domingo, 15 de março de 2009

Trabalhar demais faz mal


Certamente, ficar desempregado é algo muito ruim. Mas trabalho excessivo também não faz muito bem à saúde. Ainda bem que existe o ócio criativo.

Esse mundo está muito mudado mesmo. Você já reparou que as pessoas não reparam mais nas coisas simples da vida? É uma pena porque é na miudeza que se encontra muita beleza e sem preocupações com rimas pobres, por favor. Olhe o percevejo verde. É uma praga nas plantações de soja. E até nos jardins. O bicho não perdoa nem planta decorativa. Eles detonam tudo e ainda são fedorentos. Mas é um inseto bonitinho, mas tem que chegar perto para ver. Olha o da foto. Não parece que o danado está fazendo pose?

E essa beleza miúda e despretensiosa passa despercebida porque todo mundo tem pressa. Todo mundo tem mais o que fazer. Todo mundo não pode perder tempo. Todo mundo tem que correr contra o relógio. E o que é esse tal de tempo? Nosso feitor? Nosso dono? Somos escravos dele! Nos deixamos escravizar e, ainda por cima, colocamos a culpa nos outros, nas situações que muitas vezes nós mesmo criamos. Um exemplo? Vários.

Tenho um amigo, o Thiago, que se formou em uma grande universidade e conseguiu o emprego que todos queriam. Logo depois, se casou. A mulher dele sempre quis conhecer Fortaleza e, quase em todas as férias, eles planejavam conhecer a cidade. E sempre acontecia alguma coisa que o fazia mudar os planos. Trabalho. Não foi uma. Não foram duas vezes. Ele acabava encurtando o período de férias e para não deixar a mulher chateada fazia uma viagem curta. Sempre para o mesmo lugar. Caiobá. E não é que mesmo em férias ele ia para o mesmo lugar que muitos executivos da empresa iam? Tem gente que sofre porque quer.

E sofrimento mesmo teve um outro amigo, o João. O primeiro filho nasceu quando ele fazia mestrado. Como trabalhava e não pode ter bolsa, levou as duas obrigações juntas. Empresa e universidade. E como algo precisava ser sacrificado, ele sacrificou a família. A mulher dele até jogava bola com o menino porque o pai estava trancado em casa estudando. E mal acabou o mestrado, começou o doutorado. E a mulher não ficou grávida do segundo? Êita sina besta essa! Se dependesse da mulher, ela viraria treinadora de futebol mirim. Foram tantas as crises, que ele acabou se separando. Hoje é um doutor quarentão. Respeitado. Reverenciado. Invejado. E solitário.

Solitário mesmo vive o Cido. Grande amigo esse, mas arisco. A gente só se via em casamento e velório. Como, atualmente, poucos se casam e poucos morrem porque têm qualidade de vida, então a gente se vê em poucos momentos. Mas ele tem uma história interessante. Sempre trabalhou demais. Fazia todas as horas-extras que podia, as que não podiam e as que mandavam fazer. E ainda arrumava uns bicos para engordar o bolso. Isso custou muita privação. De momentos com a família. De momentos no bar com os amigos. De momentos de lazer. Ele guardava o dinheiro para comprar um apartamento melhor. E agora que conseguiu teve um derrame. Não morreu, mas pelo menos está curtindo o apartamento já que não consegue mais trabalhar.

O Ministério da Saúde adverte: trabalhar demais faz mal à saúde. E faz mesmo. Você acha isso brincadeira? Uma pesquisa divulgada recentemente mostrou que o estresse é um importante fator para desencadear o infarto. E onde o estresse mais aparece? No trabalho. Cobrança por resultados. Relações sociais deterioradas pela competição. Carga horária excessiva. Chefia desumana. E por aí vai. Tudo é padronizado. Tem que seguir um padrão.

E isso custa vidas? Foi o que li numa notícia dia desses. Uma situação para pensar e muito. Uma modelo de 19 anos morreu por causa da bulimia. A menina era linda; 1m79, 57 kg. E ela se achava gorda. Entrou numa roda. Viva. E saiu morta. Não teve volta. Essas meninas buscam atender a um padrão exigido pela sociedade e quando tentam atingir esse padrão – e não dá certo – a mesma sociedade que o criou acaba transferindo a responsabilidade.

A modelo morreu por causa do trabalho. Meu amigo Cido ficou doente por causa do trabalho. Meu outro amigo, o Thiago, não conhece Fortaleza por causa do trabalho. Meu outro amigo, o doutor João, é solitário por causa do trabalho. Ainda bem que tem gente doida para propor umas coisas doidas, como o sociólogo Domenico de Masi, criador da teoria do ócio criativo.

Pra mim está mais para estilo de vida que meu avô já pregava. Nada de acumular bens, mas viver bem. Meu avô colonizou a região quando tudo era mato. Sempre trabalhou muito, mas nunca abriu mão do prazer, do convívio com a mulher, filhos, parentes e amigos. Morreu com mais de 90 e lúcido, dizendo que foi feliz. Por isso, vou fazer agora uma das coisas mais simples e prazerosas dos últimos meses. Vou ver a grama crescer na frente de casa.

Um comentário:

Atento disse...

Muito significativa e expressiva essa de ver a grama crescer. Eu também acredito que trabalhar demais faz mal mesmo. E também gosto da natureza e de tudo que é natural. Sem a natureza a vida não tem sentido. Nesse ponto sou capial ao extremo. Se me derem um apartamento num segundo andar que seja, de um prédio alto, nem se me pagarem moro nele.
Esse mundo está realmente mudado, prezado blogueiro. Mas fico contente e animado de saber que tem outras pessoas como eu, resgatando esses valores perdidos e o que é melhor vivendo-os na atualidade sem se importar com a deleteria modernidade. É isto ai, vamos ver a grama crescer, o sol se por e nascer, andar descalço, curtir o quintal com arvores, plantar arvores e simplesmente ficar sem fazer nada de vez em sempre...