sábado, 12 de julho de 2008

Como é bom ser pai


Ana está grávida novamente. Estamos muito, muito felizes. A gente sabe que vai ser um menino e o nome já está definido.

Eu nunca tinha imaginado em ser pai - aliás era uma idéia muito vaga - até o dia que minha mulher chegou e disse que estava grávida. Fiquei surpreso. Ansioso. Amedrontado. É uma mistura de felicidade com apreensão. Afinal estamos falando de uma vida que vai depender de você para o resto da vida. Quer dizer, por uma boa parte da vida.

Quando Ana me contou que estava esperando um filho - depois do susto é claro - começamos a planejar tudo. O quarto. As cores. As roupinhas. O nome. Se fosse menina, seria Maria Carolina. Se fosse menino, seria João Victor. Que felicidade esperar um bebê - depois do susto é claro. Afinal, não havíamos planejado a gravidez, mas poderíamos planejar o resto.

Mas essa felicidade durou muito pouco, infelizmente. Para ser exato dois meses. Uma tarde quente de quarta-feira, Ana começou - do nada - a ter um sangramento intenso. Com fortes dores na barriga, corremos para o hospital. Não deu tempo. Ana teve um aborto espontâneo. Perdemos nosso filho sem ao menos ter tido. Ele não existia legalmente, mas já fazia parte de nós. Era um pedacinho das nossas vidas.

Depois desse episódio, Ana alimentava a cada dia o sonho da maternidade. Ela queria muito, mas muito mesmo, ser mãe. E eu queria muito, mas muito mesmo, ser pai. Depois de reabilitada, começamos a planejar o nosso filho. Não daríamos os nomes já escolhidos. Maria Carolina ou João Victor fazia parte da personalidade do primeiro. Ele ou ela tinha identidade. Então, decidimos. O próximo vai se chamar José Gabriel ou se for menina, Clara. Todos os meses durante um bom tempo, tentamos trazer ao mundo a nossa alminha.

Depois de um tempo, quando a ansiedade já tinha cedido espaço à serenidade, Ana me disse que estava grávida. Havia três meses ela não menstruava. E não me contou nada! A ansiedade voltou à carga e eu quase enlouqueci de felicidade. Todos os planos para o bebê voltaram a rondar minha cabeça. Ana me disse que tinha certeza de ser um menino. E por que iria duvidar do sexto sentido feminino? Essas mulheres têm cada uma.

Para que nada desse errado marcamos hora com o médico. Como ele estava num congresso no exterior e só voltaria em 10 dias, eu não deixava Ana fazer nada. Estava em repouso absolutíssimo. Ordens minhas. Contratei uma auxiliar de enfermagem para providenciar tudo que Ana precisasse enquanto eu estivesse no trabalho. Em casa, eu fazia tudo por ela. Ah o José Gabriel está vindo! Já pensou ele me chamando de papai!

Nesses 10 dias até a consulta com o médico, eu tratei de comprar umas coisinhas. Pouca coisa. A tinta azul do quarto. O berço azul. O sapatinho - três pares - azul em tonalidades diferentes, uma bicicleta azul e um urso de pelúcia. Azul é claro. O bicho já tem até nome, Pitoco. Minha sogra odiou mas tenho certeza que o José Gabriel vai gostar.

Enquanto isso, Ana sempre falava da sensação boa da gravidez. Os seios crescendo e até produzindo leite. O útero aumentando. As alterações hormonais. E claro, outras sensações não tão boas da gravidez, os enjôos. Essa parte é chata, hein. Ana não podia sentir o cheiro de comida que tinha muitas, muitas náuseas.

Chegou o dia da consulta com o médico. Ana e eu estávamos radiantes. Quase quatro meses de gravidez. O médico animado iniciou a consulta com uma série de perguntas, anotou as respostas - naquela letra que só ele entende - e partiu para o exame físico. Entre uma apalpação e outra, o médico teve uma reação que me deixou perturbado. Ele fez cara de apreensão e pediu alguns exames. Perguntei o porquê da cara e ele desconversou. Gentilmente.

Marcamos o retorno para o dia seguinte. Estava com um aperto no coração. Seria um problema com o bebê? Esse problema seria grave? Entramos na sala do médico e a animação de ontem deu lugar, hoje, a uma seriedade inquietante.

"__ Sabe Gustavo e Ana. Algumas mulheres desenvolvem essa síndrome", disse o médico pausadamente. "__Que síndrome?", interrompi aflito.

"__A pseudociese, ou seja, uma gravidez psicológica. Infelizmente, Ana não está grávida. Isso ocorre em mulheres com um desejo profundo de engravidar. A mulher passa a desenvolver sintomas de uma gravidez real, dando a impressão realmente de ter um feto no seu útero."

Enquanto o médico falava, minha cabeça doía e girava, girava, girava...

"__ No caso da Ana, o mais espantoso é que houve uma alteração significativa nos níveis da prolactina, que é o hormônio responsável por parar a menstruação e produzir o leite. Temos que fazer um tratamento com a Ana, para a prolactina voltar ao normal. Ana, você não tem um problema muito grave, mas precisa de acompanhamento e..."

Enquanto o médico falava, minha cabeça doía e girava, girava, girava...

Um comentário:

Daniel Lucas disse...

Fala Rei!

Crônica triste essa hein?

Muito bons seus textos. Eu tenho que criar um mural com blogs que frequento e colocar o seu, é claro.

Grande Abraço.