sábado, 20 de setembro de 2008

Que fatalidade!


Francisco defende a estratégia da polícia para conter os marginais. Tática atacada por César que afirma que a polícia não sabe fazer abordagem sem colocar inocentes em risco.

No bar de sempre, naquela esquina, César e Francisco se encontram. Sentam-se à mesa de sempre e começam a jogar conversar fora. Como sempre. Eles são amigos há muito tempo e apreciam um bom debate. Argumentos não faltam. Exaltação também não. Os freqüentadores do estabelecimento já os conhecem. Vez e outra, alguém entra na querela, que nunca tem um vencedor. O prazer é (de)bater.

César conta ao amigo um episódio. Segundo ele, era um sábado por volta das 22h30 e junto com a família cruzava, de carro, a avenida Juscelino Kubitschek com a rua Professor João Cândido, na área central da cidade. César disse que percebeu uma abordagem policial. Conforme ele, havia uma viatura do Choque atravessada na pista e policiais – com arma em punho e ar de autoridade máxima – encurralavam um adolescente próximo à calçada.

César disse que parou o carro no meio da pista após ter ouvido um tiro. Segundos depois, César disse ter visto um motorista na pista contrária atropelar uma motocicleta com dois adolescentes, que tentaram fugir a pé e que também viu dois policiais correndo atrás deles. Um arrastava a barriga. César deduziu que a polícia atirou na tentativa de conter os elementos.

“__Um tiro em pleno centro da cidade. Isso é um absurdo!”, afirmou César a Francisco.
“__Não é um absurdo. É um procedimento da polícia para fazer os criminosos pararem e se entregarem”, ensinou candidamente Francisco a César.
“__Tiro pra fazer criminoso parar? Isso não existe!”
“__Claro que existe. É um procedimento normal dos policiais.”
“__E se os bandidos tivessem armados e revidassem? Ia virar um tiroteio no centro da cidade.”


A essa altura, os freqüentadores do bar já haviam se posicionado para melhor acompanhar o (de)bate.

“__É isso mesmo. A polícia atira pra cima e os criminosos param pra efetivação do flagrante!”
“__Francisco, isso não é abordagem que polícia decente faça. Faltam estratégias, faltam táticas.”
“__O que você queria, César? Que a polícia parasse, pedisse licença aos criminosos e dissesse ‘por obséquio, vocês podem me acompanhar ao distrito policial mais próximo’?”
“__Não! Eu queria mais inteligência. Já pensou se começasse um tiroteio e uma bala acertasse minha mulher, meu filho? Ainda iam dizer que era bala perdida.”
“__Quando a polícia atira pra cima, o criminoso tem que parar”
, repetiu entredentes Francisco ao amigo.
“__Mas eu poderia ter levado um tiro. Isso seria fatalidade?”, perguntou César.
“__Ah tá! Então o que você faria?”
“__Precisa ter tática. A polícia tem que ter uma estratégia pra fazer a abordagem. Se no local e no momento tinha muita gente, a polícia tinha que vigiar os suspeitos e só abordar com segurança às demais pessoas. Numa perseguição, a polícia tem que avaliar a rota dos suspeitos, ter outras viaturas de suporte pra interceptá-los e não colocar a segurança dos outros em risco.”
“__Mas isso é demais. Não é assim que funciona...”


Francisco é interrompido. Neste momento, uma grande confusão se forma em frente ao bar. Ouve-se cantadas de pneus, freadas bruscas e estampidos. Muitos estampidos. Passam em frente ao bar, um carro turbinado e várias viaturas do Choque atrás. Elementos e fardas para fora da janela. Balas violentas. No bar, todo mundo apavorado. César se joga ao chão ao lado de Francisco e vê o amigo com a cabeça envolta em uma poça de sangue. César atordoado pensa.

“__Que fatalidade!”

Crônica publicada originalmente no jornal Folha de Londrina em 21 de novembro de 2007.

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