domingo, 17 de maio de 2009

Muleque questionador


Ele tem uma perspicácia invejada por muitos da família, mas se torna inconveniente quando começa a questionar tudo e todos.

Bruninho é um muleque precoce, que tem o poder de questionar determinadas coisas que deixam os adultos corados de vergonha, não pelo tema em si, mas pela capacitar de desconsertar a todos nas mais informais conversas. O muleque é mesmo um talento. Todo mundo fica feliz com a inteligência dele, mas se irrita quando vira alvo das suas avaliações.

Ele já passou daquela fase de perguntar se papai Noel existe, por que coelho é símbolo da Páscoa se não bota ovo e de onde vêm os bebês... Aliás, neste último tema ele soltou uma pérola dia desses para a funcionária da casa, a Francinalva. Bruno e os pais moram com os avós. Ou os avós moram com Bruno e os pais? Enfim...

A Francinalva reclamava com a avó do Bruno – a Maria Dolores, que o Geraldo – marido da Francinalva – não dá sossego di noite. O pedreiro quer porque quer e não respeita nem dor de cabeça. Depois de ouvir, atentamente, Maria Dolores fica sem reação. Não é que o muleque ouviu a conversa sussurrada e deu a receita!

__Francinalva, isso não é nada bonito e muito menos coisa de garanhão, viu? Isso é doença. Li numa revista que a compulsão por sexo é um distúrbio psiquiátrico e precisa de tratamento.

Francinalva e Maria Dolores miraram o muleque com cara de espanto, entenderam nada, mas continuaram conversando depois que a avó o mandou para outro lugar.

__Bruninho, vai andar de bicicleta e deixa a gente conversar em paz. Isso coisa de mulher.

Obediente, Bruno pega suas revistas e jornais, mas não foi andar de bicicleta. Foi para o escritório.

Nos últimos dias, o muleque está encafifado com a repercussão do caso do deputado estadual paranaense que se envolveu em um acidente de trânsito que acabou matando dois jovens curitibanos. Ele se questiona como pode um deputado continuar dirigindo se a carteira de motorista está suspensa. _ _ A fiscalização é muito fraca mesmo. Isso é, se existe!. Os pensamentos do muleque estão a mil. Ele devora as informações dos jornais e pesquisa muito na internet.

Na hora do almoço – é um sábado e toda a família se reúne no sábado porque no domingo todos vão comer fora porque ninguém quer cozinhar – o assunto do deputado infrator domina a refeição.

__É um absurdo. Imagina se fosse um cidadão comum? Estaria frito, rosna o tio Alfredo, economiário e funcionário de banco estatal.

__A sociedade tem que se mobilizar, não podemos deixar isso assim, diz a tia Tatiana, professora de manhã num colégio público e de tarde num colégio particular.

__Está certa a família dos jovens. Tem que pressionar porque senão ninguém paga pelo crime, afirma o pai do Bruno, o Bruno pai.

__É! nossos políticos não prestam mesmo, afirma o vô Aroldo.

Bruninho está calado, pensativo e com um ar mais sério que o de costume. Todos notam. E o tio Alfredo provoca o sobrinho.

__Você não vai falar nada Bruninho? Você sempre sabe tudo.

__Estava pensando...

__No que? interrompe o tio Alfredo.

__Na hipocrisia.

__Como? quase engasga o tio Alfredo, que entendeu nada.

__Vi que o Paraná e até o Brasil já condenaram o deputado e colocam os políticos todos num saco só, que político é tudo igual, que ninguém presta...

__Mas tudo isso é verdade meu filho, sentencia professoralmente a tia Tatiana.

__É e não é, titia, diz o irônico muleque. __A senhora condena o deputado por dirigir bêbado e com a carteira suspensa, mas outro dia quando fomos ao shopping a senhora bebeu duas cervejas com a mamãe e na volta fez uma conversão proibida. Qual a diferença? O tamanho do risco para a senhora e para os outros?

__Esperaí Bruninho, são coisas muito diferentes, esbraveja o tio Alfredo.

__Tio, o senhor mesmo está com a carteira suspensa. Eu ouvi o senhor falar pro meu pai outro dia. E veio dirigindo aqui hoje. Ou não veio?

__Bruno Caldas, olha a educação... ia dizendo a mãe do muleque quando foi interrompida pelo avô Aroldo.

__Deixa ele, Clara. Vamos ver onde quer chegar.

__Tio Alfredo, como o senhor, somente no Paraná tem 112.208 motoristas com a habilitação suspensa e que não procuraram o Detran para resolver a situação. Eu li isso na Folha de Londrina. E o que é pior, também li na Folha, que de janeiro a abril deste ano 284.480 motoristas foram notificados pelo Detran. Tio, esse número é 7% do total de motoristas do estado. O senhor não acha muito?

__O que você quer dizer com isso, que eu sou pior que o deputado que matou dois jovens no acidente e que ele deve ser inocentado? espuma o tio Alfredo.

__Não! O senhor é um tio muito bacana. O deputado deve sim pagar pelo crime que cometeu, como todos os cidadãos que também cometem seus crimes. A impunidade gera mais impunidade. Mas o que eu quero dizer mesmo é que os políticos são o reflexo da sociedade. São o nosso reflexo. Nem melhor. Nem pior.

__Ah bom, Bruninho, achei que você tava me ofendendo, acalma-se o tio Alfredo.

O avô Aroldo, que sempre dá corda para Bruninho, desta vez se espantou com a perspicácia do muleque. Até ensaiou algumas reações, mas viu que a argumentação do muleque faz sentido. Ninguém diz mais uma palavra e avó Maria Dolores vai fundo.

__Gente, vamos comer senão a comida esfria.

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