sábado, 14 de junho de 2008

Dias da namorada


Relacionamento verdadeiro não combina com velocidade. A vida pede cuidado e tivemos cuidado de uma vida um com o outro. A vida toda.

Mais um dia da namorada. Data boa para comemorar as coisas boas da vida. Eu e a Josefina comemoramos todos os anos. O presente nesta data especial é apenas uma conseqüência concreta e material da dedicação, do desejo, do carinho, da reciprocidade. Namorar é preciso. O amor precisa ser alimentado porque, sem combustível, morre como muitas outras coisas.

Neste 12 de junho o meu presente já está definido, mas não é dele que quero falar agora. Eu e a Josefina começamos a namorar num mês de junho e como o dia da namorada é comemorado neste mês estabelecemos que trocaríamos presentes apenas nesta data. O 12 de junho é nosso. Sei que tem Dia das Mães, Dia dos Pais, então deixemos para que nossos filhos dêem os presentes. Nem que seja uma lembrancinha. Ah! tem também o Natal e os aniversários. Então deixemos que os nossos nos presenteiem. Nós mesmos somente no dia 12 de junho. Tá muito bem assim para o comércio.

Quando começamos, em 1943, eu tinha 18 e ela 16. Época boa aquela. Lembro-me do primeiro presente que dei para a Josefina. Uma fazenda. Calma! não se trata de um pedaço de terra. Não teria tanto para isso, apesar de ela merecer. Era como a gente chamava um pedaço de tecido. Era uma fazenda de crepe georgette com uma estampa floral bem delicada. A mãe dela fez um vestido para o início da primavera. Como era muito fino, a mãe dela usou um forro da mesma cor que acentuava a estampa. O tecido era realmente leve e realçava a beleza da Josefina.

Estávamos no inverno no primeiro ano de namoro, mas eu pensava mais adiante. Por isso, o vestido floral para o início da primavera. Iríamos começar a passear – sozinhos – pelo centro da cidade. Cinema. Lanchonete. Baile. Os pais dela deram a autorização... E quando vi Josefina naquele vestido, descendo os sete degraus da escada da varanda até o portão, o tempo parou. Ela parecia descer em câmera lenta. O vento balançava seus cabelos e o vestido. O sol dourou e o cenário ganhou cor sépia. Me vi de boca aberta e me apaixonei pela segunda vez. Depois desse dia, me apaixonei a cada dia por ela. Nós casamos depois de dois anos de namoro, em 1945.

Amar é isso. É preciso alimentar o amor. Esses jovens de hoje são muito descartáveis. Vivem o momento e a todo o momento estão sozinhos. Querem alguém, mas não querem se dedicar. Tudo parece fugaz. Relacionamento verdadeiro não combina com velocidade. É preciso fazer a manutenção do amor. Dia-após-dia. Neste tempo todo, eu a Josefina fomos muito felizes. A vida pede cuidado e tivemos cuidado de uma vida um com o outro. A vida toda.

E assim, muitos dias da namorada se passaram. Muito amor e carinho marcaram todos os dias da nossa vida. Trocamos presentes e me lembro particularmente de outros dois. O primeiro, mesmo sem dinheiro, comprei para ela uma meia aliança cravejada de pedras brasileiras. Ela gostou muito e nunca mais a tirou de junto da aliança do nosso casamento.

O segundo, uma viagem que fizemos quando completamos 45 anos de casamento, em 1990, bancada pelos filhos. Percorremos vários países da Europa. E quando dizem que se respira charme na Europa, não estão mentindo. Mesmo sem falar até bom dia em tcheco – quem diria – eu e a Josefina comemos em um café na Praça Wenceslas, no centro de Praga. Isso no ano em que a Tchecoslováquia realizou eleições democráticas depois de um período de regime comunista.

Quantas memórias junto de Josefina. Literalmente uma vida. Nunca conheci outra mulher. Meus amigos até riam de mim, quando falava que era virgem ao conhecer Josefina. E me mantive assim – para ela – até o nosso casamento e durante todo ele. Não me arrependo porque Josefina era tudo. A gente se completava. Ela sempre disse que em copo cheio não cabe gota d’água. Chegamos a completar 60 anos de casamento, em 2005. A tal Bodas de Diamante. Foi uma festa bonita para reunir todos os filhos, todos os netos, todos os bisnetos.

E a saudade é grande. Dois meses depois de completar as bodas, meu diamante se foi. Acordei um dia ao seu lado e ela imóvel sustentava um sorriso sereno nos lábios finos. Sem dor. Sem sofrimento. Sem alarde. Ela partiu tranqüilamente, assim como viveu. E hoje dia 12 de junho, mais um dia da namorada. Sem a namorada. Preciso me apressar para levar o presente de Josefina. Flores. Ela sempre gostou. Gérberas. Lírios. Rosas. Amarílis. Azaléias. Orquídeas. Dálias. De todas, ela gostava muito. Mas uma é a sua preferida. Tulipas, as que ela vai receber neste dia.

Um comentário:

Guilherme disse...

Bela crônica.
Não se fazem mais histórias de amor como antigamente...