domingo, 9 de novembro de 2008

Ser mãe é uma arte


Sueli e Marta se conhecem desde os tempos da escola. Ambas casaram. Ambas tiveram filhos. Ambas têm problemas. Cada uma age de uma maneira diferente.

Marta sempre foi a mais bonita da turma e a que tem mais dinheiro também. Ela gosta de competir com as meninas para ver quem é a mais paquerada, a mais desejada pelos meninos. E quase sempre ganha e esnoba das que perdem. Ela gosta de contar vantagens de suas conquistas, de seus flertes e de suas paqueras.

Sueli é uma menina meiga, mas não se destaca propriamente por sua beleza exterior. Ela é a companheirona de todas do grupo. Sempre ajuda, sempre tem uma palavra amiga, sempre tem um ombro amigo. Por isso, ela se sente usada às vezes, mas gosta de ser sentir útil, de ajudar. O desprendimento é o que a torna especial.

Marta casou-se com o menino mais bonito e mais rico do grupo. Ela fez questão de dar a festa. Aquela que ficasse na lembrança de todos na cidade. O clube, o mais tradicional, ficou cheio de convidados. O vestido era o mais bonito, o mais brilhante, o buffet – o melhor. Ela não se contenta com pouco.

Sueli também se casou. O noivo não é o que se pode considerar um príncipe encantando. Gente normal. Gente boa. A recepção aos convidados foi muito bonita, mas discreta e restrita. O dinheiro sempre contado e, na festa, somente os parentes mais próximos e os amigos mais íntimos.

Marta ainda gosta de ostentar suas conquistas. Ela não tem vida profissional. Os filhos têm do bom e do melhor. O marido trabalha muito para garantir o conforto da família. Por causa da profissão, viaja quase todas as semanas e vê pouco os filhos. A escola particular. O carro do ano. A roupa de grife. As férias internacionais.

Sueli leva uma vida confortável, mas sem exageros. Ela e o marido trabalham muito para dar uma condição de vida digna aos filhos. Sua jornada de trabalho, como bancária, é bem pesada e a cobrança no dia-a-dia, por resultados de mercado, é desumana. Mesmo assim, ela concilia o trabalho e a vida doméstica com dedicação.

Marta tem dois filhos. Bruno e Cássio são dois jovens que não precisam se preocupar com as durezas da vida. Quando se metem em alguma confusão sempre há alguém para ajudá-los. O avô, advogado bem sucedido já garantiu a pele do mais velho algumas vezes. Nada sério. Confusão de bar e bebida. Cássio não aprova o irmão.

Sueli é mãe de Emanuel e João. O mais velho tem um problema de audição. Emanuel perdeu parte da capacidade auditiva por seqüelas de uma meningite que teve nos primeiros meses de vida. Emanuel e João são muito unidos. Eles se cuidam mutuamente e a família não se cansa de elogiá-los.

Marta sabe que as coisas não vão muito bem em casa. Bruno não tem horas para chegar. Sai de carro. Bebe. Volta. Dia desses quase atropelou um casal num ponto de ônibus. Ele perde aulas com freqüência; não respeita os pais. Limite para ele é o céu. A mãe cobra o menino e a situação piora. E o pai? Viajando a trabalho.

Sueli sai para trabalhar e os filhos ajudam a cuidar da casa. Cada um arruma seu quarto e tem tarefas diárias planejadas. A família tem diarista três vezes por semana para o grosso do serviço. Faxina geral. Lavar e passar roupa. Cozinhar. Nos dias que não vai, a família mesmo prepara a comida e os meninos dão conta da louça.

Marta está preocupada demais com Bruno, mas ele não respeita ninguém. Até agrediu, dia desses, a empregada da casa que ousou chamá-lo, por ordem da mãe, às 11h30, de uma quarta-feira. Ela ligou do cabeleireiro e pediu para a empregada chamar o filho, que não havia ido à escola. Aliás, ele faltou os dois últimos dias e a mãe não sabia.

Sueli está muito ansiosa. Emanuel vai prestar seu primeiro vestibular. A rotina deste domingo mudou a vida da família. Até o almoço foi especial e servido mais cedo. E todos foram juntos de carro levá-lo ao campus, ajudando a congestionar o trânsito próximo à universidade. Ninguém quis abrir mão de ir junto. E ficaram esperando do lado de fora.

Marta e Sueli se conhecem desde adolescentes. Estudaram juntas o antigo 1º e 2º grau. Sueli fazia parte do grupo de amigas com quem Marta competia para ver quem seria a mais paquerada, a mais desejada. Elas se vêem pouco. A rotina de ambas, hoje muito diferente, não permite muitos encontros.

Sueli e Marta se encontraram no shopping. Marta estava produzida, mas acabada. O ar de tristeza, indisfarçável. Entre uma lembrança e outra, ela contou tudo o que estava passando; até o envolvimento do Bruno com as drogas. Sueli ouviu tudo com a maior atenção, como sempre faz. Enquanto Marta falava de si, sem perguntar pela família da amiga, Sueli lembrou-se de um episódio antigo.

Marta tinha Bruno com um aninho e estava na casa da amiga, quando Sueli recebeu uma ligação do fórum. Havia um bebê de quase 10 meses para Sueli e o marido conhecerem. Marta não sabia das intenções da amiga e teve uma reação estranha. “__Você é louca de adotar essa criança. Você não sabe nada deste bebê. Ele vai ser um problema na sua vida.” Sueli volta do flashback, olha para amiga que continua falando, falando... dá um suspiro e um sorriso e continua ouvindo atentamente.

2 comentários:

Taynara disse...

"Você não sabe nada deste bebê [...]." Essa frase disse tudo. Eu também não sabia nada sobre você, e confesso ainda que tinha um receio, pois te via nos corredores da faculdade e sentia um medo, devido o ar de bravo que me passava. No entanto, hoje, estou aqui, tão apegada a você. Foi justamente o fato de não conhecê-lo que fez com que eu me aproximasse, te conhecesse e percebesse o quanto é querido. Quero continuar assim, não conhecerndo as pessoas, porém, descobrindo-as.

Parabéns, as crônicas e as fotos estão lindas!

Te adoro.

Tatá

Veronica disse...

Realmente ser mãe é uma arte, ser mãe não bilógica então mais ainda mais, ter amor por um ser tão sofrido que apesar da idade já passou por tantas dores....
Se nao fosse a burocracia em torno do processo de adoção muitas mulheres se transformariam em Sueli's