sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Necessidade desnecessária


Que muitas empresas fazem de tudo pra vender produtos não é novidade para ninguém. Que muitos consumidores fazem de tudo pra comprar produtos também não é novidade para ninguém. Algumas campanhas publicitárias, no entanto, abusam da inteligência e da paciência do consumidor e da consumidora. Aliás, publicidade tem o efeito de criar necessidade desnecessária.

Num rápido teste, conte - mentalmente - quantos sapatos você tem. Agora conte quantos você não usa há pelo menos cinco meses. Aquele anúncio de sapato - com descontos especiais, em 6 X e a primeira somente para janeiro - faz você sentir um comichão para comprá-lo? Se você pensou sim, então a publicidade criou uma necessidade desnecessária.

Voltando às campanhas abusivas, uma marca de esmalte lançou, recentemente uma coleção baseada nos pecados capitais. Entre os vermelhos da paleta de cores, há o doce orgulho, a preguicinha, a possessão rosa, a pura luxúria, a santa gula, o toque de ira e a inveja boa.

Dos pecados capitais alguns são mais pecaminosos. É bonito e confere status dizer que tive orgulho do meu feito. Não mexa comigo que viro bicho, me sobe a ira. Ai! não me contive, cedi à gula e comi demais. Sou fera na cama, a luxúria me coça inteiro, que tesão... (ui!). Depois do almoço, aaaaaaaaai! que preguicinha.

Já repararam que ninguém gosta dizer que tem inveja? É feio. E quando o sujeito ou a sujeita admite que tem inveja cria um eufemismo para suavizar a culpa diante do Criador. Diz que tem uma invejinha boa.

__Como assim? Desde quando inveja é boa?
__Não é inveja. É aquela vontade de ter ou ser igual ao outro. Aí a gente luta pra conseguir também.
__Ah! tá, então não é inveja. Não é competição? Já ouvi falar que a competição está a serviço da inveja. Então...
__Credo! Eu só falei da inveja boa.
__Boa! Sei. Consulte o dicionário.


Michaellis afirma que in.ve.ja é um substantivo feminino que designa 1. desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem; 2. desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta; 3. o objeto que provoca esse desejo.

Se existe inveja boa, então existe ira calma, orgulho humilde, gula temperante, preguiça resolutiva, avareza desapegada e luxúria casta. Olhe isso! luxúria casta. A putaria não vai mais ser a mesma.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Palavras indecentes

O politicamente correto tomou conta das expressões e dos vocábulos. A língua já não é mais a mesma. Mas tem gente que teima em desobedecer as regras...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é cego...

__ Senhor Narrador! Cego? Carlinhos tem 7 anos, é uma pessoa com deficiência visual. Corrigiu-me a professora do Carlinhos. Então, tá...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que na vila dele, um menor infrator foi preso pela Polícia porque era drogado...

__ Ops! Senhor Narrador! Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma criança com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa.

__Obrigado professora!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma criança com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente analfabeto. Ele tinha retardo mental, e...

__ Senhor Narrador, que coisa feia! Atente-se para os bons modos vocabulares! Havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais, e...

__Professora, obrigado!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que o bicho pega. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, uma flor de garoto, com trejeitos boiola,

__Mais uma vez, senhor Narrador! Apure o verbo! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação... e Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual.

__Obrrrrigado, professora...

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da vagabunda da vila; o Paulão, o filho do mecânico picareta e corno, ...

__Que absurdo, senhor Narrador! Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio.

__Arg! Professora...!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que a situação começa a dar ares de complicação. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma velha simpática. Ela odeia ficar em casa encostada e, muito menos, fazer sapatinho de tricô para os netos mal educados e mimados. Tanto que ela se juntou a outras duas donas para cuidar da excursão. Dona Gervásia, pra lá dos 60 e separada do marido; e Gertrudes, que amigou com o seo Raimundo.

__ Pare, senhor Narrador! Suas palavras soam difamação, cheiram a calúnia. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma senhora simpática. Ela não gosta de ficar em sua residência vivendo de forma passiva e na sua melhor idade não gosta de fazer sapatinho de tricô para os netos de comportamento difícil e temperamento controverso. Tanto que ela se juntou a outras duas senhoras para cuidar da excursão. Dona Gervásia, com mais de 60 anos e divorciada; e Gertrudes, que vive maritalmente com o seo Raimundo. Viu?! Senhor Narrador!

__Put... Sim, professora...!

Carlinhos tem 7 anos de idade, é uma pessoa com deficiência visual. Ele contava que, no conjunto periférico onde mora, além de um adolescente autor de ato infracional que foi apreendido pela Polícia porque era usuário de substância psicoativa, havia um adolescente que apresentava déficit de aprendizagem porque se tratava de um portador de necessidades especiais! E é aí que o bicho pega. Mudou-se para o conjunto periférico onde moravam os três: a criança com deficiência visual, o usuário de substância psicoativa e o portador de necessidades especiais, o Kaká, um garoto com tendências à orientação homossexual. Os quatro resolveram aderir à excursão para Camboriú, organizada pela Associação de Pais e Mestres da escola. O ônibus tinha vários lugares e foram ocupados pela Tina, a filha da mulher de índole e moral duvidosas da vila; o Paulão, o filho do mecânico desonesto e vítima de adultério em seu matrimônio. Como uma das guias da excursão - dona Geni - uma senhora simpática. Ela não gosta de ficar em sua residência vivendo de forma passiva e na sua melhor idade não gosta de fazer sapatinho de tricô para os netos de comportamento difícil e temperamento controverso. Tanto que ela se juntou a outras duas senhoras para cuidar da excursão. Dona Gervásia, com mais de 60 anos e divorciada; e Gertrudes, que vive maritalmente com o seo Raimundo. Durante a viagem aconteceu uma desgraceira. O filho da puta do motorista dormiu no volante da merda do ônibus, caiu numa ribanceira horrorosa e poucos sobreviveram. Apenas o cego, o drogado, o viadinho e as três velhas...

__ Chega! Senhor Narrador. Isso é demais! Durante a viagem aconteceu algo terrível. O coitado do motorista dormiu ao volante do veículo, caiu num precipício de difícil acesso e poucos sobreviveram. Apenas...

Sei, sei , professora... a pessoa com deficiência visual, o usuário de substâncias psicoativas, o garoto com tendências à orientação homossexual e as três senhoras da melhor idade. Ai! Ai! Estou tendo troço. Uma dor na cabeça terrível. Deve ser um derrame...

__Senhor Narrador! Nem nessas horas! Esse xilique é um AVC - acidente vascular cerebral!

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Crônica publicada originalmente no WebJornal ComTexto/Unopar em 30 de maio de 2007.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Inquietudes (3) do Rei

O brasileiro sempre transfere a responsabilidade, até quando constrói, reforma ou amplia. Por que o dono da bagunça sempre teima em pedir para desculpar o transtorno?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Avental glúteo

A indústria da moda sempre foi muito forte. Estilistas. Costureiras. Editoriais de moda. Fábricas. Lojas. E, é claro, muitos consumidores. Neste caso é mais pertinente afirmar muitas consumidoras. A moda feminina atravessa o tempo inventando e reinventando-se. 

O que a personagem da novela das oito (das sete, das seis, da concorrência) usa na telinha, em pouco tempo está nas ruas. Da moda casual à fashion, as mulheres reproduzem helenas, sílvias, yvones e bebels. Afinal prostituta global tem "catiguria". Viva as pitangas!

Do guarda-roupa profissional, passando pelo armário de festas, um segmento que cresceu - e tem muito para crescer - é a moda das academias, que abusam de tops, malhas e muitos acessórios. Graças ao design, justíssimos.

Neste cenário tem barriguinha de fora, com ou sem piercing no umbigo, e calça (deve ter outro nome e eu não sei) de malha apertada para tornear o bumbum e as coxas. Coisa que toda brasileira (que tem bunda saliente, é claro!) gosta de exibir.

Como a calça separa as duas bandas por causa da malha apertada e da pequena peça íntima da qual é possível ver a marca do elástico cravada no meio, as mais envergonhadas em exibir toda a saliência aproveitam um acessório da moda: o avental glúteo, uma espécie de capa.

Avental, segundo o Michaelis, é "resguardo de pano, couro ou plástico que se usa diante da roupa para protegê-la." Glúteo, segundo o mesmo, "se refere às nádegas". Portanto, avental glúteo é um acessório - nada fashion - para proteção traseira.

As que têm vergonha em exibir esse "look" (ui! - ô palavrinha besta!), optam pela camiseta da semana nacional do trânsito - aquelas que esgarçam depois da primeira lavada - e um agasalho que faz inveja a qualquer pijama. Fazer o que?

Mas se a malha - aquela das exibicionistas (ainda bem que elas existem) - é apertada propositalmente por que inventar um acessório para esconder o que, inicialmente, era para mostrar, exibir, revelar, expor? Há muito mais mistérios entre a indústria e as ruas do que sonha a nossa vã filosofia.