domingo, 8 de março de 2009

Oportunidade perdida


Sei que aprontei demais e trouxe muito desgosto para meus pais. E foi assim – pensando somente em mim – que fiz o que fiz. Muitas vezes.

Nunca fui um filho muito bom. Pelo contrário. Sempre dei muita dor de cabeça para meus pais. Aprontei muitas. Eles sempre cuidaram de mim, mesmo quando eu não merecia. Lembro uma vez na escola em, que coloquei tachinha na carteira da professora. Ô dó. Como ninguém viu que fui eu, acabei apontando um desafeto como o autor. O moleque não teve como se defender e foi suspenso uma semana. Meu pai usou o exemplo para mostrar o que não devemos fazer. Entrou por um e saiu por outro ouvido.

Aliás a escola é um lugar perfeito para isso. Quem está fora das regras sociais –ditas padrão – acaba se ferrando na mão dos grupinhos mais populares. Nerd? É um prato cheio. O caderno sempre muito bem cuidado, com todas as anotações para a prova. Quantas vezes, eu e mais uns amigos, pegávamos o caderno de um desses para copiar tudo e ainda dávamos sumiço na prova do crime. Não foi uma. Não foram duas vezes.

Tinham outras vítimas, os gordos, os de óculos fundo de garrafa, os esquisitos punks e afeminados e por aí vai. E o mais engraçado é que a escola sempre defendeu o respeito à diversidade, mas na prática isso não se traduz em respeito aos diferentes. Esses se ferram mesmo. Eu cansei de presenciar professores fazendo distinção entre os alunos. Sempre tem os queridinhos e os amaldiçoados. E quem mais precisa, sempre tem menos. A escola deve repensar suas atitudes. Há! Há! Há!

O pior de tudo é que esses problemas, de um jeito ou de outro, sempre acabavam chegando em casa. Meu pai sempre gostou de fazer discursos do politicamente correto, do respeito e da solidariedade. Na verdade, eu acho que ele sempre soube o que eu fazia, mas preferia não enxergar. Talvez assim sofresse menos. Quem está de fora afirma que pessoas assim como eu são mal-educadas. Faço justiça. Meu pai sempre me educou muito bem. Eu que não aprendi. Então o mais correto seria chamar de mal-aprendidos, em vez de mal-educados.

Minha adolescência foi uma fase de conquista. Egoísta. Sempre pensei em mim. Em primeiro lugar. Em segundo lugar. Em terceiro lugar. Nunca gostei de perder e quem atravessasse meu caminho sofria por isso. Acompanhava, mas não me importava, com o sofrimento da minha mãe. Quando mergulhei nas drogas ela também mergulhou para me salvar. É impressionante o poder de uma mãe. Ela não pensa duas vezes para fazer o que é certo. Até dar na cara de traficantes no ponto dele, ela deu. Neste dia, ouvi de um, na boca de fumo, dizendo que não faria nada com ela porque ele também tinha mãe e que mãe era uma coisa sagrada. Ouvi também que eu estava ferrado.

Com isso, minha mãe me mandou para a casa de uma tia em outro estado para tratamento. Nas visitas que minha mãe fazia na clínica? Era sempre agressivo. Sem um gesto de carinho. Somente quando precisava de alguma coisa. Fui monitorado por muito tempo e por uma equipe grande. Fiquei limpo e continuo assim. Ééééé!!! o dinheiro pode comprar muita coisa. Mesmo.

Quem tem, pode. E o que acontece com a empregada doméstica, abandonada pelo marido, com cinco filhos pequenos e o mais velho com 12, totalmente envolvido com as drogas? Depois o moleque leva um tiro, a polícia diz no jornal que o elemento tinha passagem, não investiga o acontecido e ninguém cobra investigação. A coitada da mãe continua na luta para sobreviver com os outros quatro filhos, mas isso não rende manchete.

Em outro episódio, uma menina que conheci engravidou. Planejada? Desde quando a gente planeja algo assim? Exigi da minha mãe dinheiro porque íamos tirar. Ela implorou que não fizesse isso, que ela daria um jeito de criar o neto, que ajudaria em tudo. Apelou para a consciência (qual?), enfiou Deus no meio da conversa. Não teve jeito. Conseguimos alguém mais barato e demos um jeito de tirar. A dor de minha mãe era visível, mas mais uma vez pensei em mim.

E foi assim – pensando somente em mim – que fiz o que fiz. Muitas vezes. Faço esse exame de consciência agora e revejo tudo isso porque me deparei com algo mais forte do que eu. Algo inevitável. A morte. Não a minha. A de minha mãe. Neste caixão o semblante dela me chama a atenção. Sei que ela me perdoou de todas as coisas ruins que fiz e ela seguirá o seu caminho em paz. Me arrependo de muita coisa que fiz, mas uma vai me perseguir pelo resto da vida. De nunca ter dito para minha mãe o quanto a amo.

Um comentário:

Jean Tonsig disse...

Pelo texto dá para ver quanto sou parecido com o personagem, egoísta, "mal aprendidos", principalmente com os pais, enfim, arianos.
Mas, esta crônica vale-me para não se esquecer de dar um grande beijos neles e dizer o quanto amo.
Abraços,Ray.