bom mesmo é ter o fígado funcionando. E olhe que tem muita gente com problemas hepáticos. Traduzindo, com problema no figo... É uma tristeza! Existem especialistas que afirmam que o fígado tem mais de 500 funções. Só pra citar algumas - até esnobam com palavras pouco usadas - metabolizar vitaminas, filtrar mecanicamente bactérias, desintoxicar toxinas químicas produzidas pelo organismo e desintoxicar toxinas químicas externas. Difícil, né! Mas experimente ter um problema no figo, pra ver.

Enfisema pulmonar? Nunca ouvi falar disso. Aliás, lembro-me de uma campanha contra tabagismo, ou melhor, de combate ao fumo e, por conseqüência, ao fumante. Já reparou que a sociedade defende a inclusão social, mas coitados dos fumantes! verdadeiro segmento em exclusão. Nem salinha pra eles querem mais. Enfim... Graças a Deus, minha saúde sempre foi boa. De problema pulmonar, só resfriado, daqueles bem chatinhos que insistem em pingar pelo nariz. Na falta de lenço, passe a mão em cima dele, de baixo em direção à testa. Aproveite a mesma mão e dê uma arrumadinha no cabelo. Que nojo!

É! o dia está realmente estranho. Aconteceram coisas estranhas. Vi, senti, filtrei, metabolizei, respirei coisas que nem sabia que existiam. Ou não me dava conta que existiam. Está tudo ligado, mas ao mesmo tempo parece dividido. É muita sensação. Ao mesmo tempo, de união e de distância. Familiaridade com o desconhecido. E isso não é ruim.

Lembrei!

Esperaí; lembrei. É isso! Estava de moto naquela avenida [tudo bem, velocidade acima do permitido]... O capacete? No cotovelo [Óh! ingrato costume]. Sei que atravessei a avenida - o sinal estava aberto pra mim - mas aquela caminhonete tinha que aparecer daquele jeito. Não vi mais nada. Acordei agora com todas essas sensações. Esquisitas e boas. Bendita hora que falei pro meu pai que eu era doador de órgãos.