domingo, 26 de outubro de 2008

Histórias com meu pai


Meu pai é o máximo e faz tudo por mim. Ele me incentiva a estudar, brinca sempre comigo, me leva pra pescar. Ele é louco por mim.

Meu pai é um homem muito correto. Honesto e trabalhador, ele não deixa faltar nada em casa. A gente não tem muita coisa material, mas o que conseguimos foi com muito esforço do meu pai. Ele trata muito bem a minha mãe. Ambos se mostram muito apaixonados. Paparicos para todos os lados da casa. Insinuações não faltam. É muito estranho imaginar que seus pais transam. Pai e mãe são sagrados; não são dados a essas coisas de gente normal. Que esquisito! Enfim...

Meu pai é muito bacana. Aos finais de semana, ele coloca a gente no corcel 2 e leva para passear na barragem do lago Igapó. Um programão. Todos os filhos ficam encantados. Durante o trajeto de casa até o lago ele vai cantando as suas músicas preferidas. São as de sempre. E, mesmo desafinado, a gente gosta. Minha mãe arrisca umas notas, mas não sai do lá lá lá lá lá lá, uma espécie de fundo musical para o meu pai. É muito engraçado.

Meu pai incentiva os estudos. Ele diz que quer que os filhos sejam “doutor”. É incrível a força de vontade dele. Todo final de tarde, mesmo exausto, ele encontra forças para ajudar a gente na tarefa. Nunca vamos para a escola sem fazer a lição no dia anterior. Matemática, ele sabe. Português, ele sabe. História, ele sabe. É impressionante. Mesmo sem ter tido muito estudo, ele nos ensina e muito. A professora sempre elogia.

Meu pai é muito sensível. Ele nunca deixou de participar da minha vida escolar. É um pai realmente presente. Nas comemorações do Dia dos Pais, ele sempre participa. Teve uma vez... a escola montou uma gincana para incentivar os pais a fazer ginástica. O meu quis mostrar pra mim que estava em forma. Entrou na gincana para competir com outros pais nos abdominais. E venceu todos que o desafiaram. E teve, por isso, uma dor de uma semana. Eu sabia que ele estava todo dolorido, mas fingiu que estava super bem.

Meu pai tem muitas histórias pra contar comigo. Certa vez fui pescar com ele no Tibagi. Um sonho realizado. Todos os meninos da minha idade sonhavam em ir pescar naquele rio, com o pai, num bote no meio das águas. Eu fui o primeiro que conseguiu essa proeza. Até um dourado eu peguei naquele dia. Bem! pelo menos na minha imaginação. A pescaria não estava nem pra bagre. E o pior aconteceu. Saindo do rio, eu caí em cima de uma urtiga. Resultado: descobri que era alérgico, mas meu pai correu muito com o corcel 2 e eu cheguei ao HU, rapidinho. Ele passou a noite toda comigo.

Meu pai gosta de brincar. Minha mãe fala até que ele parece um moleque, mas não é não. Ele é muito envolvente. Toda sexta-feira à tarde, a gente vai jogar no campinho da praça. A bola de capotão velha é do meu pai. Aparece moleque da região inteira. É camisa contra sem camisa. E claro que o time do meu pai sempre ganha. Ele é o máximo. Mais de uma vez eu ouvi meus amigos dizerem que queriam ser filho do meu pai. Ele até solta pião. O danado fica rodando um tempão. E a molecada fica de queixo caído.

Meu pai gosta de reunir a família de vez em quando. Aí aparecem muitos tios, tias, primos e primas. Ainda bem que ele não deixa pra reunir a família apenas em velório e casamento. Sabe aqueles parentes que a gente só conhece dos pêsames? Então, minha família não é assim. É uma verdadeira festa. A casa cheia. A música alta. A carninha na churrasqueira improvisada no fundo do quintal. Vovó sentada na varanda do fundo parece aquelas matriarcas, felizes da vida, por ter cumprido a sua missão.

Meu pai seria tudo isso e muito mais, se não tivesse me abandonado quando minha mãe disse que estava grávida. Ele sumiu no mundo. Ela tinha 16 anos e não agüentou a barra. Minha avó me criou com muito amor, mas não conseguiu suprir a ausência que eu sentia. Esse vazio me levou a fazer muita coisa errada. Maus caminhos? Más companhias? Apanhei muito na rua e bati pra valer. A lei de quem pode mais é a que rege quem está na rua. Acabei neste centro de recuperação para adolescentes. Nome bonito para dizer detenção. Estou prestes a completar 18 e isso me assusta ainda mais.

Meu pai, talvez, não tivesse sido tudo isso que, hoje, eu fico imaginando que seria. Talvez, não tivesse feito esforço para dar a mínima condição de vida. Talvez, não me levasse para o lago Igapó, aos finais de semana. Talvez, não me incentivasse a estudar nem fosse à escola no Dia dos Pais. Talvez, não me levasse pra pescar no Tibagi. Talvez, não jogasse bola comigo no campinho nem soltasse pião. Talvez, não reunisse em festa meus tios, tias, primos e primas. Mesmo assim, eu teria um pai e, talvez, eu tivesse outras histórias com meu pai.

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