sábado, 26 de julho de 2008

À sombra de uma mangueira


Outras sextas-feiras e a conversa deslanchou. Ela, em sua consternação, queria a todo custo saber o motivo – ou motivos – de tamanha desolação.

Aposentada e dinâmica, ela tem todo o tempo do mundo para curtir, agora, a cidade que cresceu. Quando mocinha e trabalhadora, não tinha tempo. Bem que ela poderia integrar o grupo de terceira idade do bairro, mas se arrepia ao ouvir falar de bailes, oficinas de crochê e viagens que amontoam os velhinhos em ônibus, geralmente, para o litoral ou alguma excursão religiosa. Ela prefere os mais jovens e o ritual urbano porque estes mostram mais vitalidade. Ela não suporta velhinhos que se queixam das dores, das perdas, ou seja, do fruto das próprias escolhas.

Ela escolheu não casar. Talvez tenha sido forçada. O noivo a três dias do casamento foi atropelado e ficou em coma por dois anos e meio. Ela cuidou do futuro marido todos os dias no hospital, mas não o dia inteiro. E ele – do coma – partiu deixando-a sozinha para sempre. Sozinha, mas não solitária. Por opção, ela preferiu nunca mais ser de ninguém. Recusou outros sete pretendentes e, de vez em quando até hoje, bota pra correr quem arrisca propor um relacionamento. Ela não se arrepende porque garante ter vivido seu grande amor. Quebrando todos os padrões e protocolos sociais, entregou-se ao noivo quatro dias antes do casamento, exatamente à véspera do atropelamento. “__Vivi o amor na sua maior plenitude e me sinto saciada”, costuma dizer a quem ousa criticar sua suposta solidão.

Ela está envolvida em muitas atividades. Faz trabalhos voluntários. Pratica exercícios físicos. Presta esporádicas consultorias empresariais na área de recursos humanos. Atende universitários periodicamente para falar dos nove títulos que escreveu durante a vida acadêmica. E reserva toda sexta-feira para fazer nada. Para curtir a praça central da grande cidade. E foi numa sexta-feira na praça que ela o conheceu. Ele é alto, moreno, idade do filho que não teve. Embaixo do chapéu ele ostenta um semblante muito triste. E foi esse semblante que o aproximou dela.

Havia umas quatro sextas-feiras consecutivas que ela o acompanhava. Com o olhar. Ele chega, senta-se num banco sob uma grande mangueira, tira pedaços de pão de uma sacola, joga aos pombos que arrulham aos seus pés, contempla as aves por longos minutos, levanta-se, sacode os farelos da calça jeans surrada e caminha na mesma direção de onde veio.

Aquele homem a intriga. Por que tanta tristeza? Isso a fez chegar ao banco sob a grande mangueira e sentar-se ao seu lado. Na primeira vez, trocaram olhares. Sem palavras, ela percebeu muito sofrimento. Ele alimentou os pombos e foi embora, mas os olhares marcaram o encontro da próxima sexta-feira. Sem palavras.

Na semana seguinte, ela chegou como de costume e esperou ele chegar. Sempre na mesma direção, no mesmo banco, na mesma mangueira. Ele até parecia cronometrar os movimentos. Ela sentou-se ao seu lado e puxou um fio de conversa. No início as palavras não fluíam. O dia está quente. Parece que vai chover. O resultado da mega-sena. As medidas do governo...

Outras sextas-feiras e a conversa deslanchou. Ela, em sua consternação, queria a todo custo saber o motivo – ou motivos – de tamanha desolação. Ele se abriu. Contou sobre o acidente quando um caminhão invadiu a pista e atingiu o carro onde ele estava com a família. Disse que morreram a mulher e os dois filhos de 7 e 9 anos. Isso estava completando cinco anos. “__Se eu estivesse dez segundos atrasado, aquele caminhão não tinha pegado a gente.”

Ela tentou consolá-lo. Pediu que visse a situação por outro ângulo. Se ele continuasse preso ao acidente não poderia ser mais feliz. Pediu que ele segurasse nas lembranças as coisas boas vividas junto aos filhos e à mulher. Pediu a ele para registrar o episódio mais feliz junto da família e que, como numa fotografia, aquela imagem pudesse eternizar o momento. Pediu que esta felicidade pudesse irradiar em todos os dias da vida dele espantando qualquer sentimento ruim. Naquele instante, ela sentiu algo e viu o primeiro sorriso em muito tempo naquele rosto que se tornara conhecido. Ele levantou-se, sacudiu os farelos da calça jeans surrada e foi na mesma direção que veio. Ela o acompanhava com o olhar. No meio da praça, ele virou-se para ela, sorriu e continuou o trajeto.

Na semana seguinte, ela estava no mesmo banco, sob a mesma mangueira. Ele não apareceu. Ela estranhou, mas não ficou triste. Sentiu-se bem e nem sabia o porquê. Neste momento uma imagem salta-lhe à lembrança. Ela se vê abraçada, quando criança, com seus pais num momento da festa dos seus 8 anos. Esta era a imagem que a ajudava a irradiar felicidade todos os dias. Ela sentiu que devia visitar o túmulo dos pais. Havia muito tempo que não fazia isso. Na floricultura da praça, comprou um ramo de flores do campo e tomou um ônibus.

Ela sentia paz no cemitério. Naquele dia, a tranqüilidade era maior. Ela caminhou entre as ruas internas até alcançar o túmulo dos pais. Depositou as flores do campo. Fez suas orações. Deixou o túmulo. Na volta, caminhando entre os jazigos, algo chamou sua atenção. Uma grande sepultura com um vaso novo de flores do campo iguais as que acabara de deixar para os pais. Ao se aproximar, ela vê na lápide quatro fotos: um homem, uma mulher, duas crianças – datadas de cinco anos antes. Ela lê a inscrição.

“__Vida eterna para uma família que se ama. Nem mesmo um acidente de carro é capaz de separar o que Deus uniu.”

sábado, 19 de julho de 2008

A rotina de dona Francisca


Levantar, se arrumar, tomar o café amargo, ler o jornal, checar os e-mails e conferir os scraps. É! dona Francisca tem nada contra a tecnologia.

Mais um dia começa e com ele a rotina de dona Francisca. Ela se levanta, vai ao banheiro, faz xixi, lava as mãos, escova os dentes, arruma o cabelo, veste o roupão surrado. No corredor, passa pelo filho mais velho, dá um bom dia e segue até a cozinha. A mesa do café já está posta. Ela cumprimenta a funcionária da casa. Maria das Dores está muito triste. Dona Francisca sente um clima pesado, mas a vida segue seu ritmo.

Dona Francisca toma o café amargo como de costume e devora uma fatia de pão feito em casa. Maria das Dores capricha no pão. Duas vezes por semana, ela amassa e gosta de fazer umas misturas. Da fornada que tira, tem pão com queijo, outros com ervas; outros com doce em calda. A família não reclama da criatividade culinária de Maria das Dores.

Depois do café amargo – dona Francisca tem diabetes e não suporta adoçante com gosto de remédio – ela faz o que mais gosta. Pede licença ao neto mais velho, pega o jornal do dia. Ela passa os olhos no noticiário político e pára para fazer uma análise das informações dos calunistas – é como se refere aos colunistas do jornal. Ela se diz cansada de tanta notícia sobre corrupção, desvio de dinheiro público, empresário bandido. E chega, finalmente, ao caderno que mais gosta, o das cidades.

No caderno, dona Francisca sofre com a história de gente comum que trafega pelas linhas do jornal. História de gente que precisa de colírio que está em falta para glaucoma; de gente que teve a filha morta por policiais militares; de gente que foi atropelada no ponto de ônibus por motorista bêbado. Para ela, a lei seca é uma benção.

Ela também se emociona com outras histórias. História da menininha que encontrou o poodle que tinha desaparecido; dos gêmeos separados no parto que se encontram depois de 55 anos; do cobrador que encontra um recém-nascido na catedral; da mulher que foi resgatada depois de cair de carro no lago e foi salva por um bombeiro; dos pais que doaram os órgãos do filho morto num acidente de carro.

Depois de ler os jornais, a rotina de dona Francisca segue seu curso. Ela vai para o computador; quer checar seus e-mails e verificar seus scraps. Ela acha um absurdo quem passou dos 60 encarar o computador como um bicho de sete cabeças. Para ela, basta teclar a primeira vez para não parar mais.

No computador, dona Francisca repassa algumas fotos digitalizadas. Vê o seu tempo de menina, de moça, do seu casamento. Depois abre a pasta dos filhos e os revê na pose tradicional da 1ª série, com as três bandeiras ao fundo; a primeira comunhão; a formatura da 8ª série e do 2º grau; o casamento; os primeiros netos; os almoços de domingo da família, de Natal, de Ano Novo, de Páscoa, do último dia das mães, quando ganhou de presente um amarílis. Num vermelho de dar gosto, como costuma dizer.

A filha mais velha entra no escritório e deixa um envelope em cima da mesa. Dona Francisca a cumprimenta e quer ver o conteúdo. Nada de mais. São contas para pagar no mês. A fatura do consórcio, da água, da luz, da escola do neto...

Depois de ver o custo de cada conta, dona Francisca volta à cozinha para pensar no almoço, aliás, que já exala um tempero agradável. Maria das Dores sempre se antecipa e já começou a preparar os pratos. Dona Francisca cumprimenta a nora e o genro... Nora e genro? Por que eles estão aqui em casa a essa hora? Nem é final de semana!

A campainha toca e, neste momento, padre Bento entra. Dona Francisca começa achar que alguma coisa está errada. Por que o padre está na minha casa? Dona Francisca o cumprimenta e senta-se como de costume em sua poltrona. Ela está numa curiosidade de matar. Todos se sentam à mesa e dona Francisca observa detidamente. O filho mais velho pede a palavra.

“__Sabe padre Bento, hoje faz um mês que mamãe se foi e é como se ela ainda tivesse por aqui. Estamos tristes com isso porque a gente não sabe se ela está bem. Isso nos deixa muito apreensivos. A missão dela aqui foi bonita e muito bem cumprida. Nós a amamos, mas ela precisa passar por todas as etapas e descansar em paz.”

sábado, 12 de julho de 2008

Como é bom ser pai


Ana está grávida novamente. Estamos muito, muito felizes. A gente sabe que vai ser um menino e o nome já está definido.

Eu nunca tinha imaginado em ser pai - aliás era uma idéia muito vaga - até o dia que minha mulher chegou e disse que estava grávida. Fiquei surpreso. Ansioso. Amedrontado. É uma mistura de felicidade com apreensão. Afinal estamos falando de uma vida que vai depender de você para o resto da vida. Quer dizer, por uma boa parte da vida.

Quando Ana me contou que estava esperando um filho - depois do susto é claro - começamos a planejar tudo. O quarto. As cores. As roupinhas. O nome. Se fosse menina, seria Maria Carolina. Se fosse menino, seria João Victor. Que felicidade esperar um bebê - depois do susto é claro. Afinal, não havíamos planejado a gravidez, mas poderíamos planejar o resto.

Mas essa felicidade durou muito pouco, infelizmente. Para ser exato dois meses. Uma tarde quente de quarta-feira, Ana começou - do nada - a ter um sangramento intenso. Com fortes dores na barriga, corremos para o hospital. Não deu tempo. Ana teve um aborto espontâneo. Perdemos nosso filho sem ao menos ter tido. Ele não existia legalmente, mas já fazia parte de nós. Era um pedacinho das nossas vidas.

Depois desse episódio, Ana alimentava a cada dia o sonho da maternidade. Ela queria muito, mas muito mesmo, ser mãe. E eu queria muito, mas muito mesmo, ser pai. Depois de reabilitada, começamos a planejar o nosso filho. Não daríamos os nomes já escolhidos. Maria Carolina ou João Victor fazia parte da personalidade do primeiro. Ele ou ela tinha identidade. Então, decidimos. O próximo vai se chamar José Gabriel ou se for menina, Clara. Todos os meses durante um bom tempo, tentamos trazer ao mundo a nossa alminha.

Depois de um tempo, quando a ansiedade já tinha cedido espaço à serenidade, Ana me disse que estava grávida. Havia três meses ela não menstruava. E não me contou nada! A ansiedade voltou à carga e eu quase enlouqueci de felicidade. Todos os planos para o bebê voltaram a rondar minha cabeça. Ana me disse que tinha certeza de ser um menino. E por que iria duvidar do sexto sentido feminino? Essas mulheres têm cada uma.

Para que nada desse errado marcamos hora com o médico. Como ele estava num congresso no exterior e só voltaria em 10 dias, eu não deixava Ana fazer nada. Estava em repouso absolutíssimo. Ordens minhas. Contratei uma auxiliar de enfermagem para providenciar tudo que Ana precisasse enquanto eu estivesse no trabalho. Em casa, eu fazia tudo por ela. Ah o José Gabriel está vindo! Já pensou ele me chamando de papai!

Nesses 10 dias até a consulta com o médico, eu tratei de comprar umas coisinhas. Pouca coisa. A tinta azul do quarto. O berço azul. O sapatinho - três pares - azul em tonalidades diferentes, uma bicicleta azul e um urso de pelúcia. Azul é claro. O bicho já tem até nome, Pitoco. Minha sogra odiou mas tenho certeza que o José Gabriel vai gostar.

Enquanto isso, Ana sempre falava da sensação boa da gravidez. Os seios crescendo e até produzindo leite. O útero aumentando. As alterações hormonais. E claro, outras sensações não tão boas da gravidez, os enjôos. Essa parte é chata, hein. Ana não podia sentir o cheiro de comida que tinha muitas, muitas náuseas.

Chegou o dia da consulta com o médico. Ana e eu estávamos radiantes. Quase quatro meses de gravidez. O médico animado iniciou a consulta com uma série de perguntas, anotou as respostas - naquela letra que só ele entende - e partiu para o exame físico. Entre uma apalpação e outra, o médico teve uma reação que me deixou perturbado. Ele fez cara de apreensão e pediu alguns exames. Perguntei o porquê da cara e ele desconversou. Gentilmente.

Marcamos o retorno para o dia seguinte. Estava com um aperto no coração. Seria um problema com o bebê? Esse problema seria grave? Entramos na sala do médico e a animação de ontem deu lugar, hoje, a uma seriedade inquietante.

"__ Sabe Gustavo e Ana. Algumas mulheres desenvolvem essa síndrome", disse o médico pausadamente. "__Que síndrome?", interrompi aflito.

"__A pseudociese, ou seja, uma gravidez psicológica. Infelizmente, Ana não está grávida. Isso ocorre em mulheres com um desejo profundo de engravidar. A mulher passa a desenvolver sintomas de uma gravidez real, dando a impressão realmente de ter um feto no seu útero."

Enquanto o médico falava, minha cabeça doía e girava, girava, girava...

"__ No caso da Ana, o mais espantoso é que houve uma alteração significativa nos níveis da prolactina, que é o hormônio responsável por parar a menstruação e produzir o leite. Temos que fazer um tratamento com a Ana, para a prolactina voltar ao normal. Ana, você não tem um problema muito grave, mas precisa de acompanhamento e..."

Enquanto o médico falava, minha cabeça doía e girava, girava, girava...

sábado, 5 de julho de 2008

Pequenas diferenças


Eles têm 16 anos. São adolescentes e aproveitam a vida como todos os jovens da faixa etária. Diversão. Responsabilidade. Esforço. Conseqüências. O resultado nem sempre é igual.

Richard tem 16 anos. Ele é como muitos da sua idade. Não se preocupa com o futuro. Não quer compromisso. Responsabilidade assume uma condição volátil. Ele gosta de viver o presente e - como prega - intensamente. Os prazeres são imediatos.

Fábio também tem 16 anos. Ele é como muitos da sua idade; se preocupa com o futuro. Quando assume um compromisso vai até o fim. Responsabilidade para ele é responsabilidade. Ele também gosta de viver o presente intensamente e os prazeres não são imediatos.

Richard está na 8ª série do ensino fundamental. Os estudos atrasados são resultado da sua dedicação (falta de). Os pais não são presentes, não acompanham a vida escolo-social do filho. Segundo a escola, o menino é um problema, produto da desestrutura familiar. "__Desse jeito vai chegar a lugar nenhum", decreta uma professora.

Fábio está prestes a terminar a 3ª série do ensino médio. Os pais apóiam, incentivam e acompanham os passos do filho. Na escola, o menino é elogiado. Sempre motivam o já motivado Fábio. "__Tem um futuro brilhante pela frente", afirma uma professora.

Richard está envolvido com um grupo perigoso. No bairro onde mora, afastado do centro, os meninos não são bem vistos pelos moradores. No histórico do grupo, consumo de droga, agressão, direção sem habilitação, perturbação da ordem pública, entre outros.

Fábio está envolvido com um grupo exemplo no bairro onde mora, na área central da cidade. Ele integra um importante segmento da igreja que realiza trabalho voluntário em centros de educação infantil, casas de convivência de idosos e moradores de rua. O trabalho dos jovens já rendeu até homenagem na Câmara de Vereadores.

Richard continua reforçando os próprios problemas. Sua inserção está cada vez pior nos locais que freqüenta. Muitos têm medo dele. Somente agora os pais começam a se dar conta da situação. A mãe pergunta onde errou e perde mais tempo em procurar culpado que resolver a situação.

Fábio continua colhendo os frutos pela qualidade das suas relações. Todos o admiram. Todos o elogiam. Sua presença é solicitadamente agradável. Os pais se enchem de orgulho, são felicitados pela educação que deram ao menino. Ninguém se cansa de incentivar o futuro promissor.

Richard está se complicando cada vez mais. Ele se envolveu num episódio sério. Na saída da escola, foi pego com 11 papelotes prontos para o comércio. Desta vez, está em conflito com a lei. Foi apreendido pela polícia. Por decisão judicial, foi encaminhado ao Ciaddi. Ficará por um bom tempo.

Fábio ganha cada vez mais visibilidade. O sucesso parece persegui-lo. Acaba de ganhar um prêmio, em dinheiro, pelo primeiro lugar numa Mostra de Ciências, promovida por uma universidade. Ele estudou matrizes energéticas e montou um protótipo que utiliza a energia eólica – a dos ventos – para o processo de produção na indústria de recicláveis.

Richard já está há algumas semanas no Ciaddi. Recebe a visita da mãe com freqüência. O pai foi uma única vez. Na ocasião foi contido pelos educadores sociais porque quase agrediu o menino no seu quarto-cela. A mãe assumiu a condição de mãe e luta pela recuperação do filho, com o pai à distância.

Fábio está muito feliz. Acaba de ver seu nome completo na lista do vestibular da universidade estadual. O grupo de amigos faz questão de raspar sua cabeça, quebrar uma dúzia de ovos e escrever na sua testa, com batom vermelho, três letras. MED.

Richard luta para sobreviver. Agora o pai tornou-se um aliado. Empresário da construção civil, contratou o melhor criminalista da cidade, vizinho no condomínio de luxo onde mora, afastado do centro.

Fábio conta ansiosamente os dias para a primeira aula. A mãe, empregada doméstica; e o pai, pedreiro, lutam; diariamente, para comprar o material que o menino vai precisar no curso universitário, cujas portas foram-lhe abertas pelas cotas universitárias para negros.

Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina, em 23 de janeiro de 2008.