segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Receita indigesta

Fila é uma praga nacional. Você a enfrenta no caixa do banco, no caixa eletrônico do banco, no pão francês do balcão da padaria, no caixa da padaria, no estacionamento do shopping, no restaurante do shopping, no café expresso do shopping. Em serviço público, então, a praga lembra aquelas do Egito Antigo. A-r-r-a-s-a-d-o-r-a-s. Fila para uma vaga na creche, no posto de saúde, no IPTU, no ISS, na carteira de motorista, no passaporte.

Uma fila é duplamente revoltante, a do parcelamento de débitos federais. Primeiro, porque o imposto cobrado é exorbitante. Falam em justiça fiscal, mas a medida de justiça nem sempre é justa. Segundo, a fila propriamente dita. Nem TV de plasma 42" no saguão anima os ânimos de quem está na fila por duas, três, quatro horas.

Impostos. Isso me lembra a Creide. Ela defende que a cobrança de imposto deve ser feita mesmo e seria prazeroso se o retorno em serviços públicos - em todas as áreas - fosse mais universal e mais eficiente. E nem sempre é assim. A Creide revoltada tem uma teoria.

__Classe média só se ferra. Afinal quem vai pagar a conta da corrupção da elite, aquela que sabe os caminhos para sonegar? e a bolsa-vale-alguma-coisa? É alguém tem que pagar a conta mesmo.

E por falar em pagar a conta, o Reginaldo passou por uma boa, dia desses. Espontaneamente ele procurou o tal órgão que parcela um tributo federal, que emitiu a guia para pagamento. O valor? Ele queria parcelar. O funcionário - daqueles que olha de minuto em minuto as horas para ver a hora passar - emitiu apenas uma guia e disse que, depois de vencida, o Reginaldo poderia voltar para parcelar.

Dito e feito, Reginaldo voltou e achou que a receita do parcelamento estava em dia. Não estava. Outro funcionário disse que da primeira guia, ele deveria pagar uma parte integralmente que não entraria no cálculo do parcelamento.

__Mas essa guia não me foi entregue. Então eu fui muito mal orientado. E o que eu faço? perguntou resignadamente Reginaldo.
__Tem que pagar agora as multas e não precisava.

Êita receita indigesta essa, não Reginaldo? Bem que dá vontade de sair distribuindo uns sopapos numas repartições públicas por aí. Coitado! Ele ficou sabendo das novas instruções depois de mais de duas horas na fila. Ele chegou às 9h23 e foi atendido somente às 11h44 para ser informado que precisaria preencher quatro formulários, levar vários documentos e comprovante de residência.

__E nem quebrar a cara daquele funcionário eu posso, por causa da lei que diz que agredir servidor público é crime.
__É! não é o melhor caminho
, disse o funcionário na conversa atual.

A lei a que se refere Reginaldo é o artigo 331 do Código Penal que trata do desacato a "funcionário público no exercício da função ou em razão dela". A pena é de detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos ou multa. Multa não! Reginaldo não quer pagar nenhuma. Então ele começa a negociar o parcelamento.

Reginaldo é um cara bacana, mas quando é enganado reage à altura. No fundo, bem lá no fundo, ele gostaria de jogar querosene e botar fogo. Mas é crime também. Então ele usa as palavras. Depois de fechar o começo do processo, ele desejou um bom final de ano ao funcionário mais solícito.

__Pra você um bom ano novo, mas aquele que me atendeu da primeira vez que tenha uma péssima passagem de ano.

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