domingo, 7 de junho de 2009

O tamanho do problema


Quando você acha que está no fundo do poço, percebe que outros estão alguns degraus abaixo de você.

Naquela noite chovia muito. Mesmo assim, saí de casa – sem rumo – para esfriar a cabeça. Meus pensamentos voavam de um canto para outro. As idéias ferviam, alimentadas por um sentimento, ou melhor, vários, que iam da frustração à raiva.

Não entendo como podem transformar o ambiente de trabalho num inferno. A hierarquia é necessária até para estabelecer tarefas, prever metas e cobrar resultados. O mais espantoso é que quem cobra dos outros um relacionamento humanizado se torna ainda mais desumano.

Aquela noite veio depois de um dia extremamente ruim. No início da manhã tive uma discussão com a chefia, que trovoava ordens pelo escritório. As novas ordens substituíam as anteriores e, o pior, eram contraditórias. Ao ser confrontada com as medidas anteriores, a chefia ignorava e continuava gritando. Escutei pacientemente, mesmo com a vontade de torcer aquele pescoço fino da chefia.

Como solteiro convicto, e com parceira fixa de mesa e banho – a cama é só minha, fui almoçar na casa da minha mãe. A comida dela é irrecusável. E não tinha comida. Minha mãe estava inconsolável por duas notícias chocantes. Meu pai estava com suspeita de parkinson e minha irmã havia perdido o bebê de oito semanas. A gravidez era de risco. Uma tristeza só. Consolei-a e saí para comer alguma coisa na rua.

No restaurante que, vez ou outra, me socorre, sentei numa ala quase solitário. Não queria ver ninguém, não queria conversar com ninguém. Meus pensamentos já falavam muito. E alto. Saí da mesa e fui me sentar em outra, próxima da janela. O restaurante passava por reformas e, de repente, uma parte do forro caiu em cima da mesa que eu estava. Meus pensamentos congelaram. O movimento naquela ala do restaurante aumentou depois do episódio.

Ao chegar em casa, resgato minhas mensagens de voz. É a Alice. O recado curto e grosso. __Então, liguei para terminar a relação. O Adão me pediu em casamento. Eu aceitei. Adão é – era – o meu melhor amigo. Descubro pela secretária eletrônica que eles tinham um caso. É demais. __Tomara que ele tenha ejaculação precoce.

Assim, foi o meu dia. É demais para uma pessoa só. E caminhando embaixo da chuva sem destino, ouço um assobio. Um morador de rua, embaixo da marquise numa lanchonete, me chama. Fico com medo, aquele de classe média e penso em recusar. __Mas o que de pior pode acontecer hoje? Enfrento meus temores e aceito o chamado.

Pergunto para o homem se ele quer alguma coisa, dinheiro, comida. E ele responde que não. __Quero apenas conversar. Levo um susto grande. Como pode um morador de rua, sem comida, sem bebida, sujo, querer apenas conversar? Sem reação, ouço pacientemente.

Geraldo é o nome dele. E conta sua história. Acabou desgraçado pela bebida. E motivos não lhe faltavam. Os pais dele morreram num acidente quando ele era pequeno. Foi criado por uma tia e seu irmão foi morar com um tio distante 1.200 km. Acabou perdendo o contato. Conseguiu terminar o ensino médio e a faculdade foi adiada porque precisava trabalhar.

Já estabelecido, foi vítima da cobiça do sócio da loja de material elétrico, que roubou tudo. Ele ficou com a conta dos credores. Perdeu a única casa que tinha. A mulher o abandonou, levou os filhos e conseguiu na justiça uma liminar que o determinava ver as crianças uma única vez por semana. E a última. Foi diagnosticado com câncer de fígado.

Ele justificou que só queria contar essa história porque fazia uns 15 dias que não conseguia conversar. Ninguém parava para ouvi-lo. A notícia boa daquele homem é que ele seria internado no dia seguinte, tinha conseguido tratamento num programa assistencial. __Estou me sentindo melhor. Obrigado por me ouvir, disse-me Geraldo.

__E eu que achava que tinha problemas!

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