sábado, 13 de setembro de 2008

Rosas vermelhas


Ele jurou ser eterno, dedicar-se, respeitar-me. Rosas vermelhas eram a sua marca para o nosso amor. As coisas sempre mudam e não foi diferente comigo. Infelizmente.

Ele sempre foi muito romântico. Desde o início do namoro, me mandava flores. Rosas vermelhas eram as minhas preferidas. Romantismo. Dedicação. Respeito. Cumplicidade. Nossa relação era marcada por sentimentos mútuos. Mas algo começava a incomodar. Os ciúmes. Até era gostoso, mas – às vezes – tornava-se sufocante. Quando se está apaixonada a gente releva muita coisa.

Depois de um tempo de namoro, tivemos uma crise. Um dia, depois do trabalho – ele não gostava que eu trabalhasse e aceitava com visível resistência – eu saí com umas amigas e fomos a um barzinho. Ele acabou me achando e deu uma baixaria sem tamanho. Ofendeu-me e agrediu verbalmente minhas amigas. Para mim era o fim do romance.

No outro dia, recebi no trabalho várias dúzias de rosas vermelhas. O entregador fez muitas viagens até depositar todas as flores. Sedutoramente ele escreveu. “Peço perdão por ter perdido a cabeça ontem. A sua imagem naquele bar mexeu com o meu mais profundo sentimento. O amor. Perdoe-me porque isso não vai se repetir.” Aquelas palavras me reconquistaram.

Durante alguns meses nosso namoro correu normalmente, mas minhas amigas – hoje percebo – se afastaram silenciosamente. Ele estava a cada dia mais romântico. Juras eternas. As rosas vermelhas. Fazia apaixonar-me a cada dia. Os presentes. Me conquistava a cada jantar. Marcamos o casamento. Minhas amigas, hoje percebo, ostentavam um ar de apreensão.

O casamento e a lua-de-mel foram magníficos. Viagem. Praia. Hotel cinco estrelas. Algum tempo depois do casamento, ele proibiu-me de trabalhar. Argumentei que não pararia, que era a minha vida profissional. Algo surpreendente aconteceu. Ele me bateu e disse que eu devia respeito a ele. Não o reconheci. Chorei compulsivamente. Horas depois, ele apareceu em casa com um buquê de rosas vermelhas e uma caixa de bombom. Os meus preferidos.

Pediu-me perdão e jurou que jamais faria aquilo de novo. Ele disse que atravessava problemas com o sócio da empresa e que perdera o controle da situação, descontando em mim. “Isso nunca mais vai se repetir, meu amor. Enquanto eu viver, me dedicarei a amá-la e respeitá-la. Me perdoe.” Aquilo soou tranqüilo. Ele me prometeu que não implicaria mais com o meu trabalho.

Marquei no dia seguinte com minhas amigas, que não via há algum tempo, de ir a um bar. Ele concordou e disse que iria junto. Fiquei surpresa. Fiz uma maquiagem para esconder os hematomas. Elas estranharam porque nunca uso maquiagem pesada. Será que perceberam alguma coisa? Foi um encontro muito estranho. A conversa não fluía. Parecia que queriam dizer algo, mas as palavras não saíam.

Chegamos em casa e o telefone tocou. Era uma das amigas. Ela disse que achava que estava acontecendo alguma coisa. Perguntou como estava o meu casamento. Disse que estava muito preocupada comigo. Falei que estava tudo bem que era uma cisma boba. Desliguei o telefone e me arrumei para dormir. Quando estava deitada, ele queria. Disse que não estava bem, mas não adiantou. Foi horrível. Durante o ato vi, em flashback, o que tinha se tornado a minha vida. Um inferno.

Ele demonstrava a cada dia mais ciúmes. Não saía mais com minhas amigas e eu vivia apreensiva com o que podia acontecer. É horrível viver assim. Até que um dia, fomos a um médico e a notícia. Estava grávida. Fiquei feliz, ele disfarçou felicidade. Era de risco. Tive de abandonar o trabalho e fiquei mais sozinha que nunca. Minha família via que não ia bem, mas disfarçava o tempo todo. Pensei que com um filho a situação melhoraria. Piorou.

Os dias foram passando, meu filho crescendo e eu agredida física e verbalmente. A cada acontecimento, juras de que nunca mais se repetiria. Depois da agressão, ele se tornava carinhoso, romântico, dedicado. Era o melhor homem do mundo. Vivíamos no paraíso. Era passageiro. Uma nova agressão. Tudo se repetia. Eu rezava toda noite para ele mudar.

Percebi de vez a violência que sofria quando meu filho, de apenas 5 anos, me surpreendeu. “Não desliga a TV, sua vagabunda.” Fui violentada mais uma vez e da pior forma. Aí me dei conta que tudo aquilo precisava acabar. Não seria mais cúmplice. Eu era a vítima. Ser chamada de vagabunda pelo próprio filho dói mais que mil tapas do marido. A dor é na alma.

Peguei o menino, fui para a casa dos meus pais. Contei tudo. Espantosamente, eles disseram que sabiam o que acontecia. Morri de vergonha. Pensei nas minhas amigas e nos meus vizinhos. O olhar de todos era um olhar de quem sabia da situação. Meu pai levou-me à Delegacia da Mulher e registrei queixa.

Estou melhor. Voltei a trabalhar. O inferno acabou. Pelo menos parecia ter acabado. Ele foi ao meu trabalho. Disparou três vezes. Não me lembro de muita coisa. Foi preso em flagrante e aguarda julgamento. Será condenado. Me recupero das balas. Meu filho tornou-se meu mais forte aliado.

Vivo um dia de cada vez e luto para que seja melhor e mais feliz que o de ontem. As balas não deixaram seqüelas, mas as marcas da violência estão gravadas na minha alma. É uma dor que você aprende a conviver. É uma luta para recuperar a auto-estima, a auto-confiança. Não me envolvi novamente. Rosas vermelhas me assustam até hoje.

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