domingo, 14 de dezembro de 2008

É quase Dia de Natal


A magia do Natal foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja.

Essa época do ano me deixa muito triste. As recordações parecem que voltam com mais força e as emoções ficam mais claras. Isso é bom, às vezes. Isso é ruim, às vezes. É que eu tenho muita saudade de casa e da família. Sei que não conseguirei voltar. Aquele lar ficará apenas na minha memória e nunca mais os verei. Tudo bem, na rua as coisas são mais difíceis, mas tem suas compensações. A liberdade. A falta de regra. A falta de padrão. Os da sociedade. Porque a rua tem suas regras e padrões próprios. Mas não é da minha vida que quero falar.

Lembro-me da primeira vez que fui parar num cruzamento. Os carros em alta velocidade. Gente apressada. Barulho. Você se torna invisível e se esbarram em você nem olham do lado. Não há pedido de desculpas. Se bobear ainda é perigoso levar uns chutes. Tem gente pra tudo mesmo. A humanidade perdeu a humanidade. A indiferença tomou conta há muito tempo das relações que se tornaram desumanas. Fazer o que? Assim caminha, mesmo, a humanidade. Acho que essa frase é de um filme... um livro... sei lá...

Vejo perfeitamente o que viraram as pessoas. Máquinas. De trabalhar. De estudar. De subir na vida. Tudo é feito para conquistar as aparências. E depois de conquistada, as pessoas lutam para mantê-la. Não existe espaço para a sinceridade, a simplicidade. Outro dia, um médico caminhava para manter a própria saúde para cuidar da saúde alheia. Sobrecarregado sempre, quando parou esqueceu-se de um paciente no final da tarde. A secretária ligou e ele pediu para dizer que estava operando. Mentiu para manter o paciente cativo. Se fosse sincero, perderia clientela. A simplicidade vale nada.

A dona da loja em frente ao qual costumo passar as manhãs, oferece qualquer coisa para vender qualquer coisa. Não foi uma ou duas ou três vezes que vi cliente satisfeito – na compra – voltar para trocar mercadoria e sair jurando que ia ao Procon. A palavra humana vale pouca coisa nos dias atuais. O jeitinho para levar alguma vantagem continua valendo, mais forte do que nunca.

Levar vantagem tem dominado as relações. O cidadão prefere muitas vezes não procurar trabalho para ganhar uns troquinhos como flanelinha. Já reparou como proliferaram? Tudo bem, não tem trabalho pra tudo mundo mesmo, mas esse mercado progrediu. Em dia de show, o teatro lota do lado de dentro e do lado de fora. Os guardadores de carro loteiam a rua e estabelecem os valores cobrados – antecipadamente. Com medo de ter o patrimônio depredado, o bacana e a bacana pagam o preço da chantagem. A rua era pública, virou privada. Em todos os sentidos que a interpretação permite.

E por falar em chantagem, uma criança parece inofensiva. Só parece. Muitos são pequenos tiranos. Vejo com freqüência grandes ditadores em corpinho infantil. No supermercado se jogam no chão, choram compulsivamente, gritam e esperneiam. Querem porque querem. E os pais, reféns da armadilha que criaram, cedem para não participar do escândalo público. E o pior. Os pequenos tiranos depois de conseguir o que querem porque querem, esquecem e partem para outro alvo de desejo. Simplesmente porque querem. Os pais perderam mesmo a autoridade.

Outra característica que a humanidade perdeu, hoje eu vejo porque vivo nas ruas, é a gentileza despretensiosa. Um bom dia, uma boa tarde e uma boa noite – que eram sentimentos puros – se transformaram em mera formalidade, obrigação forçada ou bajulação obrigatória. Já presenciei muito bom dia com cara de pouca coisa boa. Neste caso é melhor se benzer porque o desejo de bom fica na superfície, nas palavras apenas. O que vem do fundo pode não desejar nada de bom.

E essa época do ano me deixa triste porque o espírito do Natal se esvaziou. Aquele sentimento de unidade, de paz, de harmonia foi substituído. A troca de presente e o valor da mercadoria chamam mais a atenção. Aquele ritual de colocar capim numa meia e deixar embaixo da árvore de Natal para receber Papai Noel não existe mais.

A magia foi substituída pelo pacote da loja do shopping, pelo anúncio brilhante dos publicitários na TV. Papai Noel foi trocado pelo vendedor da loja. A ansiedade infantil pelo presente que os pais podem comprar sumiu. No lugar, a criança faz suas escolhas e os pais que se virem pra pagar. E os que não podem pagar – nem escolher – se contentam com o carrinho de plástico de R$ 1,99 doado por uma alma que se julga boa, distribuído por alguma organização às vésperas do Natal, e que virou manchete na primeira edição do telejornal.

Isso me faz lembrar que nessa época, no asilo que costumo passar em frente sempre tem festa. Todo dia, um grupo resolve fazer um almoço para alegrar o dia triste dos velhinhos. Já reparou que quem promove essas festas em asilo sempre acha que os velhinhos são necessariamente tristes e abandonados? Pensar assim não os deixa mais tristes e mais abandonados? E o pior, os promotores de festa de fim de ano em asilo não se preocupam se os velhinhos comem nos outros dias do ano.

É a humanidade está diferente mesmo. Às vezes, não a reconheço. Sei que perdi muito morando na rua, uma caminha quente, um pote de ração de manhã e de tarde, água limpa e o melhor de tudo carinho na barriga, na cabeça e o aconchego da família. Até o pai que é atarefado dedicava uns segundos brincando comigo. Por que adulto brinca com a gente, afinando a voz e fazendo cara de bobo? Mas é muito bom. Pelo menos foi. Me arrependo muito de ter cruzado aquele portão aberto, mas o pior de tudo mesmo, é que muito vira-lata humano passa por você nas ruas e ainda o chama de cachorro.

Um comentário:

Beth/Lilás disse...

Oi, Reinaldo!
Aqui é a Beth - mãe do Daniel aqui em Niterói-RJ.

O Daniel passou-me o link do seu blog para que eu lesse algumas das suas crônicas deste mês e, viciada que sou em blogs e leituras, já li quase todas.

Adorei tudo! Você escreve super-bem e aborda temas muito interessantes e atuais. Esse, por exemplo, falando sobre a falta de humanidade nos Natais de hoje em dia é a mais pura realidade e comungo contigo sobre tudo isso, pois também tenho assistido aos absurdos dessa época que não tem nada parecido com a nossa infância.

O mundo está desumano e o que vemos em plena comemoração de fim de ano é a matança de inocentes do outro lado do mundo (Gaza).

Voltarei mais vezes para dar uma espiadinha em seus bons escritos e aguardo sua visitinha lá no meu cantinho também.

O link é:
http://www.supremamaegaia.blogspot.
com

Grande abraço carioca