domingo, 21 de junho de 2009

A fé de dona Catarina

Ela é uma mulher religiosa e tem muita fé em Deus. Neste mês, dona Catarina homenageia os santos de junho: Antônio, João e Pedro.

Dona Catarina é casada há quase 35 anos, aliás, Bodas de Coral que vai comemorar daqui um mês. Ela tem cinco filhos – três homens e duas mulheres. No total, são 11 netos e duas netas. A família, ela não se cansa de dizer, é unida e todos se respeitam. O marido é o orgulho da esposa. __Éder é um homem trabalhador, fiel, carinhoso, não deixa faltar nada. É tudo o que uma mulher precisa. Bom marido. Bom pai. Bom avô.

Fé em Deus. Isso dona Catarina tem de sobra. Ela é uma mulher muito religiosa. Na igreja, a dona de casa ajuda a preparar a missa. Ela confere, semanalmente, todos os paramentos que o padre Jairson usa no ritual. Aliás, é ela quem borda todos os tecidos usados nos mantos, toalhas e outros artigos da paróquia.

A devoção a impulsiona também a fazer outros trabalhos voluntários, como no Apostolado da Oração e no Grupo de Casais. __Esse mundo está perdido mesmo. Falta confiança entre muitos casais. E é isso que leva muitas doenças e discórdia para dentro de casa. Dona Catarina não se cansa de dizer que a família é a base de tudo.

No último sermão, dona Catarina acompanhou as palavras do padre Jairson com muita atenção. Ele pegou a notícia da moda – a Gripe A – e atestou que a peste é um tema para a reflexão dos cristãos. __Muitos que morrem de doenças assim é que estão expiando os seus pecados. Para muitos que têm um comportamento devasso, a doença é uma providência divina. O padre ainda cita como castigos dos céus doenças como a aids e o câncer. __A pessoa definha para expiar os seus pecados.


O grupo de jovens da igreja tenta levar o assunto para debate, mas não encontra muito apelo entre os fiéis. Profissionais de saúde, convidados do grupo, falam sobre as doenças, os sintomas, as formas de transmissão, os tratamentos, sempre de forma natural, mas as doenças estão estigmatizadas e ligadas a significados profundos. Dona Catarina, por exemplo, não consegue pronunciar a palavra câncer. Ela se refere como aquela doença.

__Deus me livre! Mas o pior mesmo é a aids. A gente tem que ser fiel.

A devoção de dona Catarina vai homenagear os santos de junho. Mesmo não muito bem de saúde, ela organiza três terços, com fogueira e tudo. Um é para o Santo Antônio, no dia 13. O outro é para o São João, no dia 24. E o mês termina com mais uma reza, para o São Pedro, no dia 29 de junho. O tema dos terços, dona Catarina já definiu. A cura. __A humanidade precisa de cura. Mesmo para os pecadores há perdão porque Deus é misericordioso.

O terço de Santo Antonio já foi realizado e agora está em organização o terço de São João. Dona Catarina, que não se sente bem, faz questão de ver e rever todos os detalhes: o altar, as flores, os hinos, a comida, a bebida, a fogueira e os fogos de artifício para animar a reza. __ Meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu, principalmente, as que mais precisarem.


No dia do terço de São João, dona Catarina desmaia e é levada às pressas ao hospital. Ela está muito abatida. A gripe evoluiu rapidamente. O terço será comandado pela comadre, a dona Clarice. Dona Catarina fica internada alguns dias para curar uma pneumonia, doença diagnosticada no dia que desmaiou. Os médicos aproveitaram e fizeram uma série de exames. Dona Catarina é liberada, mas não vai conseguir planejar o terço de São Pedro. Ela está em repouso.

Depois de os exames estarem prontos, o médico chama o filho mais velho de dona Catarina para anunciar o diagnóstico. Ele parece menos animado que de costume.

__Olha! É difícil falar isso... O sistema imunológico dela está muito debilitado. O médico vai falando e é interrompido pelo filho de dona Catarina.

__Fale logo doutor. O que minha mãe tem?

__Então, fizemos o exame e depois confirmamos num segundo teste. Um suspiro profundo separa o resto do diagnóstico. __E deu positivo para o vírus HIV. Ela já começou a manifestar alguns sintomas da doença. A dona Catarina vai precisar de muito apoio.

3 comentários:

. disse...

Oi Rei, estava com saudades de ler suas crônicas. Essa é boa demais! Uma das melhores, hehehe.

bjo

Elsa Caldeira

Danilo disse...

Reinaldo, então, eu queria ver o que o padre Jairson falaria depois dessa rsrsrs.

Tem uma mulher que mora aqui pra baixo de casa que sofreu um derrame e agora está na cadeira de rodas. Ela era ministra da eucaristia, não saía da igreja e tal. Agora, ela vai à missa na cadeira dela e na hora das preces espontâneas, pede pra Deus recuperar a saúde dela. Só dela, de mais ninguém. Como que por milagre. Agora, como não sarou, ela diz pra minha vó que Deus é muito bom, mas está sendo ruim pra ela porque deixa ela daquele jeito...

Ainda existe gente assim ó... rsrsrs

Parabéns pela crônica. Muito boa.

Renato Cristopher Santos disse...

Parabéns pela produção. A partir de agora, estou te recomendando. Abração.