domingo, 23 de novembro de 2008

Gentinha sonsa essa!


Deixa que eu pego todos vocês hoje. Vou falar tudo o que eu tenho vontade. Não vou poupar ninguém. Preparem-se!

Interessantíssimo! Todos vão chegando e vão ouvir o que precisam. Sempre fui o bom moço, comportado, comedido, escolhia as palavras para não magoar, para não criar conflitos. __Seja educado! meu filho. Ninguém suporta gente que fala demais. Cuidado com as palavras. A verdade incomoda. Minha mãe repetia isso todos os dias e me adestrou. Desta vez vou sair do cativeiro. Ninguém vai perder por esperar.

Olha quem acaba de chegar. A Lurdinha. Ela foi a minha primeira namorada. Sempre regulou, não queria dar antes do casamento. Malditas regras, convenções inconvenientes. Sei! Isso só serve para empatar mesmo. __Lurdinha, quero dizer uma coisa. Você nunca foi bonita mesmo. Mas eu gostava de você, sua esnobe. No final você casou com o meu melhor amigo porque ele era rico. Era! Hahahaha. Perdeu tudo por causa da bebida. Bem feito.

E o Carlão, messe eu melhor amigo. Amigo! Quem precisa de inimigo? Agora você está aí do lado da Lurdinha como se fosse um casal perfeito. Perfeitamente desestruturado. Ele desempregado. Ela tem um caso com o chefe. __E você Carlão finge não saber. Afinal de contas, é o chefe dela que paga as contas da casa. Com essa cara curtida em conhaque nacional não vai mesmo conseguir uma colocação no mercado.

E por falar em chefe, olhaí o Roberto. O meu chefe. Por que a gente tem mania de usar pronome possessivo? Ele não é meu não! __Quem convidou você Roberto? Que cara deslavada é essa? Chefe é uma praga mesmo. Quando você faz, bota defeito; quando não faz, o defeito é maior. Isso me lembra o que um amigo me disse outro dia. __Se você faz muito, erra muito. Se você faz pouco, erra pouco. Se você faz nada, não erra. E quem não erra, é promovido. Ô mundinho injusto esse. Humilhação, assédio moral... O mercado é mesmo uma selva. Mas não tem problema não Roberto, sei muito bem que você faz parte de um esquema na empresa. Uma hora a casa cai. __Fingido!

E por falar em casa cair, quem acabou de entrar na sala? O tio Valdemir. É um cara de pau mesmo. Só faltou lustra móveis. Esse daí – né tio – enganou o pai que era fiador no empréstimo da oficina mecânica. Nem de carro, o Valdemir – né tio! – entendia. Já confundiu até ventuinha com ar condicionado. __Uma vergonha automobilística, né tio!? E o pior, meu pai paga a conta do empréstimo até hoje. Quase se matou de vergonha. Também se cunhado fosse bom não começava com essas duas letrinhas.

E o Jorge? Até esse traste apareceu. Isso parece desfile de mau caráter. O que está acontecendo? Será que vou ter de agüentar todas essas malas! Quem é Jorge? Um colega de repartição que faz nada e cobra dos outros o que ele deveria fazer. Um típico costa-quente. __Mas uma hora você paga, Jorge. Aquele mesmo amigo meu de outro dia, disse outra coisa interessante, que você consegue enganar um por muito tempo, consegue enganar poucos por pouco tempo, mas não consegue enganar todos por muito tempo. __Viu Jorge?

Era quem faltava. Narciso. Meu ex-sócio. Uma figura excêntrica. __E aí Narciso, já largou o vício dos jogos? O desgraçado quebrou a empresa depois de desviar o caixa para a jogatina. A mulher dele sempre justificava. __Ele é doente! E quem pagava a conta do doente era eu. A empresa faliu. Os credores cobraram. Funcionários na (in) justiça trabalhista. Quase perdi a casa. Depois da falência, tive que aceitar o emprego na repartição, o RH de uma empresa familiar. Sempre falaram recursos humanos, mas está mais para recursos histéricos.

Nossa! Carminha que cara é essa? (Carminha é a minha mulher) Agora que você entrou na sala deste jeito parece mesmo que algo está errado. Por que você está de preto? Nossos filhos, noras e genros estão cabisbaixos. Engraçado, falei tudo que eu queria para esse monte de gente e ninguém devolveu. Isso é mesmo estranho. Carminha o que está acontecendo? Por que você não responde ao que pergunto?

Neste instante, percebo tudo e tudo se clareia. Marquinho, o meu neto de quatro aninhos caminha em minha direção. O menino tá lindo naquele terninho preto. Olha o cabelinho repartido de lado. A mãe dele insiste em lambuzar a franja do moleque. De repente, Marquinho pára do meu lado, sobe numa cadeira e fala bem mansinho com uma flor nas mãos. __Vovô, que Deus receba o senhor de braços abertos no céu. Eu amo muito você vovô.

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