terça-feira, 15 de setembro de 2009

Frescuras de mercado

Brasileiro sempre teve mania de importar palavras para substituir o bom e velho português. No mercado, então, isso é febre. Parece que falar em português ofende todos os ouvidos – dos limpos, passando pelos com zumbidos, aos cheios de cera.

Que o professor de educação física tenha virado personal trainner tudo bem. A gente até já se acostumou, mas esse mercado cria cada coisa...
Lembram a antiga boleira? Aquela de mão cheia que morava perto da casa de uma tia quando a gente era pequeno? Aquela boleira que fazia o bolo de aniversário da molecada da rua inteira? Então, essa boleira virou cake designer. E o pior. Aquela a-mi-ga dela que não a vê há muito pergunta.

__E aí o que você faz?
__Sou cake designer.
__Queique o que?

Deixa pra lá. Mas nada está tão ruim que não pode piorar. Aquele salão de cabeleireiro é elegante mesmo. O dono não assina mais em português. Inglesou-se. Hoje ele não é mais um cabeleireiro; é hair stylist. Só de pirraça, o salão concorrente da esquina também mudou de nome. Afrancesou-se. O dono agora é um coiffeur.

Brinca com os dois. E você que achava que no salão era só lavar, secar, cortar e pintar de acaju!

Acaju é a cor do cabelo daquela personal stylist. Ela que já é especializada em look masculino agora está fazendo um MBA em look feminino. Tem coisa mais fashion que essa?

Só não é fashion, quando a personal baby daquela personal stylist vai desleixada para o trabalho. A avó da babysinha fica disacorsoada. E disacorsoada mesmo a velhinha ficou quando quis comprar uma pantufa e olha que ela nem sabe que essa palavra é de origem Inca e significa pegada grande. Já pensou a velhinha ir comprar um pezão? É não ia pegar bem.

E ela foi comprar no maior shopping center. Queria estacionar, mas errou a mão durante uma manobra no Parking e quase atropelou uma personal shopper que fazia um break. Já pensou essa coitada perder as comissões da sale do dia que tinha preços até 60% off?

Bem, a vovozinha conseguiu comprar sua pantufa e terminou o dia na praça de fast food, mas como ela é up to date, montou seu próprio prato no self service. Comeu filet e, de sobremesa, mousse de maracujá.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Plano participativo

Não se trata de convênio de saúde que cobra uma fortuna e fornece poucos e limitados procedimentos – sejam ambulatoriais ou hospitalares – para seus segurados (e as seguradas também!).

Não se trata de programa governamental para discutir políticas públicas em que o gestor faz de conta que descentraliza e o cidadão (e a cidadã também!) faz de conta que ajuda a governar.

Não se trata de plano de ensino de professor (e de professora também!) antenado para que o conhecimento seja construído em sala de aula conjuntamente com seus alunos (e as alunas também!).

Não se trata de artifício publicitário de publicações jornalísticas para que o leitor (e a leitora também!) tenha a sensação de participar da seleção de conteúdo do que será publicado.

Não se trata de estratégia de mercado de empresas que alegam que o se o cliente (e a clienta também!) puder opinar acabará achando soluções corporativas, e o melhor, de graça.

Não se trata de instrumento de entidades comunitárias para incentivar a participação de homens (e mulheres também!) na vida da própria comunidade.

Não se trata de pais (e mães também!) moderninhos que implantaram o modelo wiki de educação e adoram dizer que os filhos (e as filhas também!) foram criados no mais puro diálogo.

Plano Participativo. Então do que se trata?

Trata-se de um mecanismo de participação divina. Antes de o Todo Poderoso decidir o plano para a sua vida, você poderá debater, argumentar, arguir, vetar, planejar a dois, enfim... participar. Mas no fim – ou seria começo? – você não poderá reclamar.

sábado, 5 de setembro de 2009

Inquietudes (2) do Rei

Combater a corrupção é um trabalho mais árduo (e permanente) do que combater apenas os corruptos de plantão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Essa Língua Portuguesa

Criança tem um senso lógico muito interessante e relacionado à Língua Portuguesa as palavras assumem contornos, revelando novos sons, formas e – por que não? – sentidos. Num parquinho com meu filho, dias desses, acabei ouvindo o papo de duas crianças pequenas. Um agrediu o outro verbalmente e este tascou um adjetivo.

__Seu psicopato!

A Yvone deve ter se deleitado na novela das oito. Está fazendo escola até no jardim de infância. Se bem que não precisa muito, criança também sabe ser perversa, afinal bulling é uma prática criminosa infantil. Mas enfim...

Como explicar que um menino não é psicopato, mas um psicopata? Afinal na nossa língua – com implicações sociais e definições de gênero – menino é O e menina é A? Que nem aquela coisa das cores, menino é azul e menina e rosa. Então nada mais lógico que a menina é psicopata e o menino é psicopato.

Alguns autores – ignorando as regras gramaticais mais ortodoxas – andam flexionando as palavras para concordar com o gênero. Por exemplo, há quem defenda a cobra macha e o elefante fêmeo. E o pior de tudo, ao digitar isso no Word, o programa não apontou erro algum. Vai entender...

Talvez seja mesmo a inocência infantil e o senso das crianças falando mais alto. No processo de educação, os métodos mais modernos ensinam que se deve respeitar o jeito da criança falar. Ela não fala errado, fala do jeito dela. Mas chega uma hora que vai querer aprender a falar corretamente.

Isso me lembra uma amiga que conversava com o filho pequeno e este perguntava algo e a mãe insistia que o jeito do filho falar era correto porque era o jeito dele. O moleque não agüentou e advertiu a mãe.

__Não quero do meu jeito, quero do jeito certo!

Então tá.

Deve ser por isso que quando o Otávio era ainda mais criança mudava umas palavras que, aparentemente, não faziam sentido. A centopéia virou miltopéia, afinal parece ter mais de mil perninhas; e o caramujo virou caranojo. Realmente, o bichinho é nojento!