domingo, 1 de março de 2009

Filha, sempre vou amar você


Hoje encontrei aquele vestidinho branco que você usou no batizado, presente da madrinha. Não se preocupe! Vou guardá-lo para sempre e você poderá mostrar para meus netos.

Dor. Essa é a característica principal que me acompanha nos últimos anos. Desde quando perdi minha filhinha de cinco anos, nunca mais fui a mesma. Muita gente tenta me consolar, dizer que se trata de um plano divino, que Deus quis assim. Mas não me conformo. Se for mesmo um plano de Deus quero saber quando fui parte de tudo isso. Reivindico o direito de um plano participativo. Afinal faço parte dele, não?

Marcinha tinha apenas cinco aninhos. Fui buscá-la na escolinha. Ela estava muito feliz e me mostrou no carro um desenho que havia feito na sala de aula. Muito colorido, a folha de papel sulfite ostentava um casal e uma menininha, vestida com uma blusinha amarela e uma saia preta, brincando com um poodle no quintal da casa bege com detalhes em terracota. A nossa família.

Destruída. Por aquele irresponsável embriagado que atravessou o sinal vermelho e atingiu na lateral do meu carro, onde estava a Marcinha. O bêbado foi preso, mas como tem advogado esperto, está respondendo agora em liberdade e aguarda julgamento. Espero que ele morra na cadeia. Sei que não é um sentimento muito cristão, mas é o que sinto. Peço sempre a Deus, Àquele mesmo que não me deixa participar da elaboração do plano, que me ajude a não sentir essas coisas de ser humano. Amar e odiar ao mesmo tempo.

Viver com a imagem da Marcinha como se tivesse ao meu lado todos os dias é muito doloroso. Ao mesmo tempo em que eu sei que ela partiu, ela me acompanha todos os dias. É uma rotina torturante. Eu a levo para a escola e sinto o seu beijo do lado direito do meu rosto. A mão dela passa suavemente sobre o meu cabelo e ouço com muita doçura. __Mamãe, eu amo você. Ao que eu respondo. __Também amo você, tenha uma boa aula. E a porta do carro se fecha.

Toda vez ao fazer sacolão, ela me pede maçã. A Marcinha adora peras também. Não é uma menina comum. Ela come de tudo. Frutas, verduras. Não tem frescura com isso ou com aquilo. Às vezes me pergunto se ela existe mesmo. A maioria dos filhos das minhas amigas quase não come. Na hora da refeição é uma luta, um brigueiro só. Se bem que minhas amigas também não são chegadas num prato de salada. Umas chegam a comer uma só folha – média – de alface e quer que o filho engula rúcula, beterraba e agrião. Vai entender...

Hoje estava arrumando o quarto da Marcinha – faço questão de manter do jeitinho que ela gosta – e encontrei o vestidinho branco do batizado dela, que ganhou da madrinha. Ai que coisa fofa aqueles lacinhos rosas e as rendas pratas. O sapatinho então! Como é pequeninho! Como tudo isso foi tirado de mim. Não foi não! Daqui a pouco a Marcinha chega da casa da Day e tudo volta ao normal. Nunca vou me separar desta menininha. Eu a amo muito. Toda dia é uma declaração de amor.

Aliás declaração bonitinha eu recebi no dia das mães do ano passado. __Mamãe, eu vivo porque você meu deu a vida. A minha vida então é você. Sei que foi a professora que ajudou ela a escrever isso. Apesar de já estar alfabetizada, convenhamos é uma frase difícil para uma criança de apenas cinco aninhos escrever. Não importa! Importa que é pra mim. E ela assinou tão bonitinho. Marcinha, sua filhinha. Lembrar disso me deixa muito emocionada.

E outra emoção forte eu senti na semana passada, no meu aniversário. A Marcinha foi com o pai ao shopping e comprou uma correntinha linda com um pingente maravilhoso. O pingente é em formato de coração que se abre e dentro uma foto da minha menininha. Eles escolheram a foto dela que eu mais adoro. Uma que está com um vestidinho rosa claro e um lacinho branco na cabeça, contrastando com o castanho escuro dos cabelos. Foi o melhor presente que ganhei na vida. Pendurei no pescoço e somente tiro para tomar banho, mas penduro em algum lugar que eu possa ver do chuveiro.

AAAAHHHHHMMMMMMMMMM... Acho que vou dormir um pouco. Ouço umas vozes que falam muito. Reconheço a da minha mãe que pergunta alguma coisa do tipo como ela está doutor? Do outro lado, uma voz masculina suave e grave, responde algo que não sei de quem estão falando. __Ela teve uma nova crise num sofrimento psíquico muito forte. Nós a sedamos para que descanse. Agora ela fala o tempo todo de uma menina chamada Marcinha, que seria filha dela. Ela descreve cenas com tanto realismo que se eu não fosse o psiquiatra dela juraria que é verdade.

2 comentários:

Veronica disse...

Ai Rei.. que história triste, mas infelizmente é a realidade de algumas mães que sofrem ao perderem seus filhos de forma trágica.
E você como sempre de forma brilhante relatou o sofriemento da mãe, doeu em mim por ser mãe também...
Bju voce é MARA!!!!

sou uma força de deus disse...

helena ...,é realmente muito triste acho triste e vivo essa tristeza e sei na carne o que ela quiz dizer ,a gente sempre acha que vai ter um milagre que jesus vai ficar com pena da nossa dor dor e vai fazer esse pesadelo acabar ,perdi meu unico filho homem de 18anos foi assaltado e o mataram com dois tiros ,hoje sofro cada adoscente que morre ,choro por cada mãe que passa por essa tragedia,desculpa preciso gritar ao mundo ,me sinto sufocada,um abraço