sábado, 7 de junho de 2008

A praça da minha gente


É uma justa homenagem a um dos povos que ajudaram a construir o desenvolvimento. Os monumentos ao ar livre serão o símbolo de duas culturas.

Estou muito feliz com a homenagem que vão nos fazer. Um local erigido em memória do meu povo, um local cheio de símbolos que remetem ao esforço e à dedicação dos milhares de pioneiros que ajudaram a construir o desenvolvimento. Um exemplo de beleza, com monumentos de significado expressivo unindo duas culturas.

O local terá até um obelisco de mais de 30 metros de altura; terá gazebos; terá passarelas. O projeto de iluminação é realmente artístico. Emocionante! Nosso povo - pioneiro e desbravador - merece essa homenagem. Justa e necessária. Afinal os primeiros de nós construíram muita coisa e nem aproveitaram os resultados. Hoje seus descendentes são parte da sociedade. Nos integramos e ajudamos a alavancar o progresso de que tanto se vanglorizam.

Tudo isso mexe com as lembranças da família. Vem à tona as dificuldades do meu tataravô, selecionado para embarcar nessa grande aventura chamada Brasil. Lembro-me de meu pai falando da tristeza do bisavô dele. Histórias recheadas de saudades. Do cheiro da terra natal. Da comida da terra natal. Dos costumes da terra natal. Do som da terra natal. Ao chegar ao Brasil, as dificuldades da terra natal se transformaram. E para pior.

Era preciso começar do zero. O trabalho varava o dia para todo pioneiro. De sol a sol, meu tataravô era incansável. Lutava dia-após-dia todo dia pela própria sobrevivência. A terra nova precisava ser explorada, necessitava ser construída. Uma construção diária. Lágrimas rolaram pela face do meu tataravô. Lágrimas de distância. Ausência da terra natal, dos familiares que ficaram do outro lado. Sem informações. Laços interrompidos.

As dificuldades se acentuavam. Havia muita privação. De comida. De bebida. De diversão. O trabalho era árduo, pesado mesmo. Saúde? Quase sempre debilitada. Os mosquitos eram verdadeiras pragas voadoras, fonte de tudo que era doença. Muitos pioneiros ruíam ao zumbido do mal voador, que transportava a febre amarela. A água tirada do poço também podia ser fonte de contaminação. Muitos poços ficavam perto das privadas.

Lembro-me, particularmente, de um aspecto repetido pela família. Meu tataravô era um homem muito religioso. Ritos, conforme o costume da nossa terra, faziam parte do cotidiano, da vida. Mas a sua crença não era bem vista. Por isso, seus ritos eram às escondidas. A fé católica não permitia outras expressões.

Meu tataravô teve vários filhos. Um tanto morreu por causa das condições - da terra nova - impostas aos pioneiros. Outro tanto se perdeu no mundo. Cresceram com ele e minha tataravô, quatro filhos, dos quais o avô do meu pai. Há poucos registros da família. Fotografia? Dá para contar nos dedos a quantidade. Afinal, pioneiros e desbravadores sempre têm poucos recursos.

Toda essa dificuldade será homenageada com uma obra permanente. A praça. Ela não vai apagar a dor e o sofrimento daqueles que viveram para nós; que construíram esse lugar que hoje desfrutamos. No entanto, vai ser um símbolo e um marco. Símbolo de duas culturas. Marco ao respeito que essa gente merece.

A festa de inauguração da praça realmente será grande. Para lembrar a memória dos que morreram na travessia oceânica para o Brasil, crianças devidamente paramentadas vão ler poemas, textos que elevam a grandeza da nossa gente. A música e o colorido das roupas típicas vão saltar aos olhos e aos ouvidos dos que participarem do evento. Tudo vai ser muito bonito.

"__Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirene!" O barulho no canteiro de obras me acorda e me traz de volta à realidade. Sem praças nem monumentos. Acabou a hora do almoço. É hora de voltar a encher mais uma laje deste edifício residencial na região mais valorizada. O prédio terá 27 andares. Quatro apartamentos por andar. Um elevador para cada dois. Medidores de água, de luz, de gás - individuais. Uma ampla área de lazer no melhor estilo resort.

Sempre há homenagens para pioneiros italianos, alemães, japoneses, espanhóis e de muitas outras nacionalidades. Mas as dores forçadas dos meus antepassados ainda serão reconhecidas. E quem sabe - um dia - teremos uma praça para lembrar a memória dos que chegaram nos porões dos navios negreiros e ajudaram no desenvolvimento do país.

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