terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Atendimento preferencial

Eu sei! Antes que me acusem de discriminar os velhinhos, as grávidas, as mães com criança no colo e as pessoas com deficiência, vou logo adiantando. Sou favorável ao caixa exclusivo que fura a fila em supermercados, bancos, lojas de departamentos e em outros estabelecimentos para esse público - digamos - especial.

Mas um aspecto vale à pena debater. Quando você está no horário de almoço para pagar aquela conta que só é recebida na boca do caixa, já reparou o quanto de idoso, grávida e pessoa com deficiência passam a sua vez?

Quando você consegue fazer o serviço depois de muito tempo, vê aquele velhinho sentado no banco do calçadão fazendo nada. Tudo bem! Ele já trabalhou a vida inteira e tem direito, assim como a gestante, a mãe recente e a pessoa com deficiência têm suas necessidades especiais - temporárias ou não.

Agora dizer que 7 idosos, 3 grávidas, 4 mães com bebê no colo e 2 cadeirantes passarem na sua frente e isso ser algo prazeroso e que não incomoda, é mentira.

O pior é quando você fala sobre isso e sempre tem um idoso - sem cara de idoso - do seu lado que sai com alguma coisa parecida com isso.

__Não se preocupe meu jovem, o seu dia vai chegar e você vai poder usar o caixa do atendimento preferencial.

Será? Não se faz mais idoso como antigamente. Os de hoje demoram mais para morrer. Ainda bem. A expectativa de vida e a idade ao morrer aumentam significativamente a cada ano pelas descobertas da ciência e da melhoria da qualidade de vida.

Por causa disso, uma coisa me preocupa. Quando eu puder usar o caixa exclusivo para idoso vai ter tanto velho como eu que é possível inventarem um caixa exclusivo para jovens que poderão ser a minoria. E mais uma vez a minha fila vai ser grande. Ô azar!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Receita indigesta

Fila é uma praga nacional. Você a enfrenta no caixa do banco, no caixa eletrônico do banco, no pão francês do balcão da padaria, no caixa da padaria, no estacionamento do shopping, no restaurante do shopping, no café expresso do shopping. Em serviço público, então, a praga lembra aquelas do Egito Antigo. A-r-r-a-s-a-d-o-r-a-s. Fila para uma vaga na creche, no posto de saúde, no IPTU, no ISS, na carteira de motorista, no passaporte.

Uma fila é duplamente revoltante, a do parcelamento de débitos federais. Primeiro, porque o imposto cobrado é exorbitante. Falam em justiça fiscal, mas a medida de justiça nem sempre é justa. Segundo, a fila propriamente dita. Nem TV de plasma 42" no saguão anima os ânimos de quem está na fila por duas, três, quatro horas.

Impostos. Isso me lembra a Creide. Ela defende que a cobrança de imposto deve ser feita mesmo e seria prazeroso se o retorno em serviços públicos - em todas as áreas - fosse mais universal e mais eficiente. E nem sempre é assim. A Creide revoltada tem uma teoria.

__Classe média só se ferra. Afinal quem vai pagar a conta da corrupção da elite, aquela que sabe os caminhos para sonegar? e a bolsa-vale-alguma-coisa? É alguém tem que pagar a conta mesmo.

E por falar em pagar a conta, o Reginaldo passou por uma boa, dia desses. Espontaneamente ele procurou o tal órgão que parcela um tributo federal, que emitiu a guia para pagamento. O valor? Ele queria parcelar. O funcionário - daqueles que olha de minuto em minuto as horas para ver a hora passar - emitiu apenas uma guia e disse que, depois de vencida, o Reginaldo poderia voltar para parcelar.

Dito e feito, Reginaldo voltou e achou que a receita do parcelamento estava em dia. Não estava. Outro funcionário disse que da primeira guia, ele deveria pagar uma parte integralmente que não entraria no cálculo do parcelamento.

__Mas essa guia não me foi entregue. Então eu fui muito mal orientado. E o que eu faço? perguntou resignadamente Reginaldo.
__Tem que pagar agora as multas e não precisava.

Êita receita indigesta essa, não Reginaldo? Bem que dá vontade de sair distribuindo uns sopapos numas repartições públicas por aí. Coitado! Ele ficou sabendo das novas instruções depois de mais de duas horas na fila. Ele chegou às 9h23 e foi atendido somente às 11h44 para ser informado que precisaria preencher quatro formulários, levar vários documentos e comprovante de residência.

__E nem quebrar a cara daquele funcionário eu posso, por causa da lei que diz que agredir servidor público é crime.
__É! não é o melhor caminho
, disse o funcionário na conversa atual.

A lei a que se refere Reginaldo é o artigo 331 do Código Penal que trata do desacato a "funcionário público no exercício da função ou em razão dela". A pena é de detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos ou multa. Multa não! Reginaldo não quer pagar nenhuma. Então ele começa a negociar o parcelamento.

Reginaldo é um cara bacana, mas quando é enganado reage à altura. No fundo, bem lá no fundo, ele gostaria de jogar querosene e botar fogo. Mas é crime também. Então ele usa as palavras. Depois de fechar o começo do processo, ele desejou um bom final de ano ao funcionário mais solícito.

__Pra você um bom ano novo, mas aquele que me atendeu da primeira vez que tenha uma péssima passagem de ano.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Forest cagueitor


Muitos amigos são desprendidos da matéria e amam acampar em qualquer lugar, de preferência longe da civilização pouco civilizada. Alguns até se arriscam a me convidar para a aventura no estilo Indiana Jones. Eu aceito com algumas condições: chuveiro quente, vaso sanitário e cama. Até abro mão deste último, mas não dos dois primeiros. E é ai que entram os desentendimentos.

__Onde já se viu? Chuveiro e vaso sanitário! Isso não é acampar. Então vai para um hotel, pousada, seu fresco!

__Fresco eu?

Particularmente prefiro outro adjetivo que me parece mais apropriado: sofisticado. Se bem que esse elemento lingüístico também tem uma porção significativa de frescura.

Enfim, não tenho nada contra aventuras no meio da floresta, da selva, da mata, da quiçaça ou qualquer que seja o substantivo para conceituar aquele monte de árvores úmidas e mosquitos servidos a la carte e self service.

Gosto de trilhas, cachoeiras, tirolesa, sobe-desce morro, arborismo. E qual o problema ao final do dia, depois de uma maratona selvagem (se bem que nunca chega a tanto!), de tomar um banho quente e usar um vaso sanitário?

E os problemas das pessoas sofisticadas (frescas - como diriam nossos
highlanders) acabaram! Descobri um dispositivo que vai fazer evoluir as estruturas dos acampamentos rústicos: o forest cagueitor.

Não se trata de brincadeira. O modelo da foto (de minha autoria - a foto é claro - comprova aos incrédulos) está em exposição num fundo de vale no caminho que faço todos os dias para o trabalho. É uma maravilha. Dou o Nobel de Ciência ao inventor deste importante EPI - Equipamento de Privacidade Intestinal.

E aos meus amigos highlanders, um aviso.

__Cagar no mato nunca mais vai ser do mesmo jeito.

sábado, 28 de novembro de 2009

Hipertensão e hipertensos

“Dia tal, a tal horas, reunião do grupo de hipertensão. Trazer um prato de salgado.”

Pode parecer piada, mas é a pura verdade. O texto acima estampava – dia desses – um cartaz manuscrito na parede da associação de moradores de um bairro da região leste de Londrina.

Depois de debater exaustivamente o significado do texto com a Creide, ela chegou a uma conclusão brilhante.

__É que o grupo é de combate a hipertensos.
__Como assim Creide?
__É isso mesmo! porque se fosse de combate à hipertensão, não teria prato de salgado. Raciocina comigo. Se um hipertenso come sal pode até morrer, então esse grupo não combate a doença. Combate o doente.

É verdade, a Creide tem razão mais uma vez.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Inquietudes (5) do Rei

Por que apresentador de programas de venda – de qualquer coisa pela TV – fala alto, rápido e gesticula sem parar quando apresenta os produtos, como se isso fizesse o consumidor comprar mais?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Que SUSto!

A Creide, aquela minha vizinha, sempre acompanha as notícias na rádia da cidade e, particularmente, ela gosta dos assuntos que tratam do dia-a-dia. Muita gente liga reclamando que a saúde pública não funciona, que falta isso, que falta aquilo. As vozes na rádia não perdoam.

__É verdade, eu demorei um ano e meio pra conseguir uma consulta.
__Minha tia precisa de um exame faz uns oito meses.
__Ai como pobre sofre! Só por Deus mesmo!
__Esse sistema não presta! Tinha que acabar com o SUS.

Nas últimas semanas, a Creide não está entendendo coisa alguma. É que os ouvintes da rádia estão ligando para reclamar da paralisação dos médicos nos hospitais de Londrina. As mesmas vozes voltam a ser impiedosas.

__É um absurdo fazer greve.
__Vocês viram, eles lacraram as portas dos hospitais. Nunca vi isso em Londrina.
__E o atendimento para quem precisa do SUS?

E a Creide na sua simplicidade faz perguntas profundas.

__Se o SUS não funciona por que Londrina ficou apavorada com a suspensão do atendimento médico nos hospitais? Não entendi essa.

A Creide é uma sábia mas não sabe disso.

E o atendimento médico me lembra que eu precisava – dia desses – de uma consulta com um neurologista. Liguei para o consultório de um profissional e ele tinha vaga somente para abril do ano que vem.

Como não pude esperar, consegui consulta com outro para 15 dias depois. Cheguei na hora marcada e o atendimento estava atrasado. Esperei por quase duas horas e o atendimento na sala foi rápido, menos de 15 minutos. Mal fez um exame físico e pediu um monte de exames, que o convênio vai ter que aprovar, auditar, controlar. Vai um tempo ainda para eu saber o diagnóstico.

Mas enfim... nem reclamei. Na sala do consultório tinha TV a cabo, ligada na Globo e passava a Sessão da Tarde. Além disso, tinha a Caras com o réveillon de 2006. Acho que foi por isso que tive a sensação de ter sido bem atendido.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Inquietudes (4) do Rei

Por que a criação do feriado, em Londrina, da Consciência Negra incomoda tanta gente? Muitos – a maioria de cútis branca – se perguntam se vão criar o dia da consciência branca, amarela, vermelha. Por que eles se esquecem – ou não querem lembrar? - que os brancos e os amarelos chegaram aqui e os negros foram arrastados em correntes? Por que ser branco e amarelo é motivo de orgulho? Por que muitos dizem "ele é negro, mas tem alma de branco", como se isso não afetasse a auto-estima e a consciência individual e coletiva? Por que muitos argumentam que o conceito de raça não existe, mas teimam em fazer diferenciações raciais?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Esses médicos

Hospital do Câncer. Instituto do Rim. Clínica de Reumatologia. Hospital do Coração. Clínica de Fraturas. Hospital dos Olhos. Clínica de Alergia e Asma. E cadê a clínica do paciente? Isso mesmo. Já repararam que as clínicas de atendimento à saúde excluem o paciente do nome?

Nunca entendi isso direito, mas é assim ó. O profissional de saúde, depois de formado, abre um negócio próprio – sozinho ou se junta com outros e outras também – e coloca o nome da especialidade que atende, ou melhor, o órgão que atende. Coração. Joelho. Olhos. Rim. E assim por diante. Ou então, optam pela doença na qual se especializaram e – mais uma vez – excluem o doente. É a Clínica da Reumatologia. Da Asma. Do Câncer. Das Doenças Infecciosas. Das Doenças do Aparelho Respiratório. Das Doenças do Aparelho Circulatório.

Uma vizinha minha – a Creide, aquela que tem fama de falar demais – diz que funciona assim porque o médico – e a médica também – não se relaciona com o paciente, mas com a doença. Segundo ela, eles preferem tratar da doença em vez de tratar do doente. É meio esquisito, mas sabe que faz sentido! Isso me faz lembrar que, dia desses, eu estava com um dor na coluna por causa de um desvio da terceira vértebra lombar, bacana não!, e fui procurar o ortopedista que atende a família.

__É paciente antigo?
__Não, nunca fui atendido aí, somente minha sogra, pais, mulher, filho e enteados.
__E qual o seu problema?
__Coluna, ou melhor, dor de coluna.
__Então... para pacientes novos, o doutor só está atendendo joelhos.
__Tudo bem, eu levo os dois na consulta. Pode falar pro doutor.


Argumentei com a secretária. Que eu levava os dois joelhos na consulta. Que minha família já era paciente dele. Que ele fora muito bem recomendado. E não teve jeito. Tive que procurar outro médico que trata de coluna, ou melhor, de doenças da coluna, das dores da coluna.

__Meu nome? Ele nunca perguntou.

É! a Creide tem razão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Saudades do Cido


Sempre achei que a cigarra fosse a barulhenta, mas trata-se do macho da espécie, ou seja, o cigarro. Nesta época do ano, a mata perto de casa vira uma algazarra só. Algumas espécies de cigarra (e cigarro também) chegam a gritar em até 120 decibéis. E essa barulhada todo significa orgia no matagal.

Isso mesmo, é que o cigarro faz esse barulho intenso para atrair a fêmea, que diz a literatura da área, é silenciosa. Então, o escandaloso cigarro grita para trepar. É uma questão de instinto. Será que o cigarro acha a cigarra uma inseta com deficiência auditiva? (PS. surda é uma terminologia politicamente incorreta)

De qualquer forma, essa era a rotina do Cido, o cigarro que se esganiçava na leucena ao lado de casa. Seus hormônios - a mil por hora - anunciavam o desejo de cigarrear. O Cido deve ter encontrado a Cida, sua cigarra alma-gêmea, sua cara metade. É que faz alguns dias que não grita mais. Deve ter completado seu ciclo de vida. A leucena agora anda em silêncio e até sente saudades do Cido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O enxerido


Eles são bons. Eles são maus. E, mesmo assim, são necessários à natureza e à vida humana. Quando viram praga é sinal de desequilíbrio. Do ecossistema. E quem o faz? O homem e também a mulher. A ação humana põe em risco o meio ambiente.



Alguns ajudam a polinizar as plantas, chegando a ser bons colaboradores em áreas agrícolas. Outros são bons produtores - em trabalho não remunerado - e a produção vendida pelo homem e também pela mulher. Entre os produtos estão o mel, a cera e a seda. Essa um mimo para a indústria da moda.


Em alguns lugares do mundo, eles viram petiscos e, às vezes, o prato principal da culinária. Vai um biscoito de bico-da-seda num barzinho japonês? Que tal uma porção de percevejo moído com pimenta e (per) cerveja no México? No Brasil, as tanajuras fritas são boas iguarias.


Além da culinária, os insetos também são usados para fins medicinais. Já ouviram falar de larvas usadas para tratar feridas? É isso mesmo, as larvinhas do bem comem os tecidos mortos das cacas humanas. Credo!


Uns são feios. E de tão feios ficam até simpáticos. A simpatia chega a ser tamanha que alguns posam para a foto, como o enxerido formigão que espia por detrás da folha de orquídea. Eles têm até uma ciência própria para estudá-los: a entomologia.


É isso mesmo: os insetos até parecem inspirar discurso de presidente norte-americano. Sim, eles podem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Querida prima

Ela sempre chega nesta época do ano e nunca avisa, apesar de sua visita ter data marcada para chegar e para sair. A família toda espera ansiosa. Ela traz muita alegria. Os passarinhos e os insetos que povoam os arredores da casa ficam loucos com a sua presença. As cores anunciam a sua chegada. Cores de todos os tons e de todas as nuances. Rosas. Amarelas. Vermelhas. Laranjas. É a visita de uma prima querida. A prima Vera.













sábado, 7 de novembro de 2009

Buraco de rua

Todo dia faço o mesmo caminho para ir ao trabalho ou levar o filho à escola. Com as últimas chuvas e a falta de manutenção - histórica - do asfalto, os buracos de rua se proliferam como mosquito da dengue em água limpa, parada e sol quente.

No meu trajeto cotidiano, vi nascer um buraco no meio da rua. Começou como todo bebê: pequenino, frágil, indefeso, incapaz de praticar maldade. Vi aquele buraco de rua crescer, foi ficando cada vez maior, robusto. Já não era mais indefeso e sua índole era de praticar maldade. Sua especialidade: quebrar o carro alheio.

Mas sempre mantive uma relação de cuidado. Desviava para não passar por cima dele. Diminuía a velocidade. E percebi o quanto as pessoas são intolerantes. Quando muitos não o viam, xingavam, praguejavam. As pessoas realmente não entendem a natureza de um buraco de rua.

No meio do caminho havia um buraco. Havia um buraco no meio do caminho. Havia porque aquele buraco de rua morreu. Taparam a sua boca. Sua existência findou-se. Hoje passo pelo mesmo caminho e há uma mancha denunciando que um dia ali existiu um buraco de rua. Talvez ele volte um dia com a ajuda da chuva intensa.

Eu não sabia, mas os buracos de rua apresentam ramificações, do tipo metástase, para manter a própria espécie. Depois que aquele buraco de rua se foi, deixou sementes e outros vieram ao longo do meu trajeto cotidiano. Agora vejo nascer outros buracos de rua. Começam como todos os bebês: pequeninos, frágeis, indefesos, incapazes de praticar maldade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Julgamento e rótulo

__Um buraco no estômago denuncia minha existência vazia.

É muito pessimista, sorumbático, soturno, macambúzio.

__Temos que aproveitar a vida, esse dom divino.

Coitada! vê borboletas por todos os lados, enxerga a vida corderrosa.

__Eu não vou conseguir. É muito difícil.

Ele sempre desanima, não tem coragem para lutar. É um fracassado.

__Tenha fé que você consegue tudo. Ele proverá.

Falar para os outros é fácil. Ela é uma papahóstia, uma rata de sacristia.

__Os homens que já tive são muito bons, mas sou melhor que eles.

O que falar dela? É uma depravada.

__Mulher ideal? Não existe. Amo todas.

Ele é um galinha, semvergonha.

__Estou desempregado há mais de três anos.

Não trabalha porque não quer, é um vagabundo.

__Comprei meu carro à vista.

Um fominha. Não paga seus empregados direitos e até a pensão atrasa.

Doem as dores de cada um.
Cada um sabe das dores doloridas.
Umas doem mais
Outras doem menos

Das outras dores
Pelo nosso olhar
Julgar, rotular
Machucar e não curar

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Necessidade desnecessária


Que muitas empresas fazem de tudo pra vender produtos não é novidade para ninguém. Que muitos consumidores fazem de tudo pra comprar produtos também não é novidade para ninguém. Algumas campanhas publicitárias, no entanto, abusam da inteligência e da paciência do consumidor e da consumidora. Aliás, publicidade tem o efeito de criar necessidade desnecessária.

Num rápido teste, conte - mentalmente - quantos sapatos você tem. Agora conte quantos você não usa há pelo menos cinco meses. Aquele anúncio de sapato - com descontos especiais, em 6 X e a primeira somente para janeiro - faz você sentir um comichão para comprá-lo? Se você pensou sim, então a publicidade criou uma necessidade desnecessária.

Voltando às campanhas abusivas, uma marca de esmalte lançou, recentemente uma coleção baseada nos pecados capitais. Entre os vermelhos da paleta de cores, há o doce orgulho, a preguicinha, a possessão rosa, a pura luxúria, a santa gula, o toque de ira e a inveja boa.

Dos pecados capitais alguns são mais pecaminosos. É bonito e confere status dizer que tive orgulho do meu feito. Não mexa comigo que viro bicho, me sobe a ira. Ai! não me contive, cedi à gula e comi demais. Sou fera na cama, a luxúria me coça inteiro, que tesão... (ui!). Depois do almoço, aaaaaaaaai! que preguicinha.

Já repararam que ninguém gosta dizer que tem inveja? É feio. E quando o sujeito ou a sujeita admite que tem inveja cria um eufemismo para suavizar a culpa diante do Criador. Diz que tem uma invejinha boa.

__Como assim? Desde quando inveja é boa?
__Não é inveja. É aquela vontade de ter ou ser igual ao outro. Aí a gente luta pra conseguir também.
__Ah! tá, então não é inveja. Não é competição? Já ouvi falar que a competição está a serviço da inveja. Então...
__Credo! Eu só falei da inveja boa.
__Boa! Sei. Consulte o dicionário.


Michaellis afirma que in.ve.ja é um substantivo feminino que designa 1. desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem; 2. desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta; 3. o objeto que provoca esse desejo.

Se existe inveja boa, então existe ira calma, orgulho humilde, gula temperante, preguiça resolutiva, avareza desapegada e luxúria casta. Olhe isso! luxúria casta. A putaria não vai mais ser a mesma.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Palavras indecentes

O politicamente correto tomou conta das expressões e dos vocábulos. A língua já não é mais a mesma. Mas tem gente que teima em desobedecer as regras...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é cego...

__ Senhor Narrador! Cego? Carlinhos tem 7 anos, é uma pessoa com deficiência visual. Corrigiu-me a professora do Carlinhos. Então, tá...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que na vila dele, um menor infrator foi preso pela Polícia porque era drogado...

__ Ops! Senhor Narrador! Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma criança com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa.

__Obrigado professora!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma criança com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente analfabeto. Ele tinha retardo mental, e...

__ Senhor Narrador, que coisa feia! Atente-se para os bons modos vocabulares! Havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais, e...

__Professora, obrigado!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que o bicho pega. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, uma flor de garoto, com trejeitos boiola,

__Mais uma vez, senhor Narrador! Apure o verbo! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação... e Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual.

__Obrrrrigado, professora...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da vagabunda da vila; o Paulão, o filho do mecânico picareta e corno, ...

__Que absurdo, senhor Narrador! Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio.

__Arg! Professora...!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma velha simpática. Ela odeia ficar em casa encostada e, muito menos, fazer sapatinho de tricô para os netos mal educados e mimados. Tanto que ela se juntou a outras duas donas para cuidar da excursão. Dona Gervásia, pra lá dos 60 e separada do marido; e Gertrudes, que amigou com o seo Raimundo.

__ Pare, senhor Narrador! Suas palavras soam difamação, cheiram a calúnia. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma senhora simpática. Ela não gosta de ficar em sua residência vivendo de forma passiva e na sua melhor idade não gosta de fazer sapatinho de tricô para os netos de comportamento difícil e temperamento controverso. Tanto que ela se juntou a outras duas senhoras para cuidar da excursão. Dona Gervásia, com mais de 60 anos e divorciada; e Gertrudes, que vive maritalmente com o seo Raimundo. Viu?! Senhor Narrador!

__Put... Sim, professora...!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que o bicho pega. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma senhora simpática. Ela não gosta de ficar em sua residência vivendo de forma passiva e na sua melhor idade não gosta de fazer sapatinho de tricô para os netos de comportamento difícil e temperamento controverso. Tanto que ela se juntou a outras duas senhoras para cuidar da excursão. Dona Gervásia, com mais de 60 anos e divorciada; e Gertrudes, que vive maritalmente com o seo Raimundo. Durante a viagem aconteceu uma desgraceira. O filho da puta do motorista dormiu no volante da merda do ônibus, caiu numa ribanceira horrorosa e poucos sobreviveram. Apenas o cego, o drogado, o viadinho e as três velhas...

__ Chega! Senhor Narrador. Isso é demais! Durante a viagem aconteceu algo terrível. O coitado do motorista dormiu ao volante do veículo, caiu num precipício de difícil acesso e poucos sobreviveram. Apenas...

Sei, sei , professora... a pessoa com deficiência visual, o usuário de substâncias psicoativas, o garoto com tendências à orientação homossexual e as três senhoras da melhor idade. Ai! Ai! Estou tendo troço. Uma dor na cabeça terrível. Deve ser um derrame...

__Senhor Narrador! Nem nessas horas! Esse xilique é um AVC - acidente vascular cerebral!

* * *
Crônica publicada originalmente no WebJornal ComTexto/Unopar em 30 de maio de 2007.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Inquietudes (3) do Rei

O brasileiro sempre transfere a responsabilidade, até quando constrói, reforma ou amplia. Por que o dono da bagunça sempre teima em pedir para desculpar o transtorno?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Avental glúteo

A indústria da moda sempre foi muito forte. Estilistas. Costureiras. Editoriais de moda. Fábricas. Lojas. E, é claro, muitos consumidores. Neste caso é mais pertinente afirmar muitas consumidoras. A moda feminina atravessa o tempo inventando e reinventando-se. 

O que a personagem da novela das oito (das sete, das seis, da concorrência) usa na telinha, em pouco tempo está nas ruas. Da moda casual à fashion, as mulheres reproduzem helenas, sílvias, yvones e bebels. Afinal prostituta global tem "catiguria". Viva as pitangas!

Do guarda-roupa profissional, passando pelo armário de festas, um segmento que cresceu - e tem muito para crescer - é a moda das academias, que abusam de tops, malhas e muitos acessórios. Graças ao design, justíssimos.

Neste cenário tem barriguinha de fora, com ou sem piercing no umbigo, e calça (deve ter outro nome e eu não sei) de malha apertada para tornear o bumbum e as coxas. Coisa que toda brasileira (que tem bunda saliente, é claro!) gosta de exibir.

Como a calça separa as duas bandas por causa da malha apertada e da pequena peça íntima da qual é possível ver a marca do elástico cravada no meio, as mais envergonhadas em exibir toda a saliência aproveitam um acessório da moda: o avental glúteo, uma espécie de capa.

Avental, segundo o Michaelis, é "resguardo de pano, couro ou plástico que se usa diante da roupa para protegê-la." Glúteo, segundo o mesmo, "se refere às nádegas". Portanto, avental glúteo é um acessório - nada fashion - para proteção traseira.

As que têm vergonha em exibir esse "look" (ui! - ô palavrinha besta!), optam pela camiseta da semana nacional do trânsito - aquelas que esgarçam depois da primeira lavada - e um agasalho que faz inveja a qualquer pijama. Fazer o que?

Mas se a malha - aquela das exibicionistas (ainda bem que elas existem) - é apertada propositalmente por que inventar um acessório para esconder o que, inicialmente, era para mostrar, exibir, revelar, expor? Há muito mais mistérios entre a indústria e as ruas do que sonha a nossa vã filosofia.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Frescuras de mercado

Brasileiro sempre teve mania de importar palavras para substituir o bom e velho português. No mercado, então, isso é febre. Parece que falar em português ofende todos os ouvidos – dos limpos, passando pelos com zumbidos, aos cheios de cera.

Que o professor de educação física tenha virado personal trainner tudo bem. A gente até já se acostumou, mas esse mercado cria cada coisa...
Lembram a antiga boleira? Aquela de mão cheia que morava perto da casa de uma tia quando a gente era pequeno? Aquela boleira que fazia o bolo de aniversário da molecada da rua inteira? Então, essa boleira virou cake designer. E o pior. Aquela a-mi-ga dela que não a vê há muito pergunta.

__E aí o que você faz?
__Sou cake designer.
__Queique o que?

Deixa pra lá. Mas nada está tão ruim que não pode piorar. Aquele salão de cabeleireiro é elegante mesmo. O dono não assina mais em português. Inglesou-se. Hoje ele não é mais um cabeleireiro; é hair stylist. Só de pirraça, o salão concorrente da esquina também mudou de nome. Afrancesou-se. O dono agora é um coiffeur.

Brinca com os dois. E você que achava que no salão era só lavar, secar, cortar e pintar de acaju!

Acaju é a cor do cabelo daquela personal stylist. Ela que já é especializada em look masculino agora está fazendo um MBA em look feminino. Tem coisa mais fashion que essa?

Só não é fashion, quando a personal baby daquela personal stylist vai desleixada para o trabalho. A avó da babysinha fica disacorsoada. E disacorsoada mesmo a velhinha ficou quando quis comprar uma pantufa e olha que ela nem sabe que essa palavra é de origem Inca e significa pegada grande. Já pensou a velhinha ir comprar um pezão? É não ia pegar bem.

E ela foi comprar no maior shopping center. Queria estacionar, mas errou a mão durante uma manobra no Parking e quase atropelou uma personal shopper que fazia um break. Já pensou essa coitada perder as comissões da sale do dia que tinha preços até 60% off?

Bem, a vovozinha conseguiu comprar sua pantufa e terminou o dia na praça de fast food, mas como ela é up to date, montou seu próprio prato no self service. Comeu filet e, de sobremesa, mousse de maracujá.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Plano participativo

Não se trata de convênio de saúde que cobra uma fortuna e fornece poucos e limitados procedimentos – sejam ambulatoriais ou hospitalares – para seus segurados (e as seguradas também!).

Não se trata de programa governamental para discutir políticas públicas em que o gestor faz de conta que descentraliza e o cidadão (e a cidadã também!) faz de conta que ajuda a governar.

Não se trata de plano de ensino de professor (e de professora também!) antenado para que o conhecimento seja construído em sala de aula conjuntamente com seus alunos (e as alunas também!).

Não se trata de artifício publicitário de publicações jornalísticas para que o leitor (e a leitora também!) tenha a sensação de participar da seleção de conteúdo do que será publicado.

Não se trata de estratégia de mercado de empresas que alegam que o se o cliente (e a clienta também!) puder opinar acabará achando soluções corporativas, e o melhor, de graça.

Não se trata de instrumento de entidades comunitárias para incentivar a participação de homens (e mulheres também!) na vida da própria comunidade.

Não se trata de pais (e mães também!) moderninhos que implantaram o modelo wiki de educação e adoram dizer que os filhos (e as filhas também!) foram criados no mais puro diálogo.

Plano Participativo. Então do que se trata?

Trata-se de um mecanismo de participação divina. Antes de o Todo Poderoso decidir o plano para a sua vida, você poderá debater, argumentar, arguir, vetar, planejar a dois, enfim... participar. Mas no fim – ou seria começo? – você não poderá reclamar.

sábado, 5 de setembro de 2009

Inquietudes (2) do Rei

Combater a corrupção é um trabalho mais árduo (e permanente) do que combater apenas os corruptos de plantão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Essa Língua Portuguesa

Criança tem um senso lógico muito interessante e relacionado à Língua Portuguesa as palavras assumem contornos, revelando novos sons, formas e – por que não? – sentidos. Num parquinho com meu filho, dias desses, acabei ouvindo o papo de duas crianças pequenas. Um agrediu o outro verbalmente e este tascou um adjetivo.

__Seu psicopato!

A Yvone deve ter se deleitado na novela das oito. Está fazendo escola até no jardim de infância. Se bem que não precisa muito, criança também sabe ser perversa, afinal bulling é uma prática criminosa infantil. Mas enfim...

Como explicar que um menino não é psicopato, mas um psicopata? Afinal na nossa língua – com implicações sociais e definições de gênero – menino é O e menina é A? Que nem aquela coisa das cores, menino é azul e menina e rosa. Então nada mais lógico que a menina é psicopata e o menino é psicopato.

Alguns autores – ignorando as regras gramaticais mais ortodoxas – andam flexionando as palavras para concordar com o gênero. Por exemplo, há quem defenda a cobra macha e o elefante fêmeo. E o pior de tudo, ao digitar isso no Word, o programa não apontou erro algum. Vai entender...

Talvez seja mesmo a inocência infantil e o senso das crianças falando mais alto. No processo de educação, os métodos mais modernos ensinam que se deve respeitar o jeito da criança falar. Ela não fala errado, fala do jeito dela. Mas chega uma hora que vai querer aprender a falar corretamente.

Isso me lembra uma amiga que conversava com o filho pequeno e este perguntava algo e a mãe insistia que o jeito do filho falar era correto porque era o jeito dele. O moleque não agüentou e advertiu a mãe.

__Não quero do meu jeito, quero do jeito certo!

Então tá.

Deve ser por isso que quando o Otávio era ainda mais criança mudava umas palavras que, aparentemente, não faziam sentido. A centopéia virou miltopéia, afinal parece ter mais de mil perninhas; e o caramujo virou caranojo. Realmente, o bichinho é nojento!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Teste da autoridade


Amiga de longa data desabafa que o filho de 4 anos testa a sua autoridade o tempo todo. E o pior, ela afirma que sempre cai nas armadilhas do anjinho e se pega em cenas de disputa mirim. Nada mais infantil que pai e mãe fazendo jogo do filho. Divertidamente, ela pergunta se quando ficam mais velhos eles param de nos testar. Doce ilusão...

Eles pioram - ou melhoram? - as estratégias de teste de autoridade materna ou paterna. As artimanhas ficam cada vez mais sofisticadas. Eles criam álibis adolescentes, têm até laudo juvenil. Tudo para provar a inocência.


Nem adianta tecnologia. Essa história de dar celular para filho ir para a balada é roubada. Primeiro, eles demoram para atender - quando atendem. Podem dizer que estão num lugar e estão em outro. É melhor acreditar o que falam se não enlouquecemos. Afinal já fomos jovens.

E o comportamento da galera - com esse substantivo me sinto na idade da pedra (polida é claro!) - é normal. Filho pequeno, pré, adolescente, adolescente tardio, adolescente idoso, sempre vai nos testar. É da natureza deles. Querem vencer pelo cansaço. E eles adoram nos pegar em contradições. E com aquela vontade típica da idade - muito sem coerência - cobram coerência dos pais.

É bom nossos filhos saberem que pai e mãe não erram, cometem enganos involuntários. (risos - amarelos é claro!)
Mesmo com os embates familiares, educar é uma tarefa prazerosa. Com uma ressalva: desde que os pais queiram. Filho dá muito, mas muito mesmo, trabalho. Inclusive quando foram planejados e quando são muito amados. Assim, fica menos doloroso trocar o meu meu pelo meu deles.

Imagine então, educar e vê-los crescer quando não foram desejados. E muitos estão nesta situação. Não acabaram de crescer e se responsabilizam pelo crescer dos seus. Deve ser muito difícil ser pai e mãe, querendo ainda ser apenas filho.

Educar realmente não é fácil, mas é gratificante. Cada dia tem uma descoberta. Simplórias - daquelas que somente o pai e a mãe acham liiiiiiiiiindo - ainda assim são dignas de Oscar, de Nobel. Afinal nossos filhos são a nossa extensão, são o espelho daquilo que nele refletimos.

domingo, 23 de agosto de 2009

Inquietudes do Rei

Quando o jornalista se torna maior que a notícia, a informação vira entretenimento e o profissional, celebridade.

Ôh coisa de póóóóóóóóbre

Ouço aquele dublê de repórter social daquele programa que causa pânico perguntar para uma celebridade.

__Mas você não tem nome duplo - co-lé-ga? Ôh coisa de póóóóóóóóbre colocar nome duplo nos filhos.

__Não! É só Juliana.

__Juliana? Não tem uma Cristina no meio? Uma Aparecida? Uma Regina?

__Não é só Juliana e o sobrenome.

__Tá bom co-lé-ga!

Me dou conta que tenho nome duplo. Reinaldo César.

Mas me consolo. É coisa de uma época. Minhas irmãs também começam com R e as duas têm nome duplo. Roseli Aparecida e Rosana Cristina.

E os primos? Também. Muitos têm dois nomes. Vânia Cristina. Paulo Ademir. Edilson Gleiton. Márcia Patrícia. Evandro Marcelo. Carlos Adriano.

Até gosto, mas não quero ser entrevistado pelo dublê de repórter que a cada três palavras fala um co-lé-ga. Já pensou ouvir isso?

__Reinaldo César? Você não tem nome duplo - co-lé-ga. Ôh coisa de póóóóóóóóbre.

Tudo bem. Posso até com o nome duplo escrever uma história de amor em estilo mexicano.

Reinaldo César seria o mocinho - claro - que disputa o amor da mocinha Francielly Camylla. O vilão Diego Douglas apronta tudo para separar o casal.

Diego Douglas não vai conseguir acabar com a felicidade do casal e vai terminar a trama com a vilã Sônia Soraya - jurando vingança.

Ôh coisa de póóóóóóóóbre.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Faça o que eu digo

O motorista segue na avenida na sua mão e é fechado por um motoqueiro. Em tempo, coloca a cabeça pra fora e dispara.

__Respeite as regras, filho da puta.

O motoqueiro nem toma ciência da situação e segue costurando, ora pela esquerda ora pela direita ora no corredor.

Mais a frente, o motorista - aquele do motoqueiro - faz uma conversão à direita. Sinal fechado. Pedestre sobre a faixa.

__Respeite as regras, filho da puta, dispara o pedestre por pouco atropelado.

sábado, 15 de agosto de 2009

O novo e o velho idoso

Na fila da lotérica, um senhor fica incomodado com outro senhor que furou a fila.

__Aquela homem já estava aqui?

__Não, respondo.

__Então por que ele passou na frente?

__Deve ser por causa da lei dos 60 anos.


__Mas eu tenho 85 e não uso essa lei!

O idoso novo vai a um balcão e pega um cartão da mega sena e volta para o começo da fila, eu já estou sendo atendido. O idoso velho fica revoltado.

__Por que o senhor furou a fila?

__Eu tenho 65 anos.

__Eu sou mais velho que o senhor 20 anos e não estou me aproveitando disso, afirmou o idoso velho rispidamente.

__Tudo bem. Essa é uma opção do senhor. Assim como é minha opção usar um direito meu.

__Mas eu não aprovo isso!

__O fato do senhor não aprovar não tira um direito que eu posso e quero usar. Aliás, agora é a minha vez. Bom dia.

domingo, 9 de agosto de 2009

Nunca é tarde


Ele foi criado de forma muito rígida. Nunca ouviu do pai um eu te amo. O pai dele também foi criado de forma muito rígida. Assim, como o pai do pai dele...

No sofá, em frente à TV ele ouve o noticiário. Fica emocionado com a história do repórter. Um pai que tinha nada. Trabalhava duro. Ralava muito. Mas todo dia, antes de dormir falava para o filho.


__ Eu te amo. E nunca esqueça isso.

Ele se deu conta que nunca havia falado para o filho o quanto o amava. Procurou o menino, que já estava dormindo. Deixou para o dia seguinte.


De manhã, teve de sair cedo. Não viu o filho acordado. Foi para o trabalho. Em cada instante imaginava como seria dizer, pela primeira vez, eu te amo, meu filho.

Na hora do almoço, a marmita teve um sabor diferente. De ansiedade. Ela contava os minutos para voltar pra casa. O dia não passava.

Mas passou. Hora de ir embora. Despede-se dos companheiros de trabalho. Junta as coisas e corre para o ponto. O ônibus não costuma atrasar. A espera é angustiante. E um barulho corta a angústia. Um carro desgovernado invade a calçada. Atinge o ponto e muitos que esperavam.

Agitação. Ele foi atingido. Comoção. Preso sob o carro. Ambulância. Um motorista bêbado. Bombeiros. Ele tem um último pedido. Um socorrista segura sua mão.

__Fale para o meu filho que amo muito ele. E que ele nunca esqueça isso.

domingo, 2 de agosto de 2009

Rejeição


De formas múltiplas. De múltiplas origens.

Rejeição?
Dói.
Machuca.
Marca.
Avilta.
Infiltra.
Desconsola.
Assola.
Viola.

Rejeição é defesa.
Dos incapazes de compreender.
Dos que não integram. Desintegram.
Dos que afastam.
Dos que não convivem. Vivem.

Rejeição tem.
Formas múltiplas.
Múltiplas origens.

Rejeição.
Reclusão.
Exclusão.
Solidão
Escuridão.

Rejeição?
Perdão.

domingo, 28 de junho de 2009

Palavras não explicam


Saio. Sem rumo. Minha cabeça roda. Pensamentos que cortam a racionalidade.

Aliás, pensamentos que misturam outros pensamentos. No fim, sem pensamentos.


Pelas ruas, o vazio. Talvez uma extensão dos meus sentimentos. E sinto nada. Sinto vazio.

Poucos rostos. Sem expressão. Uma ruga. Duas. Ou mais. O tempo marca. As marcas que ficam. Piores, as que não vemos.


Ando mais. Mais. Mais. Fim? Começo? Penso. Enraiveço. Choro. Alivio. Acalmo. Volto.


Entro. Minha cabeça não roda. Pensamentos? Nenhum. Durmo. Amanhã é outro dia.

domingo, 21 de junho de 2009

A fé de dona Catarina

Ela é uma mulher religiosa e tem muita fé em Deus. Neste mês, dona Catarina homenageia os santos de junho: Antônio, João e Pedro.

Dona Catarina é casada há quase 35 anos, aliás, Bodas de Coral que vai comemorar daqui um mês. Ela tem cinco filhos – três homens e duas mulheres. No total, são 11 netos e duas netas. A família, ela não se cansa de dizer, é unida e todos se respeitam. O marido é o orgulho da esposa. __Éder é um homem trabalhador, fiel, carinhoso, não deixa faltar nada. É tudo o que uma mulher precisa. Bom marido. Bom pai. Bom avô.

Fé em Deus. Isso dona Catarina tem de sobra. Ela é uma mulher muito religiosa. Na igreja, a dona de casa ajuda a preparar a missa. Ela confere, semanalmente, todos os paramentos que o padre Jairson usa no ritual. Aliás, é ela quem borda todos os tecidos usados nos mantos, toalhas e outros artigos da paróquia.

A devoção a impulsiona também a fazer outros trabalhos voluntários, como no Apostolado da Oração e no Grupo de Casais. __Esse mundo está perdido mesmo. Falta confiança entre muitos casais. E é isso que leva muitas doenças e discórdia para dentro de casa. Dona Catarina não se cansa de dizer que a família é a base de tudo.

No último sermão, dona Catarina acompanhou as palavras do padre Jairson com muita atenção. Ele pegou a notícia da moda – a Gripe A – e atestou que a peste é um tema para a reflexão dos cristãos. __Muitos que morrem de doenças assim é que estão expiando os seus pecados. Para muitos que têm um comportamento devasso, a doença é uma providência divina. O padre ainda cita como castigos dos céus doenças como a aids e o câncer. __A pessoa definha para expiar os seus pecados.


O grupo de jovens da igreja tenta levar o assunto para debate, mas não encontra muito apelo entre os fiéis. Profissionais de saúde, convidados do grupo, falam sobre as doenças, os sintomas, as formas de transmissão, os tratamentos, sempre de forma natural, mas as doenças estão estigmatizadas e ligadas a significados profundos. Dona Catarina, por exemplo, não consegue pronunciar a palavra câncer. Ela se refere como aquela doença.

__Deus me livre! Mas o pior mesmo é a aids. A gente tem que ser fiel.

A devoção de dona Catarina vai homenagear os santos de junho. Mesmo não muito bem de saúde, ela organiza três terços, com fogueira e tudo. Um é para o Santo Antônio, no dia 13. O outro é para o São João, no dia 24. E o mês termina com mais uma reza, para o São Pedro, no dia 29 de junho. O tema dos terços, dona Catarina já definiu. A cura. __A humanidade precisa de cura. Mesmo para os pecadores há perdão porque Deus é misericordioso.

O terço de Santo Antonio já foi realizado e agora está em organização o terço de São João. Dona Catarina, que não se sente bem, faz questão de ver e rever todos os detalhes: o altar, as flores, os hinos, a comida, a bebida, a fogueira e os fogos de artifício para animar a reza. __ Meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu, principalmente, as que mais precisarem.


No dia do terço de São João, dona Catarina desmaia e é levada às pressas ao hospital. Ela está muito abatida. A gripe evoluiu rapidamente. O terço será comandado pela comadre, a dona Clarice. Dona Catarina fica internada alguns dias para curar uma pneumonia, doença diagnosticada no dia que desmaiou. Os médicos aproveitaram e fizeram uma série de exames. Dona Catarina é liberada, mas não vai conseguir planejar o terço de São Pedro. Ela está em repouso.

Depois de os exames estarem prontos, o médico chama o filho mais velho de dona Catarina para anunciar o diagnóstico. Ele parece menos animado que de costume.

__Olha! É difícil falar isso... O sistema imunológico dela está muito debilitado. O médico vai falando e é interrompido pelo filho de dona Catarina.

__Fale logo doutor. O que minha mãe tem?

__Então, fizemos o exame e depois confirmamos num segundo teste. Um suspiro profundo separa o resto do diagnóstico. __E deu positivo para o vírus HIV. Ela já começou a manifestar alguns sintomas da doença. A dona Catarina vai precisar de muito apoio.

domingo, 14 de junho de 2009

Como é boa essa família


Viver em família é assim mesmo, a gente vai negociando, cedendo aqui para ganhar ali. E a vida segue seu ritmo.

A rotina da minha casa sempre foi muito interessante. A minha mãe nunca deixou de nos dar carinho, mas também sabe muito bem repreender quando é necessário. Ela é rígida e, ao mesmo tempo, amorosa. Todos nós, os filhos, a amamos muito. Não imaginamos viver sem ela.

Me lembro de um episódio quando era pequeno. Eu não queria ir para a escola, porque tinha uns moleques maiores – sempre eles – que me agrediam. Falavam coisas muito chatas. Ser vítima de preconceito é uma coisa realmente triste. Quem já sentiu a discriminação cortar, sabe do que estou falando.

Pois bem, a minha mãe mandou um recado para a professora no caderno de anotações, mas a professora fez nada. Ela até parecia se divertir com a situação. A escola, não deveria, mas é um lugar fértil para discriminação. Quanta! gente – pequena e grande – preconceituosa. Não é nesse espaço que a criança deve aprender a ser cidadão? Como aprender isso, com professores que têm preconceito de todo tipo?

É por isso, que nunca esqueço uma frase que li numa pichação no muro da própria escola. __Nunca deixei que o período que passei na escola influenciasse na minha educação. Mas voltando ao caso dos moleques... contei tudo para a minha mãe. Ela foi na escola, deu de dedo na professora e esperou os moleques no portão. O aviso teve poucas palavras que surtiram muitos efeitos. Aquele grupinho nunca mais me encheu.

Viver em família é um aprendizado diário. Você cede um pouquinho, os outros cedem mais um pouquinho e a convivência vai se tornando possível. Já pensou se ninguém cedesse? Foi assim, quando tivemos – eu e o Lucas – que dividir o quarto com a chegada do Marquinho. Eu disse que não tinha problema ficar com o beliche, desde que fosse a parte de cima. Então deu tudo certo.

E dá certo mesmo na hora do almoço. Cada filho tem uma função. Um ajuda a preparar os alimentos. O outro põe a mesa ou lava a louça. Mais um varre o chão. E assim vai. No dia seguinte, todo mundo troca de tarefa. É para não cansar e todos sabem que a responsabilidade tem que ser dividida.

E responsabilidade lá em casa tem muita. No quintal, cada filho cuida de um pedaço. Eu por exemplo, tenho a missão – diga-se prazerosa – de cuidar do jardim da frente de casa. Eu já plantei muitas flores, mas tenho a minha preferida. Um jasmim branco. Ele reflete a luz nessas manhãs frias, com um sol tímido, mas que teima em atravessar as folhas e galhos. É muito bonito.

E bonito mesmo, foi a minha festa de aniversário. A minha mãe caprichou no bolo, um de cenoura com aquela cobertura durinha de chocolate. Até chapeuzinho e língua de sogra, eu tive. Todos na casa se lambuzaram com os brigadeiros que o tio Arnaldo trouxe. Ganhei de presente uma calculadora científica. Sei que é uma bem baratinha, mas tem um significado especial. Eu usarei muito essa calculadora. Ainda vou para a faculdade de engenharia.

E assim eu tenho mais um ano com a minha mãe e meus irmãos. Fiz 17 e, quando completar 18, devo deixar o abrigo. É uma regra do lugar. Triste, mas é a realidade. Vou aproveitar muito esse período com a minha mãe social. Estão arrumando um lugar para eu morar. Depois que fiz o curso profissionalizante, consegui estágio e tem promessa de ser efetivado. Sei que minha vaga no abrigo será preenchida por alguém que precisa, assim como eu precisei. Por isso, desejo a quem ocupá-la a maior sorte do mundo. A minha já está encaminhada. Ainda bem!

domingo, 7 de junho de 2009

O tamanho do problema


Quando você acha que está no fundo do poço, percebe que outros estão alguns degraus abaixo de você.

Naquela noite chovia muito. Mesmo assim, saí de casa – sem rumo – para esfriar a cabeça. Meus pensamentos voavam de um canto para outro. As idéias ferviam, alimentadas por um sentimento, ou melhor, vários, que iam da frustração à raiva.

Não entendo como podem transformar o ambiente de trabalho num inferno. A hierarquia é necessária até para estabelecer tarefas, prever metas e cobrar resultados. O mais espantoso é que quem cobra dos outros um relacionamento humanizado se torna ainda mais desumano.

Aquela noite veio depois de um dia extremamente ruim. No início da manhã tive uma discussão com a chefia, que trovoava ordens pelo escritório. As novas ordens substituíam as anteriores e, o pior, eram contraditórias. Ao ser confrontada com as medidas anteriores, a chefia ignorava e continuava gritando. Escutei pacientemente, mesmo com a vontade de torcer aquele pescoço fino da chefia.

Como solteiro convicto, e com parceira fixa de mesa e banho – a cama é só minha, fui almoçar na casa da minha mãe. A comida dela é irrecusável. E não tinha comida. Minha mãe estava inconsolável por duas notícias chocantes. Meu pai estava com suspeita de parkinson e minha irmã havia perdido o bebê de oito semanas. A gravidez era de risco. Uma tristeza só. Consolei-a e saí para comer alguma coisa na rua.

No restaurante que, vez ou outra, me socorre, sentei numa ala quase solitário. Não queria ver ninguém, não queria conversar com ninguém. Meus pensamentos já falavam muito. E alto. Saí da mesa e fui me sentar em outra, próxima da janela. O restaurante passava por reformas e, de repente, uma parte do forro caiu em cima da mesa que eu estava. Meus pensamentos congelaram. O movimento naquela ala do restaurante aumentou depois do episódio.

Ao chegar em casa, resgato minhas mensagens de voz. É a Alice. O recado curto e grosso. __Então, liguei para terminar a relação. O Adão me pediu em casamento. Eu aceitei. Adão é – era – o meu melhor amigo. Descubro pela secretária eletrônica que eles tinham um caso. É demais. __Tomara que ele tenha ejaculação precoce.

Assim, foi o meu dia. É demais para uma pessoa só. E caminhando embaixo da chuva sem destino, ouço um assobio. Um morador de rua, embaixo da marquise numa lanchonete, me chama. Fico com medo, aquele de classe média e penso em recusar. __Mas o que de pior pode acontecer hoje? Enfrento meus temores e aceito o chamado.

Pergunto para o homem se ele quer alguma coisa, dinheiro, comida. E ele responde que não. __Quero apenas conversar. Levo um susto grande. Como pode um morador de rua, sem comida, sem bebida, sujo, querer apenas conversar? Sem reação, ouço pacientemente.

Geraldo é o nome dele. E conta sua história. Acabou desgraçado pela bebida. E motivos não lhe faltavam. Os pais dele morreram num acidente quando ele era pequeno. Foi criado por uma tia e seu irmão foi morar com um tio distante 1.200 km. Acabou perdendo o contato. Conseguiu terminar o ensino médio e a faculdade foi adiada porque precisava trabalhar.

Já estabelecido, foi vítima da cobiça do sócio da loja de material elétrico, que roubou tudo. Ele ficou com a conta dos credores. Perdeu a única casa que tinha. A mulher o abandonou, levou os filhos e conseguiu na justiça uma liminar que o determinava ver as crianças uma única vez por semana. E a última. Foi diagnosticado com câncer de fígado.

Ele justificou que só queria contar essa história porque fazia uns 15 dias que não conseguia conversar. Ninguém parava para ouvi-lo. A notícia boa daquele homem é que ele seria internado no dia seguinte, tinha conseguido tratamento num programa assistencial. __Estou me sentindo melhor. Obrigado por me ouvir, disse-me Geraldo.

__E eu que achava que tinha problemas!

domingo, 31 de maio de 2009

São lembranças


Elas são o que são / nada mais / nada menos

Lembranças são o que são.
Ruins.
Boas.
Amargas.
Doces.
E são nossas.

Nos transformam no que somos.
Nos transformam no que seremos.
E o que queremos?

Depende apenas de nós.

Culpar os outros?
É transferir responsabilidade.
Culpar a si próprio?
É penitência!
É auto-flagelo!

Prender ou soltá-las?
Elas são o fim.
E o começo.
O começo do fim.
O fim do começo.

Lembranças são o que são.
Somente lembranças.

domingo, 24 de maio de 2009

A rotina do Almeida


Dizem que ele sofre de transtorno obsessivo compulsivo, mas não admite, nem quem procurar um médico. Todo dia antes de sair de casa, ele faz uma verdadeira via sacra.

Almeida é um cara metódico. Dizem que sofre de transtorno obsessivo compulsivo, o tal do TOC. Deve ser verdade. Ele tem cada mania que deixaria qualquer psiquiatra doido de pedra. É urgente que ele procure ajuda médica, mas não admite que tem problemas e vai levando a vida do jeito que as manias mandam. Dizem que de médico e de louco, todos têm um pouco. Mas o Almeida tem as duas partes é de louco mesmo.

Todo dia antes de sair de casa, ele faz uma verdadeira via-sacra. Primeiro vai aos quartos e verifica se as janelas estão trancadas mesmo e conta até três. Pra ter certeza, força a fechadura para comprovar que estão trancadas. Depois vai aos banheiros e confirma que as torneiras e o chuveiro estão desligados. Pra ter certeza que não tem gota pingando ele coloca a mão embaixo e conta até três. E sai. Volta uma, duas vezes e repete a operação. Quando a gota pinga, ele seca a mão e conta até três novamente.

Depois dos banheiros, ele vai para a cozinha, verifica as sete bocas do fogão. A sétima é do forninho. Bem que a mãe dele sugeriu que comprasse um fogão de quatro bocas. Teria menos trabalho. Depois de ver que está tudo certo ele abre o armário planejado e fecha o registro de gás que alimenta o fogão. Pra ter certeza, passa a mão no registro e verifica que está na posição off. _ _Mas e se o vazamento começar no botijão? pensa Almeida, com medo de começar um incêndio.

Então ele abre a primeira porta da área de serviço, depois a segunda que vai para a varanda e fecha também o registro dos botijões. Pra ter certeza que está fechado, passa a mão no registro e verifica que está na posição off. Depois, ele volta fecha a segunda porta, a da varanda, força a fechadura e conta até três. Depois, ele fecha a primeira porta, a da área de serviço, força a fechadura e conta até três _ _ Será mesmo que fechei a porta da varanda? Então, ele abre a primeira porta, força a fechadura da segunda e conta até três. Depois, ele fecha a primeira porta, a da área de serviço, força a fechadura e conta até três.

Agora, Almeida está pronto para sair. Ele pega sua maleta e vai em direção à porta principal, fecha a porta, força a fechadura e conta até três. _ _ Será mesmo que eu fechei direito as janelas dos quartos? _ _ E se eu não fechei, entrar alguém e levar o que eu tenho? _ _ Eu não tenho seguro e vai ser difícil comprar tudo de novo. Então, Almeida abre a porta e olha para trás pra ver se não vem alguém. _ _ E se entrar alguém enquanto estiver nos quartos e se esconder na sala? Por isso, volta, fecha a porta principal e olha pela sala de TV, copa e sala de estar para conferir se ninguém se escondeu.

Vai aos quartos e verifica se as janelas estão trancadas mesmo. Pra ter certeza força a fechadura para comprovar que estão trancadas mesmo e conta até três. _ _ Será que não fechei as torneiras e o chuveiro? A insegurança martela os pensamentos de Almeida. Por isso, vai aos banheiros e confirma que as torneiras e o chuveiro estão desligados. Pra ter certeza que não tem gota pingando ele coloca a mão embaixo, conta até três e sai.

Já na sala de estar, Almeida aproveita a oportunidade e verifica mais uma vez que as bocas do fogão estão fechadas. Depois de ver que está tudo certo ele abre o armário planejado para conferir o registro de gás fechado que alimenta o fogão. Pra ter certeza, passa a mão no registro e verifica que está na posição off. _ _Mas e se o vazamento começar no botijão? pensa novamente Almeida, com medo de começar um incêndio.

Então ele abre a primeira porta da área de serviço, depois a segunda que vai para a varanda e verifica também o registro dos botijões. Pra ter certeza que está fechado, passa a mão no registro e confere se está na posição off. Depois, ele volta fecha a segunda porta, a da varanda, força a fechadura e conta até três. Depois, ele fecha a primeira porta, a da área de serviço, força a fechadura e conta até três.

Agora, Almeida está pronto para sair. Então ele fecha a porta principal. _ _ Será que eu apaguei todas as luzes da casa? Com medo de lâmpada acesa esquentar demais e provocar um incêndio ele volta para verificar em cada cômodo da casa que as luzes estão apagadas mesmo. Aliviado, ele fecha a porta principal e vai em direção a carro.

_ _ Mas será que eu deixei algum eletro ligado na tomada? Mais uma vez, Almeida abre a porta principal, fecha pra que ninguém entre e se esconda atrás do sofá e começa a inspecionar as tomadas. Verifica se não tem aparelho ligado e pra ter certeza mesmo, passa a mão em algumas tomadas. Depois, ele fecha a porta principal, respira fundo e entra no carro. Tranca o carro e pra ter certeza mesmo que está fechada a porta, ele força a maçaneta interna e conta até três.

Agora, Almeida está pronto para sair.

domingo, 17 de maio de 2009

Muleque questionador


Ele tem uma perspicácia invejada por muitos da família, mas se torna inconveniente quando começa a questionar tudo e todos.

Bruninho é um muleque precoce, que tem o poder de questionar determinadas coisas que deixam os adultos corados de vergonha, não pelo tema em si, mas pela capacitar de desconsertar a todos nas mais informais conversas. O muleque é mesmo um talento. Todo mundo fica feliz com a inteligência dele, mas se irrita quando vira alvo das suas avaliações.

Ele já passou daquela fase de perguntar se papai Noel existe, por que coelho é símbolo da Páscoa se não bota ovo e de onde vêm os bebês... Aliás, neste último tema ele soltou uma pérola dia desses para a funcionária da casa, a Francinalva. Bruno e os pais moram com os avós. Ou os avós moram com Bruno e os pais? Enfim...

A Francinalva reclamava com a avó do Bruno – a Maria Dolores, que o Geraldo – marido da Francinalva – não dá sossego di noite. O pedreiro quer porque quer e não respeita nem dor de cabeça. Depois de ouvir, atentamente, Maria Dolores fica sem reação. Não é que o muleque ouviu a conversa sussurrada e deu a receita!

__Francinalva, isso não é nada bonito e muito menos coisa de garanhão, viu? Isso é doença. Li numa revista que a compulsão por sexo é um distúrbio psiquiátrico e precisa de tratamento.

Francinalva e Maria Dolores miraram o muleque com cara de espanto, entenderam nada, mas continuaram conversando depois que a avó o mandou para outro lugar.

__Bruninho, vai andar de bicicleta e deixa a gente conversar em paz. Isso coisa de mulher.

Obediente, Bruno pega suas revistas e jornais, mas não foi andar de bicicleta. Foi para o escritório.

Nos últimos dias, o muleque está encafifado com a repercussão do caso do deputado estadual paranaense que se envolveu em um acidente de trânsito que acabou matando dois jovens curitibanos. Ele se questiona como pode um deputado continuar dirigindo se a carteira de motorista está suspensa. _ _ A fiscalização é muito fraca mesmo. Isso é, se existe!. Os pensamentos do muleque estão a mil. Ele devora as informações dos jornais e pesquisa muito na internet.

Na hora do almoço – é um sábado e toda a família se reúne no sábado porque no domingo todos vão comer fora porque ninguém quer cozinhar – o assunto do deputado infrator domina a refeição.

__É um absurdo. Imagina se fosse um cidadão comum? Estaria frito, rosna o tio Alfredo, economiário e funcionário de banco estatal.

__A sociedade tem que se mobilizar, não podemos deixar isso assim, diz a tia Tatiana, professora de manhã num colégio público e de tarde num colégio particular.

__Está certa a família dos jovens. Tem que pressionar porque senão ninguém paga pelo crime, afirma o pai do Bruno, o Bruno pai.

__É! nossos políticos não prestam mesmo, afirma o vô Aroldo.

Bruninho está calado, pensativo e com um ar mais sério que o de costume. Todos notam. E o tio Alfredo provoca o sobrinho.

__Você não vai falar nada Bruninho? Você sempre sabe tudo.

__Estava pensando...

__No que? interrompe o tio Alfredo.

__Na hipocrisia.

__Como? quase engasga o tio Alfredo, que entendeu nada.

__Vi que o Paraná e até o Brasil já condenaram o deputado e colocam os políticos todos num saco só, que político é tudo igual, que ninguém presta...

__Mas tudo isso é verdade meu filho, sentencia professoralmente a tia Tatiana.

__É e não é, titia, diz o irônico muleque. __A senhora condena o deputado por dirigir bêbado e com a carteira suspensa, mas outro dia quando fomos ao shopping a senhora bebeu duas cervejas com a mamãe e na volta fez uma conversão proibida. Qual a diferença? O tamanho do risco para a senhora e para os outros?

__Esperaí Bruninho, são coisas muito diferentes, esbraveja o tio Alfredo.

__Tio, o senhor mesmo está com a carteira suspensa. Eu ouvi o senhor falar pro meu pai outro dia. E veio dirigindo aqui hoje. Ou não veio?

__Bruno Caldas, olha a educação... ia dizendo a mãe do muleque quando foi interrompida pelo avô Aroldo.

__Deixa ele, Clara. Vamos ver onde quer chegar.

__Tio Alfredo, como o senhor, somente no Paraná tem 112.208 motoristas com a habilitação suspensa e que não procuraram o Detran para resolver a situação. Eu li isso na Folha de Londrina. E o que é pior, também li na Folha, que de janeiro a abril deste ano 284.480 motoristas foram notificados pelo Detran. Tio, esse número é 7% do total de motoristas do estado. O senhor não acha muito?

__O que você quer dizer com isso, que eu sou pior que o deputado que matou dois jovens no acidente e que ele deve ser inocentado? espuma o tio Alfredo.

__Não! O senhor é um tio muito bacana. O deputado deve sim pagar pelo crime que cometeu, como todos os cidadãos que também cometem seus crimes. A impunidade gera mais impunidade. Mas o que eu quero dizer mesmo é que os políticos são o reflexo da sociedade. São o nosso reflexo. Nem melhor. Nem pior.

__Ah bom, Bruninho, achei que você tava me ofendendo, acalma-se o tio Alfredo.

O avô Aroldo, que sempre dá corda para Bruninho, desta vez se espantou com a perspicácia do muleque. Até ensaiou algumas reações, mas viu que a argumentação do muleque faz sentido. Ninguém diz mais uma palavra e avó Maria Dolores vai fundo.

__Gente, vamos comer senão a comida esfria.

domingo, 10 de maio de 2009

Que bebê mais lindo!


Ser mãe é um desafio diário, uma batalha a ser vencida a cada dia, mas tudo é recompensado com o sorriso mais bonito do mundo.

Meu bebê está com um ano e dois meses. Está engatinhando por todos os cantos da casa, naquela fase em que temos que esconder todos os objetos para ele não brincar de arremesso. Minha mãe diz uma coisa interessante. __Não torture a criança. Se não quer que ela pegue as coisas, tire do caminho. Muito inteligente essa atitude.

E por falar em coisas no meio do caminho, outro dia encontrei a primeira roupinha que ele vestiu, ainda no hospital. Estava lindo naquele macacãozinho azul em dois tons. Guardei os sapatinhos também. Lindos. Bege e marrom escuro. Gosto de guardar porque quero que ele saiba do amor que tenho por ele.

Amor. Só isso pode explicar as coisas que acontecem quando a gente vira mãe. E amamentar é um ato de amor. E de paciência também. Amor porque você precisa se doar. Paciência porque quando o bico do seio racha é uma dor insuportável. Imagina, o bico rachado e o seu bebê mordendo. Tem que amar muito mesmo. E ter muita paciência também.

Paciência, aliás, é uma das virtudes de muitas mães. Dar de mamar e esperar aquela coisa linda e indefesa arrotar. Esperar ele terminar o coco para trocar a fralda. Dar a papinha e achar que ele não vai se lambuzar e, ainda, achá-lo lindo quando se lambuza. Até o pumzinho, que não é cheiroso, tem algo de especial. E levar aquela vomitada, então, só sendo mãe mesmo.

Você agüenta muita coisa para poder criá-lo. Quantas vezes minhas amigas ligaram querendo sair e eu não podia. Até tinha com quem deixar meu bebê de vez em quando, mas o instinto de mãe sempre dizia pra eu ficar. Não me separo dele. E não me arrependo de ter dito não aos encontros das minhas amigas.

Hoje ele já cresceu bastante e até enrola algumas palavras. E como foi lindo o dia que ele disse "mãmã". Claro que foi mamãe que ele disse. Chorei de felicidade. Só passando por essas situações para saber como é. É difícil explicar o que a gente sente. É muita emoção.

E emoção foi a marca do primeiro aniversário dele. A gente tem mesmo que comemorar porque o primeiro ano de vida de uma criança é muito difícil. Ela é muito frágil e qualquer coisa que acontece pode machucar e até mesmo matar. Acho que os pais comemoram mais por eles que pela própria criança. Afinal, o bebê não entende mesmo o que está acontecendo.

Mas como ia dizendo, o aniversário dele foi lindo. Decoramos a sala com balões azuis, brancos e amarelos. O bolo foi do Homem Aranha. Sugestão do avô dele. Havia salgadinho, brigadeiro, cajuzinho, suco, refrigerante e muita diversão. Piscina de bolinha. Cama elástica. Escorregador. Apareceram muitos primos e amigos da família. Nunca esquecerei aquela data. Aliás quero repetir, em grande estilo, todos os anos.

Ah! a primeira mamada, o primeiro banho, a primeira roupinha, o primeiro choro, o primeiro arroto, o primeiro pum, a primeira palavra, o primeiro resfriado, o primeiro aniversário. Cada coisa tem um valor indescritível. Cada coisa tem um significado particular. Vou levar isso para o resto da vida na minha imaginação.

Imaginação sim porque espero que a família do meu bebê o ame como eu, o queira bem como eu, torça para ele como eu. Engravidei e não pude ter essa criança para mim. Sem chance alguma. O pai dele sumiu quando recebeu a notícia. Minha família não deu suporte e não permitiu aborto. Coisa que também não faria. Por nada.

Entreguei o meu bebê para adoção ainda na maternidade. Não o vi nem por uma vez. Assim ele terá uma vida. Isso faz um ano e dois meses. Sei que não sou parte da sua família porque ele tem uma mãe e um pai de verdade. Não me arrependo porque foi a decisão mais acertada. Desejo a esse bebê toda a sorte e felicidade do mundo. E a única coisa que quero é me sentir bem neste domingo. Apenas me sentir um pouco mãe no Dia das Mães.

domingo, 3 de maio de 2009

Precisa-se


Genésio não perde as esperanças e começa mais uma vez, às 5h30, a sua rotina. Ainda bem que ele tem a Madalena.

Mais um dia na minha rotina que não tem sido nada interessante. Levanto às 5h30, tomo um café preto. Seco. Ouço como todos os dias. __Genésio, você terá mais sorte hoje e vai conseguir. Vai com Deus, meu véio. Ai! se não fosse a Madalena, não sei o que seria de mim. Nesses dois anos e cinco meses, a vida não tem sido fácil não. Ela sustenta a casa com o salário de doméstica e nunca me abandonou. Até o dinheiro pro ônibus, ela fornece.




"Precisa-se de motorista com experiência de cinco anos e três cartas de referência."


Vou à empresa de transporte. Durante 15 anos, dirigi numa transportadora de cargas perigosas. Estou ansioso e sentindo que vai ser a minha vez. __O currículo do senhor é muito bom, seu Genésio. Essa transportadora deu boas referências, mas precisamos de alguém mais jovem. As palavras calaram minha voz interior e me jogaram de volta na rua. Lembro da Madalena e não desanimo. O dia vai ser farto.




"Precisa-se de encarregado de depósito com experiência comprovada."

Naquela rede de confecção, o clima é bom. Fui muito bem recebido na portaria, na recepção. As meninas são legais. Durante a entrevista com a mulher do RH, senti que é a minha chance. Até ela abrir a boca. __Seu Genésio, vi que o senhor tem muita experiência em controle de estoque, mas nosso sistema é todo informatizado. Precisamos de alguém que domine o computador. De volta à rua. Mais uma vez.




"Precisa-se de folguista para cobrir à noite e aos finais de semana."


O trabalho é num condomínio de luxo. Vou à agência. Sei que posso fazer muito mais e meu currículo tem experiência e conhecimento em várias áreas, mas tá tão difícil que o jeito é pegar ou largar. __Essa vaga de porteiro já foi ocupada, seu Genésio, mas preenche essa ficha que se aparecer alguma coisa, a agência encaminha o senhor. Já era quase meio-dia. O terceiro não, mas não vou desistir.




"Temos vagas"

Como um salgado na lanchonete da avenida e sigo a minha sina. Em frente à construção do prédio aquela plaquinha me anima. Apesar de não estar no meu roteiro, vou arriscar. Vagas para que? Nem posso fazer luxo. Entro e peço o emprego. __Seu Genésio. Acabei de contratar a pessoa para a vaga. Se o senhor tivesse chegado uns 20 minutos antes. Aquela frase veio para testar a minha fé em Deus. Culpo o salgado da lanchonete. De qualquer forma, agradeço e saio. E de longe eu ouço o responsável pela contratação. __Mário, eu não mandei tirar a placa do tapume! Você não me ouviu? Faça isso agora!

"Precisa-se de açougueiro. Exige-se boa aparência e três anos de experiência."

O supermercado fica bem longe de casa, mas como trabalhei num açougue quando era moço, acho que pode dar certo. Vou arriscar mais uma vez. __Então seu Genésio, mas o senhor não comprovou essa experiência no açougue. Vou saindo da sala quando a mocinha do RH, me chama. __Seu Genésio, como açougueiro não vai dar, mas a rede está aderindo a um programa de incentivo de contratação de idosos. O senhor tem interesse em ser empacotador no caixa?



Ser chamado de idoso com 53 anos é de doer, mas negocio com meus egos e aceito a proposta. Chego em casa e conto para a Madalena que estou empregado. Ela me diz que tinha sentido isso e que tinha comprado uma camisa nova para eu estrear no primeiro dia de trabalho. Ela me abraça e me dá um beijo de confiança. Andei o dia inteiro. Estou muito cansado. Eu e a Madalena, jantamos. Vamos dormir. Preciso descansar nesta sexta-feira, Dia 1º de Maio. Vou começar já no sábado no meu novo emprego, depois de dois anos e cinco meses.

sábado, 25 de abril de 2009

Saudades


Falam. Calam. Cantam. Encantam. Congelam. Revoltam. Modelam. Aquietam. Acomodam. Saudades são apenas saudades.

Saudade faz...
Lembrar, querer e sentir.
Relembrar, requerer e agir.
Acusar, defender e cobrir.
Recusar, endurecer e ferir.
Arquivar, absolver e admitir.

Saudade
É dor
Porque afeta.
É calma
Porque aquieta
A alma.

Saudade
Eu tenho todos os dias,
Da infância, sadia.
Da juventude, rebeldia.
Da família, tardia.
Da vida que via,
Tudo passar.
De olhos abertos.
De olhos fechados.

Saudade
Do amor, não vivido.
Do calor, digerido.
Da vida,
Desperdiçada,
Despedaçada.
Conquistada.
Festejada.

Saudade
Dos amigos amigos.
Do abraço que conforta,
Da mão estendida,
Do ombro disponível
Do sim.
E do não.
Saudades
Formam palavras.
Reformam sentimentos.
Endurecem corações.
Deformam sensações.
Confortam corações.

Saudades
São apenas saudades.
Que falam!
Que calam!
Que cantam!
Que encantam!
Que congelam!
Que revoltam!
Que modelam!
Que aquietam!
Que acomodam!

Saudades são apenas
Momento e reflexo.
Nexo e desconexo.
Instantes e constantes.
Começos e recomeços.

Saudades são apenas...
Saudades.

domingo, 19 de abril de 2009

Minha casa


É grande, mas pequena. Sofisticada, mas básica. Rica, mas pobre. Vazia, mas cheia. De gente. De sentimentos.

Minha casa.
É onde vivo bem.
É onde me protejo.
Sem problemas.
Onde curto cada coisa.
Revelada. Conquistada.

Minha casa.
É um barraco.
Pobre.
Onde sobra.
Nada.
Onde moram.
Sogra, filho e nora.

Minha casa.
Tem estrutura.
Onde sobra.
Piscina sem marolas.
Vazia banheira.
Desligada sauna.
Residência de mim mesmo.

Minha casa.
É popular.
Tem agito.
Todos os dias.
Entram vizinhos.
Vizinhos saem.
Trocam coisas.
De afeto a pão caseiro.
Casa de gente.
Muito simples.

Minha casa.
É no condomínio.
Gente pra todo lado.
Número em vez de nome.
Gente que não conheço os sonhos.
Um bom dia forçado.
Uma boa tarde obrigada.
Uma boa noite, sem resposta.

Minha casa.
É de todos.
Está aberta, de porta arreganhada.
O filho atrai amigos.
A molecada não sai nem com sol.
Na TV, vídeo game com pipoca.
Bicho de estimação e bicicleta.
São joões, pedros, lucas.
Muitos nomes.

Minha casa.
É minha vida.
É meu refúgio.
Com endereço certo.
Minha casa não é muito.
E é tudo.
Minha casa.
É minha.
Precisa mais?