domingo, 8 de fevereiro de 2009

A caixinha das emoções


Laura é uma advogada durona e conhecida pelo rigor com que trata tudo, mas a vida dela vai mudar quando encontrar algo que havia deixado no passado.

Laura é daquelas advogadas que faz o que é necessário em nome do ofício. Mesmo representando um latrocida – quando muitos recusariam – ela não se refuta e defende o acusado com o mesmo rigor que defende uma mulher vítima de violência sexual ou doméstica. Ela prefere não entrar no mérito e invoca a legislação para defender tanto réus quanto vítimas. “Afinal a legislação prevê direitos e basta seguir os marcos regulatórios, incluindo as jurisprudências”, costuma dizer a advogada.

Juntamente com esse rigor outra característica da advogada chama a atenção. A sisudez, a carranca que ostenta no lugar da face. Não chega a ser mau humorada porque ela não se descontrola nem tem ataques ou pitis. Apenas não se envolve emocionalmente com nada. Até o obrigado meloso do cliente livrado das grades ganha reposta amarga. “Você só me deve os honorários. Não fiz nada mais que a minha obrigação.” Emoção? “É coisa para gente fraca. Me incomoda muito gente excessiva. Excessivamente feliz. Excessivamente triste. Excessivamente emotiva.”

Laura está de mudança. Vai para um apartamento maior, que conseguiu comprar com os honorários que ganhou atuando na defesa de uma grande empresa acusada de poluir uma manancial que abastece uma pequena cidade. A causa, considerada perdida até pelos próprios acusados, sofreu um revés numa estratégia que a advogada adotou que acabou vencendo. Para delírio de seus clientes. Nem sempre a justiça é justa mesmo.

Voltando à mudança de apartamento, Laura está empenhada em arrumar tudo para quando a transportadora chegar. Pega coisas aqui. Pega coisas ali. E um bauzinho de madeira pintado em verde com manchas douradas chama a atenção de Laura. Ela nem se lembra o que tem dentro da pequena caixa, fechada por um cadeado sem chaves. Laura pega o objeto e muitas lembranças começam a brotar do nada, ou melhor, do passado.

Laura se recorda porque o bauzinho não tem chaves. Ela trancou e as jogou fora. Com a carranca de sempre – ela não consegue ser diferente nem mesmo estando apenas na própria companhia – pega um martelo e arrebenta a fechadura com cadeado e tudo. Ao abrir a caixa, a carranca cede lugar a uma face apreensiva. Dentro, três objetos. Uma foto amarelada de um casal com uma menininha de tranças e vestidinho de babados. Um rosário com contas de pérola um crucifixo de madeira. Uma caixinha de música.

A advogada se reconhece na menininha de tranças e vestidinho de babados e revê a única foto que tem dos pais, mortos num acidente de trânsito, quando ela tinha apenas 4 anos. A essa altura a carranca, ainda carrancuda, mostra sinais lacrimejantes. O rosário, ela ganhou da avó materna no batizado. E a caixinha de música, ganhou aos 7 anos da tia com quem cresceu.

Depois de sentir um aperto no peito com a foto e o rosário, Laura se concentra na caixinha de música. Ela abre o objeto e de dentro se levanta a bailarina, embalada por um som repetitivo. A essa altura, Laura não consegue mais se conter. A carranca se desfaz e ela chora compulsivamente. O choro revela tristeza, saudade, culpa. Um dor que ela havia deixado no passado, trancada no bauzinho sem chaves.

Ao abrir a caixinha de música, Laura deixou escapar as emoções que havia aprisionado. Com a morte dos pais, ela foi morar com a tia Vera. Professora de piano, Vera – apesar de sensível para a música – era insensível para a vida. Ou se tornou assim por inúmeros motivos. O noivo que morreu uma semana antes do casamento. Os pretendentes que nunca mais apareceram. A vaga de professora universitária que perdeu para a concorrência. Os amigos que se afastaram. Culpa? Sempre dos outros.

E foi neste ambiente que Laura cresceu e aprendeu com a tia a guardar as emoções. E foi na caixinha de música que Laura guardou o que sentia. A saudade do pai e da mãe. As comemorações do aniversário sem amigos e bolo. A raiva que sentia de Vera quando levava um cascudo ao errar uma nota no piano. A vontade de ir à casa das poucas colegas de escola com quem se relacionava e que nunca fora convidada. O desejo de dar o primeiro beijo. E assim por diante.

Condicionada, Laura começou a guardar todos os sentimentos. Bons e ruins. Imaginariamente quando sentia algo, o pegava com a mão e o colocava na caixinha de música cuja bailarina nunca mais rodopiou num pé só. Laura passou a adolescência e a juventude guardando o que sentia. Nem por isso deixou de se relacionar. Namorados até que duraram, mas todos foram finitos. O tempo passou e ela tornou-se a advogada bem-sucedida.

Hoje, ao abrir a caixinha de música, Laura sentiu um imenso vazio. A bailarina mesmo no seu sorriso de plástico pareceu libertada. O sorriso dela ganhou outra dimensão. E até tocou o coração de Laura. O choro compulsivo lavou mais que a carranca da advogada. Ela sentiu-se leve como não se sentia há muito. Ao virar a caixinha de música, viu uma inscrição no lado de trás que a deixou sem ação. “Você é o que sente e não o que você gostaria de sentir.”

5 comentários:

Jéssica Rocha disse...

Puts Rei, a frase final diz tudo!!
Quantas Lauras não existe nesse mundão? Talvez quantas vezes somos essa Laura tbm.
Por isso não jogo fora as chaves! rs
Abraço!! Até +!

Reinaldo C. Zanardi disse...

Pois é Jéssica. Todos nós temos um pouco de Laura. Alguns guardam numa caixinha, outros numa gaveta, outros no congelador. Mais ainda bem que inventaram a chave. Essa abre tudo. Valeu, menina. Bjos.

Vivian² disse...

Pois é...eu pensei o mesmo que a Jéssica. Todos nós guardamos alguns sentimentos durante a vida, mas agora vou começar a visitar minha "caixinha" com mais frequência. Porque econimizar sentimento é disperdicio!
Muito bom Reinaldo...abraço!!

Beth/Lilás disse...

Oi, Reinaldo!
Nossa que texto lindo e lírico!
Sabe, tenho na família uma prima assim, mas ela simplesmente jogou fora a chave da caixinha e agora as síndromes do pânico e outras a acompanham.
Pena, era tão bonita e inteligente!
abraço carioca

Reinaldo C. Zanardi disse...

Infelizmente, Beth, muitas vezes a gente guarda emoções que não deveria guardar e extravasa o que deveria ficar guardado. E assim a gente vai aprendendo. Retribuo o seu abraço carioca. Até!