sábado, 3 de maio de 2008

Amiga de infância


Nós éramos grudadas. Brincávamos o tempo todo. Ela sempre estava comigo. Gostávamos de arroz doce, daqueles que tinham raspinha no fundo, e de subir no pé de manga.

Dinah era a minha melhor amiga. A infância inteira passamos juntas. Brincávamos. Estudávamos. Comíamos. Juntas. Éramos grudadas e tenho muitas recordações de muitos bons momentos. Dinah é uma amiga que vai ficar na minha memória para sempre. Nunca esquecerei as coisas que passamos. Juntas.
Ela era meiga, tinha uma pele muito branca e os cachinhos pendiam do alto da cabeça. Comprido, macio, amarelo loiro. Os cabelos eram suavemente amarrados com uma fita vermelha, que combinava com os sapatos, da mesma cor, de camurça. A intensidade do vermelho contrastava com o sépia do vestido de saia frisante. Uma graça.

Uma das coisas que eu mais gostava de fazer era pentear os cabelos da Dinah. Passava horas, com uma escova na mão, alisando seus cachos que, momentaneamente, perdiam o formato. Depois que a escova passava, os cachos voltavam aos caracóis originais. Rapidamente. Dinah era muito sensível e encantadora.

Sempre que minha mãe me chamava pra comer, pedia para colocar um prato porque convidaria Dinah para a mesa. Minha mãe respeitava muito e entendia a nossa amizade. Até dava força. Estávamos crescendo juntas. Ela sabia que eu e a Dinah seríamos amigas para o resto da vida.
Lembro-me que uma das coisas que mais gostávamos de comer era arroz doce. Quando passava um pouquinho e pegava no fundo da panela, melhor ainda. O doce não chegava a queimar, mas aquela raspinha era uma delícia. Com canela, então! Sinto o cheiro até hoje. A gente se lambuzava.

E se lambuzava também de fruta. Como tinha sobrando no quintal. Sempre docinha. Uma das minhas preferidas, era a manga. Eram vários pés, que a gente subia, catava e comia ali mesmo. Às vezes, a Dinah marcava de um laranja intenso os cabelos loiros amarelados. Rosa e espada eram as minhas mangas preferidas. Talvez, porque eram as duas que mais davam nos pés lá de casa. A rosa parecia até praga. Já a espada era mais nobre, mais difícil. Só a gente tinha. E era um pé só também.

Dinah, Dinah! Por onde será que você anda? Gostaria de mostrar-lhe o nosso ursinho. Guardo ele até hoje, mas não consigo lembrar-me do apelido que demos para ele. Quem sabe você não se lembra. A gente era muito feliz. Juramos amizade eterna. Sinto tantas saudades daquele tempo. A gente era inocente e feliz.

Saudades sinto também das nossas bonecas. Como era bacana brincar com elas. Aquilo sim era brincar de boneca. Minha mãe fazia todas na máquina de costura. O rostinho, o corpinho, as perninhas, os bracinhos. O recheio era de paina, que a gente pegava da paneira em uma praça da nossa rua. Eu ajudava a colar os cabelos de pano. Sempre enrolava as tirinhas para o cabelo ficar parecido com os da Dinah.

Os vestidinhos! As bonecas tinham um monte e a gente passava horas trocando de roupinha. Lembro da Isa, da Eva, da Glorinha. As bonecas eram apaixonadas pelo Beto. Um boneco, metido, que minha mãe comprou uma vez. Era o único que não tinha nascido da máquina de costura. Era de fora, um forasteiro que foi bem aceito. Ele fazia pose. Era garboso, como dizia minha mãe. No fundo, eu sabia que ele gostava mesmo era da Glorinha. Até dormiam juntinhos no guarda-roupa.

Pena que esse tempo não volta mais. As coisas eram mais simples. As amizades eram verdadeiras. Duravam muito tempo. Podíamos até brigar, mas não demorava muito e a gente esquecia. A hora que via, já estava brincando de boneca, subindo no pé de manga, escovando os cabelos. Não que hoje as crianças não saibam brincar. É que é diferente.

Mas eu sinto falta da Dinah até hoje. Ela realmente era a minha melhor amiga na infância. Nunca vou esquecê-la. Ela realmente foi importante pra mim porque. No fundo, eu me sentia muito sozinha e ela fazia companhia. Um dia, sem dizer uma palavra, ela foi embora. Nunca mais eu a vi. Sei que ela anda por aí, ajudando outras meninas. Brincando com outras meninas. Fazendo outras meninas felizes.

Quem sabe não seja ela, hoje, a melhor amiga da minha neta. Por incrível que pareça, a Isabela repete algumas coisas muito parecidas com as que eu fazia. Adora o ursinho, passa horas no quarto conversando, escovando os cabelos das bonecas, trocando de vestidinhos. Pena que não sobe em árvores. A vida moderna tem seus preços. Mas Isabela, como eu, tem uma amiga. Imaginária. A melhor amiga. A amiga de infância.

3 comentários:

jacobsfoto disse...

belo texto e bela foto. a melhor definição para seu trabalho é Sensibilidade.
Luiz Jacobs

Danilo disse...

Fantástico. Mesmo já sabendo do que se tratava (porque ouvi os comentários da Taynara no dia que ela leu), a crônica me surpreendeu. Como pode? Parabéns Reinado!!!

marianacolletti disse...

Ahhhh
faz a pessoa tentar adivinhar o final durante o texto todo o que seria...
pelo menos eu, imaginei vários diferentes e nenhum dos meus bateu com o seu, ou seja, mai suma vez surpreendeuuuu!!!!