sábado, 2 de agosto de 2008

Certo dia na ronda


Martins queria ser advogado. É policial militar. Marcelo quer ser engenheiro. Para isso tem que ralar muito. Garantiu sua vaga como cotista e trabalha à noite como garçom.

Martins é um homem trabalhador. Tem dois filhos. Um de 19 anos e outro de 16. É um pai amoroso, mas não muito presente por causa do trabalho. Afinal precisa colocar comida em casa e a mulher, professora de profissão, optou por cuidar dos filhos pequenos. Mais tarde, ela tentou voltar ao mercado de trabalho. Não conseguiu. Hoje é dona de casa.

Marcelo é um jovem de 19 anos. Estuda à noite; trabalha de dia numa mercearia e, aos finais de semana, atua como garçom num bar no centro da cidade. Seu dia-a-dia é muito corrido. O pai não participa muito da rotina familiar, mas quando estão juntos se dão muito bem. A família tem respeito mútuo.

Martins queria ser advogado, mas a vida pregou-lhe muitas peças. Não conseguiu chegar à universidade pública. Não havia cotas na época do seu vestibular. As particulares eram caras. O pai porteiro não tinha como bancar a mensalidade. Também não havia ProUni. O tempo passou. Martins virou policial militar.

Marcelo quer ser engenheiro. Ele sabe que vai ser difícil – mas não impossível - conseguir entrar na faculdade. Vai tentar uma vaga pelo sistema de cotas para estudantes de escolas públicas. Se não conseguir, já tem toda a documentação pronta para ingressar numa particular pelo ProUni e espera ser aprovado. Ele tem certeza que vai conseguir realizar o sonho.

Martins é um típico policial militar. Trabalha horas extenuantes numa jornada desumana. O salário é baixo e falta incentivo para seguir carreira militar. A infra-estrutura nem sempre funciona. Há dias que a viatura está quebrada. Noutro falta gasolina. Não há acompanhamento psicológico e o convênio de saúde para o funcionalismo é precário.

Marcelo sabe que sua tarefa será árdua. Não basta ter apenas força de vontade. Terá de ter atitude. Estudar. Estudar. Estudar. Ele vai abrir mão da diversão agora para, futuramente, usufruir as conquistas. Os pais não têm dinheiro e o futuro depende dele. Terá de deixar a mercearia porque Engenharia é integral. Como garçom, vai aumentar os dias de trabalho, durante a semana inclusive.

Martins oscila entre dias de tranqüilidade e dias de tensão. Tudo depende das ocorrências. Sua unidade atua diariamente fazendo rondas ostensivas. As abordagens são feitas nas ruas e nos bares. A adrenalina compensa o sossego nas perseguições. Volta e meia, algum motorista fura o bloqueio e, volta e meia, o resultado acaba nas páginas policiais. Tiro. Morte. Justificativas. O elemento atirou e a polícia apenas revidou. O elemento tinha passagem por tráfico. Argumentos oficiais. Apenas isso.

Marcelo está ansioso para o início do ano letivo. Conseguiu passar no vestibular. A família está muito contente. Ele será o primeiro a ter diploma universitário. Expectativa de um futuro melhor. A namorada, que não tinha muito interesse nos estudos, viu o exemplo de Marcelo e corre atrás do tempo perdido. Vai terminar o ensino médio num supletivo e quer tentar vestibular também. Para Pedagogia.

Martins está em mais um dia de trabalho. A ronda ostensiva do final de semana à noite, com mais três policiais na viatura. Madrugada de domingo. O ar respira apreensão. Ele tenta desviar os pensamentos e se volta para a família. Os dois filhos que vê muito pouco. A mulher que administra a vida doméstica sozinha. Lembrou-se do último programa juntos. Havia quase um ano foram num parque numa tarde quente de domingo. Sobre a grama, os quatro deitados viam o céu azul e confessavam seus sonhos de vida, mas ele é forçado à realidade. Pelo rádio, os policiais ouvem que ladrões assaltaram – à mão armada – uma farmácia e seguiam em alta velocidade num carro preto numa avenida perto dali. A viatura se posiciona em situação de emergência.

Marcelo está se preparando para ir para casa. Terminou mais um plantão de sábado à noite. Teve festa na cozinha para o novo universitário. No domingo, ele está dispensado e vai se preparar para a primeira aula na segunda-feira. Ele se despede de todos e pega carona com um amigo que mora a duas casas da sua. Eles se conhecem há muito tempo. No carro preto, outros dois vizinhos que voltam da balada. O amigo comenta a Marcelo que ainda não renovou a carteira de motorista e que molhou a lei seca. Bebeu mais que podia.

Martins e outros três policiais estão rodando a avenida quando avistam um carro preto. Dão sinal para parar. O carro não obedece e vira na primeira rua. No carro preto, o amigo de Marcelo entra em desespero. Ele teme por cair numa barreira policial. A viatura vem em alta velocidade, mas a perseguição não dura muito. Martins esbraveja. “__São marginais.” Tira uma arma e aponta para o carro preto. Dispara. Cinco vezes.

O carro preto pára. Os policiais cercam o veículo. Três jovens saem com as mãos para cima. São rendidos e algemados. Martins se volta para o quarto jovem no carro. Um fio de sangue escorre pela nuca de Marcelo, tingindo de vermelho sua camisa branca e seus sonhos. Os pensamentos percorrem os últimos dias. O resultado do vestibular. A felicidade dos pais. A despedida da mercearia. A festa na cozinha do bar. O primeiro dia na faculdade. Adiado. Martins está em choque. Ele reconhece Marcelo. Filho do seu melhor amigo.

Um comentário:

karen_krin disse...

Salve Rei....

As crônicas sempre com aquela pitada surpresa...
Mas vim parabenizá-lo especialmente pelas fotos...UAL!!!

"Sacada de mestre"...a da sombra da mangueira despensa os comentários!!

BJO
Karen Krinchev