domingo, 28 de dezembro de 2008

Promessas no fim do ano


Walter, Márcia, Irineu, Cassiano e Marinalva já têm a promessa de final de ano na ponta da língua. O ano novo tem esse poder, de liberar desejos que nem sempre serão satisfeitos.

Walter tem 38 anos é casado e pai de três filhos. Casou-se com 26 anos de idade. A mulher dele reclama do cigarro há mais de uma década. Para ser exato desde quando namoravam. Ele sempre prometeu parar de fumar. Quando nasceu a primeira filha. Quando nasceu o segundo. Quando nasceu o terceiro. Como não conseguiu, mudou de estratégia. Todo final de ano, afirma mais para mulher e menos para si mesmo que, com o novo ano, vai parar de fumar. Muitos renovam as esperanças, Walter renova a promessa. Afinal a primeira vez que ele prometeu parar de fumar com o ano novo foi sete anos atrás. Ele vai repetir o ritual acendendo uma vela branca, todo vestido de branco.

Márcia é dona de casa. Tem um filho e uma filha. Ela também é do tipo que renova as promessas na virada do ano. E tem sempre uma simpatia, que garante, é infalível. Ai se fosse mesmo... Enfim, ela renovou para 2009 a promessa de fazer uma dieta e perder cinco quilos. Ela é um mulheirão, apenas não se encaixa no PPO - perfil puro osso – das passarelas. E quem se encaixa? Mas a indústria da moda insiste em fazer GG para magricelas. E o pior são as cobranças do marido. Este um exemplo fashion. Barba sempre por fazer, cabelo grisalho e barriga saliente. E o pior, as mulheres – aquelas escravas da imagem – acham isso um charme. Bem feito! Márcia, antes de comer as sete sementes de romã e guardar os caroços na carteira, vai prometer emagrecer cinco quilos.

Irineu é agricultor de porte médio. As últimas chuvas não foram suficientes para ajudar a soja plantada nos 40 alqueires do sítio. Chegaram tarde. Ele já deu entrada no seguro que vai cobrir os prejuízos, mas não vai ajudar a quitar as dívidas com máquinas e empréstimos que vêm sendo (en)rolados há quase uma década. É incentivado pelos filhos a vender uma parte para saldar as broncas e arrendar o resto para a usina de cana. Afinal o etanol está em alta. Mas isso é uma afronta ao agricultor. Ele acredita que a providência divina vai ocorrer no próximo ano e a colheita será farta o suficiente para pagar as dívidas e, ainda, construir a tão sonhada casa nova; empreendimento que foi sonhado pelo pai dele, pelo pai do pai dele... Para isso a ceia de ano terá pernil de porco, porque este fuça para a frente. Na casa dele é proibido ter ave nesta época porque elas ciscam para trás.

Cassiano é estudante do ensino médio de uma escola particular. Os pais gastam muito com a formação do menino que não anda muito preocupado em aprender para crescer na vida. Todo ano ele pega recuperação, faz exame e passa raspando. De série em série. É o desgosto da família que busca entender tanto desinteresse. Já se envolveu com o grupo do fumo na escola, pega suspensão freqüentemente por matar aula, subverter as regras do rígido código disciplinar e até envolver-se em bate-boca com professores. Digamos que este último não é nada difícil. Por que professor não encara com naturalidade o diálogo combativo dos estudantes? Enfim... Cassiano, antes de pular as três primeiras ondas de 2009, vai prometer ser um estudante melhor.

Marinalva é funcionária pública. Trabalha com muita dedicação. O salário não é ruim e se considerar os valores recebidos pelo marido, a renda familiar fica acima da média. Mas os dois vivem com as contas atrasadas e grande parte da renda é consumida por dívidas, com empréstimo daquela modalidade-armadilha “crédito direto” e cartões de créditos. Marinalva é do tipo consumista por impulso. Ela compra por emoção e não agüenta ver uma promoção. Até parece slogan publicitário. Quando vai ao shopping não se pergunta se precisa do produto, mas afirma pra si mesma que merece aquele artigo. Não dá outra e, no mês seguinte, vive pagando apenas o mínimo do cartão. Junto com o arroz com lentinha que preparar para o jantar, ela vai prometer que só vai comprar o que realmente precisa.

Ano novo, vida nova. Nem sempre, passado o dia 1º e voltando ao batente, Walter, Márcia, Irineu, Cassiano e Marinalva vão perceber que a vida toca seu ritmo normalmente sem glamour. O glamour, presente nas festas de fim de ano, faz as pessoas comerem mais do que precisam; prometerem o que não conseguem cumprir; acreditarem em coisas que não vão fazer; planejarem o que não têm capacidade de executar. Isso é ruim? De modo algum. Isso faz parte do cenário de final de ano que todo mundo monta. Afinal não seria ano novo e o clima não seria o mesmo. E você qual promessa vai fazer para 2009? Aproveite que os anjos ainda estão de plantão.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sobre médico, jornalista e advogado


O episódio dos médicos baderneiros do HU vai regar o churrasco de três amigos que, corporativismo à parte, vão continuar amigos depois da última brasa.

Eles são amigos desde o prezinho. Mesmo quando mudaram de escola mantiveram a amizade que uniu, inclusive, os pais das três famílias. Cada um seguiu o seu caminho e ainda sim permaneceu o contato. Eles são do tipo que vão ser padrinho de casamento um do outro, que vão batizar os filhos um do outro. E o que mais gostam de fazer? Churrasco para debater as últimas idéias e, se isso envolver as virtudes e os defeitos de cada profissão, melhor ainda.

Celso é médico. Alberto é jornalista. Mário é advogado. Os três estão eufóricos para se encontrar. O churrasco desta semana será na casa do médico. O cardápio será regado pela polêmica causada pelos formandos de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os baderneiros – formados com dinheiro público – que depois de encher o jaleco invadiram, em novembro, o Pronto Socorro do Hospital Universitário (HU) fazendo arruaça.

Enquanto o médico acende a fogo, o jornalista começa a provocação. __Celso, você viu a decisão da Justiça em determinar a colação de grau do grupo dos 14 baderneiros do HU? Um desrespeito à decisão da universidade. Sobriamente, o médico responde. __Justiça seja feita. É um absurdo o grupo perder o diploma. O jornalista argumenta que absurdo é a baderna promovida pelo grupo; que faltou respeito com a coisa pública e a escola onde estudam; que o grupo deveria ter reverência aos usuários do SUS usados para aprendizado; que a farra na realidade era resultado da (má) educação recebida em casa e na própria academia, que etc... etc... etc...

__Imagine, a decisão da reitoria da UEL foi desproporcional ao erro cometido!, critica o médico veementemente. __ Será que perder o curso inteiro ensinaria alguma coisa ao grupo? Essa medida não se sustenta e qualquer juiz restabeleceria o direito deles cedo ou tarde, completa o médico. __Com certeza, ainda mais com um Judiciário louco para governar, mesmo sem mandato. Vocês já repararam quantas liminares obrigam o poder público a fazer isso ou aquilo? O médico e o advogado olharam para ele com ar de “esse é assunto para outra crônica”.

Entra em cena outro doutor, o advogado. __Na realidade, Alberto, a imprensa fez um cavalo de batalha, mobilizou a opinião pública contra os formandos, faltou imparcialidade neste episódio, o grupo foi tratado como bandido. Com a língua coçando, o jornalista espera o advogado terminar e responde. __Imparcialidade? O que você queria. A imprensa em vários momentos foi impedida de fazer o seu trabalho. Os formandos juraram silêncio e ninguém deu declarações. Nem os nomes dos baderneiros foram publicados!

__Aí seria demais, né Alberto, repreende o médico. __E o direito à proteção da imagem onde fica?, pergunta o advogado que continua. __Está certíssima a advogada do grupo que não permitiu que fossem feitas imagens dos formandos na colação de grau. Isso poderia prejudicar ainda mais a imagem deles. O jornalista, inconformado, rebate dizendo que o motivo de tal prejuízo era a atitude irresponsável no dia fatídico quando encheram o jaleco e até rojão soltaram no Pronto Socorro.

O médico pensativo propõe uma reflexão. __Vejamos... Por que o médico não pode errar? A sociedade espera dele uma conduta exemplar. Se o jornalista erra, nem conselho de categoria tem para analisar o caso. Se o advogado erra, a OAB é tão corporativa que nem investiga. Então por que o médico não pode errar? Provocado em seu sentimento mais profundo de unidade profissional, o advogado não mede a resposta. __Por dois motivos simples, meu caro Celso. Primeiro pelo status que a categoria gosta de manter. É o preço que se paga pela imagem. Segundo, porque lida com a vida.

__Lá vem vocês de novo. Só falta contar a piada da diferença entre o médico e o advogado. No fundo, eu acho que tanto um quanto outro se sente como Deus, critica o jornalista que ouve em tom uníssono. __Cale a boca, jornalista!, parafrasearam entre risos o médico e o advogado sobre o título do livro de Fernando Jorge. __Direito à liberdade de expressão, né Mário! Só serve para ilustrar discurso, ironiza o jornalista resignado.

__Não sei porquê. A imprensa fez o trabalho dela, mas tem que ter cuidado. Os nomes dos formandos não podiam ser publicados, mesmo, ensina o advogado. __Também, a imprensa foi ameaçada. As famílias, os que já tinham se formado fizeram até paredão humano para proteger o grupo, defende-se o jornalista. __Ah não me venha com essa. Se a imprensa quisesse teria publicado os nomes. Vocês fazem isso todos os dias em matérias que envolvem pobre. Vocês tiveram medo de processo, isso sim, diz o médico calando as pretensões heróicas do jornalista.

Quem via de fora, jurava que os três tinham razão em tudo e ainda poderia enumerar várias conclusões. Educação se tem em casa, escola é lugar para aprender algo do conhecimento formal. A sociedade cobra uma conduta perfeita dos profissionais da saúde e não se preocupa com a formação, por exemplo, de profissionais de outras áreas. A sociedade exige liberdade de imprensa para os outros. Liberdade de expressão é um direito fundamental desde que não afete os próprios interesses. Advogado é um artigo para quem pode pagar. O SUS é um grande gerador de conhecimento, desprezado inclusive por quem aprende com ele.

E a conversa continua noite adentro. Cada fato é motivo para nova discussão. Cada um tem seus argumentos. Entre uma cervejinha e uma carninha queimada os ânimos ora esfriam ora esquentam. Às vezes os três falavam ao mesmo tempo. Muita elucubração percorre os pensamentos e as falas dos três amigos. Pelo menos até a última brasa da churrasqueira se apagar.

domingo, 14 de dezembro de 2008

É quase Dia de Natal


A magia do Natal foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja.

Essa época do ano me deixa muito triste. As recordações parecem que voltam com mais força e as emoções ficam mais claras. Isso é bom, às vezes. Isso é ruim, às vezes. É que eu tenho muita saudade de casa e da família. Sei que não conseguirei voltar. Aquele lar ficará apenas na minha memória e nunca mais os verei. Tudo bem, na rua as coisas são mais difíceis, mas tem suas compensações. A liberdade. A falta de regra. A falta de padrão. Os da sociedade. Porque a rua tem suas regras e padrões próprios. Mas não é da minha vida que quero falar.

Lembro-me da primeira vez que fui parar num cruzamento. Os carros em alta velocidade. Gente apressada. Barulho. Você se torna invisível e se esbarram em você nem olham do lado. Não há pedido de desculpas. Se bobear ainda é perigoso levar uns chutes. Tem gente pra tudo mesmo. A humanidade perdeu a humanidade. A indiferença tomou conta há muito tempo das relações que se tornaram desumanas. Fazer o que? Assim caminha, mesmo, a humanidade. Acho que essa frase é de um filme... um livro... sei lá...

Vejo perfeitamente o que viraram as pessoas. Máquinas. De trabalhar. De estudar. De subir na vida. Tudo é feito para conquistar as aparências. E depois de conquistada, as pessoas lutam para mantê-la. Não existe espaço para a sinceridade, a simplicidade. Outro dia, um médico caminhava para manter a própria saúde para cuidar da saúde alheia. Sobrecarregado sempre, quando parou esqueceu-se de um paciente no final da tarde. A secretária ligou e ele pediu para dizer que estava operando. Mentiu para manter o paciente cativo. Se fosse sincero, perderia clientela. A simplicidade vale nada.

A dona da loja em frente ao qual costumo passar as manhãs, oferece qualquer coisa para vender qualquer coisa. Não foi uma ou duas ou três vezes que vi cliente satisfeito – na compra – voltar para trocar mercadoria e sair jurando que ia ao Procon. A palavra humana vale pouca coisa nos dias atuais. O jeitinho para levar alguma vantagem continua valendo, mais forte do que nunca.

Levar vantagem tem dominado as relações. O cidadão prefere muitas vezes não procurar trabalho para ganhar uns troquinhos como flanelinha. Já reparou como proliferaram? Tudo bem, não tem trabalho pra tudo mundo mesmo, mas esse mercado progrediu. Em dia de show, o teatro lota do lado de dentro e do lado de fora. Os guardadores de carro loteiam a rua e estabelecem os valores cobrados – antecipadamente. Com medo de ter o patrimônio depredado, o bacana e a bacana pagam o preço da chantagem. A rua era pública, virou privada. Em todos os sentidos que a interpretação permite.

E por falar em chantagem, uma criança parece inofensiva. Só parece. Muitos são pequenos tiranos. Vejo com freqüência grandes ditadores em corpinho infantil. No supermercado se jogam no chão, choram compulsivamente, gritam e esperneiam. Querem porque querem. E os pais, reféns da armadilha que criaram, cedem para não participar do escândalo público. E o pior. Os pequenos tiranos depois de conseguir o que querem porque querem, esquecem e partem para outro alvo de desejo. Simplesmente porque querem. Os pais perderam mesmo a autoridade.

Outra característica que a humanidade perdeu, hoje eu vejo porque vivo nas ruas, é a gentileza despretensiosa. Um bom dia, uma boa tarde e uma boa noite – que eram sentimentos puros – se transformaram em mera formalidade, obrigação forçada ou bajulação obrigatória. Já presenciei muito bom dia com cara de pouca coisa boa. Neste caso é melhor se benzer porque o desejo de bom fica na superfície, nas palavras apenas. O que vem do fundo pode não desejar nada de bom.

E essa época do ano me deixa triste porque o espírito do Natal se esvaziou. Aquele sentimento de unidade, de paz, de harmonia foi substituído. A troca de presente e o valor da mercadoria chamam mais a atenção. Aquele ritual de colocar capim numa meia e deixar embaixo da árvore de Natal para receber Papai Noel não existe mais.

A magia foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja. A ansiedade infantil pelo presente que os pais podem comprar sumiu. No lugar, a criança faz suas escolhas e os pais que se virem pra pagar. E os que não podem pagar – nem escolher – se contentam com o carrinho de plástico de R$ 1,99 doado por uma alma que se julga boa, distribuído por alguma organização às vésperas do Natal, e que virou manchete na primeira edição do telejornal.

Isso me faz lembrar que nessa época, no asilo que costumo passar em frente sempre tem festa. Todo dia, um grupo resolve fazer um almoço para alegrar o dia triste dos velhinhos. Já reparou que quem promove essas festas em asilo sempre acha que os velhinhos são necessariamente tristes e abandonados? Pensar assim não os deixa mais tristes e mais abandonados? E o pior, os promotores de festa de fim de ano em asilo não se preocupam se os velhinhos comem nos outros dias do ano.

É a humanidade está diferente mesmo. Às vezes, não a reconheço. Sei que perdi muito morando na rua, uma caminha quente, um pote de ração de manhã e de tarde, água limpa e o melhor de tudo carinho na barriga, na cabeça e o aconchego da família. Até o pai que é atarefado dedicava uns segundos brincando comigo. Por que adulto brinca com a gente, afinando a voz e fazendo cara de bobo? Mas é muito bom. Pelo menos foi. Me arrependo muito de ter cruzado aquele portão aberto, mas o pior de tudo mesmo, é que muito vira-lata humano passa por você nas ruas e ainda o chama de cachorro.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dona Maria e aquela doença


A filha mais velha de cinco enfrentou todos os problemas da vida, sempre com um sorriso. Muitos não entendiam como ela podia agir assim.

Dona Maria é uma mulher simples e muito devota da Santinha, como ela chama a Virgem Maria. Ela sempre está bem humorada e não nega um sorriso a ninguém. Mesmo a desconhecidos, que a fitam com desconfiança, ela dirige um simpático bom dia e deseja sempre tudo de bom. Pena que muitos a acham uma doida e não retribuam com o mesmo carinho.

Dona Maria é a filha mais velha de cinco. Quando ela nasceu, o pai não escondeu a frustração. Queria um menino. Ele repetiu esse ritual por outras três vezes quando sua mulher deu a luz a outras meninas. Até que o quinto, um menino, o pai dedicou o que não dedicara às outras. __Ele foi criado deste jeito, repetia dona Maria. As próprias palavras tentavam convencê-la internamente. Como cada papel estava estabelecido dona Maria cresceu sob os padrões da época. O preferido do pai era mesmo o quinto filho.

Dona Maria casou-se com o homem que o pai permitiu. A festa foi no terreirão de secar café do sítio da família dele. Tudo muito simples. O teto da festa foi levantado com lona apoiada em bambus que brotavam pela região. A churrasqueira improvisada com tijolos assava a carne de boi, de cabrito e de porco, mortos na véspera para alimentar os convidados. A lua de mel no único hotelzinho da cidade, distante 11 km do sítio. A festança foi boa e não faltou cerveja gelada no início e quente no final.

Dona Maria sempre foi muito religiosa. Ela, como todas as mulheres, era muito respeitada pelo marido, desde que não ousasse discordar ou questionar. Teve quatro filhos, todos nascidos na roça. E uma geada mudou os rumos da família. Com os pés de café cortados no nível da terra, mudou-se para a cidade grande. O marido de dona Maria conseguiu emprego de porteiro numa fábrica. Ela costurava para ajudar nas despesas.

Dona Maria sofreu muito, mas nunca deixou o entusiasmo. O marido se perdeu na bebida, foi afastado do trabalho e terminou os dias num sanatório (nome pouco nobre da época para casa de recuperação). Ela enfrentou os problemas de cabeça erguida. E não eram poucos. Mas o tempo passou, os filhos cresceram, estudaram e hoje estão formados. Já estudam os netos de dona Maria. A vida seguiu seu ritmo.

Dona Maria não conta pra ninguém, mas sente uma dor grande na garganta. Até que ela não pôde mais disfarçar e contou para João, o segundo filho, que assustado a levou a um médico. O doutor não fala nada e, pelo ar de apreensão, dona Maria sente que pode ser algo sério. Ela afirma para si mesma que não vai amolecer e vai continuar a vida normalmente. Sorrindo para todos. Na semana seguinte, o diagnóstico. O médico pede que João entre primeiro. É avisado que a mãe tem aquela doença.

Dona Maria não gosta de pronunciar o nome da doença. Ela avisa o médico que vai vencer o problema, que é apenas mais um que aparece em sua vida. __É provação e com Deus, eu vou vencer. Não vou morrer dessa doença doutor, diz ela ao médico descrente do poder da fé. À João, o doutor avisa que dona Maria não tem muito tempo. E que o tratamento ajudaria a aliviar a dor. Dona Maria muda a rotina, mas não o sorriso que carrega. Parece mais determinada e sorri para todos que encontra. Muitos não entendem, outros gostam mesmo assim.

Dona Maria cumpriu rigorosamente o tratamento quimioterápico, cirurgia não era a técnica mais indicada naquele caso. E em todas as sessões, ela surpreendia a equipe com a sua disposição. __A fé remove muita coisa. Se remove até montanha por que não pode remover um tumor? Os questionamentos, entre sorrisos, feitos por aquela mulher instigam a equipe e também os doentes com quem convive na sala de espera. __Eu sorrio sempre porque estou viva. Se tivesse morta quem sorriria seria a minha alma, respondia dona Maria aos outros doentes que teimavam não entender sua felicidade na sala de espera de um hospital oncológico. __Eu não vou morrer dessa doença, repetia em todos os cantos.

Depois do período de tratamento, um doutor espantado não acredita nos exames. O tumor regredira totalmente. Ele tenta explicar, mas não tem palavra. Ele acaba por admitir que não sabe o que aconteceu. __Se o senhor pedisse aos seus pacientes a acreditar na cura quem sabe elas não se curassem mais rápido! As palavras de dona Maria calaram as pretensões científicas do doutor. Sem saída, ele sorri para ela, que retribui com um beijo em sua testa e três palavras. __Muito obrigado, doutor.

Dona Maria sabia que vencera uma doença temida por uns, odiada por outros. Muitos queriam saber a fórmula e ela dizia que não existia, apenas insistia. __Eu sabia que não morreria dessa doença. Uma semana depois de receber alta, dona Maria costurava, sorridente, como de costume. Fazia um enxovalzinho para a neta mais nova. Ao final da última peça, ela sente uma dor de cabeça aguda e sem tempo para nada cai sobre a velha máquina. Dona Maria partiu dessa e sua alma deve continuar a sorrir. O diagnóstico? Acidente vascular cerebral, o conhecido derrame. Dona Maria realmente não morreu por causa daquela doença.