domingo, 16 de novembro de 2008

Tudo será diferente


Eles vão caindo um a um. Elas, uma a uma. Todos pagam o preço pela perversidade. Esse caminho pode não ter volta.

De repente tudo fica escuro e, bem longe, eu vejo uma luzinha. Parece que estou num túnel muito, mas muito comprido. Vou me aproximando da luz e quanto mais caminho mais ela fica intensa. E percebo que um ódio toma conta de mim. Ao meu lado eles vão caindo um a um. Uma a uma. E sangram muito. Não tenho piedade.

Tudo será diferente. Estudo neste colégio desde o pré. Sempre fui vítima dos mais bonitos, dos mais ricos, dos mais inteligentes, dos mais isso, dos mais aquilo. Mas chegou a hora da minha vingança. E eles pagarão o preço pela arrogância, pelo desprezo, pelo descaso. Pelo tratamento ruim que me dispensaram.

O primeiro a tombar é Thomas, logo depois da porta principal. Ele sempre tirou sarro de mim nas aulas de educação física. O gordo da turma. O bolo fofo. O rolha de poço. O dono da borracharia. Quanta humilhação passei nesse período! E os professores? Muitos eram coniventes e quando eu reclamava da humilhação, me mandavam fazer regime.

Por isso, Eduardo, o professor saradão é o próximo. Ele nunca me defendeu nas atividades físicas. Eu não precisava de proteção, precisava de estímulo. E ele nunca me escolhia para os times. Sempre ficava na reserva. Nunca entendi direito essa coisa de ensino e aprendizagem. Parece que professor só gosta de ensinar para quem já sabe. Encontrei-o descendo a escada, naquela regata exibicionista. Não teve tempo de gritar.

Carla, a menina mais desejada, é a próxima. Encontrei-a no final da escada, no andar de cima. Um tiro apenas e a beleza daquele rostinho é tingido de vermelho. Que pena! Ela nunca mais vai esnobar de mim. Quando eu fui convidá-la para dançar no baile da festa junina, ela virou e disse. “__Se enxerga, ô gordo.” Gostaria que ela pudesse se enxergar agora.

Logo depois encontro o Paulo. Ele está com uma cara assustadíssima. Esse eu vou poupar. Ele sempre me aceitou no grupo para os trabalhos da turma. Ele é atencioso e não me despreza. Me trata como gente normal. Permito que ele saia do corredor e vou em busca de outros algozes da vida escolar. Tudo será diferente.

Na primeira sala à esquerda, vejo a professora Carmen. De matemática. Odeio matemática. Até hoje não sei pra que serve esse monte de conta. Toda vez que não sabia fazer uma fórmula, ela explicava com agressividade, não tinha paciência. A cara dela sempre expressava algo do tipo “mas como é lerdo esse menino!”. Um disparo apenas. Ninguém mais precisa estudar matemática.

Na sala, estão Patrícia e Manuela. Duas filhinhas de papai. Nojentinhas. Insuportáveis. Puxam o saco do professor, da professora, do diretor. Inventam muita coisa e espalham intriga. Já vieram me dizer que elas falam pelos corredores que sou esquisito porque sou filho de mãe solteira, que quando nasci faltou oxigênio no cérebro, que meu pai era drogado. Pena que agora é elas que não podem respirar.

Saio da sala e na volta do corredor a gritaria é grande. É gente – não sei se do tipo humano – correndo pra tudo que é lado. Vejo ao fundo, o Márcio, o garanhão. Uma vez, quis abusar de mim. Consegui escapar. Minha mãe foi ao colégio, exigiu providência. E o colégio? Abafou o caso. Márcio é filho de um dos mais respeitados advogados da cidade. Tem cobertura, não desta vez. Não teve tempo nem de dar um passo.

Ao me virar para a escada onde Carla mancha o chão, vejo uma dupla de policiais. Arma na minha direção. Mandam parar; largar meu revólver; jogar o pente reserva. Continuo caminhando. Lentamente, vou levantando o braço. Sinto uma bala. Depois outra. Mais uma. Mais outra.

Antes de cair, me agito e abro os olhos. Ofegante. Sento na cama. Meu quarto está escuro. Foi o sonho mais macabro que tive nos últimos tempos. Levanto. Tomo um copo d´água. Refaço todos os passos daquele pesadelo. Cada imagem me assombra. Vou para o computador e pesquiso. Pesquiso muito. Bulling é uma coisa realmente triste.

No dia seguinte, procuro a direção do colégio e conto todas as humilhações pelas quais passo. Dou nomes de muitos, incluindo professores, perversos com quem foge dos padrões, sejam sociais sejam físicos. A direção promete mudanças. Tomara, tomara mesmo que tudo seja diferente daqui para frente.

3 comentários:

Lorena disse...

É, Rei, sei o que é isso. Tenho sofrido muito com várias situações. O pior é quando é institucionalizado. Por mais que eu concorde, por exemplo, que deva haver uma política anti-tabagista, algumas ações mostram o fumante como um criminoso. Claro que é só um exemplo, e eu tenho vários por ser mulher, por ser obesa...rs. O pior é que, muitas vezes, é velado, mascarado, mas muito presente. Porém nem por isso deixa de ser humilhante. É muito legal tratar este tema.

Fê Guimarães disse...

Oi, tudo bem? eu tô aqui p pedir um favor... gostaria muito q vc ajudasse a divulgar o blog http://querumbicho.blogspot.com/ q tem a finalidade de ajudar os bichinhos q estão sem lar em Londrina e região... se puder ajudar agradeço, afinal é por uma causa nobre... vc pode ajudar a salvar uma vida!

Murillo Leal Humorista disse...

As situações, as vezes,nos levam a refletir algumas coisas, boas reflexões encontrei aqui.

abraço
http://murilloleal.blogspot.com