sábado, 24 de maio de 2008

Lingüiça com ervas


Eu, a Conceição, a Celeste e a Dália vamos preparar uma receita deliciosa. A Celeste aprendeu com a mãe dela, a dona Celestina, que aprendeu com a mãe dela também.

O dia está muito bonito hoje e, por isso, vou sair para ver umas amigas. Faz tempo que não vejo a Conceição, a Celeste e a Dália. Ainda bem que elas moram perto uma das outras e posso visitar todas de uma vez. Hoje vamos fazer uma receita bem gostosa e passar um dia bastante agradável. O único problema é essa dor nas pernas. Essas varizes ainda me matam. Deixa só! Dou um jeito nelas rapidinho com a minha meia calça elástica de alta compressão.

Meu filho quer me levar de carro, mas prefiro mesmo é ir de ônibus. Não pago passagem e ainda tem um assento exclusivo. Como é bom desfrutar dos benefícios para idosos. Tem gente que prefere falar terceira idade. Como isso me lembra a última idade porque tem muitos fora do prazo de validade, então prefiro ser idosa mesmo. E de ônibus posso ver como a cidade cresceu. O sol entra pela janela e ilumina, além do ônibus é claro, as minhas lembranças. E tenho muitas.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!

Sinto um calafrio que percorre toda a minha espinha. De repente, tudo faz silêncio. Muito silêncio. Como é bom ouvir os próprios pensamentos. Claro que quando eles estão ordenados. Essa gente sempre anda com pressa. Por que não sai de casa antes? Assim não vai precisar correr tanto.

Bom mesmo era quando era mocinha. Os homens, perfeitos cavalheiros. Ninguém tinha pressa. As pessoas saboreavam tudo. Todos os detalhes. Andar pela rua era um passeio agradável. Sentir o vento no rosto nas tardes de outono, mais agradável ainda. O barulho do sapato nas pedras de paralelepípedo do calçamento era encantador. Aliás, barulho quebrado por outro, o do ranger das rodas das charretes pelo centro da cidade. Como é nostálgico lembrar o som dessas rodas, hoje guardadas em museus. E por falar em charrete, era um programão ir até o coreto ouvir serenatas nas tardes de sábado.

E foi numa dessas serenatas que conheci o Alcides. Um pão. Era como a gente chamava os garotos bonitos. Hoje meus netos até riem quando me ouve contar essas histórias e o linguajar da época. E era bonito o danado do Alcides! Quando ele usava aquele chapéu panamá cor de creme... ficava lindo! ficava elegante! ficava charmoso. Depois que nos conhecemos namoramos – com a permissão do papai – por dois anos, 11 meses e 14 dias. Foi em 15 setembro de 1951 que noivamos e em 19 março de 1952 nos casamos.

Foi uma vida juntos. Tivemos sete filhos: quatro homens e três mulheres. Tenho 18 netos e seis bisnetos. Em 2002, eu e o Alcides comemoramos as Bodas de Ouro – 50 anos juntos não é para qualquer casal. Pena que ele se foi em 2004. Teve uma parada cardio-respiratória. Os médicos tentaram de tudo, mas não adiantou. Ficou na UTI quase uma semana. Acabou descansando. Ah! como faz falta o Alcides.

E por falar em UTI, isso me lembra médico, que me lembra o doutor Shibata. Era um médico muito bom. Quando eu era mocinha ele cuidava de todo mundo. E muitas vezes até de graça. Quem não tinha dinheiro pagava em produto. O pessoal da roça mandava de tudo. Mandioca. Café. Banha. E a mulherada fazia muito doce. O doutor Shibata era um japonês muito apessoado. Um partidão. Mas não superava o meu Alcides.

O doutor Shibata... teve uma vez que foi engraçado. Ele ganhou como pagamento do seo Garcia um leitão, uma cesta de verdura e muitas frutas. Ele veio da roça com o leitão e quando passava perto da Igreja Matriz, o leitão pulou da charrete e foi uma confusão só. O leitão entrou na igreja na hora da missa e até o padre Calvo saiu correndo atrás. Foi engraçado mesmo. Era o médico japonês, o padre, os coroinhas. Todos atrás do porquinho. Até parecia que a imagem da Nossa Senhora Aparecida ria da situação. Mas não adiantou o leitão virou lingüiça que até o padre Calvo comeu.

E é de lingüiça que a Conceição, a Celeste e a Dália gostam. Lingüiça calabresa com ervas. Uma receita do interior de São Paulo que a Celeste aprendeu com a mãe dela, a dona Celestina, que aprendeu com a mãe dela também. Vamos fazer hoje na casa da Conceição. Eu fiquei de levar parte dos ingredientes. O pernil de porco. Os condimentos como noz moscada, alho, pimenta seca e as ervas doce e orégano. Vai ficar uma delícia.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!

Aquele calafrio voltou a percorrer toda a minha espinha. Mas de repente nada faz mais silêncio. Ouço choro, barulho de sirene e muita gente conversando. Que confusão! “__Esse cruzamento é mesmo muito perigoso. Muitos idosos já foram atropelados aqui.” Ouço uma voz masculina no meio de uma pequena multidão.

“__Dona Cândida, não se preocupe. A senhora perdeu a consciência por alguns instantes, mas a massagem cardíaca a fez voltar. Vamos levá-la para o hospital e a senhora vai ficar boa”, disse-me gentilmente um homem de branco levantando uma maca.

É Alcides, agora eu sei o que aconteceu. Um atropelamento. E a gente acha que isso só acontece com os outros. Até parece que foi uma eternidade esses instantes. Acho que ainda vai demorar para a gente se reencontrar. E a lingüiça com ervas? Eu, a Conceição, a Celeste e a Dália vamos ter que deixar para depois.

sábado, 17 de maio de 2008

Meu irmão mais velho


O irmão mais velho é muito legal. Além de brincar ele cuida do mais novo. E depois de casado, oferece o filho como afilhado. Aos finais de semana sempre tem churrasco.

Sempre gostei muito de brincar com meu irmão mais velho. Ao mesmo tempo em que eu me divertia, me sentia protegido porque ele cuidava de mim. Sempre atencioso. Fazíamos muita bagunça juntos. Nossa mãe dava bronca, mas no fundo ela gostava do barulho. Mais de uma vez, eu a peguei sorrindo depois de fazer cara de brava.

Um dos nossos passatempos, quando éramos pequenos, era assistir o Sítio do Pica Pau Amarelo. A primeira temporada é memorável. Lá pelo final dos anos 1970 era emocionante se envolver com as histórias do Pedrinho e da Narizinho. Os melhores, vividos por Júlio Cesar e Rosana Garcia. Nunca esquecerei a endiabrada Emília, a boneca de pano da Dirce Migliaccio. E a dona Benta da Zilka Salaberry? Era a avó que todos queriam ter. A ingênua tia Anastácia da Jacyra Sampaio. Dá para citar muitos outros inesquecíveis, como a intelectual espiga de milho que atendia pelo nome de Visconde de Sabugosa, personagem carismático do André Valli.

Quem não se lembra do atrapalhado Zé Carneiro, do magricelo Tonico Pereira? Nem de longe lembra o atual gorducho e bonachão Mendonça, da Grande Família. O canarinho imortalizou o Garnizé e saci, até hoje, tem nome. É o Pererê do Romeu Evaristo. Gente boa mesmo era o Tio Barnabé, do Samuel Santos. Ai! que saudades daqueles tempos. Assistir o Sítio do Pica Pau Amarelo, com abertura na voz do Gilberto Gil, era programa de família, mas antes a gente assistia o Globinho, com a delicada Paula Saldanha. Na programação tinha dois desenhos que não perdia por nada. A Família Barbapapa e a Linha. E há quem nem se lembre.

Meu irmão compartilhou muitas coisas comigo. Ele era atencioso. E a gente se divertia mesmo. Dos desenhos me lembro de alguns que curtíamos juntos. Acho que muitos na época se sentiram um pouco He Man. De fracote a fortão. De príncipe Adam para o herói He Man que livrava Etérnia das garras do Esqueleto e seus asseclas inseparáveis. O abestado Homem Fera. O raivoso Mandíbula. A traiçoeira Maligna. Esse grupo queria mesmo era tomar o Castelo de Grayskull, protegido pela sonsa da Feiticeira. Beleza! Ela era do bem, mas era sonsa.

Quem não se lembra do medroso Pacato sendo transformado – no melhor estilo “Pelos poderes de Grayskull” em Gato Guerreiro? Oh! tempinho bom aquele. Quanta inocência! Mas muita coisa intrigava. O que me chamava a atenção, e eu não entendia mesmo, era como podia o reino de Etérnia, tão tão distante, ter como rainha uma terráquea: Malena, casada com o rei Randor.

Entre um desenho e outro; um programa de TV e outro, competíamos em animadas partidas de basquete. A bola foi presente da avó Cândida no meu 11º aniversário. A molecada da rua preferia futebol. Até torceu o nariz no começo. Como eu e meu irmão insistimos sozinhos, acabamos convencendo o resto. Chegou uma hora que todos tentavam encestar a bola num aro de bicicleta amarrado na árvore.

Mas enfim, esse tempo passa e a gente cresce. Não tem jeito de ser Peter Pan. Chegou a adolescência e com ela os conflitos. As brincadeiras ficaram na infância. Começava um período de muitas descobertas, responsabilidades, contradições, responsabilidades, medos, responsabilidades. Oh! período conturbado! Você não é mais criança, mas também não é adulto. Estudar para passar no vestibular. Procurar emprego. Namorar.

Neste quesito, não tinha pra ninguém. Meu irmão era o cara. Todas o achavam simpático. Educado. Sempre tinha namorada. Saíamos juntos. Era possível ir a pé para os bares e festas, voltar tarde da noite. Em segurança. Na faculdade, nos envolvemos com o movimento estudantil. Dava gosto naquela época. Havia luta. Pintamos a cara e exigimos Fora Collor! Derrubamos o presidente. A gente podia. Não éramos apáticos. Curtíamos o trivial com militância. Havia consciência.

E as coisas continuaram mudando. Meu irmão se casou. Teve dois filhos. Sou padrinho do primeiro. A mulher dele, gente fina. A família se reunia todo final de semana. Churrasco não faltava. Me casei também. Tive filhos. Vida de pai de família não é fácil. Obrigação. Obrigação. Obrigação. Mas dá para conciliar lazer e prazer. E no final das contas tem obrigação prazerosa também.

Todas essas coisas vividas juntas com meu irmão foram fantásticas. Se tivessem acontecido de verdade seriam melhores ainda. Não! ele não morreu no parto. Apenas não existiu porque sou filho único. Mas no fundo o irmão que não tive esteve comigo em muitos momentos da minha vida. Mas por via das dúvidas tive três filhos. Ele brigam, mas se entendem. É melhor não se meter.

sábado, 10 de maio de 2008

Cascas de banana


Dona Dolores gosta muito de cozinhar. Ela prepara os alimentos com cuidado como se fosse um ritual. Hoje ela vai fazer uma receita gostosa, bife de casca de banana.


Começa mais um dia e, junto, começa a rotina da dona Dolores. Depois de arrumar a casa, ela vai ver o que preparar para o almoço. Ela gosta muito de cozinhar. Escolher os alimentos, lavar muito bem; cortar cada pedacinho; levar ao fogo. Preparar a mesa. Na casa da dona Dolores, é proibido desperdiçar. Ela não deixa jogar nada fora; aproveita tudo. As casas. As folhas. As sementes. Preparar uma refeição, para ela, é um ritual. E tanta gente não dá o devido valor ao alimento. Quantos passam fome no Brasil e no mundo!


Outro dia, dona Dolores ficou assustada. Ela ouviu na rádio que no Brasil, com dados de 2006, mais de 3 milhões e 300 mil famílias passavam fome. Isso é um pesadelo para 14 milhões de brasileiros, número que representa 7,7% da população. Ela não entende direito o que significam as estatísticas, mas é uma situação que a deixa muito triste. Ela fica imaginando como é não ter o que colocar na mesa dos filhos. E se apavora. Por isso, os números da fome rondam seus pensamentos. Dona Dolores não consegue entender como tem gente que faz luxo na hora da comida, que escolhe o que vai comer e que recuse isso ou aquilo.

Faltar comida na mesa é uma coisa muito triste mesmo. Por isso, para dona Dolores a alimentação tem que ser muito bem cuidada. Não pode ter desperdício. Ela aproveita tudo e em casa todos gostam. Ela sabe fazer um assado de casca de chuchu, que dá água na boca. E não precisa muita coisa não. Anote aí! São quatro xícaras de cascas de chuchu, bem lavadinhas, cozidas e picadas; duas colheres de queijo ralado; uma xícara de pão amanhecido molhado no leite ou na água; uma cebola; uma colher de óleo; dois ovos inteiros batidos e sal a gosto.


O preparo é bem fácil. Bata as cascas no liquidificador; coloque a massa numa vasilha e misture todos os outros ingredientes. Passe óleo numa forma. Despeje a massa e leve para assar. Pode ser servido quente ou frio. Ainda nas sobras de verduras e legumes, podem ser usados outros tipos de casca como as de abóbora, beterraba, cenoura, rabanete e ainda couve ou agrião.


Tem gente que não gosta de verdura e legume. É muito bom, mas tem que se dedicar um pouquinho. Criatividade é um bom ingrediente. Por exemplo, bife de casca de banana. Aliás, banana é um alimento fácil e que todos têm acesso. Barato e muito nutritivo, além de saboroso. A receita do assado de casca de chuchu e o bife de casca de banana, dona Dolores aprendeu com o projeto Mesa Brasil Sesc, um manual de Receitas de Aproveitamento Integral dos Alimentos.


Então, anote a receita do bife: cascas de seis bananas maduras; três dentinhos de alho; uma xícara de farinha de rosca; uma xícara de farinha de trigo; dois ovos e sal a gosto. Limpe bem as cascas da banana e corte as pontas. Retire as casas em forma de bife, sem partir. Amasse o alho e coloque numa vasilha junto com o sal. Pegue as cascas da banana e passe nesse molho. Bata os ovos como se fosse omelete. Passe as cascas de bananas na farinha de trigo, nos ovos batidos e, por último, na farinha de rosca. Frite os bifes em óleo bem quente e deixe dourar dos dois lados. Sirva quente.


Hoje dona Dolores vai preparar os bifes de casca de banana. Tem que lavar bem direitinho. Dona Dolores e os filhos comem a fruta e aproveitam também as cascas. Os filhos dela adoram e comem tudo. Até lambem os lábios e não sobra nada. É mesmo muito gostoso. É o que repete dona Dolores.


Bom! a conversa está boa mas a dona Dolores precisa ir cuidar da vida. Ela espera conseguir as frutas, as verduras e os legumes que conseguiu catando nos boxes da Ceasa na semana passada. Mas está acabando tudo. Restam apenas as cascas de banana na geladeira surrada. O filho mais velho, de 15 anos, vai cuidar dos irmãos e das irmãs para ela poder sair tranqüila, depois de deixar o almoço pronto. O pai deles morreu de diabetes quando o menorzinho tinha só seis meses. Como ele não tinha carteira assinada, dona Dolores não conseguiu ficar com a pensão. Ela espera que a colheita na Ceasa seja farta e pede para ser abençoada em mais um dia de vida.

sábado, 3 de maio de 2008

Amiga de infância


Nós éramos grudadas. Brincávamos o tempo todo. Ela sempre estava comigo. Gostávamos de arroz doce, daqueles que tinham raspinha no fundo, e de subir no pé de manga.

Dinah era a minha melhor amiga. A infância inteira passamos juntas. Brincávamos. Estudávamos. Comíamos. Juntas. Éramos grudadas e tenho muitas recordações de muitos bons momentos. Dinah é uma amiga que vai ficar na minha memória para sempre. Nunca esquecerei as coisas que passamos. Juntas.
Ela era meiga, tinha uma pele muito branca e os cachinhos pendiam do alto da cabeça. Comprido, macio, amarelo loiro. Os cabelos eram suavemente amarrados com uma fita vermelha, que combinava com os sapatos, da mesma cor, de camurça. A intensidade do vermelho contrastava com o sépia do vestido de saia frisante. Uma graça.

Uma das coisas que eu mais gostava de fazer era pentear os cabelos da Dinah. Passava horas, com uma escova na mão, alisando seus cachos que, momentaneamente, perdiam o formato. Depois que a escova passava, os cachos voltavam aos caracóis originais. Rapidamente. Dinah era muito sensível e encantadora.

Sempre que minha mãe me chamava pra comer, pedia para colocar um prato porque convidaria Dinah para a mesa. Minha mãe respeitava muito e entendia a nossa amizade. Até dava força. Estávamos crescendo juntas. Ela sabia que eu e a Dinah seríamos amigas para o resto da vida.
Lembro-me que uma das coisas que mais gostávamos de comer era arroz doce. Quando passava um pouquinho e pegava no fundo da panela, melhor ainda. O doce não chegava a queimar, mas aquela raspinha era uma delícia. Com canela, então! Sinto o cheiro até hoje. A gente se lambuzava.

E se lambuzava também de fruta. Como tinha sobrando no quintal. Sempre docinha. Uma das minhas preferidas, era a manga. Eram vários pés, que a gente subia, catava e comia ali mesmo. Às vezes, a Dinah marcava de um laranja intenso os cabelos loiros amarelados. Rosa e espada eram as minhas mangas preferidas. Talvez, porque eram as duas que mais davam nos pés lá de casa. A rosa parecia até praga. Já a espada era mais nobre, mais difícil. Só a gente tinha. E era um pé só também.

Dinah, Dinah! Por onde será que você anda? Gostaria de mostrar-lhe o nosso ursinho. Guardo ele até hoje, mas não consigo lembrar-me do apelido que demos para ele. Quem sabe você não se lembra. A gente era muito feliz. Juramos amizade eterna. Sinto tantas saudades daquele tempo. A gente era inocente e feliz.

Saudades sinto também das nossas bonecas. Como era bacana brincar com elas. Aquilo sim era brincar de boneca. Minha mãe fazia todas na máquina de costura. O rostinho, o corpinho, as perninhas, os bracinhos. O recheio era de paina, que a gente pegava da paneira em uma praça da nossa rua. Eu ajudava a colar os cabelos de pano. Sempre enrolava as tirinhas para o cabelo ficar parecido com os da Dinah.

Os vestidinhos! As bonecas tinham um monte e a gente passava horas trocando de roupinha. Lembro da Isa, da Eva, da Glorinha. As bonecas eram apaixonadas pelo Beto. Um boneco, metido, que minha mãe comprou uma vez. Era o único que não tinha nascido da máquina de costura. Era de fora, um forasteiro que foi bem aceito. Ele fazia pose. Era garboso, como dizia minha mãe. No fundo, eu sabia que ele gostava mesmo era da Glorinha. Até dormiam juntinhos no guarda-roupa.

Pena que esse tempo não volta mais. As coisas eram mais simples. As amizades eram verdadeiras. Duravam muito tempo. Podíamos até brigar, mas não demorava muito e a gente esquecia. A hora que via, já estava brincando de boneca, subindo no pé de manga, escovando os cabelos. Não que hoje as crianças não saibam brincar. É que é diferente.

Mas eu sinto falta da Dinah até hoje. Ela realmente era a minha melhor amiga na infância. Nunca vou esquecê-la. Ela realmente foi importante pra mim porque. No fundo, eu me sentia muito sozinha e ela fazia companhia. Um dia, sem dizer uma palavra, ela foi embora. Nunca mais eu a vi. Sei que ela anda por aí, ajudando outras meninas. Brincando com outras meninas. Fazendo outras meninas felizes.

Quem sabe não seja ela, hoje, a melhor amiga da minha neta. Por incrível que pareça, a Isabela repete algumas coisas muito parecidas com as que eu fazia. Adora o ursinho, passa horas no quarto conversando, escovando os cabelos das bonecas, trocando de vestidinhos. Pena que não sobe em árvores. A vida moderna tem seus preços. Mas Isabela, como eu, tem uma amiga. Imaginária. A melhor amiga. A amiga de infância.