sábado, 30 de agosto de 2008

Quando setembro chegar


Este é um dos meus meses preferidos por ser movimentado e colorido. Movimentado porque tem conscientização pra tudo. Colorido porque marca o início da primavera.

Pego emprestado do compositor uns versos e canto diferente para um mês que promete muitas coisas. “Quando setembro chegar / eu quero estar junto a ti.” Setembro é realmente um mês muito especial. Ele marca o início da primavera, no dia 23, em todo o hemisfério sul. É um mês especial porque traz o colorido das flores. Ah! as flores são muito especiais. O vermelho da rosa fica mais intenso. O laranja da gérbera reflete mais luz. O violeta de algumas orquídeas é, ao mesmo tempo, sóbrio e fashion. O branco dos lírios traduz a singularidade da estação.

E setembro é mesmo um mês bastante movimentado. De muita conscientização. É nele que se comemora o Dia da Árvore. Precisamos de um dia, às vezes, uma semana, para nos darmos conta que devemos proteger nossas árvores. Por que? Porque nossos antepassados passaram a serra em centenárias perobas, jacarandás, jequitibás, cedros, carvalhos e muitas outras. Isso era sinônimo de progresso, de evolução, de desenvolvimento. Talvez, por isso, precisamos ter um dia para lembrarmos que a árvore é necessária à sobrevivência de seres (ditos) racionais e irracionais.

E por falar de semana, setembro é pródigo em semanas nacionais e municipais. Vou citar apenas três exemplos. Primeiro, a Semana Nacional de Doação de Órgãos, organizada pelo Ministério da Saúde. Você acredita que se investe dinheiro público para incentivar cristãos – a maioria dos brasileiros – a serem realmente cristãos? Incentivar o ser humano a ser humano? Pais, por exemplo, que perdem um filho num acidente podem doar os órgãos e salvar uma, duas, várias vidas. Dor é dor e dói mesmo. E o filho já se foi. Não está mais aqui. Aí fazem a doação não para salvar uma vida – aquela que espera até anos numa fila – mas para que quem morreu continue de alguma forma vivendo. É realmente difícil lidar com a morte.

Mas o mais curioso mesmo é gastar recurso público para educar adulto mal educado. Este é o segundo exemplo. A Semana Nacional de Trânsito, uma iniciativa do Ministério dos Transpoortes. Você já viu quantas campanhas educativas para o trânsito? Se realmente campanha educasse ninguém morreria de acidente de carro, ônibus, moto, bicicleta... Dizem que educar adulto mal educado só pelo bolso mesmo. Então não é uma medida educativa. É uma medida coercitiva. E necessária.

O motorista sabe que não pode avançar sinal. E se multado, reclama porque não foi avisado antes. O motorista sabe que não pode fazer conversão proibida, andar na contramão, parar na faixa de pedestre, andar acima da velocidade permitida, estacionar em local proibido. Se é multado, diz que tem indústria da multa. E se tem indústria da multa é porque existe a fábrica da infração. Ação e reação. E beber e dirigir? O motorista enche o caneco, arrebenta-se num poste e lá vai o Siate gastar o nosso dinheiro público. Tudo bem! a Constituição manda. Então que gastemos o nosso dinheiro do jeito que a sociedade quer.

Ah! o terceiro exemplo de setembro é local. A Semana Municipal da Paz, que neste ano está na oitava edição. Muito interessante isso, mas confesso que não entendi direito. Paz? Qual o conceito de paz? O da não violência? Então se não sou violento, sou adepto da paz? E aquela passeata em que todo mundo de branco pede paz! Pedir para quem? Para os bandidos? Para o poder público? Para o vizinho, que nem sabemos o nome? Para nós mesmos?

Paz. Paz. Paz. Isso é o que mais quero atualmente. Confesso que estou um pouco amarga – ácida até – mas é que não me deixam em paz. Me chamam de praga, querem até me exterminar. Vida de abelha arapuá não é fácil, não. Sou um inseto nativo que nem ferrão tem. Sou inofensiva porque não produzo veneno. Posso incomodar? Sim. Afinal devastaram – sabe aqueles antepassados? – minhas áreas nativas e, para sobreviver, preciso atacar com as armas que tenho. Flores, em especial algumas frutíferas, estão entre as minhas preferidas. Posso até fazer algum estrago, mas não é proposital. E, decididamente, cumpro um papel importante na polinização. Causar estrago também faz parte da minha natureza, assim como a natureza humana nem sempre é tão humana.

sábado, 23 de agosto de 2008

Um sorrisinho amarelo


Quem nunca viveu situações que vão do engraçado ao constrangedor? Pois é, a vida reserva muitas situações dessas. O melhor é rir e fazer disso uma boa piada.

Bola fora. Cara no chão. Sorriso amarelo. Cara de paisagem. Às vezes, a gente fica procurando um buraco para entrar e sair de lá só a hora que todos forem embora. E eu tinha que abrir a minha boca, né. Ô situação! Já que a vida reserva algumas dessas, vamos aproveitar e transformar tudo numa piada. Muitos vão até achar você criativo e duvidar se realmente a situação aconteceu.

Maria era colega de turma na faculdade. Dessas que adota a turma depois de reprovar numa disciplina pré-requisito. Acho que as faculdades, hoje, aboliram isso. Você só podia fazer a disciplina 2, se tivesse aprovado na 1 e assim por diante. Bem, enfim... Maria acabou se formando conosco, mesmo não sendo do grupo original. Na formatura ostentava um barrigão. Terceira gravidez. Discursos e serpentina marcaram aquele dia emocionante. Fui até o primeiro da turma. Bem, enfim... passados alguns meses, vi Maria na rua e fui sorridente cumprimentá-la. Depois de um tempo, trocando informações, todo solícito coloquei a mão sobre a sua barriga. “__E o bebê quando vai nascer?” “__Nasceu já faz quatro meses.” Podia ter dormido sem essa, mas a barriga era tão grande...

Constrangimento eu passei mesmo foi em outra situação. Lurdinha, a minha mulher, queria muito reproduzir, gerar. Fazia um ano que tentávamos e nada. Aí só restavam os exames. Os meus. Os delas. Tem situação mais constrangedora que coletar esperma num vidrinho? É, existem outras sim. Coletar fezes também não é uma situação, digamos glamurosa. Bem, enfim... Marquei com o doutor Américo, que nunca atende na hora marcada, mas estava eu lá. Aflito na recepção. Parecia que todos riam da situação e eu suava frio. “__Reginaldo Aparecido!” Aquilo soou como uma bigorna trilitando na minha cabeça. Quis fazer de conta que não era comigo, mas a atendente parecia um xerife. “__Sou eu”, admiti desconsertado.

Peguei o recipiente e fui orientado a me dirigir à sala de coleta do material. Pasmem! Na porta da sala uma placa escandalosa escrita em letras gigantes. “Sala de Coleta de Esperma”. E pior, a sala é do lado do banheiro e de frente para a recepção, que naquele dia tinha umas 17 pessoas. É que o doutor Américo aluga o prédio para uma equipe de cardiologistas. Isso ajuda a diminuir os custos. Bem, enfim... Entrei na sala de coleta e, num dos cantos, umas playboys. Não tinha cristo que dava jeito. Tentei pensar até na Catherine Zeta-Jones. Eu fantasiado de Zorro. Mas nada. E o pior, era sair dali com o recipiente vazio. Fazia meia hora que estava na sala e não tinha coragem de sair. E a atendente bateu na porta. “__Seu Reginaldo Aparecido, tudo bem?” E a sacana ainda grita meu nome pra todo mundo ouvir.

E por falar em médico, êta racinha essa! Eu só queria uma consultinha para um problema de coluna que carrego faz tempo. Fui à lista do convênio e peguei todos os nomes. Primeira ligação. “__O doutor é especialista em pés.” Segunda ligação. “__O doutor é cirurgião e só opera calcanhar.” Terceira ligação. “__O doutor é especialista em mãos.” Eu só queria um ortopedista. Essa medicina é tão boa que não vê mais o ser humano como um ser integral. Me viam ora como um pé, ora como uma mão, ora como um calcanhar.

Bem, enfim... já não agüentava de dor quando um amigo no escritório deu o telefone do ortopedista dele. E a gente ainda insiste em chamar assim. O meu médico disso. O meu médico daquilo. Se fossem, atenderiam. Bem, enfim... liguei pela quarta vez. “__O senhor já é paciente?” Àquela altura já tinha perdido a paciência. “__Não.” “__Pois é, o doutor só atende joelhos.” “__Moça, meu problema é coluna, mas não tem problema, eu levo os joelhos na consulta.” Não teve jeito. Acabei numa crise de coluna e fui atendido num pronto-socorro.

Felizmente, essas coisas não acontecem só comigo. Tenho um colega no escritório que se meteu numa. O cara é solteiro e diz que gosta de pegar todas. Não perdoa mesmo. Um dia desses, conheceu uma mina. Papo vai. Papo vem. Tudo quase acertado para o motel, quando chega o namorado dela. Ele tenta sair de mansinho, mas a gata pede para ele ficar, que o namorado não é ciumento, que os dois estão buscando um terceiro para uma noite quente. Armando nem considerou a idéia, mas a gata era realmente gata e pedia com tamanha docilidade que Armando ficou desarmado.

Bem, enfim... Armando acabou convencido, desde que o namorado da gata não chegasse perto dele. Armando é macho e a mina uma gata gostosa. Ele contou que foram para o motel, que foi uma loucura, mas – a certa altura – bebeu tanto que apagou. Acordou sozinho e um recado na cabeceira. “__Valeu gatinho. Achamos você lindo e fizemos muitas fotos suas. Espere que elas serão postadas num blog nosso. Pesquise 'garanhão duplo' no Google.” Rapaz, o Armando surtou...

E por falar em surtar, a Lurdinha tem uma tia que vou contar, hein. Todo mundo tem uma tia, daquelas que falam de tudo e de todos. Mas vocês não conhecem a tia da Lurdinha. Essa ganha. Outro dia ela se meteu numa confusão! Estava fazendo a limpeza do altar da igreja, quando um homem entrou. Ela falou um monte de impropérios e botou o coitado pra correr. Disse que fazia isso porque a igreja deveria estar arrumadinha para a missa de logo mais. A de apresentação do novo padre. O coitado tentou argumentar, mas não adiantou. Teve de deixar a igreja. E durante a missa da noite, a tia da Lurdinha quase teve ataque cardíaco. É que ela reconheceu no novo padre, o homem que tinha botado para fora da igreja. Bem, enfim...

sábado, 16 de agosto de 2008

Esse meu mau humor!



Situações irritantes existem aos montes. Uma que me deixa bravo são perguntas idiotas. Tolerância zero. Dou respostas à altura.


Meu nome é Mário e não me venham com aquela piada infame do armário. Desde criança eu ouço essa e é irritante. Talvez isso tenha contribuído para formar um mau humor crônico na minha pessoa. Como tolero muito pouco algumas situações ainda têm aqueles que, depois de respostas à altura para perguntas idiotas, me mandam procurar um médico. “__A agressividade ainda vai matar você, Mário.”

Tudo bem!... eu vi num telejornal dia desses uma matéria sobre pessoas estressadas e que o mau humorado teria mais chances de sofrer um ataque cardíaco. Duvido! Na minha humilde opinião, só tem ataque cardíaco o mau humorado que não exerce seu mau humor. É por isso que não tolero determinadas situações.

E elas pioram quando a conversa é pelo telefone. Não tem coisa mais irritante que gente desavisada do outro lado da linha. Exemplos? Não faltam. Outro dia, me ligou uma atendente de uma operadora de celular no meu celular e perguntou se eu tinha celular. Disse que não, que estava falando de um orelhão e que não tinha interesse no serviço. Desliguei. Minha mulher – a Rita – me repreendeu. “__Ela só está fazendo o serviço dela!” “__Então que faça bem feito”, devolvi. “__Nossa! como você é mau humorado, Mário.”

Outro exemplo de pergunta idiota ao telefone? Cheguei ao trabalho, sentei-me à mesa e o telefone. “__Trrrrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiin!” “__Gerência de Mercados; Mário. Bom dia!” “__Quem fala?”, perguntou do outro lado. Se eu já tinha dito Mário, por que o infeliz perguntou meu nome? Quase respondi “__Dunha, aquele que raspou seu (bip) coa unha.” Desta vez, engoli seco e falei meu nome. “M...á...r...i...o!” E a conversa deslanchou.

Nem sempre ela deslancha. Os procedimentos de serviço de telemarketing são de enlouquecer qualquer ser bem humorado, imagine então um mau humorado por natureza. Minha TV a cabo deu um probleminha simples e liguei para o 0800. “__A empresa FulaNEP agradece a sua ligação.” Começou bem! você já viu empresa agradecer? Quem agradece é a pessoa, o tal do componente humano.

Isso me lembra aquelas placas horrorosas em obras. “Desculpe o transtorno. Estamos trabalhando para melhor atendê-lo.” Num shopping eu vi essa placa e fui à gerência. “__Por favor, o Seo Transtorno está?” “__Como?”, perguntou a secretária com cara de mesa de escritório. “__É que eu vi na placa da ampliação do shopping que é para desculpar o transtorno. Quando você encontrá-lo diga que o Mário esteve aqui para desculpá-lo". “__Mário? Que Mário...” Virei as costas e saí. Infelizmente não tinha na sala nenhum armário.

Voltando ao 0800 da FulaNEP, a gravação continuava. “__Para contratar serviços, clique um. Para reparos, clique 2. Para faturas fechadas, clique 3. Para novos lançamentos, clique 4. Para cancelamento de serviços, clique 5. Para reclamações, clique 6. Para sugestões, clique 7. Para elogios, clique 8. Para conversar com um de nossos atendentes, clique 9.” Só faltou – para repetir tudo de novo, clique 10. Ninguém agüenta! Desliguei o telefone e fui procurar o Procon. E não é que o 151 não atende! E depois eu que sou mau humorado.

E aquele amigo deprimido que volta e meia liga para a sua casa, geralmente, às duas da manhã. Aí você levanta no escuro, sai tropeçando no chinelo, acende a luz e lembra que se esqueceu de trocar a lâmpada, quase bate a cara na porta e o telefone insistindo... Lá no sétimo toque, você consegue atender com aquela voz pastosa e o amigo deprimido dispara. “__Oi Mário, você estava dormindo?” “__Não, fiquei acordado sentado na beirada da cama porque sabia que você ia me ligar pra fazer terapia.” E depois eu que sou mau humorado.

A Rita também é campeã em fazer esses tipos de perguntas. Depois de um dia de trabalho em que nada dá certo, você pega um trânsito de mais de uma hora, passa na padaria do lerdo e leva 21 minutos e 10 segundos para comprar três pães, 200 gramas de mortadela, 200 gramas de queijo e dois litros de leite, finalmente chega em casa. O telefone toca e nem abri a porta ainda. Ao tentar fazer isso com a compra da padaria e a pasta cheia de trabalho, quase tudo vai ao chão. Você corre e atende ao telefone lá pelo oitavo toque. “__Nossa amor, você já chegou?” “__Não Rita, é meu corpo astral. O corpo físico ainda está a cinco quadras de casa.” E depois eu que sou mau humorado.

sábado, 9 de agosto de 2008

Ah! esse inverno...


O frio traz boas lembranças - o fogão à lenha, a mesa farta, a paisagem típica; e más recordações – a água gelada do banheiro, o frio da favela, as doenças típicas.

Chegou o tempo que eu estava esperando. Ansioso. Com as chuvas dos últimos dias, também caiu a temperatura. Ah! o frio chegou e, com ele, dias mais intensos. Eu gosto muito desse período. As pessoas até parecem mais dispostas, diferentemente, do verão que - com seus dias quentes – deixa todo mundo indolente, preguiçoso mesmo. O frio deixa no ar uma sensação mais intimista.

É esse intimismo que me traz à memória muitas cenas. Uma em especial. Faz muito tempo. Na beira do fogão à lenha, toda a família reunida. As histórias do vovô ganham uma coloração diferente. Tudo temperado ao cheiro das ervas da vovó. Ela prepara um pernil com molho de laranja e cachaça. E os cheiros se misturam já que, simultaneamente, está no fogo um doce de mamão em pedaços com um toque de vinho caseiro. A família toda espera ansiosa com água na boca. Muitos não agüentam e aproveitam um momento de distração, para passar o dedo numa panela. Delicadamente repreendidos pela matriarca. Inverno e mesa farta, decididamente, formam uma boa dupla.

Bons momentos? O inverno está carregado deles. Outro prazer é sair caminhando sem rumo em tardes frias ensolaradas. Caminhar sem rumo é poder apreciar árvores peladas que, ao fundo, exibem o céu em um azul profundo. Elas se tornam transparentes. Caminhar sem rumo é poder apreciar o frio cortante do vento e o calor aconchegante dos raios do sol. As cores ganham matizes que parecem não existir em outras estações. Ou nesta fico mais atento. O bem-te-vi exibe o amarelo ouro do peito. A andorinha serpenteia no ar a cauda em V. Parece lustrada de tão brilhante.

Intensidade é mesmo a marca do inverno. Até o cheiro muda na estação. Ah! as fragrâncias são mesmo responsáveis por disparar muitas lembranças. Aquele cheiro que mistura pimenta, couro e madeiras revela um perfume único que usei durante muito tempo. Toda vez que sinto o aroma sou levado àquela estação quando nos conhecemos. No ar, uma mistura envolvente de sensações e olhares cruzados. Um desejo liberado e reprimido, ao mesmo tempo. Pena que certos episódios não voltam, mas a gravação na memória está garantida. Ainda bem que um gatilho traz de volta momentos especiais.

Especiais e românticos. O inverno está cheio de sensações. Mesmo em outras épocas. Mesmo com outros personagens. Lembro-me de outro episódio muito especial. Um jantar a luz de vela num restaurante bem sofisticado. Do cardápio escolhemos um prato requintado. Podíamos. E acertamos. Peito de pato com figos, acompanhado de frutas e arroz integral. Tudo degustado com um bom vinho seco, de uvas malbec ou syrah? Não gosto da cabernet sauvignon. O clima foi arrematado com a inconfundível voz de Jessy Norman. Intenso mesmo! Ali fizemos muitos planos. Alguns seriam eternos. Até foram enquanto duraram.

Mas o inverno nem sempre é sinônimo de sofisticação. Aliás, vi como muitos sofrem com o frio. E motivos para atacá-lo há de sobra. Esse clima romântico some quando a água gelada da torneira do banheiro envolve os dentes. Congela até o cérebro. Lavar as mãos torna-se uma tarefa, por vezes, ingrata. Tomar banho de manhã exige coragem. O chão gelado, os primeiros pingos do chuveiro e a toalha encharcada do banho anterior parecem instrumentos dignos de tortura.

Isso sem falar das doenças. O inverno é ideal para a propagação de vírus, principalmente, os que gostam de ambientes fechados. Crianças e idosos são o alvo preferido. Se a imunidade estiver baixa... melhor ainda. Para o vírus. Resfriados e gripes acertam milhares todos os dias. E a pneumonia pode ser implacável. A lista de doenças do frio é grande. Alergias. Asma. Bronquite. Para citar algumas, as mais comuns.

Esses problemas aumentam ainda mais quando se associa frio e pobreza. No dia-a-dia de uma favela, o inverno é perversamente perverso. Entra sem permissão pelas frestas da porta e das paredes. O vento dilacera os ambientes do barraco cortando os cômodos sem grande esforço. Sob um cobertor batido, vários filhos se encolhem a espera de uma doação. Um novo cobertor para aquecer o velho frio. Aquele que se apresenta hoje é o mesmo do ano passado, do ano anterior, do ano anterior...

Romantismo e realidade. Tudo depende do ponto de vista. Vejo essas cenas se repetirem há três gerações. Cruzei o Atlântico esquentando o primeiro italiano da família que veio ao país. Como ele gostava de mim, cuidou em todos os invernos na terra nova. Presenteou um dos filhos. Vivi muitas experiências. Hoje pertenço a um dos netos, que cuida do velho casaco como o avô cuidava. O frio está acabando, sei que voltarei ao baú embrulhado numa capa para ternos. Tudo bem! Outros invernos virão. Por isso, até o próximo.

sábado, 2 de agosto de 2008

Certo dia na ronda


Martins queria ser advogado. É policial militar. Marcelo quer ser engenheiro. Para isso tem que ralar muito. Garantiu sua vaga como cotista e trabalha à noite como garçom.

Martins é um homem trabalhador. Tem dois filhos. Um de 19 anos e outro de 16. É um pai amoroso, mas não muito presente por causa do trabalho. Afinal precisa colocar comida em casa e a mulher, professora de profissão, optou por cuidar dos filhos pequenos. Mais tarde, ela tentou voltar ao mercado de trabalho. Não conseguiu. Hoje é dona de casa.

Marcelo é um jovem de 19 anos. Estuda à noite; trabalha de dia numa mercearia e, aos finais de semana, atua como garçom num bar no centro da cidade. Seu dia-a-dia é muito corrido. O pai não participa muito da rotina familiar, mas quando estão juntos se dão muito bem. A família tem respeito mútuo.

Martins queria ser advogado, mas a vida pregou-lhe muitas peças. Não conseguiu chegar à universidade pública. Não havia cotas na época do seu vestibular. As particulares eram caras. O pai porteiro não tinha como bancar a mensalidade. Também não havia ProUni. O tempo passou. Martins virou policial militar.

Marcelo quer ser engenheiro. Ele sabe que vai ser difícil – mas não impossível - conseguir entrar na faculdade. Vai tentar uma vaga pelo sistema de cotas para estudantes de escolas públicas. Se não conseguir, já tem toda a documentação pronta para ingressar numa particular pelo ProUni e espera ser aprovado. Ele tem certeza que vai conseguir realizar o sonho.

Martins é um típico policial militar. Trabalha horas extenuantes numa jornada desumana. O salário é baixo e falta incentivo para seguir carreira militar. A infra-estrutura nem sempre funciona. Há dias que a viatura está quebrada. Noutro falta gasolina. Não há acompanhamento psicológico e o convênio de saúde para o funcionalismo é precário.

Marcelo sabe que sua tarefa será árdua. Não basta ter apenas força de vontade. Terá de ter atitude. Estudar. Estudar. Estudar. Ele vai abrir mão da diversão agora para, futuramente, usufruir as conquistas. Os pais não têm dinheiro e o futuro depende dele. Terá de deixar a mercearia porque Engenharia é integral. Como garçom, vai aumentar os dias de trabalho, durante a semana inclusive.

Martins oscila entre dias de tranqüilidade e dias de tensão. Tudo depende das ocorrências. Sua unidade atua diariamente fazendo rondas ostensivas. As abordagens são feitas nas ruas e nos bares. A adrenalina compensa o sossego nas perseguições. Volta e meia, algum motorista fura o bloqueio e, volta e meia, o resultado acaba nas páginas policiais. Tiro. Morte. Justificativas. O elemento atirou e a polícia apenas revidou. O elemento tinha passagem por tráfico. Argumentos oficiais. Apenas isso.

Marcelo está ansioso para o início do ano letivo. Conseguiu passar no vestibular. A família está muito contente. Ele será o primeiro a ter diploma universitário. Expectativa de um futuro melhor. A namorada, que não tinha muito interesse nos estudos, viu o exemplo de Marcelo e corre atrás do tempo perdido. Vai terminar o ensino médio num supletivo e quer tentar vestibular também. Para Pedagogia.

Martins está em mais um dia de trabalho. A ronda ostensiva do final de semana à noite, com mais três policiais na viatura. Madrugada de domingo. O ar respira apreensão. Ele tenta desviar os pensamentos e se volta para a família. Os dois filhos que vê muito pouco. A mulher que administra a vida doméstica sozinha. Lembrou-se do último programa juntos. Havia quase um ano foram num parque numa tarde quente de domingo. Sobre a grama, os quatro deitados viam o céu azul e confessavam seus sonhos de vida, mas ele é forçado à realidade. Pelo rádio, os policiais ouvem que ladrões assaltaram – à mão armada – uma farmácia e seguiam em alta velocidade num carro preto numa avenida perto dali. A viatura se posiciona em situação de emergência.

Marcelo está se preparando para ir para casa. Terminou mais um plantão de sábado à noite. Teve festa na cozinha para o novo universitário. No domingo, ele está dispensado e vai se preparar para a primeira aula na segunda-feira. Ele se despede de todos e pega carona com um amigo que mora a duas casas da sua. Eles se conhecem há muito tempo. No carro preto, outros dois vizinhos que voltam da balada. O amigo comenta a Marcelo que ainda não renovou a carteira de motorista e que molhou a lei seca. Bebeu mais que podia.

Martins e outros três policiais estão rodando a avenida quando avistam um carro preto. Dão sinal para parar. O carro não obedece e vira na primeira rua. No carro preto, o amigo de Marcelo entra em desespero. Ele teme por cair numa barreira policial. A viatura vem em alta velocidade, mas a perseguição não dura muito. Martins esbraveja. “__São marginais.” Tira uma arma e aponta para o carro preto. Dispara. Cinco vezes.

O carro preto pára. Os policiais cercam o veículo. Três jovens saem com as mãos para cima. São rendidos e algemados. Martins se volta para o quarto jovem no carro. Um fio de sangue escorre pela nuca de Marcelo, tingindo de vermelho sua camisa branca e seus sonhos. Os pensamentos percorrem os últimos dias. O resultado do vestibular. A felicidade dos pais. A despedida da mercearia. A festa na cozinha do bar. O primeiro dia na faculdade. Adiado. Martins está em choque. Ele reconhece Marcelo. Filho do seu melhor amigo.