domingo, 9 de agosto de 2009

Nunca é tarde


Ele foi criado de forma muito rígida. Nunca ouviu do pai um eu te amo. O pai dele também foi criado de forma muito rígida. Assim, como o pai do pai dele...

No sofá, em frente à TV ele ouve o noticiário. Fica emocionado com a história do repórter. Um pai que tinha nada. Trabalhava duro. Ralava muito. Mas todo dia, antes de dormir falava para o filho.


__ Eu te amo. E nunca esqueça isso.

Ele se deu conta que nunca havia falado para o filho o quanto o amava. Procurou o menino, que já estava dormindo. Deixou para o dia seguinte.


De manhã, teve de sair cedo. Não viu o filho acordado. Foi para o trabalho. Em cada instante imaginava como seria dizer, pela primeira vez, eu te amo, meu filho.

Na hora do almoço, a marmita teve um sabor diferente. De ansiedade. Ela contava os minutos para voltar pra casa. O dia não passava.

Mas passou. Hora de ir embora. Despede-se dos companheiros de trabalho. Junta as coisas e corre para o ponto. O ônibus não costuma atrasar. A espera é angustiante. E um barulho corta a angústia. Um carro desgovernado invade a calçada. Atinge o ponto e muitos que esperavam.

Agitação. Ele foi atingido. Comoção. Preso sob o carro. Ambulância. Um motorista bêbado. Bombeiros. Ele tem um último pedido. Um socorrista segura sua mão.

__Fale para o meu filho que amo muito ele. E que ele nunca esqueça isso.

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