sábado, 21 de junho de 2008

Viva os Santos de Junho


De cima do altar, Antonio, João e Pedro dão as boas vindas aos fiéis que chegam para rezar o terço. Misericórdia!

Maria Aparecida dos Santos, a dona Mariquinha, é uma mulher muito religiosa, que reverencia todos os santos católicos. Em sua casa, em cada cômodo, uma imagem dá as boas vindas. A casinha – de madeira da época da colonização da cidade – parece mais um oratório, respira devoção. Ela não abre mão de exercer a própria fé e arrasta consigo muitos fiéis que, juntos, entoam pedidos, cânticos, orações. E todos os anos, não pode faltar o tradicional terço para os Santos de Junho.

A nós descei, divina luz!

A devoção da dona Mariquinha é tão grande, mas tão grande, que os três filhos dela receberam o nome dos santos. O mais velho é Antonio. O do meio João. O caçula Pedro. Ela não se cansa de contar a histórias dos santos a quem atribui verdadeiros milagres. Costuma dizer. Antonio, o santo que carrega o menino Jesus nos braços. João, o santo festeiro que capitaliza o mês de junho. Pedro, o guardião das portas do céu.

A nós descei, divina luz!

E dona Mariquinha já definiu, em reunião com as mulheres do bairro, o tema do terço. Ela disse que vai rezar por misericórdia. “__ A humanidade precisa receber muita graça porque a miséria humana é muito grande. Para salvar o mundo, só com intervenção divina.” É o que costuma dizer – e repetir e repetir – dona Mariquinha, num sotaque que remete a suas origens lá da roça. Ela não agüenta mais tanta dor injustiça e, pelo poder da fé, acredita que pode contribuir para um mundo melhor. “__ Precisamos da misericórdia de Deus.”

Em nossas almas acendei

A situação da cidade, do país e do mundo não anda nada bem. Fome; policiais-bandidos; terremoto; bandidos-bandidos; tsunami; vereadores-afastados; doenças mortais; empresários-presos; chacinas; justiça-injusta; corrupção corrupta... A lista de misérias humanas é grande e, para dona Mariquinha, muito desoladora, mas nada que o poder da fé não consiga remover.

O amor, o amor de Jesus

E no altar do mês de junho, os três santos – Antonio, João e Pedro – estão devidamente paramentados para o terço de logo mais à noite. Velas acenderão por um mundo melhor, por uma humanidade mais humana. “__Quem sabe, para iluminar a alma das pessoas”, diz dona Mariquinha. Este ano, o terço será diferente. Em vez de uma rodada de orações seguida dos comes e bebes, serão 12 horas de devoção. O Terço da Misericórdia.

Vinde, Santo Espírito / E do céu mandai / luminoso raio!

Para agüentar tanto tempo de oração, na cozinha, as mulheres já preparam o reforço de comida. Arroz-doce. Bolo de fubá. Bom Bocado. Canjica. Curau de Milho. Doce de Batata doce. Pamonha. Vinho quente. Chocolate quente. Pipoca. Amendoim torrado. Do lado de fora, os homens preparam restos de madeira para a fogueira que vai queimar silenciosa e serenamente.

Grande defensor / Em nós habitai / e nos confortai!

Silenciosa e serenamente porque os organizadores do terço não vão permitir a queima de fogos. A alegria tradicional da molecada e suas bombinhas barulhentas serão substituídas pela vigília permanente dos adultos. Durante a noite, das 19h às 7h da manhã, a vizinhança vai se revezar nas 12 horas do terço.

Lavai o impuro / e regai o seco / sarai o enfermo!

Do alto do altar, os Santos de Junho ficarão acompanhados a noite toda. Antonio, João e Pedro serão testemunhas. As mulheres estão devidamente posicionadas. Os homens também. As crianças, em silêncio profundo. São 19h em ponto. E num tom lamurioso, o terço começa.

Eterno Pai
Eu Vos ofereço o Corpo e Sangue
Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho
Nosso Senhor Jesus Cristo
Em expiação dos nossos pecados
e dos pecados do mundo inteiro

Um comentário:

Wilson disse...

e com toda certeza a "reza" final deve agradecer e pedir:
Infinitas graças Vos damos, Soberana Rainha, pelos benefícios que todos os dias recebemos de Vossas Mãos liberais.
Dignai-Vos, agora e para sempre, tomar-nos debaixo de Vosso poderoso amparo.

que, não somente a virgem maria nos ampare mas, que todos os santos nos ajude em uma época tão difícil.