sábado, 19 de julho de 2008

A rotina de dona Francisca


Levantar, se arrumar, tomar o café amargo, ler o jornal, checar os e-mails e conferir os scraps. É! dona Francisca tem nada contra a tecnologia.

Mais um dia começa e com ele a rotina de dona Francisca. Ela se levanta, vai ao banheiro, faz xixi, lava as mãos, escova os dentes, arruma o cabelo, veste o roupão surrado. No corredor, passa pelo filho mais velho, dá um bom dia e segue até a cozinha. A mesa do café já está posta. Ela cumprimenta a funcionária da casa. Maria das Dores está muito triste. Dona Francisca sente um clima pesado, mas a vida segue seu ritmo.

Dona Francisca toma o café amargo como de costume e devora uma fatia de pão feito em casa. Maria das Dores capricha no pão. Duas vezes por semana, ela amassa e gosta de fazer umas misturas. Da fornada que tira, tem pão com queijo, outros com ervas; outros com doce em calda. A família não reclama da criatividade culinária de Maria das Dores.

Depois do café amargo – dona Francisca tem diabetes e não suporta adoçante com gosto de remédio – ela faz o que mais gosta. Pede licença ao neto mais velho, pega o jornal do dia. Ela passa os olhos no noticiário político e pára para fazer uma análise das informações dos calunistas – é como se refere aos colunistas do jornal. Ela se diz cansada de tanta notícia sobre corrupção, desvio de dinheiro público, empresário bandido. E chega, finalmente, ao caderno que mais gosta, o das cidades.

No caderno, dona Francisca sofre com a história de gente comum que trafega pelas linhas do jornal. História de gente que precisa de colírio que está em falta para glaucoma; de gente que teve a filha morta por policiais militares; de gente que foi atropelada no ponto de ônibus por motorista bêbado. Para ela, a lei seca é uma benção.

Ela também se emociona com outras histórias. História da menininha que encontrou o poodle que tinha desaparecido; dos gêmeos separados no parto que se encontram depois de 55 anos; do cobrador que encontra um recém-nascido na catedral; da mulher que foi resgatada depois de cair de carro no lago e foi salva por um bombeiro; dos pais que doaram os órgãos do filho morto num acidente de carro.

Depois de ler os jornais, a rotina de dona Francisca segue seu curso. Ela vai para o computador; quer checar seus e-mails e verificar seus scraps. Ela acha um absurdo quem passou dos 60 encarar o computador como um bicho de sete cabeças. Para ela, basta teclar a primeira vez para não parar mais.

No computador, dona Francisca repassa algumas fotos digitalizadas. Vê o seu tempo de menina, de moça, do seu casamento. Depois abre a pasta dos filhos e os revê na pose tradicional da 1ª série, com as três bandeiras ao fundo; a primeira comunhão; a formatura da 8ª série e do 2º grau; o casamento; os primeiros netos; os almoços de domingo da família, de Natal, de Ano Novo, de Páscoa, do último dia das mães, quando ganhou de presente um amarílis. Num vermelho de dar gosto, como costuma dizer.

A filha mais velha entra no escritório e deixa um envelope em cima da mesa. Dona Francisca a cumprimenta e quer ver o conteúdo. Nada de mais. São contas para pagar no mês. A fatura do consórcio, da água, da luz, da escola do neto...

Depois de ver o custo de cada conta, dona Francisca volta à cozinha para pensar no almoço, aliás, que já exala um tempero agradável. Maria das Dores sempre se antecipa e já começou a preparar os pratos. Dona Francisca cumprimenta a nora e o genro... Nora e genro? Por que eles estão aqui em casa a essa hora? Nem é final de semana!

A campainha toca e, neste momento, padre Bento entra. Dona Francisca começa achar que alguma coisa está errada. Por que o padre está na minha casa? Dona Francisca o cumprimenta e senta-se como de costume em sua poltrona. Ela está numa curiosidade de matar. Todos se sentam à mesa e dona Francisca observa detidamente. O filho mais velho pede a palavra.

“__Sabe padre Bento, hoje faz um mês que mamãe se foi e é como se ela ainda tivesse por aqui. Estamos tristes com isso porque a gente não sabe se ela está bem. Isso nos deixa muito apreensivos. A missão dela aqui foi bonita e muito bem cumprida. Nós a amamos, mas ela precisa passar por todas as etapas e descansar em paz.”

Um comentário:

Anônimo disse...

Me ajudando demais no meu TCC!!!