domingo, 1 de fevereiro de 2009

Benditas férias


Aparecido e Miguel contam os dias para as férias. Aparecido vai rever o irmão que não vê há uns cinco anos. Miguel já agendou o avião e alugou o carro, um SUV.

Aparecido é vigilante de uma prestadora de serviços. Ele não ganha muito. O suficiente para a família viver confortavelmente simples. A casa é financiada pelo sistema nacional em prestações de uma vida inteira. O carro, um gol 1986, foi comprado depois de muita economia. Os filhos, Katellyn (16) e Wyllsom (13), já começaram a se virar para ganhar uns troquinhos. E ambos ajudam nas tarefas diárias da casa. A mulher de Aparecido, a dona Carmem, costureira, é referência em moda para a vizinhança.

Miguel é empresário do setor de distribuição de medicamentos. O rendimento da família está muito, mas muito mesmo, acima da média do país. Ele também tem dois filhos: Flávio (16) e Manoela (13). A mãe, Suzane, é uma típica representante da sua classe social. Ela não trabalha, não tem hora para levantar e passa as tardes dividida entre shopping e centro de estética. Cabelo. Pés. Unhas. Massagem corporal. Facial...

Aparecido programou para as férias de 2009, algo que deixará a família feliz. Uma viagem. Vão para a casa do irmão de Aparecido em Florianópolis. Wylssom vai conhecer o mar desta vez. Da última que ele foi para a praia foi com um aninho. Lembranças da areia e da água salgada? Somente nas poucas fotografias feitas na época. O menino está muito ansioso. Katellyn também está ansiosa, mais por conhecer Floripa do que pela praia. Ele esteve dois anos atrás em Camboriu, numa excursão promovida pelo colégio para encerrar a 8ª série.

Miguel também vai tirar férias. Serão 15 dias dedicados à família. Nos últimos três anos, ele viajou com a mulher e os filhos e teve de voltar antes, deixando-os com o motorista da família, para resolver problemas relacionados aos medicamentos. Decisões que somente ele, como dono no negócio, poderia providenciar. Bem que falam que negócio é a junção de negação e ócio. Desta vez, o empresário quer que tudo dê certo. Já tomou todas as medidas para isso.

Aparecido está empolgadíssimo. Já fez a revisão do carro, dando mais atenção aos freios e pneus. O motor foi feito há pouco tempo e agüenta o tranco na estrada. Ele emprestou, de um amigo, quatro cadeiras de praia que vão no bagageiro do teto do gol junto com o que não couber no porta-malas. Dona Carmem fez roupas novas para a família e comprou tênis para todos, numa loja da Sergipe em cinco vezes, sem entrada.

Miguel também providenciou tudo para a viagem. Fez a reserva no hotel daquela praia que fica num costão e agendou a viagem de avião. Lá na ilha, vai alugar um SUV “sport utility vehicle”, importado do Japão. Flávio reclama para o pai que não quer ir de novo para o mesmo hotel. Ele quer mais aventura. Herança da temporada que passou fora. Como presente de 15 anos, Flávio ganhou um roteiro especial. Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, Escócia, Inglaterra, Itália, França e Austrália.

Aparecido e família já estão na estrada. A viagem é uma beleza. Tudo é novidade. Tudo é motivo para risos, principalmente, quando Aparecido para as pressas num carreador para que dona Carmem se aliviasse. Não daria tempo nem de chegar no próximo posto de combustível. Aparecido não deixa por menos e cobra da mulher o pernil de porco feito no jantar da noite anterior. Dona Carmem comeu demais.

Miguel e a família também estão em viagem, numa estrada que só controlador de tráfego aéreo e piloto conseguem ver. Miguel quer fazer da viagem algo diferente. Ele sente uma necessidade de reunir a família, de conversar... Mas mesmo sentados na mesma fileira, a família está distante. Os filhos estão colados em iPods e Suzane colocou tampões de ouvido. Ela acha a viagem cansativa e dispensa os serviços de bordo.

Aparecido chega à casa do irmão que não via há uns cinco anos. No começo é estranho, mas depois as relações vão fluindo. Os primos vão para a praia, distante uns dois kms. Vão de bicicleta. Os pais vão encontrá-los mais tarde. Levam a comida numa sacola de praia, que a dona Carmem ganhou da cunhada. Passam o dia na areia. E não é que esqueceram o protetor solar. Todos passaram o bronzeado comercial, aquele que as coxas e o peito têm cor diferente das canelas e dos braços, para o vermelho camarão. E assim, correm os dias. Todo mundo divide tudo o que tem; lambem até o final a casquinha de siri. Este que um dia andou pela praia de lado, cheio de areia.

Miguel finalmente pousa no aeroporto Hercílio Luz. O carro alugado já espera toda a família que entra muda no SUV. Miguel tenta puxar assunto, mas ninguém corresponde. Algum tempo depois, Flávio comenta que os Sá de Mendes e os Albuquerque de Balboa vão chegar à tarde e que os filhos vão fazer tour juntos pela ilha. Manoela diz que a melhor amiga, filha dos Campos de Menezes, também chega de tarde. E assim, correm os dias. Miguel tenta reunir os filhos, que já têm os compromissos marcados. Então, o tempo é preenchido com encontros no resort com os amigos, os de sobrenome duplo. Na pauta de assuntos, negócios, expectativas de mercado, movimentação das bolsas, crise mundial...

Aparecido e Miguel terminaram as férias. E retornam ao trabalho. Cada um ao seu estilo. Aparecido toma dois ônibus para chegar à firma. Ele está em um posto novo de trabalho neste mês. É que a prestadora de serviços alterna mensalmente os vigilantes para as empresas clientes. Miguel vai de importado, o carro novo que acabou de chegar da concessionária. Ele vai lendo as últimas notícias de economia, no banco de trás, enquanto o motorista dirige. Ele chega à porta principal do prédio, depois de passar pela guarita. Na porta, o vigilante se apresenta. __Doutor Miguel, meu nome é Aparecido. Sou o vigilante deste mês e se precisar de algo, estou à disposição.

5 comentários:

Danilo disse...

Reinaldo, me diverti lendo essa crônica.

Olha os nomes: Katellyn e Wyllsom.

"comprou tênis para todos, numa loja da Sergipe em cinco vezes, sem entrada"; Nessa parte parece que eu vi minha mãe lá na Ajita.

Muito bom!
Parabéns

Reinaldo C. Zanardi disse...

Danilo, minha infância e adolescência não foi em Londrina, mas foi em cinco vezes sem entrada. Hahahaha. Aliás, muitas coisas só em prestações a perder de vista. Abraço.

Reinaldo C. Zanardi disse...

Creeeeeeeeeeeeeeeedo! em tempo... "minha infância e adolescência não foram em Londrina,..." Corrigido. UUUUUUUfa!

Jéssica Rocha disse...

Nossa Rei! Muito bom!!
Agora no final fiquei boba ou bege!!rsrs
Abraço.

Jean Tonsig disse...

É interessante achar que o dinheiro e acesso a (quase)tudo possa dar felicidade á alguém. Que belas férias sr. Aparecido!!!