sábado, 18 de outubro de 2008

O destino e a vida



Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino. E esse a gente não escolhe. A gente cumpre.

Naquela manhã eu acordei e sabia que a minha vida não seria mais a mesma. Um vazio enorme tomava conta do peito. Um aperto que misturava apreensão e angústia. Vivia uma ansiedade grande nos últimos dois meses. No fundo eu sabia, mas torcia para que não fosse verdade. Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino.

À tarde, fui ao posto de saúde buscar meus exames. Eles disseram que eu estava grávida. De dois meses. Minha terceira gravidez. Meus pais lutavam com muita dificuldade para criar meus dois primeiros filhos. Aquilo seria demais para eles. Já sabia o que me esperava. Papai, com olhos molhados; mamãe, mais calada que de costume. Ambos me olharam, não falaram uma palavra. E disseram tudo. Vi minha bolsa em cima do velho sofá azul, desgastado pelo sol sem cortina. Foi o dia mais triste da minha vida. Meus filhos pequenos na escola. Sem despedida. Não olhei para trás. Eu não conseguiria.

Andei sem rumo por algumas horas até chegar num posto de gasolina, à beira da rodovia. Aquela que liga ao sudeste e ao sul do país. No posto, uma placa de caminhão do interior paulista me chamou a atenção. Esperei e o dono apareceu. Perguntei se ia para as bandas daquela cidade. Tinha uns conhecidos, donos de uma lanchonete, lá podiam me arranjar serviço. Seria melhor do que viver na rua. Ele não hesitou em me dar carona. A viagem foi cansativa. Trocamos poucas palavras. Ele tinha idade para ser meu avô.

Quando chegamos em frente à lanchonete, a desolação tomou conta e o desespero voltou a me rondar. Um cartaz amarelado anunciava que meus amigos haviam se mudado para Campo Grande, para tocar outra lanchonete no posto tal. E agora? O caminhoneiro disse que iria para Cuiabá e passaria pela capital sulmatogrossense para deixar uma encomenda. Era seu caminho. Ele conhecia tal posto. Minhas esperanças se acenderam. Pegamos a estrada. Paramos para dormir. Não preguei o olho.

Pra quem chegou ao fim do poço, nada pior pode acontecer, mas aconteceu.
Chegamos ao posto tal e encontramos nada. O tal posto havia fechado semanas antes. Um contorno havia tirado o fluxo daquela rodovia. O desespero voltou a rondar. E algo surpreendente aconteceu. O caminhoneiro disse voltaria para o interior de São Paulo, na cidade dele, depois de Cuiabá e que tinha um sítio. Ofereceu-me um emprego. Cuidaria da casa, moraria no local e ainda teria um salário. Deus existe.

Viajamos mais alguns dias e, finalmente, chegamos àquele sítio que seria minha nova morada. No local, os caseiros cuidavam de tudo, inclusive da casa grande. Não fui bem recebida. Contei a minha história e no final ouvi um “sei”, numa mistura de desconfiança e reprovação. A mulher do caseiro disse que não gostou de mim e que achava a história muito estranha. Eu dormiria num quarto da casa grande. Era o fato que faltava para a crise do caseiro com o caminhoneiro. Eles pediram demissão.

O caminhoneiro era separado e os filhos todos adultos. Com filhos. De vez em quando, apareciam para visitar o pai e o avô. Era bem tratada, mas o ar misturava curiosidade e discrição. No fundo, acho que todos pensavam que eu era uma amante, catada no meio da estrada. Se bem que essa última parte não era mentira. Mas não era a amante.

Minha barriga crescia a cada dia. Todos os cuidados da casa sob a minha responsabilidade. Enjôo e vômito eram a minha rotina, mas um cantinho da casa era o meu preferido. Na varanda, sentava ao final das tardes, para ver a noite cair. Os últimos raios do dia afagavam uma planta que havia num vaso, acho que era um mini-hibisco. Laranja. O vaso se iluminava e quando havia flor, a beleza da cor enchia meu coração de esperança. Esperança de um futuro melhor.

Passados os meses, meu filho nasceu. O caminhoneiro tinha contratado uma mulher para cuidar de tudo. O peso do trabalho agora era dividido e eu continuava na casa grande. Meu filho foi crescendo e se identificando com o caminhoneiro, a única figura masculina da casa. O menino o chamava de pai. E não era? Afinal era ele quem provia as minhas e as necessidades do meu pequeno.

Eu havia terminado, com sacrifício, o segundo grau e tinha muita vontade de voltar a estudar. Meus planos era ser médica, mas o destino e a vida me reservaram outras circunstâncias. Mesmo assim, poderia voltar a estudar. Negociei com o caminhoneiro uma moto. Cuidava do sítio durante o dia e, à noite, iria para um cursinho. A vida não havia acabado. Ainda.

Numa dessas noites chatas com aula de física, com professor que fica pulando na frente de 300 alunos, não ouvia uma palavra do que o dito cujo dizia. Um panfleto no chão me chamou a atenção. Emprego fácil na Espanha. Dinheiro para guardar. Sonhos para realizar no Brasil. Vi que seria uma boa opção. Negociei mais uma vez com o caminhoneiro. Venderia a moto e compraria as passagens.

E meu filho? Não hesitamos. Fomos ao cartório da cidade e passei a responsabilidade ao caminhoneiro. Se acontecesse alguma coisa, ele poderia pedir legalmente a guarda. Estava muito feliz. Os horizontes pareciam se abrir novamente. Os preparativos para a viagem estavam me fazendo bem. Voltei a sorrir. Era gente mais uma vez.

Naquela noite fui pela última vez ao cursinho. Me despedi das duas pessoas com quem parecia que viraria uma amizade. Falei tchau para a professora de História, a única que puxou conversa comigo por duas vezes. Afinal, aluno de cursinho não tem nome, tem número. Voltava ansiosa para casa. Nos dias seguintes, embarcaria para a Espanha, mas no km nove o destino me reservava mais uma das suas. Um cavalo atravessava a pista. Não deu tempo. Atropelei o bicho e capotei no asfalto. Aquele foi o único dia que não usava capacete. Fiquei em coma por uns dias e a vida se foi.

Sei que minha existência foi breve, mas intensa. Marquei muitos por onde passei. Meus pais. Meus filhos. O caminhoneiro. A família dele. Os caseiros. Não me arrependo de nada do que fiz. Mas se tivesse outra oportunidade, talvez, faria diferente. E seria tudo diferente mesmo? Queria que o destino tivesse me reservado outra vida. Mas a vida quis que eu seguisse meu destino. E eu o segui.

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