sábado, 28 de junho de 2008

A árvore da minha infância


Gosto de passar muito tempo sob a sombra da Grandona. Ela me conforta demais. Ela não deixa me sentir só. Converso muito e ela sempre me responde.

Remexendo na gaveta do escritório, vejo um envelope amarelado pelo tempo e dentro encontro uma foto. Um nó parece estrangular minha garganta. Instantaneamente sou levado ao cenário magnífico daquela imagem. Estou sob a sombra da minha árvore preferida, uma paineira gigante, que mora nos fundos de casa. Ela é a minha companhia. Ela é a minha melhor amiga.

Tenho 11 anos e sofro por não poder brincar. Correr? Nem pensar. Minha vida parece uma cena em câmera lenta. Esforço definitivamente não faz parte do meu dia-a-dia. Mamãe largou o emprego faz tempo para cuidar de mim. Papai trabalha muito como pedreiro para bancar as despesas. Com medicamento, gastamos muito, mas tem muita gente que ajuda.

Pela janela da frente da nossa casa de madeira, vejo os meninos e as meninas brincando de amarelinha, bola queimada, betis, burquinha. Conheço eles da escola, mas não posso fazer o que fazem. Vez e outra, minha mãe me deixa sentado no meio-fio e posso ver a alegria saudável da molecada da rua. O sol arde e o vento refresca o meu rosto. Como é bom sentir a vida, mesmo com as limitações que ela oferece.

Como recebo poucas visitas, eu passo a maior parte do tempo no quintal conversando com a Grandona. A minha paineira. A Grandona me conforta. Ela não deixa me sentir só. Converso muito e ela sempre me responde com o vento que balança seus galhos. Mamãe – eu sei – sente uma mistura de alegria e tristeza. Alegria por eu tentar levar uma vida normal. Tristeza porque ela me acha muito sozinho. Mas ela sabe, bem lá no fundo, que a Grandona é a melhor amiga.

A minha insuficiência cardíaca foi causada por um probleminha que eu nasci com ele. Com o tempo foi afetando um músculo do coração e a capacidade de bombear o sangue. Ouvi tanto que posso repetir todos os fatores de risco e o que preciso fazer para me prevenir de outros problemas. E para resolver mesmo, o médico já avisou. Só um transplante.

Para amenizar essa situação gosto mesmo é de contemplar a grandiosidade da minha paineira. Deitado bem perto do tronco, eu posso ver a festa dos passarinhos e das abelhas. Ela floresce em pleno verão, começa lá pelo meio de dezembro e vai até abril, mas é em janeiro que as flores estão mais rosa do que nunca. Dos passarinhos, o João de Barro é o preferido da Grandona. Sempre tem uma casinha de barro pendurada. Quando a paineira perde as folhas, exibe todos os galhos que lembram as veias do corpo humano. Mera coincidência. E as painas? Quando a Grandona abre, elas voam para a vizinhança. O chão do nosso quintal fica branquinho.

Numa tarde qualquer começo a sentir fortes dores no peito e falta o ar. Insuportável! Tento chamar mamãe e a voz não sai. Vejo o tempo escurecer... Acordo no hospital. Papai e mamãe, ao lado da cama, disfarçam uma alegria triste. Entra um médico e pede um momento. Com a porta entreaberta escuto ele dizer que minha situação está cada vez mais complicada e que só um transplante pode me salvar. Eu só quero ir pra casa. Isso só acontece depois de dois meses.

Quando chego na rua, muita coisa mudou. A rua está vazia. Meus quase amigos não moram mais perto de mim. Papai explicou que uma construtora comprou os terrenos. As casas de madeira estão sumindo e, no lugar, vão erguer muitos prédios.

Um tempo depois ligam do hospital. Tem um doador compatível e o transplante será em São Paulo. Papai arruma tudo e eu sigo com mamãe em viagem. A cirurgia corre bem e eu me recupero bem, mas meu coração – o novo – continua apertado. É uma sensação ruim, mas eu respiro bem, não sinto mais cansaço. Não entendo. Mamãe ostenta uma alegria, agora alegre.

Recebo alta e parece que vou explodir de alegria. Vou para casa. No caminho mamãe e papai vêm com uma conversinha. Com cuidado eles contam que venderam a casa para a construtora; que temos uma nova casa – de material – bem longe dali. E a Grandona?
Meio sem jeito, papai diz que ela foi derrubada para a construção de um prédio. Choro muito. Tentam me consolar. Papai diz que guardou algumas sementes e está fazendo mudas. Insisto em passar pela rua. De longe vejo o vazio deixado pela Grandona. Agora entendo o aperto em meu peito. Na frente do que foi a nossa casa, uma placa. “Residencial Paineira – o melhor três quartos da região.”

Neste instante, a porta bate. Volto à realidade. Volto ao escritório. Volto à minha vida. Minha mulher traz nosso filho de oito anos. Vamos ao shopping e eles vieram me pegar. O menino me dá um beijo e pergunta por que estou com lágrimas. Ele pega a foto que seguro. “__Papai como essa árvore é grandona!”

sábado, 21 de junho de 2008

Viva os Santos de Junho


De cima do altar, Antonio, João e Pedro dão as boas vindas aos fiéis que chegam para rezar o terço. Misericórdia!

Maria Aparecida dos Santos, a dona Mariquinha, é uma mulher muito religiosa, que reverencia todos os santos católicos. Em sua casa, em cada cômodo, uma imagem dá as boas vindas. A casinha – de madeira da época da colonização da cidade – parece mais um oratório, respira devoção. Ela não abre mão de exercer a própria fé e arrasta consigo muitos fiéis que, juntos, entoam pedidos, cânticos, orações. E todos os anos, não pode faltar o tradicional terço para os Santos de Junho.

A nós descei, divina luz!

A devoção da dona Mariquinha é tão grande, mas tão grande, que os três filhos dela receberam o nome dos santos. O mais velho é Antonio. O do meio João. O caçula Pedro. Ela não se cansa de contar a histórias dos santos a quem atribui verdadeiros milagres. Costuma dizer. Antonio, o santo que carrega o menino Jesus nos braços. João, o santo festeiro que capitaliza o mês de junho. Pedro, o guardião das portas do céu.

A nós descei, divina luz!

E dona Mariquinha já definiu, em reunião com as mulheres do bairro, o tema do terço. Ela disse que vai rezar por misericórdia. “__ A humanidade precisa receber muita graça porque a miséria humana é muito grande. Para salvar o mundo, só com intervenção divina.” É o que costuma dizer – e repetir e repetir – dona Mariquinha, num sotaque que remete a suas origens lá da roça. Ela não agüenta mais tanta dor injustiça e, pelo poder da fé, acredita que pode contribuir para um mundo melhor. “__ Precisamos da misericórdia de Deus.”

Em nossas almas acendei

A situação da cidade, do país e do mundo não anda nada bem. Fome; policiais-bandidos; terremoto; bandidos-bandidos; tsunami; vereadores-afastados; doenças mortais; empresários-presos; chacinas; justiça-injusta; corrupção corrupta... A lista de misérias humanas é grande e, para dona Mariquinha, muito desoladora, mas nada que o poder da fé não consiga remover.

O amor, o amor de Jesus

E no altar do mês de junho, os três santos – Antonio, João e Pedro – estão devidamente paramentados para o terço de logo mais à noite. Velas acenderão por um mundo melhor, por uma humanidade mais humana. “__Quem sabe, para iluminar a alma das pessoas”, diz dona Mariquinha. Este ano, o terço será diferente. Em vez de uma rodada de orações seguida dos comes e bebes, serão 12 horas de devoção. O Terço da Misericórdia.

Vinde, Santo Espírito / E do céu mandai / luminoso raio!

Para agüentar tanto tempo de oração, na cozinha, as mulheres já preparam o reforço de comida. Arroz-doce. Bolo de fubá. Bom Bocado. Canjica. Curau de Milho. Doce de Batata doce. Pamonha. Vinho quente. Chocolate quente. Pipoca. Amendoim torrado. Do lado de fora, os homens preparam restos de madeira para a fogueira que vai queimar silenciosa e serenamente.

Grande defensor / Em nós habitai / e nos confortai!

Silenciosa e serenamente porque os organizadores do terço não vão permitir a queima de fogos. A alegria tradicional da molecada e suas bombinhas barulhentas serão substituídas pela vigília permanente dos adultos. Durante a noite, das 19h às 7h da manhã, a vizinhança vai se revezar nas 12 horas do terço.

Lavai o impuro / e regai o seco / sarai o enfermo!

Do alto do altar, os Santos de Junho ficarão acompanhados a noite toda. Antonio, João e Pedro serão testemunhas. As mulheres estão devidamente posicionadas. Os homens também. As crianças, em silêncio profundo. São 19h em ponto. E num tom lamurioso, o terço começa.

Eterno Pai
Eu Vos ofereço o Corpo e Sangue
Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho
Nosso Senhor Jesus Cristo
Em expiação dos nossos pecados
e dos pecados do mundo inteiro

sábado, 14 de junho de 2008

Dias da namorada


Relacionamento verdadeiro não combina com velocidade. A vida pede cuidado e tivemos cuidado de uma vida um com o outro. A vida toda.

Mais um dia da namorada. Data boa para comemorar as coisas boas da vida. Eu e a Josefina comemoramos todos os anos. O presente nesta data especial é apenas uma conseqüência concreta e material da dedicação, do desejo, do carinho, da reciprocidade. Namorar é preciso. O amor precisa ser alimentado porque, sem combustível, morre como muitas outras coisas.

Neste 12 de junho o meu presente já está definido, mas não é dele que quero falar agora. Eu e a Josefina começamos a namorar num mês de junho e como o dia da namorada é comemorado neste mês estabelecemos que trocaríamos presentes apenas nesta data. O 12 de junho é nosso. Sei que tem Dia das Mães, Dia dos Pais, então deixemos para que nossos filhos dêem os presentes. Nem que seja uma lembrancinha. Ah! tem também o Natal e os aniversários. Então deixemos que os nossos nos presenteiem. Nós mesmos somente no dia 12 de junho. Tá muito bem assim para o comércio.

Quando começamos, em 1943, eu tinha 18 e ela 16. Época boa aquela. Lembro-me do primeiro presente que dei para a Josefina. Uma fazenda. Calma! não se trata de um pedaço de terra. Não teria tanto para isso, apesar de ela merecer. Era como a gente chamava um pedaço de tecido. Era uma fazenda de crepe georgette com uma estampa floral bem delicada. A mãe dela fez um vestido para o início da primavera. Como era muito fino, a mãe dela usou um forro da mesma cor que acentuava a estampa. O tecido era realmente leve e realçava a beleza da Josefina.

Estávamos no inverno no primeiro ano de namoro, mas eu pensava mais adiante. Por isso, o vestido floral para o início da primavera. Iríamos começar a passear – sozinhos – pelo centro da cidade. Cinema. Lanchonete. Baile. Os pais dela deram a autorização... E quando vi Josefina naquele vestido, descendo os sete degraus da escada da varanda até o portão, o tempo parou. Ela parecia descer em câmera lenta. O vento balançava seus cabelos e o vestido. O sol dourou e o cenário ganhou cor sépia. Me vi de boca aberta e me apaixonei pela segunda vez. Depois desse dia, me apaixonei a cada dia por ela. Nós casamos depois de dois anos de namoro, em 1945.

Amar é isso. É preciso alimentar o amor. Esses jovens de hoje são muito descartáveis. Vivem o momento e a todo o momento estão sozinhos. Querem alguém, mas não querem se dedicar. Tudo parece fugaz. Relacionamento verdadeiro não combina com velocidade. É preciso fazer a manutenção do amor. Dia-após-dia. Neste tempo todo, eu a Josefina fomos muito felizes. A vida pede cuidado e tivemos cuidado de uma vida um com o outro. A vida toda.

E assim, muitos dias da namorada se passaram. Muito amor e carinho marcaram todos os dias da nossa vida. Trocamos presentes e me lembro particularmente de outros dois. O primeiro, mesmo sem dinheiro, comprei para ela uma meia aliança cravejada de pedras brasileiras. Ela gostou muito e nunca mais a tirou de junto da aliança do nosso casamento.

O segundo, uma viagem que fizemos quando completamos 45 anos de casamento, em 1990, bancada pelos filhos. Percorremos vários países da Europa. E quando dizem que se respira charme na Europa, não estão mentindo. Mesmo sem falar até bom dia em tcheco – quem diria – eu e a Josefina comemos em um café na Praça Wenceslas, no centro de Praga. Isso no ano em que a Tchecoslováquia realizou eleições democráticas depois de um período de regime comunista.

Quantas memórias junto de Josefina. Literalmente uma vida. Nunca conheci outra mulher. Meus amigos até riam de mim, quando falava que era virgem ao conhecer Josefina. E me mantive assim – para ela – até o nosso casamento e durante todo ele. Não me arrependo porque Josefina era tudo. A gente se completava. Ela sempre disse que em copo cheio não cabe gota d’água. Chegamos a completar 60 anos de casamento, em 2005. A tal Bodas de Diamante. Foi uma festa bonita para reunir todos os filhos, todos os netos, todos os bisnetos.

E a saudade é grande. Dois meses depois de completar as bodas, meu diamante se foi. Acordei um dia ao seu lado e ela imóvel sustentava um sorriso sereno nos lábios finos. Sem dor. Sem sofrimento. Sem alarde. Ela partiu tranqüilamente, assim como viveu. E hoje dia 12 de junho, mais um dia da namorada. Sem a namorada. Preciso me apressar para levar o presente de Josefina. Flores. Ela sempre gostou. Gérberas. Lírios. Rosas. Amarílis. Azaléias. Orquídeas. Dálias. De todas, ela gostava muito. Mas uma é a sua preferida. Tulipas, as que ela vai receber neste dia.

sábado, 7 de junho de 2008

A praça da minha gente


É uma justa homenagem a um dos povos que ajudaram a construir o desenvolvimento. Os monumentos ao ar livre serão o símbolo de duas culturas.

Estou muito feliz com a homenagem que vão nos fazer. Um local erigido em memória do meu povo, um local cheio de símbolos que remetem ao esforço e à dedicação dos milhares de pioneiros que ajudaram a construir o desenvolvimento. Um exemplo de beleza, com monumentos de significado expressivo unindo duas culturas.

O local terá até um obelisco de mais de 30 metros de altura; terá gazebos; terá passarelas. O projeto de iluminação é realmente artístico. Emocionante! Nosso povo - pioneiro e desbravador - merece essa homenagem. Justa e necessária. Afinal os primeiros de nós construíram muita coisa e nem aproveitaram os resultados. Hoje seus descendentes são parte da sociedade. Nos integramos e ajudamos a alavancar o progresso de que tanto se vanglorizam.

Tudo isso mexe com as lembranças da família. Vem à tona as dificuldades do meu tataravô, selecionado para embarcar nessa grande aventura chamada Brasil. Lembro-me de meu pai falando da tristeza do bisavô dele. Histórias recheadas de saudades. Do cheiro da terra natal. Da comida da terra natal. Dos costumes da terra natal. Do som da terra natal. Ao chegar ao Brasil, as dificuldades da terra natal se transformaram. E para pior.

Era preciso começar do zero. O trabalho varava o dia para todo pioneiro. De sol a sol, meu tataravô era incansável. Lutava dia-após-dia todo dia pela própria sobrevivência. A terra nova precisava ser explorada, necessitava ser construída. Uma construção diária. Lágrimas rolaram pela face do meu tataravô. Lágrimas de distância. Ausência da terra natal, dos familiares que ficaram do outro lado. Sem informações. Laços interrompidos.

As dificuldades se acentuavam. Havia muita privação. De comida. De bebida. De diversão. O trabalho era árduo, pesado mesmo. Saúde? Quase sempre debilitada. Os mosquitos eram verdadeiras pragas voadoras, fonte de tudo que era doença. Muitos pioneiros ruíam ao zumbido do mal voador, que transportava a febre amarela. A água tirada do poço também podia ser fonte de contaminação. Muitos poços ficavam perto das privadas.

Lembro-me, particularmente, de um aspecto repetido pela família. Meu tataravô era um homem muito religioso. Ritos, conforme o costume da nossa terra, faziam parte do cotidiano, da vida. Mas a sua crença não era bem vista. Por isso, seus ritos eram às escondidas. A fé católica não permitia outras expressões.

Meu tataravô teve vários filhos. Um tanto morreu por causa das condições - da terra nova - impostas aos pioneiros. Outro tanto se perdeu no mundo. Cresceram com ele e minha tataravô, quatro filhos, dos quais o avô do meu pai. Há poucos registros da família. Fotografia? Dá para contar nos dedos a quantidade. Afinal, pioneiros e desbravadores sempre têm poucos recursos.

Toda essa dificuldade será homenageada com uma obra permanente. A praça. Ela não vai apagar a dor e o sofrimento daqueles que viveram para nós; que construíram esse lugar que hoje desfrutamos. No entanto, vai ser um símbolo e um marco. Símbolo de duas culturas. Marco ao respeito que essa gente merece.

A festa de inauguração da praça realmente será grande. Para lembrar a memória dos que morreram na travessia oceânica para o Brasil, crianças devidamente paramentadas vão ler poemas, textos que elevam a grandeza da nossa gente. A música e o colorido das roupas típicas vão saltar aos olhos e aos ouvidos dos que participarem do evento. Tudo vai ser muito bonito.

"__Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirene!" O barulho no canteiro de obras me acorda e me traz de volta à realidade. Sem praças nem monumentos. Acabou a hora do almoço. É hora de voltar a encher mais uma laje deste edifício residencial na região mais valorizada. O prédio terá 27 andares. Quatro apartamentos por andar. Um elevador para cada dois. Medidores de água, de luz, de gás - individuais. Uma ampla área de lazer no melhor estilo resort.

Sempre há homenagens para pioneiros italianos, alemães, japoneses, espanhóis e de muitas outras nacionalidades. Mas as dores forçadas dos meus antepassados ainda serão reconhecidas. E quem sabe - um dia - teremos uma praça para lembrar a memória dos que chegaram nos porões dos navios negreiros e ajudaram no desenvolvimento do país.

domingo, 1 de junho de 2008

Atos e (in) conseqüências


Mimado desde criança, Carlinhos tornou-se um adolescente egoísta, que se tornou um adulto prepotente. Mas as atitudes não ficam impunes.

Durante a infância, Carlinhos tinha tudo. Roupas de marca. Os últimos lançamentos em brinquedo. Tudo o que queria, bastava pedir aos pais. Esses não economizavam para dar ao filho – único – tudo o que não tiveram. O pedido do menino soava – aos ouvidos paternos – como uma ordem. “__Eu posso!”, dizia sempre o menino, que ao ganhar um brinquedo se concentrava logo em outro, mais potente, mais bonito, mais qualquer coisa.... O que acabara de ganhar já não tinha mais graça.

E assim, Carlinhos foi crescendo. Na adolescência, trocava de namoradas como os carrinhos que trocava na infância. É que cansava da menina e partia para outra e depois para outra, sem a menor cerimônia. Afinal, quantidade é mais interessante que qualidade. Vez e outra, Carlinhos – ou melhor Cauê, agora adolescente, forte com músculos de academia, se metia em confusão.

Na escola, agredia os colegas de turma. O alvo preferido era sempre o mesmo: colegas que fogem do padrão do seu círculo. O magricelo cheio de espinha. O baixinho acima peso. O garoto com ares andrógenos. Cauê batia de frente também com os professores. Esses abordavam valores como respeito ao próximo, solidariedade e ética. Ética? Cauê perguntava aos mestres onde? podia comprar um pacote para comer no intervalo. “__Hahahaha. Ética? Sem noção!”

E o tempo foi passando. O perfil de Cauê se consolidando. Ele era o dono da turma. O dono das regras. Dividir não existia no seu vocabulário. Só fazia algo se tivesse proveito próprio. Pensava no seu prazer. Era imediatista. E os outros? Tudo bem, desde que fosse para servi-lo.

O tempo passa. De menino a adolescente a adulto. Cauê – agora senhor Carlos - afinal Cauê não fica bem para o diretor geral da empresa. Dono do próprio negócio precisa manter a imagem. A empresa que assumiu do pai – morto aos 47 de ataque cardíaco fulminante na mesa do escritório – já não ia tão bem.

Os negócios da família estavam ruins. A mãe – consternada – tentava falar ao filho. Era cortada rispidamente. “__Não me venha com essa, de novo.” Os negócios da família não tinham tanta importância. O lazer, o prazer, o beber eram prioridade. Nem o filho de um ano e meio mudou a rotina de Carlos.

O filho de Carlos era o sonho de futuro da avó, que se perguntava. “__Onde foi que eu errei?”. A nora tentava – em vão – consolá-la. Nada adiantava. “__Essa história não vai acabar bem”, profetizava a avó e mãe.

Não muito longe dali... reunido na empresa com o diretor de Expansão e Empreendedorismo e o diretor Administrativo Financeiro, Carlos contabiliza um prejuízo de R$ 16,5 milhões. Valor perdido em ações num investimento de alto risco na Bolsa. Nem o telefonema da esposa ele atendeu. E foram vários...

Atordoado, Carlos liga para os amigos de sempre e marca no bar de sempre. A caminho, insuportavelmente irritado, não dá passagem a uma ambulância do Siate. Nem a nervosa sirene, que pede passagem insistentemente, consegue convencê-lo. “__Vai se fuuuu...”, grita Carlos à ambulância. Ele ignora mais uma vez as chamadas telefônicas da mulher.

No bar, Carlos bebe todas. Quer extravasar. Quer relaxar. Quanto mais fala, mais bebe. E embriagado conta o prejuízo. Conta o baque da empresa; baque que não suportaria; ri da ambulância; desdenha aos amigos que travou o trânsito para o Siate.

E mais uma chamada da mulher. “__Que foi? Por que você me liga tanto?”, perguntou com voz pastosa. “__É o nosso filho. Eu liguei muito pra você e nada. Você não atendeu”, diz ela, que continua aos prantos. “__Nosso filho caiu da escada de casa. Tentei falar com você. Meu carro na oficina. Aí liguei pro Siate. Mas a caminho do hospital, um carro travou o trânsito. Perdemos muito tempo. Quando chegamos ao hospital, já era tarde...”

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Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina, em 24 de outubro de 2007.