domingo, 21 de dezembro de 2008

Sobre médico, jornalista e advogado


O episódio dos médicos baderneiros do HU vai regar o churrasco de três amigos que, corporativismo à parte, vão continuar amigos depois da última brasa.

Eles são amigos desde o prezinho. Mesmo quando mudaram de escola mantiveram a amizade que uniu, inclusive, os pais das três famílias. Cada um seguiu o seu caminho e ainda sim permaneceu o contato. Eles são do tipo que vão ser padrinho de casamento um do outro, que vão batizar os filhos um do outro. E o que mais gostam de fazer? Churrasco para debater as últimas idéias e, se isso envolver as virtudes e os defeitos de cada profissão, melhor ainda.

Celso é médico. Alberto é jornalista. Mário é advogado. Os três estão eufóricos para se encontrar. O churrasco desta semana será na casa do médico. O cardápio será regado pela polêmica causada pelos formandos de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os baderneiros – formados com dinheiro público – que depois de encher o jaleco invadiram, em novembro, o Pronto Socorro do Hospital Universitário (HU) fazendo arruaça.

Enquanto o médico acende a fogo, o jornalista começa a provocação. __Celso, você viu a decisão da Justiça em determinar a colação de grau do grupo dos 14 baderneiros do HU? Um desrespeito à decisão da universidade. Sobriamente, o médico responde. __Justiça seja feita. É um absurdo o grupo perder o diploma. O jornalista argumenta que absurdo é a baderna promovida pelo grupo; que faltou respeito com a coisa pública e a escola onde estudam; que o grupo deveria ter reverência aos usuários do SUS usados para aprendizado; que a farra na realidade era resultado da (má) educação recebida em casa e na própria academia, que etc... etc... etc...

__Imagine, a decisão da reitoria da UEL foi desproporcional ao erro cometido!, critica o médico veementemente. __ Será que perder o curso inteiro ensinaria alguma coisa ao grupo? Essa medida não se sustenta e qualquer juiz restabeleceria o direito deles cedo ou tarde, completa o médico. __Com certeza, ainda mais com um Judiciário louco para governar, mesmo sem mandato. Vocês já repararam quantas liminares obrigam o poder público a fazer isso ou aquilo? O médico e o advogado olharam para ele com ar de “esse é assunto para outra crônica”.

Entra em cena outro doutor, o advogado. __Na realidade, Alberto, a imprensa fez um cavalo de batalha, mobilizou a opinião pública contra os formandos, faltou imparcialidade neste episódio, o grupo foi tratado como bandido. Com a língua coçando, o jornalista espera o advogado terminar e responde. __Imparcialidade? O que você queria. A imprensa em vários momentos foi impedida de fazer o seu trabalho. Os formandos juraram silêncio e ninguém deu declarações. Nem os nomes dos baderneiros foram publicados!

__Aí seria demais, né Alberto, repreende o médico. __E o direito à proteção da imagem onde fica?, pergunta o advogado que continua. __Está certíssima a advogada do grupo que não permitiu que fossem feitas imagens dos formandos na colação de grau. Isso poderia prejudicar ainda mais a imagem deles. O jornalista, inconformado, rebate dizendo que o motivo de tal prejuízo era a atitude irresponsável no dia fatídico quando encheram o jaleco e até rojão soltaram no Pronto Socorro.

O médico pensativo propõe uma reflexão. __Vejamos... Por que o médico não pode errar? A sociedade espera dele uma conduta exemplar. Se o jornalista erra, nem conselho de categoria tem para analisar o caso. Se o advogado erra, a OAB é tão corporativa que nem investiga. Então por que o médico não pode errar? Provocado em seu sentimento mais profundo de unidade profissional, o advogado não mede a resposta. __Por dois motivos simples, meu caro Celso. Primeiro pelo status que a categoria gosta de manter. É o preço que se paga pela imagem. Segundo, porque lida com a vida.

__Lá vem vocês de novo. Só falta contar a piada da diferença entre o médico e o advogado. No fundo, eu acho que tanto um quanto outro se sente como Deus, critica o jornalista que ouve em tom uníssono. __Cale a boca, jornalista!, parafrasearam entre risos o médico e o advogado sobre o título do livro de Fernando Jorge. __Direito à liberdade de expressão, né Mário! Só serve para ilustrar discurso, ironiza o jornalista resignado.

__Não sei porquê. A imprensa fez o trabalho dela, mas tem que ter cuidado. Os nomes dos formandos não podiam ser publicados, mesmo, ensina o advogado. __Também, a imprensa foi ameaçada. As famílias, os que já tinham se formado fizeram até paredão humano para proteger o grupo, defende-se o jornalista. __Ah não me venha com essa. Se a imprensa quisesse teria publicado os nomes. Vocês fazem isso todos os dias em matérias que envolvem pobre. Vocês tiveram medo de processo, isso sim, diz o médico calando as pretensões heróicas do jornalista.

Quem via de fora, jurava que os três tinham razão em tudo e ainda poderia enumerar várias conclusões. Educação se tem em casa, escola é lugar para aprender algo do conhecimento formal. A sociedade cobra uma conduta perfeita dos profissionais da saúde e não se preocupa com a formação, por exemplo, de profissionais de outras áreas. A sociedade exige liberdade de imprensa para os outros. Liberdade de expressão é um direito fundamental desde que não afete os próprios interesses. Advogado é um artigo para quem pode pagar. O SUS é um grande gerador de conhecimento, desprezado inclusive por quem aprende com ele.

E a conversa continua noite adentro. Cada fato é motivo para nova discussão. Cada um tem seus argumentos. Entre uma cervejinha e uma carninha queimada os ânimos ora esfriam ora esquentam. Às vezes os três falavam ao mesmo tempo. Muita elucubração percorre os pensamentos e as falas dos três amigos. Pelo menos até a última brasa da churrasqueira se apagar.

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