sábado, 27 de setembro de 2008

A primavera, enfim, chegou


Nas tardes ensolaradas da estação, as flores tornam-se mais coloridas e exuberantes. Basta ter um mínimo de sensibilidade para notá-las.

Estava ansioso por sua chegada. E ela não me decepcionou. É a estação mais alegre do ano. Nem quente. Nem fria. Suas tardes ensolaradas enchem de vida a paisagem e as pessoas. As flores recepcionam mesmo sem muitos notar sua presença. Elas são delicadas e rústicas. Têm cheiro suave e forte. As formas parecem desenhadas. Tudo depende da sua variedade.

Ah! as flores são realmente magníficas. Elas têm o poder de levantar o astral de quem quer que seja. Basta ter um mínimo de sensibilidade para notá-las. Pena que são muitos e muitas os insensíveis. Na primavera, elas parecem mais bonitas, têm as cores realçadas e um brilho próprio para saudar a estação. Reparem como as flores são belas.

As gérberas ostentam muitas variedades. Cor de rosa, alaranjada, vermelha, amarela. Muitas variam as tonalidades de uma mesma cor. Elas até parecem competir entre si. Marta, minha mulher, gosta muito de gérberas. Toda semana compra um vaso e depois que as flores se vão, ela planta no chão. O canteiro em frente a nossa casa tem muitas delas. Quando abrem todas de uma vez, é um show. Da natureza.

Aliás, a natureza dá muitos shows. Lembro que eu e Marta costumávamos namorar sob um caramanchão de alamanda roxa. Na casa dela, esse era um espaço privilegiado. O banco de madeira embaixo da trepadeira assumia uma condição de realeza; tornava-se imponente, principalmente, no final da tarde quando o sol rasgava a escuridão da folhagem densa. Sinto até hoje o aconchego daquele lugar, infelizmente, derrubado depois que a casa foi vendida e deu espaço a um monte de lojinhas. O terreno é bem grande.

Bem, a vida anda. Se para trás ou para frente depende da posição em que se está. O fato é que recordar não faz mal algum. Por isso, lembro-me das flores que a dona Altiva, minha finada sogra, cultivava na época do meu namoro com Marta. Cultivava sim, porque ela ficou doente e viveu muito tempo sem se dedicar às flores.

A vida tem das suas. Uma doença crônica-degenerativa tirou a sua capacidade física. Os movimentos são sincronizavam com a vontade de dona Altiva. Antes da doença, ela mantinha canteiros celestiais. Ao lado da casa, num longo corredor, ela dava vida a tulipas, rosas, lírios da paz, orquídeas e muitas outras. Era prazeroso andar – e namorar – naquele corredor.

Na frente da casa, dona Altiva plantou dois hibiscos, um vermelho e um rosa; e um manacá-da-serra branco. Depois de formadas, as árvores deram flores em apenas uma primavera. Na seguinte já não existiam mais. Aquele empreiteiro as arrancou para o estacionamento do monte de lojinhas. E a primeira florada de cada uma daquelas árvores ficou gravada numa fotografia e na minha memória.

E por falar em memória. Lembro-me de uma situação engraçada. Fazia um ano de casamento com Marta e passei numa floricultura. Comprei um ramalhete de flores com rosas, flores do campo, margaridas, folhagens e dei, na hora do almoço, para Marta. Ela abraçou o ramalhete com doçura, mas algo aconteceu. No meio das flores uma abelha europa. Marta foi picada e descobrimos que ela é alérgica. Passou dois dias no hospital. E as flores que recebia? Ficavam na recepção. Por um bom tempo, Marta não quis receber flores.

Realmente, a primavera dispara o gatilho de muitas lembranças minhas. Gosto de lembrar e reviver cada momento desse, principalmente, agora nesta etapa da vida. Perder a visão num acidente de carro é uma conseqüência grave e, às vezes, revoltante. Não estava errado. Respeitava todas as regras do trânsito. E aquele cara embriagado tinha de invadir a pista contrária.

Aquele motorista morreu. Me contaram que no enterro, meia dúzia de amigos apareceu. Nem uma flor, ele recebeu. Bem, pelo menos eu sobrevivi e, hoje, me adapto a muitas novas situações. Relembrar as flores da primavera é um exercício muito interessante. Parece que recordo de detalhes que não dava valor à época. Posso não ver mais o branco daquele ipê florido na praça, mas consigo sentir o sol entre os galhos e o cheiro da estação. Ah! o cheiro da primavera. Mas esse é tema para outras histórias.

2 comentários:

danilo lemos e escrevemos disse...

Reinaldo Zanardi! não vai ter nunhuma crônica sobre eleições????

Paula disse...

Oi Reinaldo! Sempre leio suas crônicas e gosto mto do q vc escreve. Os finais são inesperados!
Vou adicionar o link do seu blog no meu ok? Passe por lá tb...
Beijos!!!