domingo, 2 de novembro de 2008

O amor é eterno


Joana é uma mulher incrível. Equilibrada. Firme. Sensível. Justa. Ela é incapaz de negar ajuda a quem precisa. De seres humanos a animais, os ditos irracionais.


Joana é excepcional. Mulher. Mãe. Companheira. Amiga. Avó. Profissional. Ela é decidida. Sabe muito bem o que quer. E conquista. Sempre amável, envolve todos num ritmo crescente e ninguém diz não aos seus pedidos. Aliás, ela sempre tem razão. Outras características? Equilibrada. Firme. Sensível. Justa. Há momentos em que mostra certa rudeza, mas o pulso firme mantém todos unidos.


O coração de Joana é enorme. Ela é incapaz de negar ajuda a quem precisa. Lembro-me de uma situação que até hoje deixa meus olhos marejados. Era uma noite fria e chovia muito. Num cruzamento, à calçada sob um ipê quase pelado, uma mãe – com seus menos de 20 anos – amamentava seu bebê embaixo de um guarda-chuva esfarrapado. A cena era realmente forte, podia até cortar o coração dos mais insensíveis.


Joana não teve dúvidas. Sem hesitar, mandou-me parar o carro ao lado daquela mãe; desceu vagarosamente, dirigiu-se a ela; trocaram meia dúzia de palavras, levantaram e vieram para o carro. Joana decidiu que a levaríamos para a nossa casa. Confuso e surpreso, virei a primeira esquina. Já em casa, Joana cuidou daquela mulher e do bebê, que não estava nada bem. Banho. Roupa quente. Comida. Cama.


No dia seguinte, o menino de pouco mais de seis meses ardia de tão quente. Precisava de um hospital urgentemente. Chamamos um médico amigo, que medicou e transferiu o para um hospital. Ele não resistiu. Aquela mãe não conseguiu derramar uma lágrima. Joana ficou perto dela o tempo todo. A mãe morava numa cidadezinha pequena e queria voltar. Joana pagou. Enterro. Viagem. Dinheiro para o recomeço. Um dia, Joana recebeu uma carta. Aquela mãe agradecia por tudo. Ela havia casado, voltara a estudar e estava empregada. A vida ofereceu-lhe boas coisas. Casa. Filhos. Nova vida.


Joana é assim mesmo. Sempre preocupada, abre até mão de si mesma para deixar alguém feliz. Nunca a vi cobrando pelas coisas que fez. Diferentemente de mim. Muitos que ela ajudou já viraram-lhe as costas. Traição. Desprezo. Ingratidão. Joana não se deixa abalar. Profeticamente, diz que o bem que fez continua sendo o bem. E a traição e o desprezo e a ingratidão? __Uma ação gera uma reação e quem pagará por isso não serei eu.


É verdade, uma amiga deve estar passando por essa reação a que Joana se refere. Ela ajudou muito a amiga, deu dicas profissionais preciosas e até estágio para a filha conseguiu por intermédio de uma empresa de um conhecido. A amiga, que descobrimos não ser tão amiga assim, hoje trata Joana com agressividade. Joana tenta entender o que aconteceu e não encontra respostas plausíveis. Ela fica triste, mas não desanima. __Fiz a minha parte. Se ela não reconhece isso e prefere a ingratidão, não posso fazer nada. Ela pagará os preços por suas próprias atitudes. E quem vai cobrar? A vida.


De seres humanos a animais, os ditos irracionais. Joana ajuda uma entidade que abriga cachorros abandonados. Ela manda os remédios e a comida que a bicharada precisa. Volta e meia, para o carro na rua para recolher os bichos. Muitos, molambentos. Confesso que não gosto nada disso. A população cria seus animais e depois os soltam para o mundo. E ainda cobram do poder público uma medida para o cachorro de rua. É demais! Enfim, Joana se padece da situação e não deixa de ajudar a entidade, inclusive, já levou seis bem velhinhos para a chácara que a gente tem. Até túmulo para os bichos ela mandou fazer.


Joana é assim mesmo. Foi uma vida de 50 anos juntos. Esse é o primeiro ano sem ela. Todos os dias, repasso mentalmente os dias que vivemos juntos. O noivado. O casamento. A lua de mel, na Terra do Fogo. Inesquecíveis os momentos daquela viagem. Gelada e quente, ao mesmo tempo. Os filhos. Os netos. As doenças. Os prazeres. A nossa música preferida, na voz de Sinatra. Quanto encanto!
Uma vida não pode acabar assim. Ainda não me conformei. Vou levar flores para Joana, neste chuvoso Dia de Finados. Um único botão de rosa. Único como o nosso amor. Essa história não vai simplesmente acabar. Assim. Amor de verdade transcende, inclusive, a morte. Afinal, a vida não é eterna?

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