sábado, 6 de setembro de 2008

Aparência e preconceito


Boaventura é um juiz bem sucedido e respeitado. Ele acredita que para vencer basta determinação e força de vontade. “Se não há oportunidade, quem quer cava uma.”

BoaVentura é um respeitado juiz. Ele exerce a função há muitos anos e é admirado pela forma com que conduz o seu trabalho. É sempre elogiado por colegas de magistratura, promotores públicos, imprensa e – até mesmo – por aqueles a quem já julgou e foi alvo de suas sentenças.

O juiz tem opinião formada sobre tudo. E um dos temas que mais gosta de debater é o racismo. O magistrado alega que não existe preconceito racial, que todos convivem harmonicamente e que a miscigenação é a prova maior da convivência social pacífica.

BoaVentura orgulha-se em dizer que tudo é uma questão de determinação e de força de vontade. Ele usa seu próprio exemplo para argumentar sobre os propósitos pessoais como fator determinante de conquista, de realização pessoal e profissional.

“__Eu mesmo. Vim de uma família humilde. Meus pais eram agricultores semi-alfabetizados. Estudei muito, consegui me formar em Direito, passei no concurso para juiz. Quem tem força de vontade vence. Independente da cor da pele”, costuma repetir o magistrado. No contraponto, ele cita uma de suas funcionárias domésticas, a afro-descendente Cleide. “Ela poderia ter tido um futuro melhor, mas faltou esforço”, sentencia.

Em sua convicção, o magistrado diz que, portanto, a discriminação racial – ou seja, o exercício prático do preconceito – não existe. Que tudo não passa de uma questão de capacidade pessoal. “__Ora! Se fulano [que é branco] conseguiu a vaga é porque está melhor capacitado; porque se preparou mais e porque tem mais condições para exercer satisfatoriamente a função para qual foi escolhido.”

Isto é, tudo volta ao início: a determinação pessoal. Nem passa pela cabeça do magistrado que determinação e força de vontade também dependem de outro fator: oportunidade. “__Se não há oportunidade, quem quer cava uma.” Outra situação que BoaVentura rechaça é a relação violência e raça. Para ele, o aumento da violência está relacionado apenas à pobreza, independentemente, da cor da pele.

Taí uma questão, BoaVentura não questiona o aumento da violência. Ele
reconhece que esta ultrapassou todos os limites, incluindo geográficos. Afinal, anda morrendo gente até no centro da cidade; problema antes restrito à periferia e aos pobres. Por isso, o juiz defende o armamento da população. E como juiz, tem garantida a sua arma, devidamente registrada. “__Para proteção pessoal. Afinal a cidade vive um clima de pânico, de insegurança. As pessoas precisam se defender.”

Mais um dia de trabalho se vai. BoaVentura se dirige ao estacionamento do fórum. São 19h30, já está escuro e a iluminação é precária. O vigilante da noite – na troca de turno – ainda não se apresentou. Ele está sozinho no local, quando percebe três jovens alguns metros atrás. O juiz entra rapidamente em seu carro, tranca a porta e leva – automaticamente – a mão ao porta-luvas.

Neste instante um dos jovens bate à janela do carro. Numa reação instintiva, BoaVentura abre a porta e dispara três vezes. Assustados, os outros dois jovens permanecem paralisados. BoaVentura sai com o carro em alta velocidade e liga para a polícia, contando o acontecimento.

No dia seguinte, BoaVentura está na mesa do café da manhã. Ele foi acalmado pela mulher, Mathylda, que durante a noite o justificou pelo acontecido. Na mesa farta, o casal recebe um telefonema. Do outro lado, a funcionária da casa, Cleide. “__Dona Mathylda, não posso ir ao serviço hoje. Estou no hospital. Meu filho levou um tiro ontem lá perto do fórum. E a gente nem sabe quem foi.”

Crônica publicada originalmente no Jornal Folha de Londrina de 23 de abril de 2008.

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