domingo, 7 de dezembro de 2008

Dona Maria e aquela doença


A filha mais velha de cinco enfrentou todos os problemas da vida, sempre com um sorriso. Muitos não entendiam como ela podia agir assim.

Dona Maria é uma mulher simples e muito devota da Santinha, como ela chama a Virgem Maria. Ela sempre está bem humorada e não nega um sorriso a ninguém. Mesmo a desconhecidos, que a fitam com desconfiança, ela dirige um simpático bom dia e deseja sempre tudo de bom. Pena que muitos a acham uma doida e não retribuam com o mesmo carinho.

Dona Maria é a filha mais velha de cinco. Quando ela nasceu, o pai não escondeu a frustração. Queria um menino. Ele repetiu esse ritual por outras três vezes quando sua mulher deu a luz a outras meninas. Até que o quinto, um menino, o pai dedicou o que não dedicara às outras. __Ele foi criado deste jeito, repetia dona Maria. As próprias palavras tentavam convencê-la internamente. Como cada papel estava estabelecido dona Maria cresceu sob os padrões da época. O preferido do pai era mesmo o quinto filho.

Dona Maria casou-se com o homem que o pai permitiu. A festa foi no terreirão de secar café do sítio da família dele. Tudo muito simples. O teto da festa foi levantado com lona apoiada em bambus que brotavam pela região. A churrasqueira improvisada com tijolos assava a carne de boi, de cabrito e de porco, mortos na véspera para alimentar os convidados. A lua de mel no único hotelzinho da cidade, distante 11 km do sítio. A festança foi boa e não faltou cerveja gelada no início e quente no final.

Dona Maria sempre foi muito religiosa. Ela, como todas as mulheres, era muito respeitada pelo marido, desde que não ousasse discordar ou questionar. Teve quatro filhos, todos nascidos na roça. E uma geada mudou os rumos da família. Com os pés de café cortados no nível da terra, mudou-se para a cidade grande. O marido de dona Maria conseguiu emprego de porteiro numa fábrica. Ela costurava para ajudar nas despesas.

Dona Maria sofreu muito, mas nunca deixou o entusiasmo. O marido se perdeu na bebida, foi afastado do trabalho e terminou os dias num sanatório (nome pouco nobre da época para casa de recuperação). Ela enfrentou os problemas de cabeça erguida. E não eram poucos. Mas o tempo passou, os filhos cresceram, estudaram e hoje estão formados. Já estudam os netos de dona Maria. A vida seguiu seu ritmo.

Dona Maria não conta pra ninguém, mas sente uma dor grande na garganta. Até que ela não pôde mais disfarçar e contou para João, o segundo filho, que assustado a levou a um médico. O doutor não fala nada e, pelo ar de apreensão, dona Maria sente que pode ser algo sério. Ela afirma para si mesma que não vai amolecer e vai continuar a vida normalmente. Sorrindo para todos. Na semana seguinte, o diagnóstico. O médico pede que João entre primeiro. É avisado que a mãe tem aquela doença.

Dona Maria não gosta de pronunciar o nome da doença. Ela avisa o médico que vai vencer o problema, que é apenas mais um que aparece em sua vida. __É provação e com Deus, eu vou vencer. Não vou morrer dessa doença doutor, diz ela ao médico descrente do poder da fé. À João, o doutor avisa que dona Maria não tem muito tempo. E que o tratamento ajudaria a aliviar a dor. Dona Maria muda a rotina, mas não o sorriso que carrega. Parece mais determinada e sorri para todos que encontra. Muitos não entendem, outros gostam mesmo assim.

Dona Maria cumpriu rigorosamente o tratamento quimioterápico, cirurgia não era a técnica mais indicada naquele caso. E em todas as sessões, ela surpreendia a equipe com a sua disposição. __A fé remove muita coisa. Se remove até montanha por que não pode remover um tumor? Os questionamentos, entre sorrisos, feitos por aquela mulher instigam a equipe e também os doentes com quem convive na sala de espera. __Eu sorrio sempre porque estou viva. Se tivesse morta quem sorriria seria a minha alma, respondia dona Maria aos outros doentes que teimavam não entender sua felicidade na sala de espera de um hospital oncológico. __Eu não vou morrer dessa doença, repetia em todos os cantos.

Depois do período de tratamento, um doutor espantado não acredita nos exames. O tumor regredira totalmente. Ele tenta explicar, mas não tem palavra. Ele acaba por admitir que não sabe o que aconteceu. __Se o senhor pedisse aos seus pacientes a acreditar na cura quem sabe elas não se curassem mais rápido! As palavras de dona Maria calaram as pretensões científicas do doutor. Sem saída, ele sorri para ela, que retribui com um beijo em sua testa e três palavras. __Muito obrigado, doutor.

Dona Maria sabia que vencera uma doença temida por uns, odiada por outros. Muitos queriam saber a fórmula e ela dizia que não existia, apenas insistia. __Eu sabia que não morreria dessa doença. Uma semana depois de receber alta, dona Maria costurava, sorridente, como de costume. Fazia um enxovalzinho para a neta mais nova. Ao final da última peça, ela sente uma dor de cabeça aguda e sem tempo para nada cai sobre a velha máquina. Dona Maria partiu dessa e sua alma deve continuar a sorrir. O diagnóstico? Acidente vascular cerebral, o conhecido derrame. Dona Maria realmente não morreu por causa daquela doença.

2 comentários:

Danilo Rafael disse...

Feliz Natal Reinaldo, e um próspero 2009, boas festas e boas férias...
sucesso...até
abç

Danilo disse...

Gostei do final Reinaldo! é o primeiro que eu não sei se é feliz ou triste.