sábado, 28 de novembro de 2009

Hipertensão e hipertensos

“Dia tal, a tal horas, reunião do grupo de hipertensão. Trazer um prato de salgado.”

Pode parecer piada, mas é a pura verdade. O texto acima estampava – dia desses – um cartaz manuscrito na parede da associação de moradores de um bairro da região leste de Londrina.

Depois de debater exaustivamente o significado do texto com a Creide, ela chegou a uma conclusão brilhante.

__É que o grupo é de combate a hipertensos.
__Como assim Creide?
__É isso mesmo! porque se fosse de combate à hipertensão, não teria prato de salgado. Raciocina comigo. Se um hipertenso come sal pode até morrer, então esse grupo não combate a doença. Combate o doente.

É verdade, a Creide tem razão mais uma vez.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Inquietudes (5) do Rei

Por que apresentador de programas de venda – de qualquer coisa pela TV – fala alto, rápido e gesticula sem parar quando apresenta os produtos, como se isso fizesse o consumidor comprar mais?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Que SUSto!

A Creide, aquela minha vizinha, sempre acompanha as notícias na rádia da cidade e, particularmente, ela gosta dos assuntos que tratam do dia-a-dia. Muita gente liga reclamando que a saúde pública não funciona, que falta isso, que falta aquilo. As vozes na rádia não perdoam.

__É verdade, eu demorei um ano e meio pra conseguir uma consulta.
__Minha tia precisa de um exame faz uns oito meses.
__Ai como pobre sofre! Só por Deus mesmo!
__Esse sistema não presta! Tinha que acabar com o SUS.

Nas últimas semanas, a Creide não está entendendo coisa alguma. É que os ouvintes da rádia estão ligando para reclamar da paralisação dos médicos nos hospitais de Londrina. As mesmas vozes voltam a ser impiedosas.

__É um absurdo fazer greve.
__Vocês viram, eles lacraram as portas dos hospitais. Nunca vi isso em Londrina.
__E o atendimento para quem precisa do SUS?

E a Creide na sua simplicidade faz perguntas profundas.

__Se o SUS não funciona por que Londrina ficou apavorada com a suspensão do atendimento médico nos hospitais? Não entendi essa.

A Creide é uma sábia mas não sabe disso.

E o atendimento médico me lembra que eu precisava – dia desses – de uma consulta com um neurologista. Liguei para o consultório de um profissional e ele tinha vaga somente para abril do ano que vem.

Como não pude esperar, consegui consulta com outro para 15 dias depois. Cheguei na hora marcada e o atendimento estava atrasado. Esperei por quase duas horas e o atendimento na sala foi rápido, menos de 15 minutos. Mal fez um exame físico e pediu um monte de exames, que o convênio vai ter que aprovar, auditar, controlar. Vai um tempo ainda para eu saber o diagnóstico.

Mas enfim... nem reclamei. Na sala do consultório tinha TV a cabo, ligada na Globo e passava a Sessão da Tarde. Além disso, tinha a Caras com o réveillon de 2006. Acho que foi por isso que tive a sensação de ter sido bem atendido.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Inquietudes (4) do Rei

Por que a criação do feriado, em Londrina, da Consciência Negra incomoda tanta gente? Muitos – a maioria de cútis branca – se perguntam se vão criar o dia da consciência branca, amarela, vermelha. Por que eles se esquecem – ou não querem lembrar? - que os brancos e os amarelos chegaram aqui e os negros foram arrastados em correntes? Por que ser branco e amarelo é motivo de orgulho? Por que muitos dizem "ele é negro, mas tem alma de branco", como se isso não afetasse a auto-estima e a consciência individual e coletiva? Por que muitos argumentam que o conceito de raça não existe, mas teimam em fazer diferenciações raciais?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Esses médicos

Hospital do Câncer. Instituto do Rim. Clínica de Reumatologia. Hospital do Coração. Clínica de Fraturas. Hospital dos Olhos. Clínica de Alergia e Asma. E cadê a clínica do paciente? Isso mesmo. Já repararam que as clínicas de atendimento à saúde excluem o paciente do nome?

Nunca entendi isso direito, mas é assim ó. O profissional de saúde, depois de formado, abre um negócio próprio – sozinho ou se junta com outros e outras também – e coloca o nome da especialidade que atende, ou melhor, o órgão que atende. Coração. Joelho. Olhos. Rim. E assim por diante. Ou então, optam pela doença na qual se especializaram e – mais uma vez – excluem o doente. É a Clínica da Reumatologia. Da Asma. Do Câncer. Das Doenças Infecciosas. Das Doenças do Aparelho Respiratório. Das Doenças do Aparelho Circulatório.

Uma vizinha minha – a Creide, aquela que tem fama de falar demais – diz que funciona assim porque o médico – e a médica também – não se relaciona com o paciente, mas com a doença. Segundo ela, eles preferem tratar da doença em vez de tratar do doente. É meio esquisito, mas sabe que faz sentido! Isso me faz lembrar que, dia desses, eu estava com um dor na coluna por causa de um desvio da terceira vértebra lombar, bacana não!, e fui procurar o ortopedista que atende a família.

__É paciente antigo?
__Não, nunca fui atendido aí, somente minha sogra, pais, mulher, filho e enteados.
__E qual o seu problema?
__Coluna, ou melhor, dor de coluna.
__Então... para pacientes novos, o doutor só está atendendo joelhos.
__Tudo bem, eu levo os dois na consulta. Pode falar pro doutor.


Argumentei com a secretária. Que eu levava os dois joelhos na consulta. Que minha família já era paciente dele. Que ele fora muito bem recomendado. E não teve jeito. Tive que procurar outro médico que trata de coluna, ou melhor, de doenças da coluna, das dores da coluna.

__Meu nome? Ele nunca perguntou.

É! a Creide tem razão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Saudades do Cido


Sempre achei que a cigarra fosse a barulhenta, mas trata-se do macho da espécie, ou seja, o cigarro. Nesta época do ano, a mata perto de casa vira uma algazarra só. Algumas espécies de cigarra (e cigarro também) chegam a gritar em até 120 decibéis. E essa barulhada todo significa orgia no matagal.

Isso mesmo, é que o cigarro faz esse barulho intenso para atrair a fêmea, que diz a literatura da área, é silenciosa. Então, o escandaloso cigarro grita para trepar. É uma questão de instinto. Será que o cigarro acha a cigarra uma inseta com deficiência auditiva? (PS. surda é uma terminologia politicamente incorreta)

De qualquer forma, essa era a rotina do Cido, o cigarro que se esganiçava na leucena ao lado de casa. Seus hormônios - a mil por hora - anunciavam o desejo de cigarrear. O Cido deve ter encontrado a Cida, sua cigarra alma-gêmea, sua cara metade. É que faz alguns dias que não grita mais. Deve ter completado seu ciclo de vida. A leucena agora anda em silêncio e até sente saudades do Cido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O enxerido


Eles são bons. Eles são maus. E, mesmo assim, são necessários à natureza e à vida humana. Quando viram praga é sinal de desequilíbrio. Do ecossistema. E quem o faz? O homem e também a mulher. A ação humana põe em risco o meio ambiente.



Alguns ajudam a polinizar as plantas, chegando a ser bons colaboradores em áreas agrícolas. Outros são bons produtores - em trabalho não remunerado - e a produção vendida pelo homem e também pela mulher. Entre os produtos estão o mel, a cera e a seda. Essa um mimo para a indústria da moda.


Em alguns lugares do mundo, eles viram petiscos e, às vezes, o prato principal da culinária. Vai um biscoito de bico-da-seda num barzinho japonês? Que tal uma porção de percevejo moído com pimenta e (per) cerveja no México? No Brasil, as tanajuras fritas são boas iguarias.


Além da culinária, os insetos também são usados para fins medicinais. Já ouviram falar de larvas usadas para tratar feridas? É isso mesmo, as larvinhas do bem comem os tecidos mortos das cacas humanas. Credo!


Uns são feios. E de tão feios ficam até simpáticos. A simpatia chega a ser tamanha que alguns posam para a foto, como o enxerido formigão que espia por detrás da folha de orquídea. Eles têm até uma ciência própria para estudá-los: a entomologia.


É isso mesmo: os insetos até parecem inspirar discurso de presidente norte-americano. Sim, eles podem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Querida prima

Ela sempre chega nesta época do ano e nunca avisa, apesar de sua visita ter data marcada para chegar e para sair. A família toda espera ansiosa. Ela traz muita alegria. Os passarinhos e os insetos que povoam os arredores da casa ficam loucos com a sua presença. As cores anunciam a sua chegada. Cores de todos os tons e de todas as nuances. Rosas. Amarelas. Vermelhas. Laranjas. É a visita de uma prima querida. A prima Vera.













sábado, 7 de novembro de 2009

Buraco de rua

Todo dia faço o mesmo caminho para ir ao trabalho ou levar o filho à escola. Com as últimas chuvas e a falta de manutenção - histórica - do asfalto, os buracos de rua se proliferam como mosquito da dengue em água limpa, parada e sol quente.

No meu trajeto cotidiano, vi nascer um buraco no meio da rua. Começou como todo bebê: pequenino, frágil, indefeso, incapaz de praticar maldade. Vi aquele buraco de rua crescer, foi ficando cada vez maior, robusto. Já não era mais indefeso e sua índole era de praticar maldade. Sua especialidade: quebrar o carro alheio.

Mas sempre mantive uma relação de cuidado. Desviava para não passar por cima dele. Diminuía a velocidade. E percebi o quanto as pessoas são intolerantes. Quando muitos não o viam, xingavam, praguejavam. As pessoas realmente não entendem a natureza de um buraco de rua.

No meio do caminho havia um buraco. Havia um buraco no meio do caminho. Havia porque aquele buraco de rua morreu. Taparam a sua boca. Sua existência findou-se. Hoje passo pelo mesmo caminho e há uma mancha denunciando que um dia ali existiu um buraco de rua. Talvez ele volte um dia com a ajuda da chuva intensa.

Eu não sabia, mas os buracos de rua apresentam ramificações, do tipo metástase, para manter a própria espécie. Depois que aquele buraco de rua se foi, deixou sementes e outros vieram ao longo do meu trajeto cotidiano. Agora vejo nascer outros buracos de rua. Começam como todos os bebês: pequeninos, frágeis, indefesos, incapazes de praticar maldade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Julgamento e rótulo

__Um buraco no estômago denuncia minha existência vazia.

É muito pessimista, sorumbático, soturno, macambúzio.

__Temos que aproveitar a vida, esse dom divino.

Coitada! vê borboletas por todos os lados, enxerga a vida corderrosa.

__Eu não vou conseguir. É muito difícil.

Ele sempre desanima, não tem coragem para lutar. É um fracassado.

__Tenha fé que você consegue tudo. Ele proverá.

Falar para os outros é fácil. Ela é uma papahóstia, uma rata de sacristia.

__Os homens que já tive são muito bons, mas sou melhor que eles.

O que falar dela? É uma depravada.

__Mulher ideal? Não existe. Amo todas.

Ele é um galinha, semvergonha.

__Estou desempregado há mais de três anos.

Não trabalha porque não quer, é um vagabundo.

__Comprei meu carro à vista.

Um fominha. Não paga seus empregados direitos e até a pensão atrasa.

Doem as dores de cada um.
Cada um sabe das dores doloridas.
Umas doem mais
Outras doem menos

Das outras dores
Pelo nosso olhar
Julgar, rotular
Machucar e não curar