domingo, 30 de novembro de 2008

Querido Papai Noel


Ao ler aquela cartinha, algo tocou o coração endurecido de Oswaldo. Aquelas poucas linhas mexeram de tal forma com ele, que ele nunca mais foi o mesmo.

Oswaldo, com w porque ele faz questão de grafarem corretamente o seu nome, tem 52 anos e trabalha nos Correios há quase 30. Ele é como muitos da sua geração. Trabalhador e rústico. Não é dado a rompantes emocionais e muito menos a demonstrações de carinho. Ele justifica que não tem tempo para o afeto e que sua história pessoal o tornou no homem que é.

O pai morreu quando ele tinha 12 anos. A mãe trabalhou como empregada doméstica para sustentar Oswaldo e seus mais três irmãos e duas irmãs. Ela, uma mulher determinada e obcecada por transformar os filhos e as filhas em homens e mulheres do bem. Desde cedo, Oswaldo aprendeu a encarar a vida e não fugir das responsabilidades. Trabalha desde os 16 anos. Seus sonhos de ser engenheiro foram atropelados. Arranjou emprego nos Correios e leva uma vida confortável, mas muito simples.

Clara, a mulher de Oswaldo, morreu no parto do terceiro filho. Comprometido, ele não terceirizou a maternidade. Cumpriu o seu papel como pai. Assumiu o controle da casa e os cuidados com os filhos. Justo e correto, deu o melhor que pôde, mas não houve espaço para a afetividade. __Isso é coisa de boiola. Oswaldo sempre se justificava na mais alta defensiva. Nunca deu colo aos filhos. Nunca beijou a própria mãe que se disponibilizava sempre. Nunca abraçou os amigos.

Mais um dia de trabalho. Oswaldo chega pontualmente como faz há quase 30 anos. Neste fim de ano ele foi destacado para selecionar as cartinhas das crianças que pedem ao Papai Noel. Raras são as vezes em que ele se emociona com a letra infantil de centenas de crianças. E quando se percebe choroso, muda o tom e volta a ser o seco e rústico Oswaldo. Mas uma cartinha vai acabar com a dureza sentimental dele.

Já nas primeiras linhas não consegue se conter. As lágrimas rolam sem pedir permissão. Quem está a sua volta se estarrece. Nunca os amigos viram aquele homem chorar. Ao acabar de ler, Oswaldo guarda a cartinha no bolso, se levanta e – para espanto dos amigos – sai abraçando e beijando todo mundo. Trabalhou aquele dia sorrindo e cantando. O ambiente ficou leve e, apesar de ninguém entender, todos gostaram. O ofício foi executado prazerosamente.

Ao final do expediente, Oswaldo pega o ônibus para casa como faz há quase 30 anos. No trajeto cumprimenta os motoristas e cobradores com um sorriso que ninguém naquela linha conhecia. Tem impulso agora de abraçar aquelas pessoas que conhece há muito tempo, mas recua. __ Afeto não é coisa de boiola. É coisa de gente humana. Ele revê seus conceitos, mas prefere não arriscar abraços públicos.

Chegando em casa, Oswaldo abraça Marcos, o filho mais velho. Dá um abraço demorado e um beijo no rapaz que entende nada. __O senhor tá passando bem, pai? __Nunca me senti melhor. Ele vai para o quarto de Gabriela e também abraça a filha e enxuga uma lágrima teimosa. A menina também entende nada. O caçula, Felipe, chega a hora que a mesa está posta. Oswaldo, com o avental sujo, pega o moleque no colo e o roda no ar. Felipe está assustado, mas gosta do que sente.

Todos se sentam para jantar. Fazem suas orações. O ar mistura surpresa, felicidade e expectativa. Nenhum dos filhos se atreve a perguntar sobre a mudança drástica do pai. Mesmo assim gostam do que está acontecendo. Ao terminar a refeição, Oswaldo tira do bolso, uma cartinha junto com uma foto. Era a carta que lera pela manhã no trabalho. Ele comunica a todos que vai atender a um pedido especial de um menino de 7 anos cujos pais morreram e que a avó o colocara numa casa abrigo.

O menino pedia algo simples que muitos têm, mas muitos não dão o valor exatamente porque têm. Em tom cerimonioso, Oswaldo limpa a garganta com um rãrã e começa a ler as poucas linhas. Quando acaba, ninguém emite uma palavra. Os olhos vermelhos concordam com a decisão do pai. O ar de consentimento é geral. Palavras nesta hora sobrariam e o excesso não é necessário.

Mas qual o pedido do menino naquela cartinha? Quem precisa saber – o Oswaldo – já sabe. A cartinha mudou para sempre a vida desse carteiro. A cartinha mudou para sempre a vida desse menino. O que importa é que o pedido foi atendido. E você qual o pedido especial vai atender neste Natal?

Um comentário:

Danilo disse...

Rei, as cartinhas emocionam mesmo. Ano passado, peguei uma que o menino pedia comida, mas "se o Papai Noel não pudesse atender, não teria problema". Esse ano, na cartinha que eu peguei, a criança pede um caderno só...

Realmente, as cartinhas são uma forma de amolecer um coração.

Ah, tava assistindo a novela e vi uma cena que dava uma crônica das suas. O político traficante de armas vendeu umas armas pros bandidos. Dali a pouco eles foram assaltar um banco e acabaram matando a filha do próprio político. Legal né...

Parabéns pela crônica.