domingo, 28 de junho de 2009

Palavras não explicam


Saio. Sem rumo. Minha cabeça roda. Pensamentos que cortam a racionalidade.

Aliás, pensamentos que misturam outros pensamentos. No fim, sem pensamentos.


Pelas ruas, o vazio. Talvez uma extensão dos meus sentimentos. E sinto nada. Sinto vazio.

Poucos rostos. Sem expressão. Uma ruga. Duas. Ou mais. O tempo marca. As marcas que ficam. Piores, as que não vemos.


Ando mais. Mais. Mais. Fim? Começo? Penso. Enraiveço. Choro. Alivio. Acalmo. Volto.


Entro. Minha cabeça não roda. Pensamentos? Nenhum. Durmo. Amanhã é outro dia.

domingo, 21 de junho de 2009

A fé de dona Catarina

Ela é uma mulher religiosa e tem muita fé em Deus. Neste mês, dona Catarina homenageia os santos de junho: Antônio, João e Pedro.

Dona Catarina é casada há quase 35 anos, aliás, Bodas de Coral que vai comemorar daqui um mês. Ela tem cinco filhos – três homens e duas mulheres. No total, são 11 netos e duas netas. A família, ela não se cansa de dizer, é unida e todos se respeitam. O marido é o orgulho da esposa. __Éder é um homem trabalhador, fiel, carinhoso, não deixa faltar nada. É tudo o que uma mulher precisa. Bom marido. Bom pai. Bom avô.

Fé em Deus. Isso dona Catarina tem de sobra. Ela é uma mulher muito religiosa. Na igreja, a dona de casa ajuda a preparar a missa. Ela confere, semanalmente, todos os paramentos que o padre Jairson usa no ritual. Aliás, é ela quem borda todos os tecidos usados nos mantos, toalhas e outros artigos da paróquia.

A devoção a impulsiona também a fazer outros trabalhos voluntários, como no Apostolado da Oração e no Grupo de Casais. __Esse mundo está perdido mesmo. Falta confiança entre muitos casais. E é isso que leva muitas doenças e discórdia para dentro de casa. Dona Catarina não se cansa de dizer que a família é a base de tudo.

No último sermão, dona Catarina acompanhou as palavras do padre Jairson com muita atenção. Ele pegou a notícia da moda – a Gripe A – e atestou que a peste é um tema para a reflexão dos cristãos. __Muitos que morrem de doenças assim é que estão expiando os seus pecados. Para muitos que têm um comportamento devasso, a doença é uma providência divina. O padre ainda cita como castigos dos céus doenças como a aids e o câncer. __A pessoa definha para expiar os seus pecados.


O grupo de jovens da igreja tenta levar o assunto para debate, mas não encontra muito apelo entre os fiéis. Profissionais de saúde, convidados do grupo, falam sobre as doenças, os sintomas, as formas de transmissão, os tratamentos, sempre de forma natural, mas as doenças estão estigmatizadas e ligadas a significados profundos. Dona Catarina, por exemplo, não consegue pronunciar a palavra câncer. Ela se refere como aquela doença.

__Deus me livre! Mas o pior mesmo é a aids. A gente tem que ser fiel.

A devoção de dona Catarina vai homenagear os santos de junho. Mesmo não muito bem de saúde, ela organiza três terços, com fogueira e tudo. Um é para o Santo Antônio, no dia 13. O outro é para o São João, no dia 24. E o mês termina com mais uma reza, para o São Pedro, no dia 29 de junho. O tema dos terços, dona Catarina já definiu. A cura. __A humanidade precisa de cura. Mesmo para os pecadores há perdão porque Deus é misericordioso.

O terço de Santo Antonio já foi realizado e agora está em organização o terço de São João. Dona Catarina, que não se sente bem, faz questão de ver e rever todos os detalhes: o altar, as flores, os hinos, a comida, a bebida, a fogueira e os fogos de artifício para animar a reza. __ Meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu, principalmente, as que mais precisarem.


No dia do terço de São João, dona Catarina desmaia e é levada às pressas ao hospital. Ela está muito abatida. A gripe evoluiu rapidamente. O terço será comandado pela comadre, a dona Clarice. Dona Catarina fica internada alguns dias para curar uma pneumonia, doença diagnosticada no dia que desmaiou. Os médicos aproveitaram e fizeram uma série de exames. Dona Catarina é liberada, mas não vai conseguir planejar o terço de São Pedro. Ela está em repouso.

Depois de os exames estarem prontos, o médico chama o filho mais velho de dona Catarina para anunciar o diagnóstico. Ele parece menos animado que de costume.

__Olha! É difícil falar isso... O sistema imunológico dela está muito debilitado. O médico vai falando e é interrompido pelo filho de dona Catarina.

__Fale logo doutor. O que minha mãe tem?

__Então, fizemos o exame e depois confirmamos num segundo teste. Um suspiro profundo separa o resto do diagnóstico. __E deu positivo para o vírus HIV. Ela já começou a manifestar alguns sintomas da doença. A dona Catarina vai precisar de muito apoio.

domingo, 14 de junho de 2009

Como é boa essa família


Viver em família é assim mesmo, a gente vai negociando, cedendo aqui para ganhar ali. E a vida segue seu ritmo.

A rotina da minha casa sempre foi muito interessante. A minha mãe nunca deixou de nos dar carinho, mas também sabe muito bem repreender quando é necessário. Ela é rígida e, ao mesmo tempo, amorosa. Todos nós, os filhos, a amamos muito. Não imaginamos viver sem ela.

Me lembro de um episódio quando era pequeno. Eu não queria ir para a escola, porque tinha uns moleques maiores – sempre eles – que me agrediam. Falavam coisas muito chatas. Ser vítima de preconceito é uma coisa realmente triste. Quem já sentiu a discriminação cortar, sabe do que estou falando.

Pois bem, a minha mãe mandou um recado para a professora no caderno de anotações, mas a professora fez nada. Ela até parecia se divertir com a situação. A escola, não deveria, mas é um lugar fértil para discriminação. Quanta! gente – pequena e grande – preconceituosa. Não é nesse espaço que a criança deve aprender a ser cidadão? Como aprender isso, com professores que têm preconceito de todo tipo?

É por isso, que nunca esqueço uma frase que li numa pichação no muro da própria escola. __Nunca deixei que o período que passei na escola influenciasse na minha educação. Mas voltando ao caso dos moleques... contei tudo para a minha mãe. Ela foi na escola, deu de dedo na professora e esperou os moleques no portão. O aviso teve poucas palavras que surtiram muitos efeitos. Aquele grupinho nunca mais me encheu.

Viver em família é um aprendizado diário. Você cede um pouquinho, os outros cedem mais um pouquinho e a convivência vai se tornando possível. Já pensou se ninguém cedesse? Foi assim, quando tivemos – eu e o Lucas – que dividir o quarto com a chegada do Marquinho. Eu disse que não tinha problema ficar com o beliche, desde que fosse a parte de cima. Então deu tudo certo.

E dá certo mesmo na hora do almoço. Cada filho tem uma função. Um ajuda a preparar os alimentos. O outro põe a mesa ou lava a louça. Mais um varre o chão. E assim vai. No dia seguinte, todo mundo troca de tarefa. É para não cansar e todos sabem que a responsabilidade tem que ser dividida.

E responsabilidade lá em casa tem muita. No quintal, cada filho cuida de um pedaço. Eu por exemplo, tenho a missão – diga-se prazerosa – de cuidar do jardim da frente de casa. Eu já plantei muitas flores, mas tenho a minha preferida. Um jasmim branco. Ele reflete a luz nessas manhãs frias, com um sol tímido, mas que teima em atravessar as folhas e galhos. É muito bonito.

E bonito mesmo, foi a minha festa de aniversário. A minha mãe caprichou no bolo, um de cenoura com aquela cobertura durinha de chocolate. Até chapeuzinho e língua de sogra, eu tive. Todos na casa se lambuzaram com os brigadeiros que o tio Arnaldo trouxe. Ganhei de presente uma calculadora científica. Sei que é uma bem baratinha, mas tem um significado especial. Eu usarei muito essa calculadora. Ainda vou para a faculdade de engenharia.

E assim eu tenho mais um ano com a minha mãe e meus irmãos. Fiz 17 e, quando completar 18, devo deixar o abrigo. É uma regra do lugar. Triste, mas é a realidade. Vou aproveitar muito esse período com a minha mãe social. Estão arrumando um lugar para eu morar. Depois que fiz o curso profissionalizante, consegui estágio e tem promessa de ser efetivado. Sei que minha vaga no abrigo será preenchida por alguém que precisa, assim como eu precisei. Por isso, desejo a quem ocupá-la a maior sorte do mundo. A minha já está encaminhada. Ainda bem!

domingo, 7 de junho de 2009

O tamanho do problema


Quando você acha que está no fundo do poço, percebe que outros estão alguns degraus abaixo de você.

Naquela noite chovia muito. Mesmo assim, saí de casa – sem rumo – para esfriar a cabeça. Meus pensamentos voavam de um canto para outro. As idéias ferviam, alimentadas por um sentimento, ou melhor, vários, que iam da frustração à raiva.

Não entendo como podem transformar o ambiente de trabalho num inferno. A hierarquia é necessária até para estabelecer tarefas, prever metas e cobrar resultados. O mais espantoso é que quem cobra dos outros um relacionamento humanizado se torna ainda mais desumano.

Aquela noite veio depois de um dia extremamente ruim. No início da manhã tive uma discussão com a chefia, que trovoava ordens pelo escritório. As novas ordens substituíam as anteriores e, o pior, eram contraditórias. Ao ser confrontada com as medidas anteriores, a chefia ignorava e continuava gritando. Escutei pacientemente, mesmo com a vontade de torcer aquele pescoço fino da chefia.

Como solteiro convicto, e com parceira fixa de mesa e banho – a cama é só minha, fui almoçar na casa da minha mãe. A comida dela é irrecusável. E não tinha comida. Minha mãe estava inconsolável por duas notícias chocantes. Meu pai estava com suspeita de parkinson e minha irmã havia perdido o bebê de oito semanas. A gravidez era de risco. Uma tristeza só. Consolei-a e saí para comer alguma coisa na rua.

No restaurante que, vez ou outra, me socorre, sentei numa ala quase solitário. Não queria ver ninguém, não queria conversar com ninguém. Meus pensamentos já falavam muito. E alto. Saí da mesa e fui me sentar em outra, próxima da janela. O restaurante passava por reformas e, de repente, uma parte do forro caiu em cima da mesa que eu estava. Meus pensamentos congelaram. O movimento naquela ala do restaurante aumentou depois do episódio.

Ao chegar em casa, resgato minhas mensagens de voz. É a Alice. O recado curto e grosso. __Então, liguei para terminar a relação. O Adão me pediu em casamento. Eu aceitei. Adão é – era – o meu melhor amigo. Descubro pela secretária eletrônica que eles tinham um caso. É demais. __Tomara que ele tenha ejaculação precoce.

Assim, foi o meu dia. É demais para uma pessoa só. E caminhando embaixo da chuva sem destino, ouço um assobio. Um morador de rua, embaixo da marquise numa lanchonete, me chama. Fico com medo, aquele de classe média e penso em recusar. __Mas o que de pior pode acontecer hoje? Enfrento meus temores e aceito o chamado.

Pergunto para o homem se ele quer alguma coisa, dinheiro, comida. E ele responde que não. __Quero apenas conversar. Levo um susto grande. Como pode um morador de rua, sem comida, sem bebida, sujo, querer apenas conversar? Sem reação, ouço pacientemente.

Geraldo é o nome dele. E conta sua história. Acabou desgraçado pela bebida. E motivos não lhe faltavam. Os pais dele morreram num acidente quando ele era pequeno. Foi criado por uma tia e seu irmão foi morar com um tio distante 1.200 km. Acabou perdendo o contato. Conseguiu terminar o ensino médio e a faculdade foi adiada porque precisava trabalhar.

Já estabelecido, foi vítima da cobiça do sócio da loja de material elétrico, que roubou tudo. Ele ficou com a conta dos credores. Perdeu a única casa que tinha. A mulher o abandonou, levou os filhos e conseguiu na justiça uma liminar que o determinava ver as crianças uma única vez por semana. E a última. Foi diagnosticado com câncer de fígado.

Ele justificou que só queria contar essa história porque fazia uns 15 dias que não conseguia conversar. Ninguém parava para ouvi-lo. A notícia boa daquele homem é que ele seria internado no dia seguinte, tinha conseguido tratamento num programa assistencial. __Estou me sentindo melhor. Obrigado por me ouvir, disse-me Geraldo.

__E eu que achava que tinha problemas!