domingo, 22 de março de 2009

Na mesma moeda


Ele é investigador e para conseguir as provas necessárias não hesita em dar uns socos e pontapés. Afinal métodos informais são mais rápidos que a ciência forense.

Ele é investigador policial e volta meia se mete em confusão nas investigações que comanda. Erros graves são cometidos por ele e por outros da corporação, sem o menor ressentimento. Os métodos científicos são ignorados, até porque o investimento público em ciência forense é quase nulo. Se o governo investisse mais na análise científica dos crimes, talvez ele não precisasse de métodos, digamos informais, para conseguir as provas necessárias.

Um episódio marcou a carreira dele e a de mais dois investigadores. Os três fariam uma abordagem a dois suspeitos de um crime, mas dois jovens estavam na hora errada e no local errado, apesar de estarem na hora certa e no local certo. Dois irmãos, vizinhos inocentes dos verdadeiros elementos, estavam em casa vendo a novela das oito quando os policiais chegaram para uma diligência. Eles entraram na casa errada. O número real – 68 – virou 86 por causa de um erro de digitação. Estranhas e tristes coincidências da vida.

Os policiais entraram enfiando de sola em tudo. Algemados, os irmãos levaram socos, pontapés e outros métodos pouco científicos. Foram levados para a delegacia e a interrogação continuou sendo feita pelos policiais. Os irmãos, que ficaram incomunicáveis por um tempo, acabaram assinando uma confissão. Com o documento o delegado comunicou a solução do crime sob holofotes da imprensa e de programas policiais no melhor estilo mundo-cão.

Mobilizada, a família contratou advogado que conseguiu contato com os irmãos que relataram tudo. O advogado perguntou por que? ambos assinaram a confissão se eram inocentes. Um deles não titubeou. __Do jeito que bateram, eu confessava que tinha matado até a Odete Roitman. No dia seguinte, o advogado deu entrevista coletiva contando os métodos de investigação da Polícia. O tenente, responsável pelo setor de atendimento a jornalistas, saiu em defesa sumária dos policiais, desqualificando ainda mais os irmãos.

As informações do advogado foram corroboradas por uma denúncia anônima que levou a Polícia aos verdadeiros criminosos. Um processo foi aberto contra os três investigadores, mas o corporativismo policial tem arrastado a sua conclusão. Afastados das ruas por um período, os três policiais voltaram aos seus postos e passados 11 meses da abertura, o processo ainda não foi concluído. Os irmãos movem uma ação contra os policiais e o estado.

A história dos irmãos é apenas mais uma entre as muitas que revelam a prática da violência na polícia brasileira, em que policiais são acusados de provocar lesões graves e até mesmo homicídios. E a impunidade continua reinando entre os violentos profissionais que deveriam cuidar de um dos maiores patrimônios da humanidade, a vida. Fatores como a ameaça contra os denunciantes, a difícil comprovação da prática da tortura e a falta de órgãos confiáveis para comandar processos contra os crimes de tortura fazem com que policiais criminosos continuem na ativa.

Voltando, ao investigador que comandou a operação contra os dois irmãos... Ele tem um filho de 18 anos, que gosta de sair com os amigos para beber e curtir a vida. Num desses finais de semana, o rapaz e mais dois amigos foram a um bar no conjunto onde moram. Beberam, riram, jogaram sinuca, paqueraram... enfim se divertiram. De volta para casa, uma viatura militar interceptou-os numa avenida pouco movimentada.

Os policiais chegaram de sola, tirando-os truculentamente do veículo. Revistaram e não acharam nada que os comprometessem, com exceção do hálito alcoólico. Neste momento um dos policiais começa a socar o filho do investigador, exemplo seguido pelos outros policiais que começaram a agredir os outros dois rapazes. Eles tentaram argumentar e quanto mais falavam, mais apanhavam. Por fim, um dos policiais pegou na viatura algumas trouxinhas e as colocou no bolso dos três rapazes, que foram levados para flagrante.

O investigador somente teve acesso ao filho na manhã seguinte depois de conseguir movimentar conhecidos seus na corporação. O menino contou tudo o que aconteceu ao pai que ficou estarrecido com a situação. Inconformado, o investigador prometeu justiça ao filho e, hoje, move uma ação contra os policiais da abordagem e contra o estado.

2 comentários:

Danilo disse...

Reinaldo, acho que você não gosta destas bonequinhas. Você as matou em duas crônicas, coitadas!

Reinaldo C. Zanardi disse...

Danilo, não se preocupe. Elas continuam vivas. E o cachê que paguei foi alto. Rs. Valeu rapaz.