domingo, 15 de fevereiro de 2009

O tempo passa


Ai que saudades daquele tempo. Ainda sinto o cheiro da banha de porco e do cudiguim que a dona Rita fazia. Até do maxixe, eu sinto falta.

Eu fui a primeira a chegar nesta região quando isso aqui era puro mato. Os homens foram derrubando as árvores e aos poucos foram chegando outras famílias. Como eram grandes! Tudo em volta do nono e da nona. Os filhos casavam e muitos continuavam morando com o pai dele até conseguir mudar. E quando conseguiam era uma tristeza a separação. Se bem que muitos mudavam para os fundos ou ao lado do próprio pai. E a vida era uma verdadeira partilha.

Dona Rita era uma vizinha muito amiga. Naquela época a cidade – tão pequena – era comum a criação de galinha e porco no quintal de casa. Toda vez que o marido da dona Rita matava porco, ela trazia banha e cudiguim. Muita gente moderninha nem sabe o que é isso. É um tipo de lingüiça feita com a pele e outras partes brancas do porco. A que a dona Rita fazia era um espetáculo. Ela temperava bem com salsinha, cebolinha, pimenta do reino e outras coisas, que até a molecada lambia os beiços.

E era sempre assim. Quando alguém ganhava ou colhia alguma coisa repartia com os vizinhos. Todo mundo trocava abobrinha, moranga, milho verde. Aquele tempo era uma fartura só. Ninguém passava fome. Lembro que o Laércio, tio da América – casada com o primo do Romeu, plantava maxixe. Ô coisinha saborosa! Ele dizia que era muito comum no nordeste do país e que ele ouviu dizer que veio da África, trazido pelos escravos. Se é verdade ou não eu não sei. Outra coisa que se fazia muito era cambuquira. Mas essa eu não vou explicar o que é não. Pena que hoje em dia a gente não encontra mais essas coisas. Se for comprar é muito caro!

O tempo foi passando e aquele matão virou um descampado que virou uma vila. Até o chão de terra ganhou paralelepípedo. Todo mundo gostou e ninguém reclamou. Afinal quando fazia seca era um poeirão só e tinha dia que a mulherada lavava as roupas mais de uma vez. E quando chovia, era barro pra tudo que era lado. A molecada que vivia de chinelo tinha barro até no meio dos dedos. Tudo encardido. Não foi uma vez ou duas que a mãe colocava os moleques e dava banho no tanque esfregando com a bucha de lavar roupa.

E não pensem que as pessoas não gostavam não. Era muito boa aquela época. Época de trabalhar o dia inteirinho e na tardezinha ficar na varanda conversando com todo mundo que passava na rua. As pessoas se conheciam, se chamavam pelo nome e quando alguém ficava doente, sempre recebia visita. As donas de casa gostavam de trocar muda de flores. Pegavam com uma amiga e plantavam. O jardim era um desordem, tinha de tudo. Cravo. Rosa. Antúrio. Margarida. Maria-sem-vergonha. Beijinho. Copo de leite. Rabo de gato. E tudo junto.

A juventude também se divertia. Era uma diversão sadia. Eles respeitavam pai e mãe. Tudo bem! tinha pai que era um carrasco, mas era assim mesmo. Os filhos ajudavam em casa desde cedo. E não era trabalho infantil não. As meninas ajudavam limpar casa, fazer comida, lavar roupa. E os meninos iam com o pai na lida. No sábado de noite, era só diversão. Sanfoneiro e violeiro tinham um repertório caipira de dar gosto. Esses bailes atraíam jovens da redondeza toda.

E no domingo. Era obrigatório ir na missa. Um dia que todo mundo encontrava todo mundo. O sermão do padre Amauri era apreciado por todos. Um homem muito inteligente. Ele era muito querido e viveu na vila por uns 12 anos. Até que largou a batina. Muita gente ficou triste. Depois que ele foi embora ninguém mais ficou sabendo dele. E depois da missa? Sempre tinha quermesse e tômbola, era assim que se chamava o bingo naquela época. Como prêmio tinha frango assado, porção de maionese, pernil de porco, legumes, verdura e até cerveja.

E os tempos são outros mesmos. A vila continua crescendo e hoje eu nem reconheço mais. O centro da cidade que era tão longe hoje tá tão pertinho. Parece até que a noção de distância mudou. Uma avenida corta a vila e isso ajudou a separar muitas famílias. Os jovens que casam – quando casam - não moram mais com os pais. Bailes? Tem um inferninho no final da vila que volta e meia se escuta uns tiros por lá. Também, o sanfoneiro e o violeiro mudaram pra São Paulo. São vigilantes numa fábrica de amortecedor. Até velório que a gente realizava em casa não pode mais. Nossos velhos, em vez de morrer perto de quem gosta, morrem no hospital. Geralmente sozinho. E muita gente chama isso de evolução.

Deve ser culpa da evolução mesmo. E, por isso, sou a última nesta vila. Muitas iguais a mim foram derrubadas para dar lugar à casa de material. Vi tanto enfeite talhado na madeira sendo destruído e no lugar colocam ferro, vidro, tijolo. Acham chique! As casas perderam a varanda e no lugar tem uma garagem. As pessoas não ficam mais em frente da casa, ficam trancadas dentro. E o pior é quando derrubam uma casa de madeira para abrir um estacionamento. Sinto uma dor... E esse parece que será o meu destino. Ouvi dia desses, o Felipe, bisneto do Alfredo - que me construiu, dizendo que recebeu uma oferta boa de um dono de um lava rápido.

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