domingo, 29 de março de 2009

Na minha infância tinha


Muitas coisas bacanas. Lembrar delas é fazer surgir uma sensação gostosa de nostalgia, de saudade de um tempo bom, de um tempo de inocência.

A infância foi num sítio bem perto de uma cidade pequena. As lembranças estão vivas. Mais do que nunca. É uma sensação gostosa de nostalgia. Saudades de um tempo inocente, quando as brincadeiras eram divertidas e prazerosas. Tudo bem, recordar da infância também traz sensações ruins, das coisas que a gente não gostava, das vontades reprimidas, mas essas não são maiores que as alegrias. Ai que tempinho bom aquele...

Na minha infância tinha um bambuzal onde a gente brincava de sítio do pica pau amarelo, imitando os episódios da TV, como aquele julgamento do saci. Havia o Pererê e o Lambão, nossos preferidos. A molecada fazia o cachimbo da sacizada com talo de mamona. Era uma festa só.

Na minha infância tinha uma TV, uma telefunken em preto e branco. Essa trouxe muitas emoções para a família e muita gente da vizinhança vinha ver, em casa, as novelas das oito, que eram às oito. A TV ganhou, mais tarde, uma tela em várias cores que a gente colocava na frente da TV. Era para dar uma sensação de ser colorida.

Na minha infância tinha um cavalo marrom, o Guarani. Êita cavalo trabalhador. Era ruim de montaria, mas não se fazia de rogado na lida. Arar a terra era sua principal tarefa, recompensada no final do dia com muito milho dado na boca. Ele morreu de velhinho. Fica com Deus, Guarani.

Na minha infância tinham muitos bichos. Lembro-me de três em particular, que eram o xodó da família. Um papagaio, chamado Loro; um vira-lata, o Bob; e uma mestiça pequinês, a Lili. O loro teve um fim trágico. Morreu eletrocutado num fio de energia elétrica. O Bob morreu de velho embaixo da cama da minha irmã. E a Lili também velhinha, mas não aprontou na despedida.

Na minha infância tinham vários pés de paineira, daquelas enormes que ficam rosa de flores no verão, branca de paina no outono; transparente no inverno. Muito joão de barro escolhia os galhos da paineira para erguer a casinha e uma intriga rondava minha cabeça. Como eles não se furavam nos espinhos generosos?

Na minha infância tinham muitas árvores. Dois pés de manga espada gigantes que sombreavam o campinho de bola com traves de eucalipto e de bambu. Vários pés de manga rosa, que em plena temporada serviam os porcos no chiqueiro. Um pé de maçã que não dava frutas. Um pé de Santa Bárbara, a preferida dos raios nas tempestades.

Na minha infância tinham vários pés de jabuticaba de uma variedade grande, bonita e azeda. Uma plantação de eucaliptos onde a gente fazia trilha para brincar de carrinho. Um pé de goiaba branca que a gente comia de olhos abertos. O problema era quando a gente achava um meio bigato.

Na minha infância tinha um corguinho que passava no fundo do sítio. Claro, já viu corgo na cabeceira?! Urgh... Ficava no meio do mato, o que restara de uma porção nativa e, por isso, a água era gelada. Banho? Nem no verão, mas era gostoso caminhar nele. O fio de água cobria malemá o pé.

Na minha infância tinham muitos primos e primas, amigas e amigos, filhos dos vizinhos agricultores, que viviam na colonha. A molecada foi crescendo e foi embora. Muitos pais foram para São Paulo trabalhar em fábricas. A molecada se separou e perdeu o contato.

Na minha infância tinha um poço muito fundo. Bem! não era tão fundo assim. Ele abastecia a caixa e quando enchia, vazava. Sempre tinha que correr para desligar a bomba d´água. O tampão que tampava o poço era feito de madeira. Bem pesado. O que só aguçava a curiosidade. Quando conseguíamos olhar a boca do poço, nunca víamos coisa alguma. Era uma escuridão só.

Na minha infância tinha uma casa com uma varanda na frente onde ficavam as cadeiras de tiras verdes e azuis que marcavam as costas. O piso era de cimento queimado em vermelho, lustrado toda sexta-feira com as ceras Parquet, as de lata redonda. No fundo tinha outra varanda, com uma mesa grande perto do fogão a lenha, que ficava perto do forno de barro. A casa era de madeira, sem forro, o que possibilitava ouvir a vó dormir. A casa era laranjada e tinha detalhes em azul. Era porque não existe mais. Existe apenas na minha infância.

domingo, 22 de março de 2009

Na mesma moeda


Ele é investigador e para conseguir as provas necessárias não hesita em dar uns socos e pontapés. Afinal métodos informais são mais rápidos que a ciência forense.

Ele é investigador policial e volta meia se mete em confusão nas investigações que comanda. Erros graves são cometidos por ele e por outros da corporação, sem o menor ressentimento. Os métodos científicos são ignorados, até porque o investimento público em ciência forense é quase nulo. Se o governo investisse mais na análise científica dos crimes, talvez ele não precisasse de métodos, digamos informais, para conseguir as provas necessárias.

Um episódio marcou a carreira dele e a de mais dois investigadores. Os três fariam uma abordagem a dois suspeitos de um crime, mas dois jovens estavam na hora errada e no local errado, apesar de estarem na hora certa e no local certo. Dois irmãos, vizinhos inocentes dos verdadeiros elementos, estavam em casa vendo a novela das oito quando os policiais chegaram para uma diligência. Eles entraram na casa errada. O número real – 68 – virou 86 por causa de um erro de digitação. Estranhas e tristes coincidências da vida.

Os policiais entraram enfiando de sola em tudo. Algemados, os irmãos levaram socos, pontapés e outros métodos pouco científicos. Foram levados para a delegacia e a interrogação continuou sendo feita pelos policiais. Os irmãos, que ficaram incomunicáveis por um tempo, acabaram assinando uma confissão. Com o documento o delegado comunicou a solução do crime sob holofotes da imprensa e de programas policiais no melhor estilo mundo-cão.

Mobilizada, a família contratou advogado que conseguiu contato com os irmãos que relataram tudo. O advogado perguntou por que? ambos assinaram a confissão se eram inocentes. Um deles não titubeou. __Do jeito que bateram, eu confessava que tinha matado até a Odete Roitman. No dia seguinte, o advogado deu entrevista coletiva contando os métodos de investigação da Polícia. O tenente, responsável pelo setor de atendimento a jornalistas, saiu em defesa sumária dos policiais, desqualificando ainda mais os irmãos.

As informações do advogado foram corroboradas por uma denúncia anônima que levou a Polícia aos verdadeiros criminosos. Um processo foi aberto contra os três investigadores, mas o corporativismo policial tem arrastado a sua conclusão. Afastados das ruas por um período, os três policiais voltaram aos seus postos e passados 11 meses da abertura, o processo ainda não foi concluído. Os irmãos movem uma ação contra os policiais e o estado.

A história dos irmãos é apenas mais uma entre as muitas que revelam a prática da violência na polícia brasileira, em que policiais são acusados de provocar lesões graves e até mesmo homicídios. E a impunidade continua reinando entre os violentos profissionais que deveriam cuidar de um dos maiores patrimônios da humanidade, a vida. Fatores como a ameaça contra os denunciantes, a difícil comprovação da prática da tortura e a falta de órgãos confiáveis para comandar processos contra os crimes de tortura fazem com que policiais criminosos continuem na ativa.

Voltando, ao investigador que comandou a operação contra os dois irmãos... Ele tem um filho de 18 anos, que gosta de sair com os amigos para beber e curtir a vida. Num desses finais de semana, o rapaz e mais dois amigos foram a um bar no conjunto onde moram. Beberam, riram, jogaram sinuca, paqueraram... enfim se divertiram. De volta para casa, uma viatura militar interceptou-os numa avenida pouco movimentada.

Os policiais chegaram de sola, tirando-os truculentamente do veículo. Revistaram e não acharam nada que os comprometessem, com exceção do hálito alcoólico. Neste momento um dos policiais começa a socar o filho do investigador, exemplo seguido pelos outros policiais que começaram a agredir os outros dois rapazes. Eles tentaram argumentar e quanto mais falavam, mais apanhavam. Por fim, um dos policiais pegou na viatura algumas trouxinhas e as colocou no bolso dos três rapazes, que foram levados para flagrante.

O investigador somente teve acesso ao filho na manhã seguinte depois de conseguir movimentar conhecidos seus na corporação. O menino contou tudo o que aconteceu ao pai que ficou estarrecido com a situação. Inconformado, o investigador prometeu justiça ao filho e, hoje, move uma ação contra os policiais da abordagem e contra o estado.

domingo, 15 de março de 2009

Trabalhar demais faz mal


Certamente, ficar desempregado é algo muito ruim. Mas trabalho excessivo também não faz muito bem à saúde. Ainda bem que existe o ócio criativo.

Esse mundo está muito mudado mesmo. Você já reparou que as pessoas não reparam mais nas coisas simples da vida? É uma pena porque é na miudeza que se encontra muita beleza e sem preocupações com rimas pobres, por favor. Olhe o percevejo verde. É uma praga nas plantações de soja. E até nos jardins. O bicho não perdoa nem planta decorativa. Eles detonam tudo e ainda são fedorentos. Mas é um inseto bonitinho, mas tem que chegar perto para ver. Olha o da foto. Não parece que o danado está fazendo pose?

E essa beleza miúda e despretensiosa passa despercebida porque todo mundo tem pressa. Todo mundo tem mais o que fazer. Todo mundo não pode perder tempo. Todo mundo tem que correr contra o relógio. E o que é esse tal de tempo? Nosso feitor? Nosso dono? Somos escravos dele! Nos deixamos escravizar e, ainda por cima, colocamos a culpa nos outros, nas situações que muitas vezes nós mesmo criamos. Um exemplo? Vários.

Tenho um amigo, o Thiago, que se formou em uma grande universidade e conseguiu o emprego que todos queriam. Logo depois, se casou. A mulher dele sempre quis conhecer Fortaleza e, quase em todas as férias, eles planejavam conhecer a cidade. E sempre acontecia alguma coisa que o fazia mudar os planos. Trabalho. Não foi uma. Não foram duas vezes. Ele acabava encurtando o período de férias e para não deixar a mulher chateada fazia uma viagem curta. Sempre para o mesmo lugar. Caiobá. E não é que mesmo em férias ele ia para o mesmo lugar que muitos executivos da empresa iam? Tem gente que sofre porque quer.

E sofrimento mesmo teve um outro amigo, o João. O primeiro filho nasceu quando ele fazia mestrado. Como trabalhava e não pode ter bolsa, levou as duas obrigações juntas. Empresa e universidade. E como algo precisava ser sacrificado, ele sacrificou a família. A mulher dele até jogava bola com o menino porque o pai estava trancado em casa estudando. E mal acabou o mestrado, começou o doutorado. E a mulher não ficou grávida do segundo? Êita sina besta essa! Se dependesse da mulher, ela viraria treinadora de futebol mirim. Foram tantas as crises, que ele acabou se separando. Hoje é um doutor quarentão. Respeitado. Reverenciado. Invejado. E solitário.

Solitário mesmo vive o Cido. Grande amigo esse, mas arisco. A gente só se via em casamento e velório. Como, atualmente, poucos se casam e poucos morrem porque têm qualidade de vida, então a gente se vê em poucos momentos. Mas ele tem uma história interessante. Sempre trabalhou demais. Fazia todas as horas-extras que podia, as que não podiam e as que mandavam fazer. E ainda arrumava uns bicos para engordar o bolso. Isso custou muita privação. De momentos com a família. De momentos no bar com os amigos. De momentos de lazer. Ele guardava o dinheiro para comprar um apartamento melhor. E agora que conseguiu teve um derrame. Não morreu, mas pelo menos está curtindo o apartamento já que não consegue mais trabalhar.

O Ministério da Saúde adverte: trabalhar demais faz mal à saúde. E faz mesmo. Você acha isso brincadeira? Uma pesquisa divulgada recentemente mostrou que o estresse é um importante fator para desencadear o infarto. E onde o estresse mais aparece? No trabalho. Cobrança por resultados. Relações sociais deterioradas pela competição. Carga horária excessiva. Chefia desumana. E por aí vai. Tudo é padronizado. Tem que seguir um padrão.

E isso custa vidas? Foi o que li numa notícia dia desses. Uma situação para pensar e muito. Uma modelo de 19 anos morreu por causa da bulimia. A menina era linda; 1m79, 57 kg. E ela se achava gorda. Entrou numa roda. Viva. E saiu morta. Não teve volta. Essas meninas buscam atender a um padrão exigido pela sociedade e quando tentam atingir esse padrão – e não dá certo – a mesma sociedade que o criou acaba transferindo a responsabilidade.

A modelo morreu por causa do trabalho. Meu amigo Cido ficou doente por causa do trabalho. Meu outro amigo, o Thiago, não conhece Fortaleza por causa do trabalho. Meu outro amigo, o doutor João, é solitário por causa do trabalho. Ainda bem que tem gente doida para propor umas coisas doidas, como o sociólogo Domenico de Masi, criador da teoria do ócio criativo.

Pra mim está mais para estilo de vida que meu avô já pregava. Nada de acumular bens, mas viver bem. Meu avô colonizou a região quando tudo era mato. Sempre trabalhou muito, mas nunca abriu mão do prazer, do convívio com a mulher, filhos, parentes e amigos. Morreu com mais de 90 e lúcido, dizendo que foi feliz. Por isso, vou fazer agora uma das coisas mais simples e prazerosas dos últimos meses. Vou ver a grama crescer na frente de casa.

domingo, 8 de março de 2009

Oportunidade perdida


Sei que aprontei demais e trouxe muito desgosto para meus pais. E foi assim – pensando somente em mim – que fiz o que fiz. Muitas vezes.

Nunca fui um filho muito bom. Pelo contrário. Sempre dei muita dor de cabeça para meus pais. Aprontei muitas. Eles sempre cuidaram de mim, mesmo quando eu não merecia. Lembro uma vez na escola em, que coloquei tachinha na carteira da professora. Ô dó. Como ninguém viu que fui eu, acabei apontando um desafeto como o autor. O moleque não teve como se defender e foi suspenso uma semana. Meu pai usou o exemplo para mostrar o que não devemos fazer. Entrou por um e saiu por outro ouvido.

Aliás a escola é um lugar perfeito para isso. Quem está fora das regras sociais –ditas padrão – acaba se ferrando na mão dos grupinhos mais populares. Nerd? É um prato cheio. O caderno sempre muito bem cuidado, com todas as anotações para a prova. Quantas vezes, eu e mais uns amigos, pegávamos o caderno de um desses para copiar tudo e ainda dávamos sumiço na prova do crime. Não foi uma. Não foram duas vezes.

Tinham outras vítimas, os gordos, os de óculos fundo de garrafa, os esquisitos punks e afeminados e por aí vai. E o mais engraçado é que a escola sempre defendeu o respeito à diversidade, mas na prática isso não se traduz em respeito aos diferentes. Esses se ferram mesmo. Eu cansei de presenciar professores fazendo distinção entre os alunos. Sempre tem os queridinhos e os amaldiçoados. E quem mais precisa, sempre tem menos. A escola deve repensar suas atitudes. Há! Há! Há!

O pior de tudo é que esses problemas, de um jeito ou de outro, sempre acabavam chegando em casa. Meu pai sempre gostou de fazer discursos do politicamente correto, do respeito e da solidariedade. Na verdade, eu acho que ele sempre soube o que eu fazia, mas preferia não enxergar. Talvez assim sofresse menos. Quem está de fora afirma que pessoas assim como eu são mal-educadas. Faço justiça. Meu pai sempre me educou muito bem. Eu que não aprendi. Então o mais correto seria chamar de mal-aprendidos, em vez de mal-educados.

Minha adolescência foi uma fase de conquista. Egoísta. Sempre pensei em mim. Em primeiro lugar. Em segundo lugar. Em terceiro lugar. Nunca gostei de perder e quem atravessasse meu caminho sofria por isso. Acompanhava, mas não me importava, com o sofrimento da minha mãe. Quando mergulhei nas drogas ela também mergulhou para me salvar. É impressionante o poder de uma mãe. Ela não pensa duas vezes para fazer o que é certo. Até dar na cara de traficantes no ponto dele, ela deu. Neste dia, ouvi de um, na boca de fumo, dizendo que não faria nada com ela porque ele também tinha mãe e que mãe era uma coisa sagrada. Ouvi também que eu estava ferrado.

Com isso, minha mãe me mandou para a casa de uma tia em outro estado para tratamento. Nas visitas que minha mãe fazia na clínica? Era sempre agressivo. Sem um gesto de carinho. Somente quando precisava de alguma coisa. Fui monitorado por muito tempo e por uma equipe grande. Fiquei limpo e continuo assim. Ééééé!!! o dinheiro pode comprar muita coisa. Mesmo.

Quem tem, pode. E o que acontece com a empregada doméstica, abandonada pelo marido, com cinco filhos pequenos e o mais velho com 12, totalmente envolvido com as drogas? Depois o moleque leva um tiro, a polícia diz no jornal que o elemento tinha passagem, não investiga o acontecido e ninguém cobra investigação. A coitada da mãe continua na luta para sobreviver com os outros quatro filhos, mas isso não rende manchete.

Em outro episódio, uma menina que conheci engravidou. Planejada? Desde quando a gente planeja algo assim? Exigi da minha mãe dinheiro porque íamos tirar. Ela implorou que não fizesse isso, que ela daria um jeito de criar o neto, que ajudaria em tudo. Apelou para a consciência (qual?), enfiou Deus no meio da conversa. Não teve jeito. Conseguimos alguém mais barato e demos um jeito de tirar. A dor de minha mãe era visível, mas mais uma vez pensei em mim.

E foi assim – pensando somente em mim – que fiz o que fiz. Muitas vezes. Faço esse exame de consciência agora e revejo tudo isso porque me deparei com algo mais forte do que eu. Algo inevitável. A morte. Não a minha. A de minha mãe. Neste caixão o semblante dela me chama a atenção. Sei que ela me perdoou de todas as coisas ruins que fiz e ela seguirá o seu caminho em paz. Me arrependo de muita coisa que fiz, mas uma vai me perseguir pelo resto da vida. De nunca ter dito para minha mãe o quanto a amo.

domingo, 1 de março de 2009

Filha, sempre vou amar você


Hoje encontrei aquele vestidinho branco que você usou no batizado, presente da madrinha. Não se preocupe! Vou guardá-lo para sempre e você poderá mostrar para meus netos.

Dor. Essa é a característica principal que me acompanha nos últimos anos. Desde quando perdi minha filhinha de cinco anos, nunca mais fui a mesma. Muita gente tenta me consolar, dizer que se trata de um plano divino, que Deus quis assim. Mas não me conformo. Se for mesmo um plano de Deus quero saber quando fui parte de tudo isso. Reivindico o direito de um plano participativo. Afinal faço parte dele, não?

Marcinha tinha apenas cinco aninhos. Fui buscá-la na escolinha. Ela estava muito feliz e me mostrou no carro um desenho que havia feito na sala de aula. Muito colorido, a folha de papel sulfite ostentava um casal e uma menininha, vestida com uma blusinha amarela e uma saia preta, brincando com um poodle no quintal da casa bege com detalhes em terracota. A nossa família.

Destruída. Por aquele irresponsável embriagado que atravessou o sinal vermelho e atingiu na lateral do meu carro, onde estava a Marcinha. O bêbado foi preso, mas como tem advogado esperto, está respondendo agora em liberdade e aguarda julgamento. Espero que ele morra na cadeia. Sei que não é um sentimento muito cristão, mas é o que sinto. Peço sempre a Deus, Àquele mesmo que não me deixa participar da elaboração do plano, que me ajude a não sentir essas coisas de ser humano. Amar e odiar ao mesmo tempo.

Viver com a imagem da Marcinha como se tivesse ao meu lado todos os dias é muito doloroso. Ao mesmo tempo em que eu sei que ela partiu, ela me acompanha todos os dias. É uma rotina torturante. Eu a levo para a escola e sinto o seu beijo do lado direito do meu rosto. A mão dela passa suavemente sobre o meu cabelo e ouço com muita doçura. __Mamãe, eu amo você. Ao que eu respondo. __Também amo você, tenha uma boa aula. E a porta do carro se fecha.

Toda vez ao fazer sacolão, ela me pede maçã. A Marcinha adora peras também. Não é uma menina comum. Ela come de tudo. Frutas, verduras. Não tem frescura com isso ou com aquilo. Às vezes me pergunto se ela existe mesmo. A maioria dos filhos das minhas amigas quase não come. Na hora da refeição é uma luta, um brigueiro só. Se bem que minhas amigas também não são chegadas num prato de salada. Umas chegam a comer uma só folha – média – de alface e quer que o filho engula rúcula, beterraba e agrião. Vai entender...

Hoje estava arrumando o quarto da Marcinha – faço questão de manter do jeitinho que ela gosta – e encontrei o vestidinho branco do batizado dela, que ganhou da madrinha. Ai que coisa fofa aqueles lacinhos rosas e as rendas pratas. O sapatinho então! Como é pequeninho! Como tudo isso foi tirado de mim. Não foi não! Daqui a pouco a Marcinha chega da casa da Day e tudo volta ao normal. Nunca vou me separar desta menininha. Eu a amo muito. Toda dia é uma declaração de amor.

Aliás declaração bonitinha eu recebi no dia das mães do ano passado. __Mamãe, eu vivo porque você meu deu a vida. A minha vida então é você. Sei que foi a professora que ajudou ela a escrever isso. Apesar de já estar alfabetizada, convenhamos é uma frase difícil para uma criança de apenas cinco aninhos escrever. Não importa! Importa que é pra mim. E ela assinou tão bonitinho. Marcinha, sua filhinha. Lembrar disso me deixa muito emocionada.

E outra emoção forte eu senti na semana passada, no meu aniversário. A Marcinha foi com o pai ao shopping e comprou uma correntinha linda com um pingente maravilhoso. O pingente é em formato de coração que se abre e dentro uma foto da minha menininha. Eles escolheram a foto dela que eu mais adoro. Uma que está com um vestidinho rosa claro e um lacinho branco na cabeça, contrastando com o castanho escuro dos cabelos. Foi o melhor presente que ganhei na vida. Pendurei no pescoço e somente tiro para tomar banho, mas penduro em algum lugar que eu possa ver do chuveiro.

AAAAHHHHHMMMMMMMMMM... Acho que vou dormir um pouco. Ouço umas vozes que falam muito. Reconheço a da minha mãe que pergunta alguma coisa do tipo como ela está doutor? Do outro lado, uma voz masculina suave e grave, responde algo que não sei de quem estão falando. __Ela teve uma nova crise num sofrimento psíquico muito forte. Nós a sedamos para que descanse. Agora ela fala o tempo todo de uma menina chamada Marcinha, que seria filha dela. Ela descreve cenas com tanto realismo que se eu não fosse o psiquiatra dela juraria que é verdade.