domingo, 1 de junho de 2008

Atos e (in) conseqüências


Mimado desde criança, Carlinhos tornou-se um adolescente egoísta, que se tornou um adulto prepotente. Mas as atitudes não ficam impunes.

Durante a infância, Carlinhos tinha tudo. Roupas de marca. Os últimos lançamentos em brinquedo. Tudo o que queria, bastava pedir aos pais. Esses não economizavam para dar ao filho – único – tudo o que não tiveram. O pedido do menino soava – aos ouvidos paternos – como uma ordem. “__Eu posso!”, dizia sempre o menino, que ao ganhar um brinquedo se concentrava logo em outro, mais potente, mais bonito, mais qualquer coisa.... O que acabara de ganhar já não tinha mais graça.

E assim, Carlinhos foi crescendo. Na adolescência, trocava de namoradas como os carrinhos que trocava na infância. É que cansava da menina e partia para outra e depois para outra, sem a menor cerimônia. Afinal, quantidade é mais interessante que qualidade. Vez e outra, Carlinhos – ou melhor Cauê, agora adolescente, forte com músculos de academia, se metia em confusão.

Na escola, agredia os colegas de turma. O alvo preferido era sempre o mesmo: colegas que fogem do padrão do seu círculo. O magricelo cheio de espinha. O baixinho acima peso. O garoto com ares andrógenos. Cauê batia de frente também com os professores. Esses abordavam valores como respeito ao próximo, solidariedade e ética. Ética? Cauê perguntava aos mestres onde? podia comprar um pacote para comer no intervalo. “__Hahahaha. Ética? Sem noção!”

E o tempo foi passando. O perfil de Cauê se consolidando. Ele era o dono da turma. O dono das regras. Dividir não existia no seu vocabulário. Só fazia algo se tivesse proveito próprio. Pensava no seu prazer. Era imediatista. E os outros? Tudo bem, desde que fosse para servi-lo.

O tempo passa. De menino a adolescente a adulto. Cauê – agora senhor Carlos - afinal Cauê não fica bem para o diretor geral da empresa. Dono do próprio negócio precisa manter a imagem. A empresa que assumiu do pai – morto aos 47 de ataque cardíaco fulminante na mesa do escritório – já não ia tão bem.

Os negócios da família estavam ruins. A mãe – consternada – tentava falar ao filho. Era cortada rispidamente. “__Não me venha com essa, de novo.” Os negócios da família não tinham tanta importância. O lazer, o prazer, o beber eram prioridade. Nem o filho de um ano e meio mudou a rotina de Carlos.

O filho de Carlos era o sonho de futuro da avó, que se perguntava. “__Onde foi que eu errei?”. A nora tentava – em vão – consolá-la. Nada adiantava. “__Essa história não vai acabar bem”, profetizava a avó e mãe.

Não muito longe dali... reunido na empresa com o diretor de Expansão e Empreendedorismo e o diretor Administrativo Financeiro, Carlos contabiliza um prejuízo de R$ 16,5 milhões. Valor perdido em ações num investimento de alto risco na Bolsa. Nem o telefonema da esposa ele atendeu. E foram vários...

Atordoado, Carlos liga para os amigos de sempre e marca no bar de sempre. A caminho, insuportavelmente irritado, não dá passagem a uma ambulância do Siate. Nem a nervosa sirene, que pede passagem insistentemente, consegue convencê-lo. “__Vai se fuuuu...”, grita Carlos à ambulância. Ele ignora mais uma vez as chamadas telefônicas da mulher.

No bar, Carlos bebe todas. Quer extravasar. Quer relaxar. Quanto mais fala, mais bebe. E embriagado conta o prejuízo. Conta o baque da empresa; baque que não suportaria; ri da ambulância; desdenha aos amigos que travou o trânsito para o Siate.

E mais uma chamada da mulher. “__Que foi? Por que você me liga tanto?”, perguntou com voz pastosa. “__É o nosso filho. Eu liguei muito pra você e nada. Você não atendeu”, diz ela, que continua aos prantos. “__Nosso filho caiu da escada de casa. Tentei falar com você. Meu carro na oficina. Aí liguei pro Siate. Mas a caminho do hospital, um carro travou o trânsito. Perdemos muito tempo. Quando chegamos ao hospital, já era tarde...”

*****
Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina, em 24 de outubro de 2007.

2 comentários:

Heidi disse...

Gostei muito da crônica. O final é inesperado, criativo, muito bom. E existem muitos Carlos por aí...
Beijos =)
Paula Bonini

Rafael Leal disse...

Gostei muito, Reinaldo. Confesso que me deu uma sensação ruim quando li o final.
Muito bom.
Abraços
Rafael Leal