terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Decisões difíceis


Ela está prestes a se formar no curso superior que sempre quis, mas uma visita inesperada vai tirar o seu sossego

Ela tem 21 anos e sua história não é diferente de muita gente. Drama não falta para ela, mas um em particular tem mexido com suas vontades, lembranças e desejos ocultos. A mãe engravidou e o contribuinte do espermatozóide nunca quis saber das consequências.

Orgulhosa, a mãe seguiu em frente com a produção agora independente. A menina foi crescendo sabendo quem era o pai biológico, mas não havia relação. Os pais dele - os avós dela - nunca tomaram partido. Nunca fizeram uma visita. Era como se nada acontecera.

A mãe dela começou a namorar e a menina foi bem recebida pelo namorado. O relacionamento evoluiu e os três foram morar junto. Ele sempre muito dedicado à mãe e à filha. Esta passou a chamá-lo de pai. Este não escondia a satisfação. Passou um ano. Dois anos. Três anos. Quatro anos. E a vida tomou seu rumo. O contribuinte do espermatozóide caiu no esquecimento.

O namorado da mãe virou marido da mãe e seu pai. Num processo judicial - sem grandes tormentas - ele deu seu nome à menina. Ela conseguiu preencher aquele espaço vazio na certidão de nascimento. Espaço que lhe causou muito constrangimento na escola, na creche e onde precisava ser apresentado.

A menina virou mulher. Está terminando a faculdade que sempre quis e tem uma proposta de emprego para se mudar. Cidade maior, mais possibilidades. Talvez pelas emoções que a menina-mulher vive em completar um importante ciclo da vida, um pensamento fixou-se e não desgruda dela. _ _ Como teria sido se meu pai biológico tivesse me assumido?

Um pensamento vem de fora, se instala sem permissão e ainda tortura. Ela sabe que é feliz. Tem uma mãe amorosa. Um pai generoso. Dois irmãos encapetados, mas que não se separam dela. Por que ser torturada por um pensamento desses? Ela não entende. Só quer se afastar do torturador.

Naquela semana mesmo ela acaba compreendendo o sentido dos pensamentos algozes. Ela havia pressentido algo. E uma visita esclareceu o significado dos questionamentos internos insistentes dos últimos dias. Ela não queria passar por aquilo, mas não teve como fugir.

Dois jovens, uns dois ou três anos mais novos que ela, acompanhados da avó, vieram pedir-lhe algo. Eles são filhos do contribuinte do espermatozóide, biologicamente meio-irmãos dela. A avó deles - a avó dela - nunca lhe fez uma visita. Eles contaram que o pai está com um problema renal grave e precisa de um rim. A fila de espera na doação de órgãos é grande.

O tempo dele é curto já que as condições técnicas caminham para não poder realizar um transplante. Dos parentes diretos ninguém é compatível ora por um fator ora por outro. Ela é a última esperança, a semente mais próxima. __Por isso queremos pedir a você para fazer os exames e ver se é compatível e doar um rim ao nosso pai.

Ela ficou perplexa. Os pensamentos não tinham foco nem direção. Ela queria falar um monte de coisa, agredir, gritar, socar. Não conseguia pronunciar uma palavra. A mãe dela tinha todos os motivos para botá-los porta afora. Afinal bater na casa dos outros pedindo um rim não é coisa que se faça. Mas... inesperadamente, a mulher disse à filha. __Você tem 21 anos e nesse tempo todo ele só esteve presente em 15 minutos, na sua concepção. Ele ajudou a dar a sua vida. Mas a decisão é somente sua.

Ela pediu um dia para pensar. Os meio-irmãos biológicos ficaram esperançosos. No dia seguinte, ela fez a ligação ao hotel onde estavam e comunicou que aceitara fazer os exames. Eles se encheram de mais esperanças. Viajaram no mesmo dia. A viagem curta parecia não ter fim. Poucas palavras ousaram cortar o silêncio.

Na chegada, ela não quis encontros. Foi descansar para, na manhã seguinte, fazer os exames. No hospital, ela fez os procedimentos necessários. Não demorou muito. O médico foi encontrar os meio-irmãos biológicos com um semblante pouco amistoso. Eles perceberam que algo estava errado. E estava mesmo. O médico cortou igual ao seu bisturi.

__Ela não pode ser doadora.
__Como? Por que? perguntaram assombrados.
__Ela não tem problemas renais e leva uma vida normal, mas tem apenas um rim. Nasceu assim e nem deve saber disso.

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