sábado, 9 de agosto de 2008

Ah! esse inverno...


O frio traz boas lembranças - o fogão à lenha, a mesa farta, a paisagem típica; e más recordações – a água gelada do banheiro, o frio da favela, as doenças típicas.

Chegou o tempo que eu estava esperando. Ansioso. Com as chuvas dos últimos dias, também caiu a temperatura. Ah! o frio chegou e, com ele, dias mais intensos. Eu gosto muito desse período. As pessoas até parecem mais dispostas, diferentemente, do verão que - com seus dias quentes – deixa todo mundo indolente, preguiçoso mesmo. O frio deixa no ar uma sensação mais intimista.

É esse intimismo que me traz à memória muitas cenas. Uma em especial. Faz muito tempo. Na beira do fogão à lenha, toda a família reunida. As histórias do vovô ganham uma coloração diferente. Tudo temperado ao cheiro das ervas da vovó. Ela prepara um pernil com molho de laranja e cachaça. E os cheiros se misturam já que, simultaneamente, está no fogo um doce de mamão em pedaços com um toque de vinho caseiro. A família toda espera ansiosa com água na boca. Muitos não agüentam e aproveitam um momento de distração, para passar o dedo numa panela. Delicadamente repreendidos pela matriarca. Inverno e mesa farta, decididamente, formam uma boa dupla.

Bons momentos? O inverno está carregado deles. Outro prazer é sair caminhando sem rumo em tardes frias ensolaradas. Caminhar sem rumo é poder apreciar árvores peladas que, ao fundo, exibem o céu em um azul profundo. Elas se tornam transparentes. Caminhar sem rumo é poder apreciar o frio cortante do vento e o calor aconchegante dos raios do sol. As cores ganham matizes que parecem não existir em outras estações. Ou nesta fico mais atento. O bem-te-vi exibe o amarelo ouro do peito. A andorinha serpenteia no ar a cauda em V. Parece lustrada de tão brilhante.

Intensidade é mesmo a marca do inverno. Até o cheiro muda na estação. Ah! as fragrâncias são mesmo responsáveis por disparar muitas lembranças. Aquele cheiro que mistura pimenta, couro e madeiras revela um perfume único que usei durante muito tempo. Toda vez que sinto o aroma sou levado àquela estação quando nos conhecemos. No ar, uma mistura envolvente de sensações e olhares cruzados. Um desejo liberado e reprimido, ao mesmo tempo. Pena que certos episódios não voltam, mas a gravação na memória está garantida. Ainda bem que um gatilho traz de volta momentos especiais.

Especiais e românticos. O inverno está cheio de sensações. Mesmo em outras épocas. Mesmo com outros personagens. Lembro-me de outro episódio muito especial. Um jantar a luz de vela num restaurante bem sofisticado. Do cardápio escolhemos um prato requintado. Podíamos. E acertamos. Peito de pato com figos, acompanhado de frutas e arroz integral. Tudo degustado com um bom vinho seco, de uvas malbec ou syrah? Não gosto da cabernet sauvignon. O clima foi arrematado com a inconfundível voz de Jessy Norman. Intenso mesmo! Ali fizemos muitos planos. Alguns seriam eternos. Até foram enquanto duraram.

Mas o inverno nem sempre é sinônimo de sofisticação. Aliás, vi como muitos sofrem com o frio. E motivos para atacá-lo há de sobra. Esse clima romântico some quando a água gelada da torneira do banheiro envolve os dentes. Congela até o cérebro. Lavar as mãos torna-se uma tarefa, por vezes, ingrata. Tomar banho de manhã exige coragem. O chão gelado, os primeiros pingos do chuveiro e a toalha encharcada do banho anterior parecem instrumentos dignos de tortura.

Isso sem falar das doenças. O inverno é ideal para a propagação de vírus, principalmente, os que gostam de ambientes fechados. Crianças e idosos são o alvo preferido. Se a imunidade estiver baixa... melhor ainda. Para o vírus. Resfriados e gripes acertam milhares todos os dias. E a pneumonia pode ser implacável. A lista de doenças do frio é grande. Alergias. Asma. Bronquite. Para citar algumas, as mais comuns.

Esses problemas aumentam ainda mais quando se associa frio e pobreza. No dia-a-dia de uma favela, o inverno é perversamente perverso. Entra sem permissão pelas frestas da porta e das paredes. O vento dilacera os ambientes do barraco cortando os cômodos sem grande esforço. Sob um cobertor batido, vários filhos se encolhem a espera de uma doação. Um novo cobertor para aquecer o velho frio. Aquele que se apresenta hoje é o mesmo do ano passado, do ano anterior, do ano anterior...

Romantismo e realidade. Tudo depende do ponto de vista. Vejo essas cenas se repetirem há três gerações. Cruzei o Atlântico esquentando o primeiro italiano da família que veio ao país. Como ele gostava de mim, cuidou em todos os invernos na terra nova. Presenteou um dos filhos. Vivi muitas experiências. Hoje pertenço a um dos netos, que cuida do velho casaco como o avô cuidava. O frio está acabando, sei que voltarei ao baú embrulhado numa capa para ternos. Tudo bem! Outros invernos virão. Por isso, até o próximo.

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