sábado, 5 de julho de 2008

Pequenas diferenças


Eles têm 16 anos. São adolescentes e aproveitam a vida como todos os jovens da faixa etária. Diversão. Responsabilidade. Esforço. Conseqüências. O resultado nem sempre é igual.

Richard tem 16 anos. Ele é como muitos da sua idade. Não se preocupa com o futuro. Não quer compromisso. Responsabilidade assume uma condição volátil. Ele gosta de viver o presente e - como prega - intensamente. Os prazeres são imediatos.

Fábio também tem 16 anos. Ele é como muitos da sua idade; se preocupa com o futuro. Quando assume um compromisso vai até o fim. Responsabilidade para ele é responsabilidade. Ele também gosta de viver o presente intensamente e os prazeres não são imediatos.

Richard está na 8ª série do ensino fundamental. Os estudos atrasados são resultado da sua dedicação (falta de). Os pais não são presentes, não acompanham a vida escolo-social do filho. Segundo a escola, o menino é um problema, produto da desestrutura familiar. "__Desse jeito vai chegar a lugar nenhum", decreta uma professora.

Fábio está prestes a terminar a 3ª série do ensino médio. Os pais apóiam, incentivam e acompanham os passos do filho. Na escola, o menino é elogiado. Sempre motivam o já motivado Fábio. "__Tem um futuro brilhante pela frente", afirma uma professora.

Richard está envolvido com um grupo perigoso. No bairro onde mora, afastado do centro, os meninos não são bem vistos pelos moradores. No histórico do grupo, consumo de droga, agressão, direção sem habilitação, perturbação da ordem pública, entre outros.

Fábio está envolvido com um grupo exemplo no bairro onde mora, na área central da cidade. Ele integra um importante segmento da igreja que realiza trabalho voluntário em centros de educação infantil, casas de convivência de idosos e moradores de rua. O trabalho dos jovens já rendeu até homenagem na Câmara de Vereadores.

Richard continua reforçando os próprios problemas. Sua inserção está cada vez pior nos locais que freqüenta. Muitos têm medo dele. Somente agora os pais começam a se dar conta da situação. A mãe pergunta onde errou e perde mais tempo em procurar culpado que resolver a situação.

Fábio continua colhendo os frutos pela qualidade das suas relações. Todos o admiram. Todos o elogiam. Sua presença é solicitadamente agradável. Os pais se enchem de orgulho, são felicitados pela educação que deram ao menino. Ninguém se cansa de incentivar o futuro promissor.

Richard está se complicando cada vez mais. Ele se envolveu num episódio sério. Na saída da escola, foi pego com 11 papelotes prontos para o comércio. Desta vez, está em conflito com a lei. Foi apreendido pela polícia. Por decisão judicial, foi encaminhado ao Ciaddi. Ficará por um bom tempo.

Fábio ganha cada vez mais visibilidade. O sucesso parece persegui-lo. Acaba de ganhar um prêmio, em dinheiro, pelo primeiro lugar numa Mostra de Ciências, promovida por uma universidade. Ele estudou matrizes energéticas e montou um protótipo que utiliza a energia eólica – a dos ventos – para o processo de produção na indústria de recicláveis.

Richard já está há algumas semanas no Ciaddi. Recebe a visita da mãe com freqüência. O pai foi uma única vez. Na ocasião foi contido pelos educadores sociais porque quase agrediu o menino no seu quarto-cela. A mãe assumiu a condição de mãe e luta pela recuperação do filho, com o pai à distância.

Fábio está muito feliz. Acaba de ver seu nome completo na lista do vestibular da universidade estadual. O grupo de amigos faz questão de raspar sua cabeça, quebrar uma dúzia de ovos e escrever na sua testa, com batom vermelho, três letras. MED.

Richard luta para sobreviver. Agora o pai tornou-se um aliado. Empresário da construção civil, contratou o melhor criminalista da cidade, vizinho no condomínio de luxo onde mora, afastado do centro.

Fábio conta ansiosamente os dias para a primeira aula. A mãe, empregada doméstica; e o pai, pedreiro, lutam; diariamente, para comprar o material que o menino vai precisar no curso universitário, cujas portas foram-lhe abertas pelas cotas universitárias para negros.

Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina, em 23 de janeiro de 2008.

3 comentários:

Jean Tonsig disse...

Dinheiro SEMPRE não é tudo, dinheiro não compra caráter,não substitui ausência.
Não importa o quanto têm, SEMPRE é preciso comparecer, e quanto antes melhor.

Parabéns pela crônica.

Jean Tonsig - Jornalista

Paulo Augusto Sebin disse...

Olá Reinaldo Zanardi. Você é responsável por eu gostar de crônicas. Me baseio nelas para produzir as minhas! Parabéns

Danilo disse...

Parabéns, mais uma vez, pela crônica, Rei!!!

Estou eseperando a de hoje!